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Livros de Cabeceira e outras histórias

Ler é uma fonte de felicidade!

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02
Jun14

Ler, hoje, o "Memorial do Convento"

Charneca em flor

Li, algures, que a Porto Editora vai reeditar os livros de José Saramago com um novo grafismo. Hoje, durante o almoço, comentei este facto e perguntaram-me se alguém ainda comprava os livros dele. Imagino que ainda se compre e muito. E porquê, se o autor já morreu há vários anos? Porque as suas obras, as suas histórias e o seu enquadramento são tão actuais como eram no momento em que foram escritas. Nas últimas semanas tenho andado a ler o brilhante "Memorial do Convento". Já muito deve ter sido escrito sobre este livro mas cada leitor sente a obra à sua maneira, com as suas vivências e com o seu olhar sobre o mundo que o rodeia. Como qualquer outro livro de Saramago é preciso ler o "Memorial" com muita dedicação já que ele escrevia como se estivesse a conversar entre amigos. As várias partes da história encadeiam-se de tal forma que nos dão aquela sensação que o povo descreve com a expressão "as conversas são como as cerejas". Fica sempre a dúvida se o Convento é a personagem principal ou se é apenas cenário para uma das mais belas histórias de amor da literatura portuguesa. Para mim, toda a obra gira à volta dos sonhos e dos desejos dos homens sejam eles quem forem, D. João V, Baltasar, Blimunda ou o Padre Bartolomeu. O desejo de um filho leva o rei a gastar fortunas para construir um convento grandioso como pagamento de uma promessa. O desejo carnal une, de modo especial, Baltasar e Blimunda. E os sonhos do Padre Bartolomeu deram sentido à sua vida mas também o levaram à perdição. Com qual destas personagens é que cada um de nós se pode identificar? Os desejos e os sonhos dão sentido à nossa vida e comandam os nossos passos, ou pelo menos, deveriam comandar. Para além disso é impossível ler as passagens que fazem referência às conversas entre D. João V e o seu guarda-livros sem nos lembrarmos de todas as obras megalómanas que se foram fazendo ao longo do tempo em Portugal. Já vem de longe, os portugueses meterem-se em trabalhos para realizarem obras grandiosas. No entanto, sem um bocadinho dessa imprudência económica, não teríamos descoberto novos mundos, não teríamos o espectacular Palácio e Convento de Mafra ou, muito mais recentemente, não teríamos realizado acontecimentos marcantes como a Expo98 ou Euro2004. Em todos os momentos da História tem, sempre, que existir alguma loucura. Como disse outro grande autor português "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Na minha opinião, José Saramago foi um génio, ou melhor, é um génio porque autores como ele nunca morrem, renascem de cada vez que alguém pega e lê um dos seus livros.

 

"Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era neessária melhor razão."  

 

"Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco todos temos um pouco. São maneiras de nos segurarmos do lado de cá, imagine-se, darem os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um pouco, o mínimo juízo que conservem, salvaguardarem a própria vida..."

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