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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Desafio da escrita dos Pássaros tema #13

E tudo o vento trouxe de volta

Charneca em flor, 06.12.19

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A doce Melanie jazia no leito, agonizante. O parto tinha sido complicado provocando-lhe uma enorme hemorragia. Perante tal cenário, Ashley vai ficando cada vez mais desesperado. Nesse momento, Scarlett apercebeu-se de que tinha andado a viver um equívoco. O seu amor por Ashley era um devaneio da juventude. Agora ela via, claramente, como o homem tinha sido um fraco por não resistir às suas investidas quando o seu verdadeiro amor era Melanie. Como se arrependia de se ter envolvido com Ashley. A prima tinha um coração tão puro que, mesmo perante as evidências, nunca acreditara que eles tinham um caso.
Scarlett sentia nascer no seu coração a certeza de que o amor tinha estado sempre tão perto. Será que era tarde de mais? Conseguiria salvar o seu casamento? Rhett casara com ela sabendo o que sentia por Ashley. No entanto, ela tinha a certeza que o marido tinha sentimentos por ela.
Quando se apercebeu que o marido já não estava ali, aguardando o triste desfecho, foi procurá-lo. Tem que lhe confessar aquilo que sente. Encontra-o no quarto a fazer as malas.
- Rhett? Mas…
- O teu querido Ashley está prestes a ficar viúvo. Não quero ser um empecilho.
- Não. Eu estava errada. É a ti que eu amo. Só percebi agora.
- É tarde demais.
Rhett desceu as escadas apressadamente mas Scarlett alcançou-o na porta. Lá fora a neblina da manhã cobre Tara por inteiro.
- Eu não posso viver sem ti.
- Francamente, minha querida, isso não me interessa.
Rhett vai-se afastando enquanto Scarlett cai por terra chorando desalmadamente .

Passaram-se 3 meses sobre a morte de Melanie e sobre o desaparecimento de Rhett. Ashley e os filhos também deixaram Tara. Apesar da viuvez de Ashley, já não fazia sentido continuarem juntos.
Scarlett sentia-se sozinha. Perdera tudo. Os seus pais morreram e a sua filha Bonnie também. Tinham-na perdido tão cedo. Essa dor contribuiu muito para o afastamento de Rhett. Ela acreditava que isso até fora mais importante do que a sua traição.
Desde a manhã daquele dia que Tara era fustigada por rajadas de vento. Uma silhueta familiar aproximava-se. Era Rhett.
- Oh, Rhett, meu amor. Não posso acreditar.
- Nem eu, minha querida. A vida sem ti não faz sentido. Perdoa-me tudo o que disse. Vamos esquecer o passado e começar de novo.
E, abraçando-a, dá-lhe o beijo mais apaixonado de sempre.

THE END

 

Esta semana foi proposto que escrevessemos um final diferente para um filme. Eu viajei com Scarlett O'Hara até ao sul da América e este foi o resultado.

Para descobrirem mais textos é só ir aqui

 

 

Mau tempo no Canal, Vitorino Nemésio

Charneca em flor, 02.12.19

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Já há muito tempo que queria ler este livro, um clássico da nossa literatura. Este exemplar já estava pousado nas minhas prateleiras há uns anos aguardando a altura certa para o ler. A leitura levou-me algum tempo porque há outras actividades que se vão sobrepondo. Ou é a vida do dia-a-dia que se impõe ou mesmo a actividade de escrever os textos para o Desafio dos Pássaros, para já não falar do Curso de Escrita Criativa que vou fazendo a um ritmo muito lento. Obviamente que "Mau tempo no Canal" também é uma obra de alguma densidade que deve ser saboreada no seu devido tempo. 

O livro foi publicado nos anos 40 do século passado mas a trama diz respeito à segunda década do mesmo século e decorre nos Açores. O canal a que se refere o título é o canal que separa a ilha do Faial e a ilha do Pico. É, principalmente, nestas 2 ilhas que acontece a história narrada embora a acção também se estenda à ilha de São Jorge e à Terceira. Na primeira cena descobrimos um namoro entre 2 jovens, Margarida Clark Dulmo e João Garcia. Esta relação encontra alguns obstáculos já que há conflitos antigos entre as famílias dos jovens. Ou seja, é uma espécie de história de Romeu e Julieta que se passa na Horta e não em Verona. Este conflito vai ser preponderante no enredo deste romance.

Na história também se aborda os muitos casos da peste que afectou o arquipélago e a pesca, ou caça para ser mais exacta, da baleia. Aliás os pescadores são das personagens mais pitorescas que Vitorino Nemésio descreve.

O romance encantou-me, não só pela história mas, sobretudo, pelo talento literário do autor. As suas descrições fabulosas das paisagens insulares fizeram-me viajar pelas ilhas da bruma. Aliás, ao ler este romance consegui abstrair-me da realidade e penetrar na história como se estivesse lá. Outro pormenor que eu adorei foi os recursos fonéticos que Vitorino Nemésio encontrou para percebermos a particularidade do sotaque açoriano e o linguajar das pessoas mais simples.

Quanto a mim, ler este romance aumentou o meu conhecimento da literatura portuguesa bem como da nossa cultura. Também foi uma oportunidade de recordar os dias que passei nos Açores. Não conheci nenhuma das ilhas mencionadas, ou melhor, conheci o Aeroporto da Horta onde fiz escala na viagem de regresso ao continente. Vi a ilha do Pico a partir do avião (cortesia do piloto para deliciar os passageiros). Achei mesmo que tinha um aspecto mágico com as nuvens à volta do pico. Os Açores ocupam um lugar especial no meu baú das memórias.

Partilho aqui um excerto em que Margarida descreve a experiência de subir ao pico do Pico e o que sentiu ao ter oportunidade de ver o nascer do sol naquele cenário.

"Passara o fim de Agosto até às vindimas no Pico, nas vinhas que o avô conservara entre a Candelária e São Mateus, em Campo Raso. Satisfizera em setembro a grande ambição da sua vida: subir ao pico do Pico, embora não fosse a melhor época. Passava-se uma noite a meio da encosta, numa furna. De madrugada - leite quente de vaca, que o pai (e nisso era bem amigo!) fazia ordenhar por Manuel Bana, tendo-a mandado de véspera, para chegar descansada o mais perto possível da étape. Não estava um dia muito claro; mas vir aparecer o Sol dos lados da Terceira, todo sangrento num mar de chumbo, um mar como nunca tinha visto, fresco e sem nada que lhe cortasse a limitação parada, a não ser as ilhas negras e acobardadas numa neblina. Para a banda das Flores, uma Lua de bordos tristes que ia morrer. Mas ela sentia-se contente a ver o Sol crescer devagar para ela, que o esperava à beira da cratera apagada do Pico, com um pau ferrado. O vulto de São Jorge, da Ponta dos Rosais ao Topo, parecia um navio azulado pelo próprio fumo da marcha, de proa à "suposta ilha" de Fernão Dulmo, que via a nudez do Sol primeiro que outra alguma."

Desafio de escrita dos Pássaros tema #12

Aqueles pássaros não se calam

Charneca em flor, 29.11.19

Junto à minha janela existe uma árvore em cuja copa frondosa se abriga um Bando de Pássaros. Não param de chilrear durante todo o dia. Assim que nasce o sol já se consegue distinguir a sua alegre conversa. Estas aves barulhentas foram chegando a pouco e pouco, pé ante pé, ou melhor, asa ante asa. Quase que não dei por eles. Primeiro veio um, depois outro e mais outro. Nessa altura já faziam algum barulho mas tolerava-se. Só que depois apareceram mais uns quantos e foram-se espalhando pelos vários ramos daquela grande árvore. E não se calam. Assim que se sentem os primeiros raios de sol, começam naquela conversa de passarinhos que só eles entendem e continuam por toda a jornada.
Já não é só na “minha” árvore que se acolhem Pássaros. Nas últimas semanas, tenho reparado que as árvores vizinhas também estão repletas de vida. Este jardim transformou-se num verdadeiro condomínio de animais voadores.
Quando tenho tempo, gosto de ficar a observá-los. Não ficam o tempo todo pousados nos ramos. Às vezes saem por aí a voar mas nunca se afastam durante muito tempo. No momento em que regressam, o barulho aumenta. Imagino que descrevam, uns aos outros, as maravilhas que encontraram no caminho.
Tal como eu os observo, desconfio que eles também reparam em mim. Os voos destes Pássaros passam cada vez mais perto da minha janela. Já apanhei um ou outro a espreitar, atrevidamente, cá para dentro. Uma vez deixei um livro pousado no parapeito. Ao voltar, reparei que um dos Pássaros olhava fixamente para as páginas abertas, coscuvilhando aquilo que eu estava a ler. Sempre que estou a ler junto à janela, esse mesmo Pássaro pulula por ali. Se calhar, gosta de livros. Essa avezinha leitora é das que vive na “minha" árvore há mais tempo. Foi a primeira a chegar. Sim, eu consigo distingui-los uns dos outros. Para mim, não são animais irracionais, são amigos que me fazem companhia.
O Inverno está quase a chegar e sei que, mais tarde ou mais cedo, eles partirão para paragens com temperaturas mais amenas. Ainda não se foram embora e eu já estou com saudades da alegria que trouxeram à minha rua. É verdade que há dias em que eu não consigo ouvir os meus próprios pensamentos porque eles não se calam mas não sei como é que vou enfrentar os dias cinzentos sem este chilreio.

 

E o desafio da escrita continua aqui

Desafio de escrita dos Pássaros tema #11

O peixinho falante

Charneca em flor, 22.11.19

O meu animal de estimação preferido foi um canário amarelo e branco que cantava maravilhosamente bem. Quando morreu, chorei muito. Num dos aniversários do A. ofereci-lhe um aquário. Infelizmente, os peixes são animais muito frágeis por isso tivemos vários. Quando o último se foi, encontrei este relato gravado nas pedras do aquário :


A minha vida é um bocadinho monótona. Aqui estou nesta casa redonda sem ter para onde ir. A única coisa que faço é nadar, nadar e voltar a nadar. De vez em quando também me alimento. Como não consigo comer sozinho, tenho que esperar que a minha família me dê comida. É que a minha espécie tem a fama de ter uma memória curta mas, deixem que vos diga, os humanos não são muito melhores. Ou fui eu que tivesse pouca sorte com a família que me calhou. Aliás, há uma coisa que me preocupa, tenho a impressão de que eles não são grandes especialistas no que diz respeito a cuidar de seres vivos.
Porque é que digo isto, pergunta o distinto leitor?
Primeiro que tudo, porque as plantas que eu vejo daqui não estão com bom ar. E também porque sinto que não sou o primeiro ocupante desta casa aquática. Há umas quantas almas penadas a nadar por aqui.
A verdade é que eles não param muito em casa. A minha família é composta, apenas, por um casal. Eles não se põe de acordo sobre a quantidade de vezes que me devem dar comida. O meu dono quer que eu coma todos os dias e a minha dona diz que comida a mais faz mal e, então, acha que eu posso comer só dia sim, dia não. Será que ela também só come 3 vezes por semana.
Quando se ausentam por mais tempo, vem uma senhora mais velha tomar conta de mim. É uma senhora muito simpática que acha relaxante ficar a olhar para mim enquanto estou a nadar à volta dos meus domínios.
Quando quero estar sossegado, escondo-me atrás destas plantas decorativas. O meu dono tem a mania de dar pancadinhas na minha parede para eu me mexer. Faço-lhe a vontade para que me deixe dormir.
A minha dona passa muito tempo na internet. Adorava que ela me dedicasse tanta atenção. Era bom que pudéssemos conversar embora eu não perceba muito bem quando falam. Deve ser por causa da água .

 

Para acompanharem este desafio é só passarem por aqui

Desafio de escrita dos Pássaros tema #10

Já chegámos? Já chegámos?

Charneca em flor, 15.11.19

A viagem só tinha começado há 5 minutos e já ela estava a perguntar:
- Falta muito? Falta muito?
- Sim, querida, ainda falta muito. Tenta aguentar a ansiedade.
Continuei a conduzir pelas estradas secundárias ladeadas por árvores frondosas. A bonita paisagem que se via para lá do vidro do carro atenuava ligeiramente o tumulto que eu sentia dentro de mim.
Eu amava muito a mulher que ia a meu lado mas era cada vez mais difícil ouvir a sua voz aflitiva:
- Já chegámos? Já chegámos?
- Só andámos uns 10 kms desde a última vez que perguntaste. Sabes que estamos muito longe do nosso destino. Tens que ter paciência.
O carro continuava a rolar à velocidade possível. E a voz dela voltava-se a ouvir:
- Ai, que eu não aguento estas dores. Vai mais depressa. As contracções estão cada vez mais próximas.
- Não consigo ir mais depressa, minha querida. - apertei-lhe a mão tentando transmitir-lhe a minha força.
Eu ia seguindo o caminho, curva após curva. Parei num cruzamento.
- Já chegámos? Já estamos no hospital?
- Ainda não. Sossega. Fecha os olhos que estamos lá em menos de nada.
Finalmente ela fechou os olhos e adormeceu. Continuei a conduzir para garantir que ela permanecia adormecida. Assim que me foi possível voltei para trás para regressar a casa. A mulher que dormia ao meu lado era a minha mãe. Adorava-a mas era cada vez mais difícil acompanhá-la. Ela sofria de Alzheimer e já não me conhecia. Ela pensava que eu sou o seu marido, o meu pai que já falecera há muitos anos. De vez em quando a mente dela recuava até ao dia mais feliz da sua vida, o dia do meu nascimento. A minha mãe voltava a “sentir" os sinais do parto como se eu estivesse prestes a nascer e só se acalmava com um passeio de carro como se fôssemos a caminho da maternidade. Ao fim de algum tempo, adormecia e quando acordava era, de novo, uma mulher de 80 anos.
Com o coração cada vez mais apertado, imobilizei o carro à porta de casa.
- Mãe, acorda. Já chegámos. Estamos em casa.
- Hã?! Quem é o senhor? Onde é que estou?
- Sou eu, o teu filho.
- Não sei quem és mas pareces simpático. – e a minha mãe brindou-me com um sorriso que me aqueceu o coração.

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A minha participação, desta semana, nesta aventura. O mote para este texto foi a pergunta: "Já chegamos? Já chegamos"

Desafio de escrita dos Pássaros tema #9

Como é que eu vim aqui parar?

Charneca em flor, 08.11.19

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Sinto a luz do sol a bater-me nos olhos mas não tenho vontade nenhuma de os abrir. A cabeça está a latejar intensamente. Porque é que me esqueci de fechar as persianas? Que barulho é este? Gaivotas?! O melhor é abrir os olhos para perceber de onde vem este som. 

Lentamente lá vou levantando as pálpebras. Olho à minha volta e não percebo onde estou. É surreal. Como é que é possível acordar numa praia deserta com gaivotas a sobrevoarem-me?! Só pode ser um sonho ou um pesadelo.
De repente, sinto um arrepio de frio e é nesse momento que eu me apercebo que estou completamente nua. Não é possível que isto seja verdade. Vou beliscar-me. Ui, não estou a dormir, estou bem acordada.
Começo a sentir-me cada vez mais nervosa. Como é que eu vim parar a esta praia toda nua?! Pensando bem, também não me lembro da noite de ontem. Deixa-me cá puxar pela cabeça. Então, pedi para sair mais cedo do trabalho. Fui a casa para me mascarar de zombie porque ia a uma festa de Halloween. Chamei um Uber porque não dava jeito conduzir mascarada. E depois, o que é que aconteceu? Será que bebi assim tanto? Juro, se me livrar desta situação, nunca mais toco numa gota de álcool.
O meu estômago já está a roncar. Estou cheia de fome. Olho em volta. Que sorte, está ali uma bananeira. Vou ver se consigo chegar às bananas. Consegui. Que boas, a fome é o melhor dos temperos.
Mas o que é aquilo ali? Uma caixa? Vou ver o que tem dentro. Que papel é este?

“Benvinda à Ilha dos Pássaros. Esta é uma ilha deserta e tu aceitaste o Desafio dos Pássaros. Este desafio consiste em viveres aqui durante uma semana sem outra companhia que não seja a tua própria companhia. A ideia é aprenderes a viver, apenas e só, com o que é essencial. Nesta caixa encontras um mapa para uma fonte de água doce que existe no centro da ilha. Também colocámos aqui uma cana de pesca para ser mais fácil alimentares-te. Este mar ė rico em peixe por isso não será complicado. Também está aqui um foguete sinalizador mas só poderás usar em caso de perigo extremo. Se for mal usado, o castigo dos Pássaros será implacável…”


Não consigo ler mais. Estes Pássaros são terríveis. Mas porque é que eu fui aceitar este Desafio?

 

Cá está o meu texto para o Desafio de escrita dos Pássaros. Mais um tema refinado . Achei a vingança muito suave, Osapo .

Sophia, 100 anos

Charneca em flor, 06.11.19

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A 6 de Novembro de 1919, nascia aquela que viria a ser uma das maiores poetas da língua portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen. Há 1 ano que o país celebra o dom desta vida que marcou a nossa cultura comum. As celebrações encerraram-se hoje com um espetáculo no Teatro de São Carlos. O Telejornal da RTP 1 também se associou a esta efeméride terminando  o noticiário com a declamação de um poema por Manuel Alegre e Beatriz Batarda. 

Não era tão bonito se o Telejornal termina-se todos os dias com a suavidade de um poema?

Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
              
                                             Sophia  de Mello Breyner Andresen
 

Desafio de escrita dos Pássaros #8

Olá, Charneca em Flor

Charneca em flor, 01.11.19

 

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Tu não me conheces mas eu conheço-te muito bem. Quem te escreve é a mulher adulta que tu vais ser. Esta carta viajou desde 2019 para chegar até às tuas mãos. Não, o mundo não vai acabar no ano 2000. 

Lembro-me bem de ter passado pela infância que tu ainda não deixaste. És boa aluna, adoras ler e detestas usar óculos. A este propósito, deixa-me dizer-te que, vão passar muitos anos, mas um dia já não será preciso usares óculos todos os dias. És tímida, sonhadora e muito calada. Imagino que seja difícil acreditares mas o trabalho que te fará sentir realizada será em contacto com o público. Não acreditas mas é verdade.
Se eu consegui endereçar bem esta missiva, tens agora 10 anos. Estás no limiar da adolescência. Vou ser sincera. O período que se avizinha não será fácil. Durante os próximos anos, serás amiga das raparigas mais bonitas e populares da turma. Não resistirás em comparar-te com elas e isso far-te-á chorar muito em frente ao espelho porque te vais achar feia. O meu conselho é que, em vez de olhares para a imagem que o espelho reflecte, olhes para dentro de ti e vejas como és bonita. O teu interior e o teu coração são muito mais importantes do que a beleza exterior. Quando deixares de estar escondida atrás dos teus óculos, a beleza do teu olhar ficará à vista de todos.
Nunca te esqueças que os teus pais te amam acima de tudo. Mesmo que a tua vontade não coincida com a vontade deles, não os contraries. Abraça-os e mostra-lhes que também os amas. Aquilo que vais alcançar na vida será, em primeiro lugar, aos sacrifícios que sempre fizeram por ti.
Os 35 anos que separam a criança que és desta mulher que vais ser não vão ser fáceis. A vida reserva para ti momentos duros mas não temas. As lágrimas que tiveres que chorar farão sentido mais tarde. Vais cair muitas vezes mas não vais ficar no chão. Todas as vezes que te conseguires reerguer serão essenciais para construir a tua identidade e para que eu seja, em 2019, uma pessoa bem resolvida e realizada.
Nem todos os teus sonhos se irão realizar mas viverás muitos mais momentos de felicidade do que podes imaginar.
Um dia ficará claro para ti que é sempre possível ser feliz, sejam quais forem as circunstâncias.

Sapos do Ano 2019

Fui nomeada

Charneca em flor, 28.10.19

Foi com grande orgulho que descobri que estou entre os nomeados para os Sapos do Ano na categoria Livros. Bem gostaria de partilhar aqui mais livros mas o tempo para ler é cada vez mais escasso. Nas últimas semanas até piorou muito por culpa desta aventura. Muito obrigada a quem nomeou. Com os pesos-pesados que me acompanham, não tenho, obviamente, hipóteses de estar nos 5 primeiros. Ter sido nomeada, e em excelente companhia, é já uma honra.

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Desafio de escrita dos Pássaros #7

Os benefícios da compota de abóbora

Charneca em flor, 25.10.19

As tardes são sempre calmas na loja de produtos naturais “A linhaça dourada" onde trabalho. Nesses momentos, aproveito para actualizar as redes sociais da loja. Naquele momento, tentava fazer uma publicação atractiva sobre o produto da semana, compota de abóbora com amêndoas. O dono da loja tinha comprado uma imensa quantidade daquele produto e eu não estava a conseguir escoá-lo. Entretida como estava, quase que não me apercebia da entrada de uma das mais habituais clientes d'“A linhaça dourada", a arrogante Sra. D. Constança. Esta senhora tem, sempre, uma ideia muito concreta sobre o que quer comprar. Convencê-la a adquirir qualquer coisa, para além da sua ideia inicial, é quase impossível.
- Sra. D. Constança, como tem passado? Já me tinha lembrado de si. Recebi um produto fantástico que acredito que a senhora vai gostar de experimentar.
- Oh, querida, não se canse. Sabe que eu detesto que me tentem impingir seja o que fôr. Vá-me buscar uma máscara capilar natural porque eu tenho o cabelo sequíssimo. Veja se é à base de manteiga de karité. E depressa que eu tenho pouco tempo.
- Não diga mais. Tenho o produto ideal para si – e nisto pego num frasco da maldita compota.
- Mas a menina está a brincar comigo? Então eu peço-lhe um produto para o cabelo e aparece-me com isso. Não pensa, certamente, que vou pôr isso no cabelo?!
- Não quero contrariá-la mas todas as influenciadoras digitais falam dos benefícios desta compota, não só para comer, mas também para aplicar no cabelo e na pele.
A Sra. D. Constança olha para mim já de sobrancelha levantada.
- Acho um verdadeiro disparate mas explique-se melhor. Quem sabe…
- A abóbora é rica em vitaminas e sais minerais, tem uma grande concentração em betacaroteno o que é excelente para o cabelo uma vez que ajuda a recuperar o seu brilho natural. O açúcar da compota fornece energia às células do couro cabeludo provocando a aceleração do crescimento do cabelo. E as amêndoas, então? São muito nutritivas. Esta compota vai substituir o óleo de coco como panaceia. Só não dá para fritar bifes.
- Pronto, convenceu-me. Levo 3 embalagens. E, já agora, um pacote de bolachas de espelta. Por via das dúvidas.
- Óptima escolha. Assim ainda lhe ofereço estas sementes de abóbora. São ricas em triptofano e por isso ajudam a manter o bom humor. – talvez precise, pensei eu.

 

Como sempre à sexta-feira, chega a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros. Para seguirem o Desafio é só passarem por aqui.

O que está aqui escrito é ficção. Não tentem usar compota de abóbora no cabelo que eu não me responsabilizo pelos resultados .  E se as sementes de abóbora, é só visitarem o Triptofano, um blogue que faz muito pelo nosso bom humor.