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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Carta de Guerra, Bárbara Tinoco

Charneca em flor, 25.10.21

Hoje a música chega mais tarde porque estive à espera que este vídeo fosse publicado. Bárbara Tinoco é uma jovem cantautora de enorme valor e sensibilidade. Tem, apenas, 22 anos. Na passada semana, lançou o seu álbum "Bárbara" do qual faz parte esta música de homenagem aos seus avós. Ele esteve na Guerra do Ultramar e ela ficou cá à espera das suas cartas e do seu regresso. Os próprios, João e Maria, são os protagonistas deste vídeo delicioso.

Achei espectacular que uma jovem de 22 anos escrevesse uma música sobre este tema, tão distante, da sua realidade. Mas, se pensarmos bem, a canção fala de amor e o amor é intemporal. Esta história é comum a tantos casais onde os meus pais se incluem. Talvez por isso me tenha sensibilizado tanto. Afinal, esta é também a minha história.

Espero que gostem.

 

Desafio Arte e Inspiração #6

Alentejo do meu coração

Charneca em flor, 20.10.21

O automóvel rolava, suavemente, pela estrada que eu conhecia tão bem. Sem razão aparente, sentia-me um pouco ansiosa. Pensando bem, aquela reacção era-me familiar. A expectativa de voltar aos meus lugares causava-me, sempre, alguma perturbação.

Sem nunca deixar de estar atenta à condução, comecei a reparar que a paisagem que ladeava a via se ia alterando. Os tons tornavam-se, progressivamente, mais dourados. E, finalmente, vi a placa que indicava o início do meu Alentejo. Avistar aquele marco fazia-me respirar doutra forma. A partir dali, sentia-me em casa.

Não nasci no Alentejo mas é onde se encontram as minhas raízes. Os meus pais migraram para os arredores de Lisboa no início dos anos 70, acompanhando o movimento do interior para o litoral. Assim eu cresci, maioritariamente, longe do Alentejo mas os meus pais mantiveram uma relação muito estreita com a família que por lá ficou. Sempre que possível rumavam ao torrão natal. Desde cedo que percebi que o Alentejo era a minha verdadeira casa. Talvez isso se tenha devido à minha maneira de ser mas nunca senti a terra onde cresci como a minha terra natal. Foi no regaço da minha avó que construí as minhas memórias mais felizes. Ao contrário dos meus amigos da ciddade, eu sempre soube de onde vêm os ovos ou a diferença entre um sobreiro e uma oliveira. Durante toda a infância e adolescência, férias escolares rimavam com Alentejo. Nesses momentos, os dias corriam velozes e eu terminava-os suja mas extremamente feliz. Os meus brinquedos eram a terra, as folhas e os galhos. Os meus companheiros tanto podiam ser cães, gatos, porcos, cabras mas também os outros miúdos da terra. A maioria dos meus amigos das férias eram, mesmo, alentejanitos mas também um ou outro miúdo da cidade.

Na adolescência, o cenário foi-se alterando. Os jovens da cidade já não apareciam tantas vezes e alguns adolescentes da terra também desapareceram. O trabalho começou a escassear por ali e as famílias que tinham resistido aos primeiros movimentos migratórios acabaram por se verem obrigadas a procurar outras paragens com mais oportunidades. Os velhos ficaram e eu continuei a ser das poucas adolescentes que continuava a preferir passar ali o Verão do que numa qualquer praia lotada do Algarve.

Depois de a minha avó falecer, foram poucas as vezes que voltei ao Alentejo. As recordações eram muito dolorosas e não soube lidar com elas. Só eu sei a falta que a minha avó me faz. O seu amor ainda me aquece o coração.

A seguir à  última curva da estrada, a aldeia surgiu encavalitada num monte. Chegada à casa da minha avó, senti o coração apertado como era habitual desde que ela partira. A sua ausência ocupava todas as divisões mas ao mesmo tempo cada canto despoletava em mim recordações muito felizes.

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Sobreiro, El Rei D. Carlos de Bragança, 1905

Olhei para o relógio e reparei que se aproximava a hora do evento que me levara a regressar ali. Com o coração aos saltos, encaminhei-me para o montado contíguo ao quintal da minha avó. As árvores já não eram bem iguais às que viviam na minha memória, os anos não passavam só pelas pessoas. De repente, lá estava ele, o quercus mais antigo da região. Por momentos, voltei a ser uma adolescente tímida e apaixonada. Ali, encostada ao seu tronco poderoso, aconteceu o meu primeiro beijo. E, à minha espera, estava o protagonista da minha mais bela história de amor. Os 30 anos que passaram apagaram-se num ápice quando o nosso olhar se cruzou. As nossas conversas, pela noite fora, no Messanger já tinham reacendido a chama da paixão. No momento do reencontro, as emoções inundaram-nos em catadupa e o sobreiro grande voltou a ser a testemunha silenciosa dos nossos beijos apaixonados.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

 

 

A Luz, Stephen King

Charneca em flor, 19.10.21

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Não escolho este género literário com frequência mas este mês propus-me a experimentar a ler um thriller. O tema proposto pelo clube de leitura #umadúziadelivros da Rita da Nova para o mês de Outubro foi, precisamente, "Um livro assustador"

Nem me lembrava que tinha esta edição na prateleira. A leitura não foi fácil e algumas passagens assustaram-me verdadeiramente. O que quer dizer que o objectivo deste livro foi atingido. A história está bem escrita, como é óbvio, embora se possa dizer que a época em que foi escrita está muito marcada no enredo. O autor recorreu a ideias muito diferentes para nos provocar muitos momentos assustadores. Não sei se se pode considerar uma obra intemporal mas não deixa de ser um clássico dos thrillers. O facto de este romance ter uma criança como personagem principal incomodou-me muito e quase que me levou a desistir da leitura. Isso levou a que, no início, avançasse com alguma dificuldade mas a partir de certa altura, o livro conseguiu prender-me até à última linha.

O protagonista da história é um menino de 5 anos muito especial. O pai, um homeme problemático, arranja um trabalho como zelador num hotel isolado nas montanhas que fica fechado durante o Inverno. Devido aos grandes nevões que caem naquela região, quem está no hotel pode ficar muitos meses sem falar com mais ninguém para além das pessoas que estão consigo no hotel, neste caso a família Torrance, Danny, o menino e os pais Jack e Wendy. Obviamente que este isolamento afecta qualquer pessoa sujeita a essa experiência como bem sabemos pelo último ano e meio de pandemia. No entanto, podemos dizer que o edifício antigo onde se situa o hotel Overlook também é personagem nesta história.

Apesar de ter gostado desta história, este género não é para mim. No entanto é importante sairmos da nossa zona de conforto. Afinal, não podemos ler sempre o mesmo.

"Por um momento foi incapaz de respirar, a vista tinha-a deixado sem fôlego. Estavam parados próximos do cume de um pico. Do outro lado - ninguém sabe a que distância - uma montanha ainda mais alta empinava-se no céu, com o cume recortado, apenas uma silhueta aureolada pelo sol que coneçava a pôr-se. 

(...)

Afastou o olhar do abismo quase à força e acompanhou o dedo de Jack. Podia ver a estrada agarrada à encosta daquele pináculo de catedral, com um traçado sinuoso mas sempre dirigindo-se para noroeste, ainda subindo, porém menos íngreme. Mais adiante, aparentemente cravado na própria encosta, viu os pinheiros rigidamente fixados darem lugar a um relvado muito verde tendo ao centro, contemplando tudo, o hotel. O Overlook. Ao vê-lo, tomou fôlego e recuperou a voz.

- Oh, Jack, é esplêndido!"

 

 

"Por Mim", Rita Guerra e João Paulo Rodrígues

Charneca em flor, 18.10.21

Já estou de "orelha em pé" com esta música desde a semana passada mas teve que ficar adiada.

Rita Guerra conta com uma carreira de mais de 30 anos e é dona de uma enorme capacidade vocal. A cantora e compositora cruzou-se com João Paulo Rodrigues no programa televisivo "A Máscara" e gostou muito de o ouvir cantar. Agora surgiu a oportunidade de gravarem um dueto. E quanto a mim, resultou muito bem.

"Por Mim" é uma canção sobre alguém que quer sair de uma relação onde já não faz sentido continuar. As vozes combinam-se muito bem e o vídeo também é muito bonito. A autoria deste tema, letra e música, é partilhada por Rita Guerra, Diogo Guerra, Kaysha, Ivo Lucas, Rui Carvalho e João Carrasqueira.

Espero que gostem.

Boa semana.

Desafio Arte e Inspiração #5

Esqueleto no quarto

Charneca em flor, 13.10.21

O ano de 1966 ficou marcado na vida daquela família. Depois de um trabalho de parto de várias horas, nasceu Frederica. O dia 6 do 6º mês começara há, apenas, 6 minutos quando se ouviu o choro inconfundível de uma criança acabada de nascer.

A velha parteira, que ajudava bebés a nascer há 60 anos, pousou a pequena criatura nos braços da mãe dizendo:

- É uma menina especial. O momento do nascimento ficou marcado por um número mágico. – a anciã referia-se à coincidência do número 6 no momento do nascimento.

A mãe, exausta, nem percebia bem o que dizia a parteira mas fez um esforço para sorrir. Aquela filha tinha sido muito desejada mas o cansaço acumulado dominava-a. Agora que tinha a filha nos braços e que a via tão perfeita, o corpo pedia-lhe que fechasse os olhos e dormisse.

Toda a família se deixou encantar por aquele ser tão pequenino. Desde o primeiro minuto, Frederica tornou-se no centro do pequeno universo formado pelas grossas paredes da casa. No entanto, nem tudo ia bem. Durante o dia, era um bebé tranquilo mas, quando caía a noite, a pobre criança chorava desalmadamente. Ninguém conseguia acalmá-la. Durante todas as horas da noite, havia sempre alguém com ela ao colo mas o pranto não parava.

A família não poupou recursos e procurou os melhores especialistas mas não se conseguia descobrir qual era o problema. Desesperada, a mãe levou-a ao padre da aldeia vizinha, conhecido por ser exorcista. Na presença daquele santo homem, a menina chorava e ria ao mesmo tempo, de maneira assustadora. O sacerdote não hesitou e exorcizou a menina.

A visita ao padre teve efeitos durante alguns dias mas, rapidamente, o choro nocturno voltou a ouvir-se por toda a casa e redondezas.

Até que um dia apareceu por ali uma estranha personagem. A mulher era muito idosa e estava vestida pobremente. Os cabelos e as unhas pareciam muitos sujos e o rosto era dominada por uma verruga gigantesca donde saíam compridos pêlos. O feitor encontrara-a à beira do caminho onde pedia ajuda. O homem era dono de um coração bondoso e, como o monte tinha algumas casas vazias, ofereceu-lhe guarida.

O choro nocturno ouvia-se até às casas do monte. Todas as noites, a velha sentava-se à porta hipnotizada com aquele som. Durante o dia começou a espalhar, pelos vizinhos, que conseguia ajudar a menina.

Não tardou que tal assunto chegasse aos ouvidos da mãe da criança e numa manhã pegou em Frederica e foi procurar a tal velha.

Quando viu a estranha mulher, ficou assustada mas não teve coragem para voltar para trás.

- Ainda bem que vieste, minha filha. Sei que em tua cass têm sofrido muito mas eu vou ajudar-te. Deixa-me pegar na tua menina.

A velha pegou na criança e sentou-a no colo. Fixou o seu estranho olhar na criança. De repente, revirou os olhos e ficou estática durante um bom bocado. De início, Frederica ainda choramingou mas depois começou a olhar para a velha com interesse. A mulher balbuciou qualquer coisa que ninguém percebeu.

A estranha voltou-se para a mãe de Frederica:

- A tua filha nasceu de noite, não foi? Ela foi marcada pela lua. Desde o dia em que nasceu que há 6 espíritos que a atormentam todas as noites.

As lágrimas corriam pelo rosto da mãe de Frederica. Agora é que estava apavorada.

- E não há nada a fazer?

- A única solução é apelar à ajuda de uma antepassada da Frederica. No jazigo mais antigo do cemitério, têm que procurar o caixão da tataravó. O nome é Madalena Carmem. Quando abrirem o esquifo, vão descobrir que, apesar dela ter morrido há mais de 150 anos, o esqueleto está intacto. A menina tem que dormir na companhia do esqueleto. A presença da tararavó afastará todos os outros espíritos e vai protegê-la para toda a vida.

A velha mulher calou-se enquanto a mãe levava Frederica pela mão. Ia um pouco desalentada porque não sabia como é que ia convencer a família a pôr um esqueleto no quarto da menina.

Obviamente que a ideia não foi muito bem aceite mas tanto insistiu que o marido moveu influências e, por portas e travessas, lá conseguiu o esqueleto da tataravó.

Desde a primeira noite em que teve o esqueleto por companhia que Frederica dormiu perfeitamente. Nunca mais deixou de dividir o quarto com a tataravó. Os outros espíritos mantiveram-se bem afastados e isso é que era importante.

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El sueño, Frida Kahlo (1940)

A velha? Assim que o esqueleto chegou, ela desapareceu sem deixar rasto.

 

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Onde vais, Bárbara Bandeira e Carminho

Charneca em flor, 11.10.21

Quem pesquisar os meus posts de música, quer neste blogue quer n' "O Voo da Garça", apercebe-se de que gosto muito de partilhar canções em dueto, principalmente se forem combinações improváveis. 

Nunca imaginaria um dueto entre Bárbara Bandeira e Carminho mas não foi só por isso que escolhi este tema para partilhar esta semana. "Onde vais", para mim, é uma das mais belas canções de 2021. A letra foi escrita pelas intérpretes e por Ivo Lucas. Na música também colaboraram Bárbara Bandeira, Carminho, Ivo Lucas, Phelipe Ferreira e Tyoz.

Tendo a conta a participação de Bárbara Bandeira com Ivo Lucas torna impossível não nos lembrarmos de Sara Carreira ao escutarmos, com atenção, a letra deste tema. Ivo Lucas era o namorado da jovem cantora e Bárbara Bandeira era uma das suas melhores amigas.

Espero que gostem tanto como eu. Boa semana.

 

Nobel da Literatura 2021

Charneca em flor, 10.10.21

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A semana que passou ficou marcada pelo anúncio dos laureados com os Prémios Nobel nas várias áreas. No dia 7 de Outubro ficou-se a conhecer o Prémio Nobel da Literatura de 2021, o romancista e contista Abdulrazak Gurnah, natural de Zanzibar.

Já há mais de uma década que não se premiava um africano. O comité Nobel justifica assim esta atribuição:

"O prémio foi atribuído ao romancista nascido em Zanzibar [região autónoma da Tanzânia] e ativo em Inglaterra, pela sua capacidade de mergulhar de forma intransigente mas também compassiva nos efeitos do colonialismo e nos destinos dos refugiados que estão num abismo, divididos entre culturas e continentes”

Embora o comité Nobel queira fazer parecer que não têm  motivações políticas, tal não corresponde bem à realidade. Nos últimos anos muito se tem falado sobre os erros do colonialismo e sobre os seus símbolos bem como é impossível passar ao lado do problema dos refugiados. Esta atribuição prova que os membros do comité não estão fora da vida real. 

Abdulrazak Gurnah chegou ao Reino Unido, como refugiado em 1960 e passou, agora, a fazer parte da já extensa galeria dos Prémios Nobel.

O escritor escreve em inglês e existe, apenas, um livro traduzido para português. Trata-se de "Junto ao mar", editado em 2003 em Portugal.

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Desafio Arte e Inspiração #4

Prima donna

Charneca em flor, 06.10.21

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Solange folheava um velho caderno de folhas amareladas. De vez em quando, parava e lia um pouco do que estava escrito. A ingenuidade que transparecia daquelas palavras inspirava-lhe inúmeros sorrisos. Aquilo que estava à sua frente era o diário que escrevia na adolescência. Encontrara-o, perdido, numa caixa de livros que nunca chegara a arrumar. O achado tinha-a feito recuar mais de 20 anos.

Por momentos, voltara a ser uma jovem sonhadora que imaginava como seria a sua vida de adulta. Naquelas páginas derramara as suas alegrias e as suas angústias bem como as suas lágrimas. Na época, a dança já ocupava grande parte do seu tempo. A professora que a acompanhava fizera-a acreditar que tinha as capacidades para se tornar uma prima donna. E ela alicerçara a sua vida nessa certeza. A sua dedicação era total. Enquanto as suas amigas iam ao cinema, a discotecas, namoriscavam com este ou com aquele, Solange treinava e voltava a treinar. Mesmo assim, ela julgara ser possível chegar ao topo do mundo da dança e construir uma vida familiar estável onde coubessem um marido e 2 filhos. Nas páginas do diário encontrava-se a descrição do marido perfeito e até os hipotéticos nomes para os filhos que nunca chegaram a nascer. Quanta ingenuidade.

A sua luta diária para ser a melhor bailarina do mundo dera resultado. Solange chegou a prima donna dançando com as melhores companhias de bailado e pisara alguns dos mais icónicos palcos do mundo. Nessa auto-estrada de sucesso, perdera-se do amor. Os poucos homens por quem se apaixonou espalharam-se pelas estradas secundárias da existência. Para que um sonho se realizasse, outros tiveram que se desfazer.

Agora, passados tantos e tantos anos, ali estava ela recordando os seus momentos de glória que, durante muito tempo, foram ofuscando a ausência daqueles que não chegaram a ser.

Solange vivera rodeada de pessoas que fingiam interessar-se por ela mas que só queriam aproveitar a sua sombra de árvore frondosa que se destacava na floresta. Aplaudida por multidões, agora ali estava ela, só, com um simples caderno de páginas amareladas por única companhia.

 

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1984, George Orwell

Charneca em flor, 30.09.21

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Neste mês de Setembro, o tema proposto pelo clube #umadúziadelivros foi "um livro com apenas uma palavra no título". Inicialmente, pensei em ler o livro "Bela" de Ana Cristina Silva e, talvez, ainda consiga lê-lo mas acabei por pegar neste "1984" para que fosse o livro mais importante deste mês.

Esta obra, de 1949, do britânico Orson Orwell é considerado um clássico da literatura europeia. A minha edição é a que está na imagem com uma belíssima capa de autoria do artista português Vhils.

"1984" é uma obra de ficção política mas também pode ser considerada uma distopia. Nesta história o mundo está dividido em 3 grandes potências, Oceânia, a Eurásia e a Estásia. Na Oceânia, a sociedade é dominada pelo Grande Irmão e pelo Partido e organizada em 3 estratos, o Partido Interno, o Partido Externo e os "proles". Estes pertencem ao nível mais baixo da sociedade e estão fora da influência do Partido. Os membros do Partido são constantemente vigiadas através de um telecrã que, não só vigia, mas também difunde as mensagens que o Partido emite. O Partido determina todos os aspectos da vida dos seus membros, seja o trabalho, a habitação, as relações amorosas e até os pensamentos. O Partido domina tudo desde a informação, a arte, a literatura até ao próprio passado chegando a reescrevê-lo várias vezes.

Presumo que o autor tenha criado esta "sociedade" a partir daquilo que se conhecia sobre os regimes totalitários que emergiam na Europa naquela época, principalmente o regime comunista, o fascismo espanhol, italiano ou português ou mesmo o Nazismo que já tinha terminado aquando da publicação do livro. No entanto, a distopia imaginada pela mente brilhante de Orwell tem um certo paralelismo com aquilo que vivemos hoje com a utilização massiva da Internet e das redes sociais. Aderimos, voluntariamente, a uma espécie de "Grande Irmão" que parece vigiarmos até os pensamentos no sentido em que uma determinada pesquisa faz com que sejamos bombardeados com outras publicações subordinadas ao mesmo tema, por exemplo. Ou a criarmos a nossa bolha nas redes sociais que nos faz acreditar que todas as pessoas pensam da mesma maneira e que concordam connosco.

"1984" é um livro importante para compreendermos a sociedade em que vivemos mas também para termos um vislumbre do que é viver sob o jugo de um regime totalitário baseado na existência de uma única pessoa/Partido. No entanto, não é um livro para qualquer pessoa. Não quero com isto dizer que é um livro para um certo tipo de intelectuais mas que o leitor que pega neste livro deve ter algum interesse e conhecimento em Política e em História mas tem que ter uma visão abrangente e clara da sociedade em que quer viver. Para mim "1984" pode ser uma perigosa arma na mão de alguns negacionistas e chalupas que pululam por aí.

"Lá fora, mesmo através da janela fechada, o mundo parecia frio. Em baixo, na ruam pequenos remoinhos de vento lançavam poeira e papéis rasgados em espirais e, ainda que o sol brilhasse e o céu se mostrasse de um azul severo, parecia não haver cor em nada, exceto nos cartazes afixados por toda a parte. O rosto de bigode negro mirava, sobranceiro, de cada canto e esquina. Havia um na fachada da casa mesmo em frente. O GRANDE IRMÃO ESTÁ A VIGIAR-TE,  dizia a legenda, enquanto os olhos escuros fixava  profundamente os de Winston."

 

 

Desafio Arte e Inspiração #3

Desespero ao entardecer

Charneca em flor, 29.09.21

O entardecer incendiava o céu. Junto à amurada da ponte, Gonçalo seguia com o olhar o curso revolto do rio. Naquela zona, o rio era bastante profundo escurecendo as suas águas. Mesmo assim, a escuridão das águas não se comparava ao negrume que sentia dentro dele. Não sabia que rumo dar à sua vida. Não conseguia conceber como seria o seu futuro, a sua única certeza era a infelicidade que sentia. Ele construíra uma vida mas, no seu íntimo, tinha a consciência que vivia há muito numa mentira. Só que não estava preparado para enfrentar o olhar reprovador dos outros. Ninguém o ia compreender. A única solução que via diante de si passava debaixo daquela ponte. Só precisava de um empurrão de coragem para conseguir ultrapassar aquele obstáculo e perder-se, para sempre, na fundura das águas.

Com força, fincava os dedos no parapeito antigo. Só precisava de mais esforço para seguir o seu destino.

- Atira-te. Não hesites tanto. – a seu lado, alguém cochichava. Não tinha reparado em ninguém ali perto. A pouca distância, viu um vulto. Não percebeu bem de quem se tratava, parecia uma senhora idosa e curvada.

- O que disse?

- Oh, filho, disse para te atirares à água. Tenho mais que fazer, não posso estar aqui o dia todo.

- Mas quem é a senhora? Como é que sabe que eu estava a pensar atirar-me ao rio? Eu nunca partilhei os meus pensamentos em voz alta. – Gonçalo estava atónito.

- Eu sei tudo. Conheço-te ao mais ínfimo pormenor até aos teus pensamentos mais escondidos. Eu sou… eu sou a Senhora da Morte. Estou aqui para te acompanhar na tua passagem.

- Mas veio aqui para me empurrar?! É que eu não tenho assim tanta certeza de que o caminho é este.

- O caminho é para baixo e despacha-te que eu tenho coisas a fazer e sítios para ir. Queres ajuda?

A idosa aproximou-se perigosamente e ele sentiu o frio que emanava da criatura.

- Não, não faças isso. Eu não sei viver sem ti – uma voz familiar gritava ao início da ponte. Era ele, a razão do seu desespero, o homem que ele amava. Quase desde a infância que ele sabia que nunca seria um homem como os outros. Ele sentia-se atraído por outros homens mas a sua família nunca iria aceitar. Para agradar aos seus, ele tinha casamento marcado para dali a uns dias mas sabia que não era justo para a sua noiva. A Margarida era uma grande amiga mas não a amava. Ali, correndo na sua direcção, estava o seu verdadeiro amor, Manel.
Manel abraçou-se a Gonçalo. As lágrimas corriam pelo rosto de ambos.
- Gonçalo, a solução não é esta. Eu estou contigo e não te vou abandonar. Juntos vamos conseguir com lidar com a tua família.

Lentamente, Manel afastou Gonçalo do parapeito da ponte. Unidos, como nunca tinham estado, e lado a lado, afastam-se em direcção ao futuro.

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Gonçalo, ainda, olhou para trás para ver se a Senhora da Morte continuava por lá. No meio da névoa, pareceu-lhe ver uma sombra que se desvanecia-se.

Desta vez, a Senhora da Morte não levou a melhor.

 

Mais uma semana do Desafio Arte e Inspiração. O quadro que nos serviu dr inspiração foi "O Grito" de Edvard Munch.

Quem o terá escolhido? 

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