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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

02
Ago19

Parabéns, Zeca Afonso (2/8/1929-23/02/1987)

Charneca em flor

 

Se fosse vivo, faria hoje 90 anos. Zeca Afonso foi o autor de algumas das mais belas canções da música portuguesa. É mais conhecido pelo seu activismo, por ser um cantor de intervenção e porque a sua "Grândola, Vila Morena" entrou para a História por ter sido uma das senhas do Movimento das Forças Armadas que levou a cabo a Revolução dos Cravos. Mas nem só de canções de intervenção vive a sua obra que perdura até hoje. É quase impossível ter crescido no pós-25 de Abril e não ter crescido com a sua música. Faz parte do imaginário daqueles que têm, hoje 40/50 anos.

Muitas das suas canções têm letras escritas por ele. Na minha opinião, para além da sua sonoridade típica, os seus poemas são excepcionais. Como este  por exemplo

Dorme meu menino a estrela dàlva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é muito menina
Deixa-a vir também adormecer

 

 

28
Jul19

"Quem assim falou", José Jorge Letria

Charneca em flor

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Este livro andava cá por casa há uns anos. Comprei numa promoção e depois nunca mais lhe peguei. Dei com ele, inesperadamente, e resolvi lê-lo. O autor, José Jorge Letria, reuniu um conjunto de "Grandes frases de todos os tempos", ou seja, frases marcantes que entraram no nosso discurso mas que, muitas vezes, nem fazemos ideia de quem as pronunciou pela primeira vez. Neste livro, cada entrada corresponde a uma frase com um pequena biografia do autor e do contexto em que a frase foi pronunciada pela primeira vez. No caso das frases mais antigas não há certezas absolutas do autor por isso a mesma frase pode ter sido atribuída a pessoas diferentes. Achei o livro muito interessante até porque gosto de usar estas frases clássicas e considero uma lacuna grave no meu conhecimento usar frases sem saber de onde vieram. Não sei se o livro ainda é vendido mas é  muito interessante. Talvez se encontre em bibliotecas públicas, por exemplo.

É muito difícil escolher uma destas frases para ilustrar este post. Vou optar por uma que não conhecia mas que me parece um exemplo de humildade e sentido autocrítico:

"Ninguém é herói para o seu criado de quarto

Em relação à literatura e às artes em geral, é frequente dizer-se, para se salvaguardar o talento ou mesmo a genialidade dos criadores, que o importante é conhecer a obra e não o autor e a sua vida. Deste modoevidencia-se a noção de que os hábitos quotidianos das grandes figuras, desde que observadas de perto, retiram inevitavelmente brilho ao que elas fazem e representam.

Talvez por isso a famoxa cortesã francesa Madame de Sévigné tenha escrito numa das cartas da sua profusa correspondência: 《Não existe um grande homem para o seu criado de quarto.》Com efeito, quem conhece de muito perto o adormecer e o despertar do seu amo, as suas baixezas e contradições morais, as traições e os ódios que lhe pontuam a vida, dificilmente pode admirar sem limites aquele que serve.

A frase, pela sua carga crítica e pela profundidade psicológica, foi entretanto utilizada por estadistas e escritores. Luís II de França, ao ser bajulado pelos seus cortesãos, terá respondido algo do género: 《Se assim achais, ide perguntar ao meu criado de quarto.》"

17
Jul19

A Imortal da Graça, Filipe Homem Fonseca

Charneca em flor

Filipe Homem Fonseca é escritor, dramaturgo, realizador, músico, ou seja, é o homem dos 7 instrumentos mas é mais conhecido pelo seu talento para escrever humor já que foi argumentista de Herman Enciclopédia, Contra-Informação ou Conversa da Treta. Para além disso, Filipe Homem Fonseca já publicou poesia e romances. Este "A Imortal da Graça" não é um livro de humor mas está carregado de ironia. A acção passa-se no bairro, lisboeta, da Graça o qual está, tal como toda a cidade, em obras e invadido por turistas. Os seus habitantes sentem-se entrincheirados com a sensação de que não conseguem sair do bairro. Entre as pessoas que têm, ainda, o privilégio de viver num bairro típico encontramos várias senhoras idosas que "lutam" pelo apetecível título de "a mais velha" do bairro. Nem que tenham que acelerar a viagem final das que são mais velhas. A relação entre estas idosas obedece à velha máxima "a idade é um posto". 

"A Imortal da Graça" conta uma história actual que aborda a pressão turística e imobiliária que Lisboa tem sofrido nos últimos anos, as obras constantes, as dificuldades que enfrentam aqueles que não desistem de viver na cidade mas também o abandono a que os idosos estão sujeitos. Não é uma obra intemporal mas é um livro que guarda, nas suas páginas, este momento particular da história da cidade de Lisboa. Um livro indicado para todos aqueles que amam a cidade de Lisboa e que apreciam uma certa ironia subtil na qual Filipe Homem Fonseca é mestre.

Sinopse:

"A idade é um posto e as mulheres do bairro lutam entre si pelo título da mais velha. Graça, jovem com o mesmo nome do bairro onde habita, é dama de companhia da número um, senhora centenária; só assim pode morar na Lisboa das rendas ridiculamente altas. Actores famosos de Holywood aguardam o despejo ou a morre de mais um residente para poderem ocupar-lhe a casa. Gabriel ganhou o Euromilhões mas as obras de renovação do bairro formam um muro que o impede de sair e reclamar o prémio. Embeiçou-se por Graça e quer levá-la a jantar. Graça não quer sair; Gabriel não quer ficar. Do choque entre estas vontades nascerá a tragédia. A execução em câmara lenta prepara-se no palco feito de escombros. Uma cidade eternamente a arranjar-se para sair daqui, de si própria."

21
Jun19

Sophia de Mello Breyner Andresen, Isabel Nery

Charneca em flor

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Como já tenho escrito por aqui, gosto muito de biografias. Assim que descobri que este livro ia sair, resolvi logo que ele viria morar cá para casa. E não me arrependi. Este livro é um excelente trabalho da jornalista Isabel Nery. Percebe-se que fez uma extraordinária investigação para percebermos quem foi esta figura maior da cultura portuguesa do século XX. Para fazer este livro, Isabel Nery procurou as origens de Sophia chegando ao ponto de ir à ilha onde o seu bisavô Jan Andresen nasceu e de onde saiu na viagem que terminou, inesperadamente, no Porto. Nesta obra, descobrimos que Sophia foi, ao mesmo tempo, humana e divina. O livro aborda as origens, como já disse, a ligação com o mar, com a Grécia, a relação com a família incluindo a relação com Francisco Sousa Tavares e com os filhos, com os amigos, com outros escritores e a sua intervenção cívica e política. 

Este livro reforçou a minha convicção de que Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma pessoa especial. Para além do seu talento, amplamente conhecido, encontrei uma personalidade peculiar, uma mulher, ao mesmo tempo forte e frágil, e que dominou a língua portuguesa como ninguém. 

Esta obra devia ser de leitura obrigatória para todos os portugueses, especialmente neste ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.

"Mais do que um lugar, a Grécia passou a ser um estado de espírito. Uma explicação. Ao ponto de amigos e confidentes como frei Bento Domingues afirmarem que Sophia era composta por mar e cultura grega.

De facto, dificilmente se compreenderá a relação simbiótica entre ética, estética, poder e a poesia de Sophia sem rumar à Grécia. Agora não tanto ao território geográfico da luz pura, que idealiza, mas ao legado helénico da cultura que Homero, considerado o educador de todos os poetas, deixou ao Ocidente."

"E 《O Poeta》:

O poeta é igual ao jardim das estátuas 

Ao perfume do Verão que se perde no vento.

Veio sem que os outros nunca o vissem

E as suas palavras devoravam o tempo."

               Os Poetas, Sophia de Mello Breyner Andresen 

 

12
Jun19

Eu comprava...

Charneca em flor

Aqui há dias, enquanto atendia uma das minhas utentes, falávamos de coisas que nada tinham a ver com medicamentos. Veio à baila uma biografia de uma pessoa conhecida da terra bem como o falecimento de Agustina Bessa-Luís. Comentei que gosto muito de biografias e que estava a ler a biografia de Sophia de Mello Breyner Andersen. A dada altura digo eu: "Porque é que a senhora não escreve uma auto-biografia?! A senhora deve ter tido uma vida bem interessante (e teve, de facto, porque, através da profissão do seu falecido marido, viveu em vários países e deve ter conhecido pessoas  muito interessantes.)."

Ao que ela responde: "ah, não, nem pensar. Não se esqueça que eu fui casada com um escritor durante 35 anos. Escritora é que nunca seria."

"Que pena. Eu comprava a sua biografia" - disse eu.

"Eu escrevo mas só para mim. De resto já há muita gente a escrever livros. Não é preciso mais uma"

Olhando para as prateleiras dos bestsellers, tenho que concordar com esta sábia senhora. Há demasiadas pessoas a publicar livros. 

11
Jun19

A verdadeira influência de Madonna

Charneca em flor

Por aquilo que me apercebi, o novo disco da Madonna ainda não está disponível por completo nas plataformas de streaming. Também não sei se já está à venda. Confesso que tenho alguma curiosidade já que a artista diz que as experiências que viveu em Lisboa e em Portugal a inspiraram neste novo trabalho. Já ouvi as 3 músicas que foram divulgadas e, sinceramente, não dei por nenhuma inspiração lusa ou mesmo lusófona. Até aceito que o defeito seja meu tendo em conta que não sou grande entendida. No entanto, ontem, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, fez-se luz na minha cabeça 

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Madonna faz uma homenagem ao nosso maior poeta. Entra pelos olhos dentro 

05
Jun19

Em parte incerta

Charneca em flor

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No fim-de-semana passado, o Expresso noticiou que há 170 obras de arte, que pertenciam ao Estado, desaparecidas. A Direcção-Geral do Património Cultural tem conduzido um processo de inventário e classifica estas obras como estando em "localização desconhecida". Ou seja, em bom português, quer dizer que estão perdidas. A Sra Ministra da Cultura, Graça Fonseca, diz que "as obras não estão perdidas, estão por localizar. Esta Ministra parece-me um claro erro de casting de António Costa. Já tem tido atitudes muito arrogantes como esta, aliás. Sra. Ministra  não é por usar um eufemismo que a realidade é diferente. Se o seu Ministério não sabe onde estão as obras é porque estão perdidas. Se nós não conseguimos localizar um objecto é porque o perdemos ou então não sabemos onde estão. Que é o que acontece com estas obras. Ao longo dos anos, foram sendo emprestadas sem qualquer tipo de controlo. Será que não haverá, por aí, casas ricamente decoradas graças a estas distracções do sector da cultura?

 

04
Jun19

Agustina Bessa-Luís, 1922-2019

Charneca em flor

Ontem faleceu Agustina Bessa-Luís, um dos maiores vultos da literatura portuguesa. Curiosamente, nunca li nada dela. Sempre tive curiosidade pela figura de Agustina Bessa-Luís. A imagem que transparecia das imagens que nos chegavam pela comunicação social era a de uma pessoa sorridente e com um ar bem disposto. Um dia, ainda vou ler um livro dela.

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"Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração."

21
Mai19

Chico Buarque, Prémio Camões 2019

Charneca em flor

Hoje foi anunciado que o Prémio Camões deste ano é atribuído ao músico e romancista Chico Buarque.

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O Prémio Camões foi criado pelos Governos de Portugal e do Brasil em 1988 e pretende distinguir os autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. Os autores são galardoados pelo conjunto da sua obra. O Prémio é atribuído alternadamente nos 2 países que o criaram. Os autores distinguidos podem brasileiros, portugueses ou de qualquer outro país de língua e expressão portuguesa.

Como é óbvio, às vezes o escolhido não é consensual gerando até controvérsia. Imagino que este ano não haja controvérsia uma vez que Chico Buarque é muito apreciado nos 2 lados do Atlântico. 

Na minha modesta opinião, acho que o Prémio Camões foi bem atribuído já que Chico Buarque tem sido um brilhante agente de divulgação da nossa língua quer através dos brilhantes poemas que canta quer através dos seus romances ou das suas peças de teatro.

 

10
Mai19

Salvação, Ana Cristina Silva

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Já diz o povo "Santos da casa não fazem milagres" ou "Ninguém é profeta na sua própria terra". Esta escritora é minha conhecida. Já nos temos cruzado na cidade onde trabalho. Ana Cristina Silva já publicou várias obras tendo, inclusivé, ganho 2 prémios literários. Eu nunca tinha lido nada dela até agora. O tema central de "Salvação" é o luto, a maneira como um escritor, que perde a mulher, lida com o processo de luto. A mulher, no leito de morte, pede-lhe escreva um romance para lidar com a partida dela. Então o homem transfere a sua dor para um personagem que passa pela mesma perda. Assim há uma história dentro da história, muito bem encadeadas. A autora aborda, também, os extremismos religiosos fazendo um paraleslismo entre a actualidade e o tempo da Inquisição.

O processo do luto é diferente para todas as pessoas. E há vários tipos de luto seja  pela perda de alguém fisicamente, seja pelo fim de uma relação amorosa ou de amizade, seja porque nos perdemos a nós mesmos. O luto é necessário para conseguirmos seguir em frente, sem esquecer o passado mas vivendo o presente e não o que já não volta. A meu ver, é isso que Ana Cristina Silva consegue demonstrar com o seu romance. Afinal, seja qual for a dor há sempre "Salvação".

"No preciso momento em que formulo estas perguntas, elas deixam de me importar, ainda que suspeite que poderão voltar a interessar-me. O sofrimento do luto é assim: um longo corredor que não é possível passar a correr. Esta foi a única coisa que aprendi nos últimos dois meses."

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