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Livros de Cabeceira e outras histórias

Ler é uma fonte de felicidade!

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29
Nov11

"Cemitério de pianos" de José Luís Peixoto

Charneca em flor

 

Venho, mais uma vez, falar de um livro de um dos melhores escritores portugueses da actualidade, José Luís Peixoto. Este "Cemitério de pianos" foi distinguido com o Prémio Cálamo Otta Mirada, como o melhor romance estrangeiro publicado em Espanha em 2007. Nas próprias palavras do autor (no autógrafo que me deu na Feira do Livro) esta é uma história "onde existe uma família infinita". Realmente este é uma história sobre as relações entre os membros de família, entre marido e mulher, pais e filhos ou entre irmãos. Uma história feita de amor mas também de violência e de momentos de solidão e de saudade. Um espaço que serve de fio condutor é o cemitério dos pianos que, mais tarde ou mais cedo, toca a vida de todas as personagens:

 

"Devagar, a claridade encheu todo o cemitério de pianos. A luz deslizou pelas superfícies de pó (...) havia pianos de todos os géneros que se ervuiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos (...) E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda mais pequeno e sem pés (...) O ar fresco do cemitério de pianos entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda."

 

A escrita de José Luís Peixoto não é, de modo nenhum, linear. Para o acompanhar temos que ter um ritmo de leitura alucinante porque tão depressa estamos no presente como logo encontramos o passado com os olhos postos no futuro. O texto é tão rico que é difícil destacar uma única passagem. Um dos "momentos" tocantes é este poema que surge a dada altura:

 

"na hora de pôr a mesa éramos cinco

 o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

 

 e eu, depois, a minha irmã mais velha

 casou-se, depois, a minha irmã mais nova

 

 casou-se, depois o meu pai morreu, hoje

 na hora de pôr a mesa, somos cinco,

 

 menos a minha irmã mais velha que está

 na casa dela, menos a minha irmã mais

 

 nova que está na casa dela, menos o meu

 pai, menos a minha mãe viúva, cada um

 

 deles é um lugar vazio nessa mesa onde

 como sozinho, mas irão estar sempre aqui

 

 na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco,

 enquanto um de nós estiver vivo, seremos

 sempre cinco."

 

 

Ou então a reflexão de uma das personagens, Francisco Lázaro, enquanto corre na maratona dos Jogos Olimpícos de Estocolmo:

 

"Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o ínicio:na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio (...) enquanto corro, fico parado dentro de mim e espero. Fico finalmente à minha própria mercê"

 

Um autor a não perder de vista.

08
Nov11

"O Anjo Branco", de José Rodrigues dos Santos

Charneca em flor

 

Para começo de conversa, tenho a dizer que embirro com o José Rodrigues dos Santos. Não compreendo como é que ele tem tempo de escrever um romance de 600 e tal páginas todos os anos e ainda conseguir trabalhar na RTP. Para além disso, pareceu-me que os livros "A Formula de Deus" e o "Sétimo Selo" foram publicados para aproveitar a moda das histórias de conspiração de Dan Brown e similares. Também não percebo a necessidade de pegar em temas religiosos e polémicos. No entanto, li uma reportagem na revista "A Volta ao Mundo" sobre este livro e a viagem que José Rodrigues dos Santos fez a Moçambique e fiquei muito curiosa. O livro já estava cá em casa desde o natal passado mas só li agora. Fiquei agradavelmente surpreendida. José Rodrigues dos Santos coloca neste romance, a sua alma, as suas recordações da infância em Moçambique, as lembranças do pai que  foi médico em Moçambique onde fundou o Serviço Médico Aéreo levando os cuidados de saúde às aldeias mais recôndidas de Moçambique.

 

A figura central é o médico José Branco, baseado, como já disse, no pai do próprio autor. Ao longo do romance vamos acompanhando todo o percurso de vida, a infância e adolescência em Penafiel, a vida académica em Coimbra até culminar com o exercício da medicina em Moçambique. Também presente está a Guerra Colonial e a Ditadura, a Pide, o racismo e a falta de liberdade de expressão. A parte que tem mais, intimamente, a ver com a Guerra é um pouco chocante mas faz sentido porque  conduz a um dos mais terríveis segredos da Guerra Colonial. Li, do princípio ao fim, com o mesmo interesse e fiquei cheia de pena quando acabou. Um importante documento ficcional que traz, aos dias de hoje, um pouco da nossa História recente.

 

«A viagem do aeroporto, situado em Chingodzi, até Tete foi relativamente curta, mas demorada. A estrada era de terra  batida avermelhada. Parecia pó de tijolo, varrida por sucessivas nuvens de poeira que as viaturas erguiam a caminho da cidade, como se os pneus fossem tubos de escape. A paisagem apresentava-se plana e seca, dominada por árvores gigantes com enormes raízes e troncos largos e rudes, que davam a impressão de músculos em esforço. As copas estavam despidas, com os ramos nus espetados em todas as direcções; parecia um emaranhado de arames. Os dois Brancos nunca tinham visto coisa igual.

 "Que árvores são estas?", quis saber Mimicas.

O inspector ixou a atenção numa árvore monumental mesmo ao lado da estrada.

"Embondeiros"»

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