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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Palavra do Ano 2020

Charneca em flor, 01.12.20

Este ano, a Porto Editora volta a lançar a iniciativa Palavra do Ano. Esta iniciativa "tem como principal objetivo sublinhar a riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa, património vivo e precioso de todos os que nela se expressam, acentuando, assim, a importância das palavras e dos seus significados na produção individual e social dos sentidos com que vamos interpretando e construindo a própria vida."

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Qualquer um de nós pode participar na escolha da palavra que marcou o ano de 2020 votando aqui.

Eu já participei.

 

Mágoas do passado

Charneca em flor, 28.11.20

Mais um capítulo da história da "minha" Luísa

"A noite ia avançada mas Luísa não conseguia dormir. Tentara ler mas não se estava a conseguir concentrar. Há pouco ouvira a porta da rua fechar-se e, pela janela, vira Filipe sair. Não sabia se devia continuar as férias ou antecipar o regresso a casa. Afinal, pensara estar a salvo ali na pousada mas os seus anfitriões pareciam ser muito próximos de Filipe. Não lhe apetecia estar sempre a tropeçar nele. Não estava preparada para lidar com as sensações que ele lhe provocava.
A jovem pensou em descer e ir até à cozinha da pousada preparar um chá para a ajudar a adormecer. Ao aproximar-se da cozinha reparou que a luz estava acesa. Maria tinha tido a mesma ideia:

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- Então, Luísa. Também não conseguia dormir?! Eu estou a beber um chá de camomila. Quer uma chávena?
- Pode ser, obrigada.
- Presumo que o desconhecido que encontrou na cascata foi o nosso Filipe.
- Sim, foi ele. Notou-se muito que fiquei atrapalhada?
- Quase nada – disse Maria com um sorriso rasgado.
- É da vossa família?
- É como se fosse. Quando ele nasceu, os pais eram muito novos e ele foi criado aqui na aldeia, pela avó nos primeiros anos de vida enquanto os pais orientavam a vida lá em Lisboa. O tio dele fazia parte do nosso grupo de amigos. Aliás, é o melhor amigo do Fernando a ponto de ser nosso sócio aqui na pousada. Nós éramos adolescentes mas adorávamos o Filipe. Sentíamo-nos todos como se fossemos tios dele. Ele é um óptimo rapaz. Era muito ligado à avó, teve um desgosto enorme quando ela faleceu. Viveu com ela até aos 12 anos e depois foi viver com os pais. Mas assim que começavam as férias escolares, vinha logo para cá. Gosta muito de cá estar. É um artista, desenha maravilhosamente. Temos alguns trabalhos dele aqui nas nossas paredes. E foi ele que fez as fotografias da pousada que estão na nossa página electrónica.
- Ele comentou que estão a restaurar a casa da avó.
- Sim, é verdade. Ele não descansou enquanto os pais não ficaram com a casa. Sabe, ele pediu-nos o seu número de telefone mas, como é óbvio, nós não lhe demos. Temos que respeitar a privacidade dos nossos hóspedes mas, se quer que lhe diga, eu ficava muito feliz se vocês se conhecessem melhor. Porque não lhe dá uma oportunidade, Luísa?!
- Sabe, Maria, apesar de a conhecer há tão pouco tempo, sinto que posso confiar em si. Eu vim aqui para a sua aldeia para fugir de uma grande desilusão que sofri. Acho que vou ter muita dificuldade em confiar num homem mesmo que seja só como amigo."

Reencontro

Charneca em flor, 22.11.20

A pedido de várias famílias ,  resolvi dar continuidade à história do "amor ao primeiro banho" e da "cascata do  bosque"

Reencontro

Luísa estava deitada sobre a cama mas não dormia. Sonhava acordada com o rapaz que encontrara na cascata. Ela tinha ido à procura de magia e encontrou-a através da chegada inesperada de Filipe. Ele perturbara a sua tão desejada tranquilidade.
Ela fizera aquelas férias para curar a alma desfeita pelo cansaço do trabalho mas também para remendar o coração partido. Quando mais precisara de apoio, o seu namorado de sempre tinha sido uma desilusão e Luísa percebera que era urgente mudar a sua vida. Aquela viagem destinara-se a fazer o luto da sua antiga vida.
No corredor, ouviram-se passos e alguém bateu à porta. Era Maria, a sua anfitriã.
- Hoje não vai sair para jantar?
- Não estava a pensar nisso. Não estou com muita fome – Na verdade, Luísa não queria arriscar em encontrar aquela mulher arrogante que acompanhava Filipe.
- O meu marido fez a sua especialidade, arroz de pato. Ele faz sempre imenso. Quer jantar connosco? – Maria percebera que a sua hóspede tinha chegado do passeio muito perturbada. Simpatizava com a jovem e queria ajudá-la.
- Bom, eu não estou com muito apetite mas posso dar uma ajuda.
As 2 mulheres desceram até à sala de jantar. Durante a semana, a pousada não tinha muitos hóspedes por isso estabelecera-se uma relação muito próxima entre os anfitriões e a jovem hóspede que chegara sozinha.
O jantar foi decorrendo de forma agradável, o arroz de pato estava mesmo delicioso. Até que Maria não resistiu em perguntar:
- Então, Luísa, gostou da cascata? Ainda não tive oportunidade de te perguntar se tinha corrido bem.
Luísa sentiu que podia confiar o que ia no seu coração e acabou por desabafar com Maria e Fernando contando a sua aventura até à chegada intempestiva daquela mulher.
- A mulher, depois daquele grito, começou a insultar-me com uma linguagem tão grosseira que eu nem vou repetir. Assim, soltei-me dos braços dele e saí de lá a correr. Não sei se era mulher dele ou namorada. Obviamente que, se fosse ao contrário, eu também não gostaria de ver o meu marido com outra mulher nos braços mas nunca seria capaz de dizer aquele chorrilho de asneiras.
- Quem seriam? Como é que dizes que se chamava o rapaz? – perguntou Fernando. Nisto tocam à campainha.
O anfitrião levantou-se para ver quem era. Fernando deu uma gargalhada e falou com boa disposição:
- Olha, és tu, companheiro. Ainda não nos tinhas vindo visitar. Estás sozinho? Parece-me que te tinha visto passar com uma jovem. Vi logo que era por isso que não tinhas vindo ver os teus amigos. Estavas bem acompanhado.
A outra pessoa respondeu e a voz pareceu estranhamente familiar a Luísa.
- Não era assim tão boa companhia. Fui levá-la à vila para ela apanhar o último comboio para Lisboa.
- Entra, estamos a acabar de jantar. Vem conhecer a nossa hóspede.
Fernando voltou à sala de jantar com o visitante. Nesse instante, Luísa sentiu o seu rosto a arder. Maria percebeu logo que quem acabara de chegar era o rapaz que provocara tão grande perturbação à sua hóspede.
Filipe também corou, embora de forma mais discreta:
- Olá. Estás aqui? – disse o jovem surpreendido.
- Olá- respondeu Luísa, timidamente.
- Conhecem-se?!
- Já nos cruzámos por aí, sim.
Fernando fez a relação entre a história de Luísa e a chegada de Filipe. Maria lançou-lhe um expressivo olhar que calou o comentário que já nascia na sua cabeça.
- Obrigada pelo jantar. Estava óptimo. Vou deixar-vos a conversar com o vosso amigo. Até amanhã – Luísa fugiu novamente deixando Filipe sem palavras.
- Então, Filipe, conta lá porque é que a tua amiga se foi embora. E já agora explica lá de onde conheces a nossa hóspede.

Se calhar, ainda vou ter que escrever mais capítulos .

 

La Cucina, Lily Prior

Charneca em flor, 20.11.20

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Este livro também foi escolhido por causa do desafio lançado pela Rita da Nova para o mês de Novembro tal como o anterior. Também se passa na Itália o que é logo um excelente atractivo para mim que adoro esse país. Como o próprio nome do romance indicia, a comida é preponderante no desenvolvimento da história. La Cucina começa numa quinta na zona leste da Sicília perto da encosta do vulcão Etna. A personagem principal é Rosa Fiore que tem uma intensa, quase visceral, relação com a comida. É nela que se refugia para afogar desgostos e mágoas ao longo da vida. Mas é também através da comida que descobre a sua natureza feminina e a sua sensualidade. É um livro quente, denso e saboroso com personagens estranhas e peculiares. A história é, muitas vezes, inesperada e surpreendente. Na contracapa, Joanne Harris, autora do livro Chocolate, compara La Cucina ao livro Como água para chocolate de Laura Esquível. E isso faz imenso sentido já que são dois livros com contextos muito semelhantes. Em suma, gostei muito e recomendo.

"A comida é uma coisa tão sensual, comer é um prazer tão sensual. Comer boa comida, signorina, está próximo de fazer amor. Deve ser desfrutado, não apressado. Devemos abandonar-nos à sua sensualidade, signorina. Agora vou tirar mais um pedaço do seu maravilhoso timballo. Sinto o seu calor entre os meus dedos; sinto a suculência do recheio, o glorioso tostado da massa. Coloco-o lentamente, amorosamente na língua. Introduzo-o na boca e sinto frisson quando as minhas papilas gustativas começam a funcionar. Lambo os dedos para desfrutar cada bocadinho. Os meus dedos roçam a minha língua, carne contra carne. Agora, signorina, quero que experimente."

Herdeiros de Saramago

Charneca em flor, 16.11.20

Espero não chegar muito tarde a casa, hoje. Pelas 22h30m quero estar à frente da televisão para assistir à série documental, "Herdeiros de Saramago". A partir de uma ideia de Carlos Vaz Marques e realizada por Graça Castanheira, a série pretende fazer um retrato mais intimista dos 11 galardoados com o Prémio Saramago. No primeiro episódio vamos acompanhar Paulo José Miranda, que foi o primeiro galardoado em 1999, e José Luís Peixoto, o mais jovem a ser premiado em 2001. 

Nos próximos episódios poderemos conhecer melhor Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Afonso Reis Cabral, Julián Fuks, Bruno Vieira Amaral, Ondjaki e Andréa del Fuego.

Não conheço todos estes autores. Dos que já li, José Luís Peixoto é aquele que conheço melhor. Aliás, sou grande, grande fã do escritor mas também da pessoa. De Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe só li "Jerusalém" e "A desumanização", respectivamente. A obra de João Tordo conheço de forma mais extensa, principalmente, os primeiros livros e também gosto muito de Afonso Reis Cabral embora este autor ainda seja muito jovem e não tenha, ainda, muitos livros editados mas penso que continuará a dar que falar.

Quem sabe, esta série seja o gatilho para ir à procura dos livros dos outros premiados?

Passa palavra #amor

Charneca em flor, 12.11.20

A pedido de muitas famílias, decidi continuar a história da passada semana. Felizmente a palavra sugerida pela Mula e pela Mel para facilitou bastante a tarefa.

 

Amor ao primeiro banho

A jovem baixou-se, na tentativa de se esconder.
- Importas-te de olhar para outro lado para eu poder sair?
- Peço desculpa se te assustei. Não era essa a minha atenção. Só que fiquei extasiado quando te vi. Pensei que estava a sonhar. Eu viro-me de costas para que possas sair.
E, sem demora mas a contragosto, o jovem volta-se para outro lado.
- Já podes sair.
A jovem, desconfiada, saiu de dentro da pequena lagoa formada pela cascata. Correu até à mochila onde tinha uma toalha. Como é que era possível ter-se esquecido de vestir o bikini de manhã?!
O jovem, ainda atordoado com aquela visão, não resistiu a tentar encetar uma conversa.
- Não estava à espera de encontrar aqui ninguém. Já te tenho visto na aldeia mas não és de cá, pois não?
Ela não sabia se era sensato alimentar a conversa mas também já reparara nele e achara-o muito atraente.
- Não, estou de férias. E tu?
- Não vivo cá mas a minha família é desta aldeia. A minha avó faleceu há uns meses e estamos a restaurar a casa dela. Como eu posso trabalhar em qualquer sítio, venho cá de vez em quando para supervisionar as obras.
Enquanto ele falava, a jovem acabou de se vestir.
- Se quiser, já te podes voltar.
O jovem voltou-se, sorrindo. A jovem estremeceu com aquele sorriso. Ele era mesmo muito atraente. Tinha um olhar límpido e sincero
- Então, olá. Se calhar, posso apresentar-me. Eu sou o Filipe. E tu?
- Realmente, já me viste nua e nem sabes o meu nome – disse ela com uma gargalhada. – Eu chamo-me Luísa.
Filipe ficou surpreendido com a atitude jovial e divertida de Luísa. Nem queria acreditar, de certeza que estava a sonhar e que ia acordar, a qualquer momento.
Luísa encaminhou-se para Filipe mas, quando estava muito perto, desequilibrou-se. Filipe esticou-se e conseguiu agarrá-la no último minuto.
Quando se viu nos braços dele, Luísa sentiu algo que nunca tinha sentido. E, finalmente, percebeu o significado da expressão “borboletas na barriga”.
O coração de Filipe batia aceleradamente. Não sabia o que fazer com a preciosidade que tinha nos braços. Tinha medo de falar e estragar aquele momento mágico.
Luísa nunca acreditou em amor à primeira vista mas…
Ouviu-se um grito estridente:
- Filipe! O que é que isto significa? Quem é essa mulher?
Filipe esquecera-se de que tinha vindo acompanhado.

 

Muito obrigada, Mula e Mel, pela iniciativa. Adorei.

O Livro dos Sabores Perdidos, Nicky Pellegrino

Charneca em flor, 10.11.20

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Gosto muito de acompanhar a Rita da Nova. Adorava conseguir tantos livros como ela mas não tenho a capacidade de concentração dela. No seu blogue, os livros constituem um dos temas recorrentes. A esse nível, a Rita tem sugerido um tema de leitura mensal mas eu nunca tinha aderido. O ano está quase a acabar mas consegui, no mês de Novembro, escolher livros para ler dentro do tema actual, comida. Quando vi o tema, lembrei-me de que tinha 2 livros sobre esse tema, em espera, na prateleira. E foi assim que cheguei a este livro.

Li-o tão depressa que nem houve tempo para o pôr ali na lateral, na secção "Livros do Momento". A história é mais ou menos banal e não é uma obra-prima mas cumpre um dos propósitos da leitura, diverte. Mas também abre o apetite, quer de comida quer de voltar a viajar. A acção passa-se, maioritariamente, numa vila siciliana. Luca Amore gere uma escola de culinária na velha casa da sua Nonna. Ali recebe pessoas de todo o mundo que querem degustar e aprender a confecionar os verdadeiros sabores sicilianos. Desta feita, Luca acolhe um grupo de 4 mulheres muito diferentes que não se conhecem.

"Eis o que Luca não sabe sobre elas: uma esconde um segredo, outra espera voltar a encontrar o amor, outra ainda tenta desesperadamente fugir à sua própria vida e outra já o conseguiu."

Ao longo da leitura deste romance, quase que senti os sabores dos cannollis, dos cornettis, do chocolate, das pastas, dos legumes e de todos os pratos que são descritos ao longo do livro. E são esses pormenores que tornam a leitura agradável e, lá está, saborosa. Para além, de descobrirmos alguns segredos sobre as personagens. Afinal, as pessoas não são lineares, nem sequer na ficção, há sempre uma nova camada para descobrir.

Este livro é uma leitura leve e prazenrosa. "O livro dos Sabores Perdidos" faz-nos passar um bom bocado sendo uma óptima companhia.

"Valerie permaneceu à sombra, com um copo de vinho junto ao cotovelo, vendo Luca fazer massa misturando trigo duro com azeite. Parecia estar nas suas sete quintas sempre que cozinhava, movendo-se com graciosidade e economia de movimentos. Foi um prazer vê-lo amassar a massa até a transformar em placas finas, dobrando-as em seguida e espalhando ricota e molho de tomate sobre cada camada. Depois, espalhou azeitonas negras, grandes, e folhas de espinafres jovens, polvilhadas de sal, por cima. Por fim, com grande destreza, colocou a pesada travessa no forno com uma só mão."

 

 

Passa palavra #água

Charneca em flor, 07.11.20

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A cascata do bosque

Na pousada tinham-lhe sugerido aquele passeio. Esperava ter percebido bem as indicações para chegar aquele lugar que os aldeões consideravam mágico. Não dava mesmo jeito nenhum perder-se. Seria difícil darem com ela no caso de se magoar. Até porque o telemóvel não tinha rede. Se sofresse uma entorse, o que seria dela?
Ainda não sabia bem o que a tinha levado a fazer aquela viagem sozinha mas não estava arrependida. Os donos da pousada era muito atenciosos e a aldeia era calma, sossegada e encantadora. A paisagem era indescritível. Nunca pensou encontrar um bosque luxuriante como aquele no seu país. Já viajara muito, conhecia inúmeros países estrangeiros mas estava em dívida com o seu país.
Depois de uns meses de trabalho esgotantes, a estadia naquela aldeia estava a fazer-lhe muito bem.
A vereda por onde caminhava ia descendo e nunca mais acabava, mas estava a ser um passeio agradável apesar da humidade que se sentia no ar. De repente, quando o caminho fez uma curva, começou a ouvir um barulho inconfundível. Devia estar perto. A jovem caminhou mais um pouco e viu-a, a cascata de que lhe tinham falado. Aquele sítio era verdadeiramente mágico. A água vinha lá de cima e espalhava-se por rochas, pedras e pedrinhas. Depois de chegar cá a baixo, ela sabia que o ribeiro continuava o seu caminho até chegar ao centro da aldeia.
O espaço envolvente da cascata estava muito bem concebido. Embora se notasse a acção humana, estava tudo muito bem enquadrado. Havia bancos de madeira, mesas de merendas e pequenas pontes nos locais mais adequados para obter as melhores fotografias.
Ao aproximar-se da cascata, foi um prazer sentir as gotículas da água a caírem sobre a pele. O dia estava quente e ela tinha feito um grande esforço para chegar ali. A queda de água era tentadora e ela não lhe resistiu. Despiu-se para se banhar na água refrescante que descobrira naquele bosque. Que sensação libertadora. Como era bom sentir-se em perfeita comunhão com a natureza. A água gelada limpou-lhe todos os momentos de stress, todos os momentos negros, todos os arrependimentos dos últimos meses.
Eis senão quando se sente observada e, nesse instante, qual Eva depois de comer o fruto do pecado, reconheceu-se nua. Não tinha bikini por isso banhara-se despida porque pensara estar sozinha. Mas ali estava ele, um homem que já vira na aldeia mas forasteiro como ela.
E agora?!

 

Mais um tema do desafio das simpáticas Mel e da Mula.

P.S - Foto captada no meu aniversário de 2019 num passeio à região centro de Portugal. Trata-se da Cascatas da Fraga da Água d' Alta na Serra de Moradal.

Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago

Charneca em flor, 01.11.20

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Aqui há meses comprei 2 livros do nosso Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, o “Ensaio sobre a cegueira” e o “Ensaio sobre a lucidez".
Não tive coragem de pegar no “Ensaio sobre a cegueira” e achei por bem começar pelo “Ensaio sobre a lucidez”. Má opção porque neste são feitas referências ao “Ensaio sobre a cegueira”. Fica a dica. Por acaso não me fez muita diferença porque vi o filme baseado neste livro de Saramago. Mesmo assim acho que não me tirou a vontade de ler o "Ensaio sobre a cegueira"

 

Posto isto, vou avançar para a minha opinião sobre esta leitura.

A narrativa parte de um acto eleitoral para eleger os órgãos autárquicos. No dia marcado, o país imaginado por Saramago é acometido por chuva torrencial o que dificulta a ida às urnas por parte dos leitores. Quando se pensava enfrentar uma elevadíssima abstenção, eis que pára de chover e as pessoas acabam por se dirigir às mesas de voto. Só que os resultados obtidos são surpreendentes. Enquanto no resto do país se obtêm resultados equiparados aos de eleições anteriores, na capital do país observa-se uma percentagem extremamente elevada de votos em branco. Os governantes do país não percebem a mensagem que os eleitores quiseram transmitir e suspeitam tratar-se de uma conspiração. A investigação desta suposta conspiração vai conduzir a tempos muito difíceis para a cidade, capital do tal país imaginado por Saramago. A situação imaginada pelo autor não é muito diferente daquilo que se vive pela Europa fora embora por  motivos de saúde.

Tal como a maioria dos livros deste autor, a utilização da pontuação é muito peculiar por isso é preciso estar muito concentrada na leitura senão não se consegue entender. O caminho que o autor seguiu é muito interessante mas, como é habitual, faz-nos pensar e tirar as nossas próprias conclusões. O final é surpreendente. Eu nunca imaginei que terminaria assim.

Para mim, os votos em branco são uma maneira de a classe política perceber que deve repensar a forma de exercer o poder. Isso era verdade em 2004, quando  o livro foi editado pela 1a vez, mas continua a ser verdade hoje. Saramago conseguia, sempre, escrever obras intemporais pois fazia uma excelente análise da sociedade. Um livro que vale a pena ler e que nos faz pensar. E precisamos mesmo de exercitar o raciocínio e não aceitar, cegamente, tudo aquilo que nos querem fazer acreditar.

"Ao ministro da defesa, um civil que não havia ido à tropa, tinha sabido a pouco a declaração do estado de exceção, o que ele tinha querido era um estado de sítio a sério, dos autênticos, um estado de exceção na mais exata aceção da palavra, duro, sem falhas de nenhum tipo, como uma muralha em movimento capaz de isolar a sedição para logo a esmagar num fulminante contra-ataque, Antes que a pestilência e a gangrena alastrem à parte ainda sã do país, preveniu."

 

 

Passa Palavra #cartas

Charneca em flor, 30.10.20

Cartas do passado

Leninha sentia-se entediada. As férias escolares iam a meio e ela já tinha feito todos os trabalhos escolares e lido os livros que tinha trazido da biblioteca. A televisão não tinha grande interesse. Afinal viviam-se os idos anos 80 e só havia 2 canais disponíveis para optar. As redes sociais ainda não tinham sido inventadas. A internet já existia mas a sua utilização não era tão vulgarizada como hoje. A jovem não sabia que mais inventar para se entreter.

Olhando em volta, surgiu-lhe a ideia de explorar um velho armário onde a mãe guardava algumas relíquias do passado. Embora sabendo que a mãe não gostava que se mexesse naquilo que tinha ali guardado, Leninha resolveu arriscar porque achava ser capaz de dissimular a sua aventura exploratória. Abriu a gaveta e ficou encantada por encontrar as suas roupinhas de bebé. Só que, bem lá no fundo, fez uma descoberta surpreendente . A sua mãe era muito arrumada e por isso Leninha olhou, com estranheza, para o que acabara de encontrar. Nada tinha a ver com o restante conteúdo da gaveta.

Nas suas mãos estavam vários maços de cartas, cuidadosamente atados com fitas de cetim. Pelos carimbos dos envelopes, percebeu que as missivas datavam do início da década de 70. A maioria das cartas eram aquelas que os pais trocaram enquanto namorados mas também encontrou cartas enviadas por outros familiares.
Leninha sentia-se dividida sobre o que fazer com aquele achado. Quase que podia ouvir, dentro da sua cabeça, a contenda entre o anjo bom e o anjo do mal. Por um lado, sabia que devia respeitar a privacidade da sua família, principalmente a dos seus pais. De certeza que não se sentiria confortável se se deparasse com juras de amor trocadas entre os pais. Por outro lado, a curiosidade estava quase a dominá-la. As cartas escaldavam nas suas mãos. Apresentava-se-lhe a oportunidade de descobrir o segredo de família que os adultos escondiam há anos. Há muito que desconfiava que se passara algo de muito grave para que não se dessem com a tia Conceição. Às vezes, dava-se conta de conversas murmuradas entre os pais, os tios ou os avós mas nunca conseguira perceber qual tinha sido o drama que conduzira ao corte de relações.

De repente resolveu-se, abriu o primeiro envelope e começou a ler.

No fim, quisera esquecer o que lera tal era a gravidade. Tinha sido preferível ter continuado ignorante.

 

A Mel e a Mula voltaram a desafiar a blogosfera com mais uma palavra, Cartas. Foi inspiradora.