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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Desafio Arte e Inspiração V2.0, semana #3

The Lady off Shalott, John William Waterhouse

Charneca em flor, 05.10.22

A sua alma estava tão sombria como aquele recanto do rio. A dor que sentia oprimia-lhe o peito e impedia-a de respirar.

Sempre que estava triste, Madalena refugiava-se ali. Olhar para a corrente, acalmava-lhe o coração. A constante renovação da água que passava ajudava-a a acreditar que, fosse qual fosse o seu problema, a solução iria surgir tão clara e límpida como o rio.

Desta vez, nada acalmava Madalena. Não conseguia impedir as lágrimas que lhe molhavam o rosto. Nunca tinha conhecido um tal sofrimento.

A jovem sentira-se diferente desde criança. Embora se sentisse amada pela família, a população da sua aldeia ribeirinha olhava para ela com desconfiança. Os seus cabelos ruivos causavam estranheza e receio por serem tão pouco frequentes. Os aldeões associavam a cor dos seus cabelos ao fogo do inferno, acreditavam que Madalena transportava o mal no seu coração. Na verdade, a jovem nunca se tinha apercebido muito dessa animosidade para com ela porque a família sempre a tinha protegido.

A razão destes sentimentos incompreensíveis, iniciados logo quando ela nascera, tinha a sua origem num passado distante. Há muitas dezenas de anos, existira outra ruiva na família, Helena de seu nome. O quadro que a retratava estava pendurado na biblioteca da quinta.

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A antepassada de Madalena sofria de distúrbios psiquiátricos graves, num tempo em que essas situações eram justificadas por motivos muito pouco científicos. No caso de Helena fora a própria família a alimentar os rumores de que ela estava possuída pelo demónio. As tentativas de exorcismo foram constantes mas todos os sacerdotes saíam derrotados de tais sessões. O seu estado psicológico foi-se agravando até ela se ter suicidado. Ou pelo menos fora isso que se pensara já que o seu corpo nunca fora encontrado. Helena também gostava muito de se isolar junto ao rio, perto do ancoradouro. Nunca se teve a certeza do que aconteceu no dia em que ela desapareceu. O primeiro sinal de alarme fora o fogo. As árvores nas margens do rio tinham-se incendiado sem se perceber como. A população da aldeia e os empregados da quinta conseguiram controlar o fogo antes que chegasse às casas mas grande parte das colheitas tinha-se perdido, irremediavelmente. Só depois se deu pela ausência de Helena. O pequeno barco, habitualmente ancorado, fora encontrado no meio do rio sem ninguém lá dentro por isso concluíra-se que ela se tinha lançado ao rio para se afogar depois de provocar o incêndio . Os aldeões acreditavam que o seu fantasma nunca abandonara a margem do rio e afirmavam ouvir o seu choro aflitivo em dias de nevoeiro tão sufocante como o fumo de um fogo ardente.

Quando se soubera que voltara a nascer uma menina ruiva naquela família, depressa correu a notícia de que Madalena era uma reencarnação de Helena. Os seus entes queridos não alimentavam estas superstições mas tinham muito receio da maldade das pessoas por isso evitavam que ela tivesse contacto com as pessoas da aldeia. Madalena regressara à aldeia para as férias de Verão depois de mais um ano lectivo no colégio. Quando o automóvel passou próximo da aldeia, Madalena percebeu que havia mais movimento e animação do que era habitual. A aldeia estava em festa honrando a santa padroeira. A jovem ficou curiosa. Não fazia ideia de como seria tal festividade. A brisa de Verão transportava o som da música até à sua janela. Nunca percebera porque é que os seus pais não queriam que ela fosse à aldeia. A curiosidade superou o respeito às determinações dos pais e caminhou até à aldeia. Nada a preparara para o horror que leu nos rostos de quem a olhava. Ela passava, as pessoas escondiam as crianças e corriam a fechar-se em casa. Um rumor de vozes foi aumentando até ela perceber que as pessoas diziam: “bruxa", “possuída”, “fora daqui", “desaparece", “não te queremos aqui". Alguém atirou a primeira pedra e todos se seguiram. Madalena foi apedrejada e escorraçada da aldeia. Não compreendia o que se passava mas correu o mais que pode para fugir dali. Percebeu que as pessoas tinham medo dela e sentiu-se mais sozinha do que nunca.

Nem a beira do rio a conseguiu acalmar. Olhou para o pequeno barco no ancoradouro e teve vontade de fazer como a sua antepassada Helena, lançar-se ao rio e desaparecer.

 

Este texto foi escrito no âmbito do Desafio de escrita Desafio de Escrita Desafio Arte e Inspiração V2.0 lançado pela querida e inexcedível Fátima Bento e no qual participam, para além da Fátima e desta que vos escreve, os seguintes brilhantes autores: Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas,

 

Chamada Não Atendida, Bárbara Tinoco

Charneca em flor, 03.10.22

A rejeição foi o melhor que podia ter acontecido à jovem Bárbara Tinoco em 2018 quando tentou a sua sorte no The Voice. Desde aí descobriu-se uma espectacular cantora e compositora responsável por algumas das mais belas canções dos últimos anos. É o caso do seu novo single, "Chamada Não Atendida", com uma letra que fala daquilo que o amor não deve ser. O vídeo termina de forma um pouco perturbadora, susceptível de inúmeras interpretações.

Boa semana.

Um ponto de interrogação é um coração partido, Sofia Lundberg

Charneca em flor, 01.10.22

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Embora já tenha começado o Outono, ainda me falta partilhar o último livro das minhas férias. Este "Um ponto de interrogação é um coração partido" chegou cá a casa depois de o ter ganho, há mais de um ano, num sorteio de uma página portuguesa de Bookstragrammers*. Quando estava a organizar a bagagem para as férias, achei que era uma boa opção para essa ocasião. Sofia Lundberg é uma escritora sueca de quem nunca tinha ouvido falar. Tenho que confessar que, no que diz respeito à literatura nórdica, só conheço os policiais. Durante muito tempo foram o meu guilty pleasure literário. Curiosamente, este ano ainda não tenha lido nenhum livro deste género mas a obra de que falo hoje foi o 2° romance nórdico que li nestas férias. O outro foi este.

Esta autora é jornalista, foi editora de revistas e este é o seu segundo romance publicado. A personagem central é Elin, uma fotógrafa de sucesso que vive e trabalha em Nova Iorque mas que escondeu todo o seu passado das pessoas que lhe são mais próximas.

O livro divide-se em 2 partes. No início a acção vai-se alternando entre a actualidade, situada em Nova Iorque, e a infância de Elin, numa aldeia situada numa ilha sueca.  As recordações são despoletadas por uma mensagem que lhe foi enviada pelo seu amigo de infância. Ao deixar que as memórias, escondidas durante tanto tempo, venham ao de cima, Elin começa a prejudicar o seu trabalho e a sua vida familiar sofre uma reviravolta. Na segunda parte, Elin regressa ao seu país natal para se reconciliar com o seu passado.

Sofia Lundberg escreve de uma forma cativante, consegue manter o mistério durante uma grande parte do romance estimulando o interesse do leitor em perceber o que levou Elin a esconder o seu passado. Em certas passagens, as atitudes de Elin irritaram-me um pouco. Dava vontade de entrar no livro e mostrar-lhe que as atitudes eram injustificadas e incompreensíveis. Claro que, no fim, entende-se que toda a história de vida de Elin contribuíram para a sua maneira de ser. Gostei muito da personagem Alice, a filha de Elin. O final não foi bem aquilo que eu imaginava. 

"Um ponto de interrogação é um coração partido", apesar do mistério também estar presente, é uma história sobre a família, o amor, a importância da comunicação entre as pessoas que se amam e do valor do perdão. Este livro foi uma agradável experiência de leitura e um excelente livro para os últimos dias de férias.


"Manuseia as cartas, amontoando os envelopes sem os abrir, até que encontra um que lhe chama a atenção. O carimbo postal é de Visby, o selo sueco. O seu nome fora manuscrito em letras maiúsculas, cuidadosamente desenhado em tinta azul. Abre-o e desdobra a folha de papel que contém. É uma espécie de mapa celeste, na qual se encontra impresso o seu nome, numa letra grande e enfeitada.
Sustém a respira6cao, lendo as palavras por cima, em sueco.

Neste dia, uma estrela foi chamada Elin.

Lê uma e outra vez a frase numa língua desconhecida. Um longo fio de coordenadas indica a sua localização precisa nos céus.

Uma estrela que alguém comprou para ela. A sua própria estrela, que agora ostenta o seu nome. Tem de ser de... será que terá sido... ele quem a mandou? Põe um travão aos seus próprios pensamentos, não quer sequer murmurar aquele nome no silêncio da sua mente. Mas consegue imaginar-lhe sem qualquer dificuldade o rosto, o sorriso também.

Sente o coração descompassado no peito. Afasta o mapa celeste. Fixa-o. De seguida, levanta-se e corre para a rua para contempla o céu, mas só consegue ver uma massa incaracterística azul-escura acima dos edifícios. Nunca está mesmo escuro em Nova lorque, nunca o suficiente para se observar a labiríntica confusão de estrelas. Os enormes edifícios de Manhattan quase tocam o céu, mas nas ruas ele parece distante. Portanto, entra de novo."

 

*páginas de Instagram que se dedicam, quase exclusivamente, a conteúdos sobre livros. Também existe o Book Tok que acontece no Tik Tok. O trabalho de divulgação de livros destas páginas tem adquirido enorme importância nos últimos anos levando a parcerias entre os autores e as editoras ou as grandes empresas de comercialização de livros. A ponto de já ter visto livros onde as recomendações de Bookstragrammers ou Booktokers já serem mencionadas nas capas dos livros.

Desafio Arte e Inspiração V2.0, semana #2

Fado, José Malhoa

Charneca em flor, 29.09.22

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José Arnaldo era uma figura mítica de Alfama. Com um bigode trocista e andar gingão, percorria o bairro várias vezes ao dia. Ninguém sabia bem como ele se governava porque ninguém o via trabalhar. Cada vez que punha a mão no bolso, saía de lá um grosso maço de notas com que distribuía rodadas por aqueles que se arrastavam pelos bancos corridos das tabernas. Ao serão, era mestre na guitarra portuguesa, os mais talentosos fadistas de Alfama não o dispensavam. O sorriso malandro conquistava inúmeros corações femininos. Quando ele passava, assobiando, era vê-las a correr para as janelas. Ah, quantos corações partidos mas ele nunca caía nessa armadilha. Ele queria continuar livre como os passarinhos nos beirais dos telhados.

Naquela manhã, o seu coração palpitou acelerado. Na sua frente estava a mulher mais bela que ele alguma vez vira. José Arnaldo vislumbrou-a quando saía de um belo automóvel estacionado à entrada de uma rua estreita. A mulher caminhava de braço dado com um figurão enfatuado, qual pavão em rito de acasalamento. Os dois desconhecidos encaminhavam-se para uma daa casas secundados por um pobre motorista carregado de malas.

Sorrindo, tirou o chapéu e cumprimentou o casal. O homem correspondeu embora com desdém e ela sorriu timidamente, baixando a cabeça.

Os dias foram passando e os passos de José Arnaldo conduziam-no àquela rua estreita. Ele bem assobiava e cantava, apesar de estar longe de ser um rouxinol. Todas as janelas se abriam menos aquela que ele mais desejava. José Arnaldo descobrira, pela vizinha do lado, que ela se chamava Maria das Dores e estava cada vez mais obcecado a misteriosa mulher. A vizinhança partilhava da sua curiosidade e já se tinha apurado que o figurão com quem ela chegara era do governo. Através da senhoria, soubera-se que ele tinha pago 6 meses de renda adiantados. José Arnaldo depressa se apercebeu da rotina daquela casa. Maria das Dores saía ao sábado à tarde para ir lanchar à leitaria da praça e ao domingo para ir à missa. Os víveres eram-lhe entregues em casa pelo moço de recados da mercearia. José Arnaldo já tinha conversado com o miúdo que lhe contara que ela cantava muito bem. Ouvia-a cantar antes de bater à porta. O homem que a sustentava aparecia sempre nos mesmos dias da semana, ao fim da tarde e ficava até à meia-noite.

José Arnaldo engendrou um plano para a fazer aparecer. A ideia surgira-lhe quando ouviu a vizinha do lado contar que a jovem cantava o fado como ninguém.

- Como é que sabe isso, Sra. Josefa? A sua vizinha nunca se deixa ver. – perguntou José Arnaldo.

- Ouço-a do meu quintal porque as janelas das traseiras estão sempre abertas de par em par. E olha que ela canta melhor que muitas cantadeiras com quem tu tocas, meu rapaz.

Numa noite em que Maria das Dores não recebia o “amigo", José Arnaldo, munido da sua guitarra portuguesa, plantou-se debaixo da janela e cantou o fado, com mais emoção do que talento. Todos os moradores se assomaram às portas e janelas e apreciaram o espectáculo. O vulto dela via-se através das cortinas.  O apelo do trinado da guitarra foi mais forte e ela apareceu, cantando aquele fado com ele, e depois outro e mais outro. Toda a noite se tocou e cantou na rua mais estreita de Alfama. Os corações dos dois inflamavam-se de paixão e eles ficaram presos pelo olhar. A magia só se quebrou quando um vizinho rabugento lembrou que o dia seguinte era de trabalho: “ Há aqui quem queira dormir, seus malandros.”. Todos se recolheram. Maria das Dores abriu a porta e deixou José Arnaldo entrar. A partir daquela noite, o marialva ficou preso a uma só mulher.

Nos dias em que o figurão não aparecia, era José Arnaldo que aquecia a cama de Maria das Dores. Durante meses, tudo correu de feição mas as desconfianças foram-se instalando no ricaço. Num dia em que não era esperado, apareceu e apanhou os dois amantes nos lençóis que ele mesmo comprara. Seguiu-se uma cena de faca e alguidar com José Arnaldo e Maria das Dores a serem escorraçados para o meio da rua quase nus. Nada que surpreendesse os moradores do bairro.

Traidor que traí traidor tem cem anos de perdão. O figurão já tinha mulher mas prometera casamento a Maria das Dores para a convencer a abandonar a aldeia. No bairro todos gostavam de José Arnaldo. Os moradores humildes daquelas ruas tinham-se apaixonado pela voz de Maria das Dores e pela sua história. Ela foi aceite como se sempre tivesse sido do bairro. Em pouco tempo, tornou-se na cantadeira mais apreciada da cidade e mesmo do país. A casa de fados enchia-se todas as noites. Ela nunca mais voltou para a aldeia e eles viveram a paixão mais incendiária que aquele bairro alguma vez conheceu.

 

Com algumas horas de atraso mas cá está o texto escrito no âmbito do Desafio de escrita Desafio de Escrita Desafio Arte e Inspiração V2.0 lançado pela querida e inexcedível Fátima Bento e no qual participam, para além da Fátima e desta que vos escreve, os seguintes brilhantes autores: Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas,

Vai lá, Carolina Deslandes

Charneca em flor, 26.09.22

Carolina Deslandes é uma das melhores cantautoras da actualidade. O seu disco "Casa" em que cantava o "amor para a vida toda" foi um caso sério de sucesso. Carolina Deslandes nunca deixou de ser irreverente e transparente sobre a sua vida pessoal. Aliás, muito daquilo que canta é influenciado por aquilo que vive mas também por aquilo que observa e analisa. 

As suas músicas mais recentes já não contam amores felizes porque a vida é mesmo assim. Carolina Deslandes canta o amor como ninguém mas também é mestre em cantar o desamor, infelicidade e a dor.

"Vai lá" é o seu mais recente single. Maravilhosa

 

 

Um Homem chamado Ove, Fredrik Backman

Charneca em flor, 24.09.22

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Já há algum tempo que eu tinha ouvido falar deste livro mas aconteceu lê-lo durante o mês de Agosto, na recta final das minhas férias.

A primeira pergunta que esta leitura me colocou foi: "Mas porque é que não o li mais cedo?"

"Um Homem chamado Ove" é uma história divertida, irónica, encantadora e muito comovente. A figura central é Ove, um idoso rabujento, que só quer que o deixem em paz enquanto realiza uma tarefa muito específica e preponderante para a sua vida. Só que os problemas da vizinhança vão-lhe entrando pela porta atrapalhando os seus planos.

A qualidade da escrita bem como a história em si encantaram-me. E só isto já era suficiente para este livro ficar bem colocado como uma das minhas melhores leituras de 2022 mas o autor consegue ir para além disso. Fredrik Backman conduz o nosso pensamento para a importância do envelhecimento activo, para a solidao dos idosos e para a injustiça que as empresas cometem quando colocam de parte trabalhadores válidos só porque são mais velhos. A sua maravilhosa personagem central, o Ove, mostra-nos que, muitas vezes, debaixo de uma aparência mal disposta e rabujenta se pode esconder um passado sofrido que conduziu a um presente amargo mas também um grande coração.

Já há muito que não acabava de ler um livro com lágrimas nos olhos. Só alguém com uma pedra em vez de um coração é que não se comoverá com Ove e a sua maravilhosa história.

"Faltavam cinco para as seis da manhã quando Ove e o gato se encontraram pela primeira vez. O gato de imediato sentiu uma antipatia imensa por Ove. E o sentimento não poderia ser mais recíproco.

Ove tinha-se levantado dez minutos antes, como era seu costume . Não percebia como é que havia pessoas que dormiam de mais e depois deitavam as culpas ao 《o despertador que não tocou》. Ove nunca tinha tido um despertador em toda a sua vida. Acordava às quinze para as seis e levantava-se prontamente.

Todas as manhãs, durante as quase quatro décadas que viviam nesta casa, Ove tinha ligado a cafeteira eléctrica, usando a mesmíssima quantidade de café  de todas as outras manhãs, e de seguida bebia uma caneca na companhia da mulher. Uma dose para cada caneca , e uma dose extra para a jarra da cafeteira - nem mais nem menos. As pessoas já nem isso sabiam fazer, preparar um cafe decente. Da mesma forma que hoje em dia já ninguém sabia escrever à mão. Porque agora tudo se resumia a computadores e máquinas de café expresso. E o que iria ser do mundo se as pessoas já nem sequer sabiam escrever à mão ou preparar uma chávena de café?"

 

Desafio Arte e Inspiração V2.0, semana #2

Young Mother Sewing, Mary Cassatt

Charneca em flor, 21.09.22

A mãe, de quem Francisca sempre fora muito próxima, não achara graça nenhuma à sua decisão de ir sozinha naquela viagem a Nova Iorque mas não a conseguira demover. Já a sua idosa, mas lúcida, avó tinha-a incentivado. Apesar dos seus 98 anos, a avó Maria Francisca conservava o brilho no olhar e o espírito aventureiro pelo qual norteara a sua vida. Maria Francisca vivia cada conquista da neta como se fosse sua. Afinal, antes de casar e ser mãe, também fizera uma viagem solitária até França da qual só falava de forma muito superficial guardando, religiosamente, os pormenores para si.

Francisca estava delirante por estar ali. Afinal, Nova Iorque era uma cidade mágica. Percorrer aquelas ruas proporcionava uma estranha sensação. Ao virar de cada esquina, mais do que descobrir uma nova cidade, recordava-se tudo aquilo que já vivemos em frente a uma tela de cinema ou a um ecrã de televisão.

Naquela tarde, Francisca deambulava pelas salas do Metropolitan Museau of Art. Ela estava genuinamente impressionada com a colecção do museu. Nem queria acreditar que estava tão perto daqueles quadros. De repente, imobilizou-se em frente a uma obra ternurenta e encantadora. Mas não foi a beleza do quadro que a espantou. Francisca reconheceu o rosto infantil que a fitava. Era o seu próprio rosto quando tinha 5 ou 6 anos. Só que ela não se lembrava de ter posado para um quadro e a outra figura feminina também não era ninguém que ela conhecesse. De qualquer forma, a obra datava de 1900 por isso não podia ser ela. Afinal, só nascera em 1989. Mesmo a sua avó, de 98 anos, nascera no início dos anos 20. Quem seria aquela criança? A imagem perturbou Francisca de tal maneira que ela deu a visita por terminada mas não saiu de lá sem comprar uma reprodução do quadro, “Young Mother Sewing".

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Nos dias seguintes , Francisca empreendeu numa investigação sobre aquele quadro descobrindo que a autora, a americana Mary Cassatt, vivera grande parte da sua vida em França onde desenvolveu a sua arte. A maioria da sua obra debruçou-se, precisamente, sobre as relações entre mães e filhos. O “Young Mother Sewing" foi executado em França por isso Francisca presumia que a mulher e a criança retratadas fossem francesas.

No regresso, Francisca foi visitar a mãe e a avó levando a reprodução debaixo do braço. Depois de muitos beijos e abraços, ela entregou o embrulho à avó:

- Olha, vó, vê só o que encontrei num museu.

A jovem não estava preparada para a emoção que viu surgir no rosto da sua avó quando abriu o embrulho. As lágrimas percorriam o seu rosto enrugado enquanto chorava compulsivamente. Tanto Francisca como a mãe ficaram aflitas sem perceber o que se passava. Finalmente, a avó lá se foi acalmando e perguntou:

- Onde encontraste isto, minha querida?

Francisca contou tudo desde o momento em que se reconheceu naquele quadro até ao que tinha apurado sobre as circunstâncias que o rodeavam:

- Fiquei muito curiosa quando percebi que esta criança era igualzinha a mim. Como é possível que uma criança francesa, que nasceu no séc. XIX, seja tão parecida comigo?

A avó sorriu tristemente:

- Eu sei quem é essa criança.

Perante os semblantes estupefactos de Francisca e da mãe, a avó afirmou:

- É a minha mãe, Françoise.

- Como? A tua mãe era a avó Celestina. Não era?! – Carlota, a mãe de Francisca, estava muito confusa.

- A avó Celestina criou-me e amou-me como uma filha mas a minha verdadeira mãe era francesa. O meu pai conheceu-a quando esteve em França na Grande Guerra. Ele ficou muito ferido na Batalha de La Lys e foi acolhido pela família de Françoise. Os dois acabaram por se apaixonar e casar. O meu pai trouxe Françoise para cá quando regressou à aldeia. Ela ficou grávida e eu nasci. Só que a minha mãe Françoise nunca se adaptou a Portugal e acabou por nos abandonar, a mim e ao meu pai. Anos mais tarde, ele conseguiu a anulação do casamento para poder desposar a minha mãe Celestina. Eu sempre soube que ela não era a minha verdadeira mãe. Por mais amor que a Celestina me desse, eu sentia sempre um vazio. Apesar do meu pai não concordar, eu comecei a trabalhar muito cedo e juntei todo o dinheiro que consegui. Um dia resolvi partir para França, enfrentando muitas dificuldades, para a ir conhecer.

A avó parou para ganhar fôlego. Carlota e Francisca olhavam-na com ansiedade.

- O meu pai tinha guardado algumas informações sobre Françoise e a família. Sem ele dar conta, eu levei tudo isso comigo e consegui descobrir a minha mãe. Não foi um encontro fácil, afinal ela tinha-me abandonado mas eu acabei por compreender os seus motivos. Quando me vim embora, ela deu-me um esboço desse quadro que lhe tinha sido oferecido pela autora como forma de agradecimento pela paciência que tivera para posar para ela, ainda criança. Tu sempre eras muito parecida com ela, Francisca.

Naquele momento, as lágrimas bailavam no rosto das 3 mulheres.

- Mas porque é que nunca nos contou nada? – indagou Carlota.

- Primeiro que tudo, e enquanto foram vivos, por respeito ao meu pai e à minha mãe Celestina. Depois por amor e respeito ao teu pai, Carlota.

- Ao meu pai? Mas o que é que ele tem a ver com esta história?

Maria Francisca olhou bem no fundo dos olhos da filha.

- Porque eu trouxe muito mais dessa viagem a França do que as recordações da minha mãe biológica.

 

Texto escrito no âmbito do Desafio de escrita Desafio de Escrita Desafio Arte e Inspiração V2.0 lançado pela querida e inexcedível Fátima Bento e no qual participam, para além da Fátima e desta que vos escreve, os seguintes brilhantes autores: Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas,

 

Guerra Nuclear, Marisa Liz

Charneca em flor, 19.09.22

Marisa Liz tinha quase 2 anos quando António Variações faleceu portanto não se lembrará de o ver cantar. Não deixa de ser surpreendente ouvir, agora, Marisa Liz a dar voz a um tema inédito do cantor cuja mensagem é, estranhamente, actual.

Segundo parece a iniciativa de dar a conhecer este tema partiu da própria família do cantor como se pode ler aqui:

"Tendo conhecimento da existência de um tema inédito de António Variações que abordava a temática da ameaça da guerra nuclear, e tendo em conta o contexto atual, a família de António Variações e os seus publishers, Rossio Music, decidiram divulgar este tema, alertando para o "delírio nuclear", sendo ele uma ameaça (verdadeira ou não) cada vez mais presente no dia-a-dia."

Fonte aqui

A interpretação de Marisa Liz está espectacular e há uma surpresa perto do fim

 

Espero que gostem.

Boa semana.

 

 

Desafio Arte e Inspiração V2.0, semana #1

Persistência da Memória

Charneca em flor, 14.09.22

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Persistência da Memória, Salvador Dalí

 

 

Tique, taque, tique, taque
Eterno movimento marcando o tempo
Como do coração, o batimento
Tempo, o que é isso?
Dias, horas, minutos, segundos?
Ou é algo mais, será o tempo?
A memória de momentos felizes
Persiste mais do que, apenas, um dia.
Igualmente, um dia trágico
Por mais que o tentemos
Apagar, ele persiste para sempre.
Quanto tempo me falta, ainda, viver?
Será suficiente para tudo o que quero fazer?
Livros por ler, sítios para conhecer,
Pessoas para amar, perdão para pedir
Tanto por realizar antes de desaparecer
Pouco faltará para o mundo acabar
Envolto numa nuvem de fogo ardente
Memórias perdidas naquele mar
E a Terra transfigurada neste cenário demente.

 

Poema escrito no âmbito do Desafio de escrita Desafio de Escrita Desafio Arte e Inspiração V2.0 lançado pela querida e inexcedível Fátima Bento e no qual participam, para além da Fátima e desta que vos escreve, os seguintes brilhantes autores:

 Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina AveiroImsilva

Restantes participantes mencionados no post seguinte.