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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

"Uma Pequena Vida", Hanya Yanagihara

Charneca em flor, 01.02.23

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Ler "Uma Pequena Vida" é, antes de mais, um grande desafio. Afinal, são quase 700 páginas cuja leitura ocupou cerca de 19 horas, distribuídas ao longo de 20 dias. Durante esse tempo, senti-me completamente dominada por este leitura e refém da história criada por Hanya Yanagihara.

O ponto de partida é amizade que se desenvolve entre quatro jovens que se conhecem na Universidade, Willem, JB, Malcolm e Jude. Os laços que se forjam entre eles são tão fortes que se mantêm, com altos e baixos, por toda a vida. Em "Uma Pequena Vida" acompanha-se a entrada na vida adulta bem como as décadas seguintes. Enquanto os jovens procuram a auto-realização vão percebendo que a saúde física e psicológica do mais brilhante de todos, Jude, se vai deteriorando ao longo do tempo. Jude foi sempre o mais enigmático e misterioso. Em tantos anos de amizade, nenhum deles soube nada sobre a vida passada do amigo. E é no passado que se encontram todas as respostas.

Hanya Yanagihara criou uma história que tem tanto de fenomenal como de doloroso. As personagens estão muito bem desenvolvidas e é impossível não nos apaixonarmos por elas. Tal como pessoas reais, têm qualidades e defeitos e nem sempre têm as melhores atitudes, como acontece na vida. 

"Uma Pequena Vida" tem passagens muito bonitas que nos fazem acreditar no valor da amizade e do amor mas, ao mesmo, são descritas situações tão cruas e duras que conseguem provocar sensações físicas nos leitores. Em certos momentos, senti-me verdadeiramente nauseada e tive que parar a leitura porque não aguentava nem mais uma linha.

Admito que caí na "armadilha" da autora. Hanya Yanagihara manipula o leitor com tal mestria que, por mais "bofetadas" que as suas palavras me dessem, eu não conseguia parar de ler na esperança de que esta vida não fosse assim tão dramática.

Este livro faz-nos calçar os sapatos do outro, daquele que vive em constante sofrimento, daquele que tem atitudes incompreensíveis mas que não podemos julgar porque não conhecemos que caminho teve que percorrer até chegar ao momento em que se cruza connosco.

Não posso, em consciência, aconselhar esta leitura mesmo que "Uma Pequena Vida" tenha conquistado um lugar de destaque nos livros da minha vida. Este não é um livro para qualquer pessoa. Só alguém com uma grande capacidade de tolerância à dor será capaz de levar esta tarefa até ao fim. Não é uma leitura fácil mas eu sinto-me orgulhosa por ter conseguido ultrapassar a este desafio.

 

"Sentiu o aguilhão da culpa depois de falar com um e outro, mas a decisão estava tomada. Seria melhor assim, tinha a certeza: não trazia nada de bom às vidas deles. Era uma coleção de problemas bizarros, não mais do que isso, e, a menos que de alguma maneira se fizesse parar, consumi-los-ia com as suas necessidades. Exigiria
sempre mais, devorando-os a6te lhes deixar apenas os ossos. Encontrariam maneira de resolver cada dificuldade que eles lhe apresentassem e ele sempre encontraria novas maneiras de os destruir. Estariam de luto durante algum tempo, claro, porque eram pessoas boas - as melhores do mundo - ele lamentava que assim tivesse de acontecer, mas acabariam por perceber que tinham ficado melhor depois de ele partir. Dar-se-iam conta de todo tempo que Ihes fora roubado e concluiriam que ele fora um ladrão que lhes sugara a energia e a atenção até à ultima gota. Tinha esperança de que perdoariam, de que acabariam por ver que esta era a sua maneira de lhes pedir perdão. Estava a libertá-los. Eram as pessoas que ele mais amava no mundo e é isso que se faz quando se ama alguém: da-se-lhe a liberdade."

 

Serei Sempre uma Mulher, Luísa Sobral

Charneca em flor, 30.01.23

Acompanho o trabalho de Luísa Sobral há muitos anos, provavelmente desde que voltou dos Estados Unidos da América onde esteve a estudar. Felizmente os últimos anos têm-nos trazido inúmeras mulheres compositoras/letristas com imensa qualidade o que não era frequente até há cerca de 15 anos atrás. Luísa Sobral é uma compositora muito talentosa. Afinal, conquistou, em conjunto com a interpretação do seu irmão Salvador Sobral, a nossa vitória no Festival da Eurovisão. 

Em 2022, Luísa Sobral lançou o seu disco "DanSando" constituído por músicas muito alegres, na sua maioria. O disco termina com uma música muito especial para a qual foi lançado um vídeo no fim da semana passada.

A cantautora descreve assim esta canção:

“muitas das injustiças e violência a que as mulheres são expostas sem nunca desistirem da sua força”.

“Foi a pensar nessas mulheres que escrevi esta canção, sem saber que uns meses mais tarde morreria Mahsa Amini, uma mulher iraniana a quem foi retirada a vida por usar o hijab de forma inadequada. Nesse dia a minha canção tornou-se sobre ela também e sobre todos aqueles que quiseram vingar a sua morte com protestos, muitos deles perdendo a vida ao fazê-lo. Esta é a minha forma de protesto, pela Mahsa, pelas mulheres iranianas e afegãs, e por todas as mulheres que nas suas vidas e profissões se sentem inferiorizadas. Porque ainda acredito que o caminho seja para a frente, mesmo que às vezes se dê dois passos atrás”

A arte, seja qual fôr a sua forma, também tem a função de despertar consciências. E esta música é um bom exemplo disso.

Boa semana.

 

Deve ser, Deve - Guilherme Fonseca

Charneca em flor, 25.01.23

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Nos últimos dias de 2022, introduzi este livro no meio da leitura de um outro livro mais denso e mais longo. A leitura terminou já em Janeiro.

"Deve ser, Deve" é um livro de humor à volta de vários tipos de negocionismo. Embora o negacionismo e as teorias de conspiração sempre tenham existido, a pandemia tornou estas pessoas muito mais visíveis. 

O humorista Guilherme Fonseca fez o sacrifício de se debruçar sobre estes assuntos para nos dar a conhecer este mundo complexo. Às vezes custa a crer que estas pessoas existem e que acreditem piamente nestas teorias rocambolescas. Numa época em que o conhecimento científico está disponível à distância de um clique, é inacreditável que haja quem acredite em tantas patranhas e que siga os seus criadores como se de uma seita se tratasse.

O autor mergulhou nas águas mais profundas da internet, tentou perceber a forma como a mente destes chalupas funciona, descontruíu estas ideias e produziu um texto muito divertido. Obviamente, que estas pessoas facilitam o trabalho dos humoristas. Só a descrição da teoria em questão já dá vontade de rir mas o Guilherme Fonseca consegue aumentar o nosso nível de gargalhadas. E até me levou a descobriu teorias das quais eu nunca tinha ouvido falar.

Só me resta agradecer o trabalho árduo que o Guilherme Fonseca teve em escavar estes temas. Pobre coitado. 

"Acontece muito confundir-se um negacionista com um teórico da conspiracao, mas são conceitos diferentes. Um negacionista recusa-se a acreditar numa evidência, um teórico da conspiração preenche o vazio da falta de evidência com teorias inventadas. E diferente. Um negacionista diz: 《A covid não existe!. Um teórico da conspiração responde: 《Não isso é estupidez, a covid existe! Mas existe porque um laboratório 6chines recebeu dinheiro de um filho perdido do Tupac com o Elvis para espalhar a doença, porque os aliens querem mandar no mundo para comprarem um terreno em Estremoz para exploração de mirtilos. Essa é que é essa!》

Um teórico da conspiração é um negacionista, mas um negacionista pode não ser (ainda) um teórico da conspiração. No fundo, o negacionistas é a criança que se recusa a acreditar que o Telmo do 6. B deu um beijo a Cátia, apesar de os ter visto com a língua na boca um do outro depois da aula de Matematica. Um teorico da conspiracao é o que diz que o Telmo não deu o beijo a Cátia porque aquela Cátia é, na verdade, uma criatura de uma raça de lagartos humanóides que se infiltraram em lugares de poder pelo mundo para dominarem os humanos. Mas isso seria mais complicado de explicar, e agora é preciso ir ali perguntar ao Telmo a que e6 que sabe a língua da Cátia.
Quando um negacionista levanta questões sobre a veracidade de algo, o teórico da conspiração aparece com respostas estapafúrdias.
O negacionista levanta dúvidas que ninguém tem; o teórico traz as respostas de que ninguém se lembrou."

 

 

Não dá, Paulo Gonzo

Charneca em flor, 23.01.23

O artista já é consagrado mas a música é nova. O talento e a voz inconfundível de Paulo Gonzo para alegrar o vosso início de semana

"Eu só queria ter-te um pouco mais comigo
Que o relógio não virasse mais o livro
Mas não dá, não dá
Porque o tempo passa sem deixar vestígio"

 

 

Boa semana.

Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago

Charneca em flor, 17.01.23

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"O Evangelho segundo Jesus Cristo" é a obra mais polémica de José Saramago. A sua primeira edição data de 1991. A publicação causou enorme perturbação no país, não só nos sectores católicos como no governo e em grande parte da sociedade nacional. Aliás, este livro foi vetado pelo Secretário de Estado da Cultura como candidato ao Prémio Europeu da Literatura por não respeitar a moral cristã. Estes acontecimentos precipitaram a saída de José Saramago de Portugal para ir viver para a ilha espanhola de Lanzarote.

Este livro começa um pouco antes do nascimento de Jesus e termina com a sua morte mas o autor  conta a história de forma completamente diferente daquilo que é aceite pela doutrina da Igreja Católica. José Saramago cometeu a ousadia de humanizar a Sagrada Família das mais variadas formas. Para além disso, o deus retratado por José Saramago é cruel, irascível e vingativo. Ao contrário daquilo que dizem as Sagradas Escrituras, este Jesus é um homem frágil, cheio de dúvidas e que, em vez de se sacrificar voluntariamente para salvação dos homens, se sente ludibriado por Deus,

Se não tivesse sido proposto no grupo de Leitura Conjunta de Saramago, talvez nunca tivesse pegado neste livro. A visão que José Saramago tem sobre Deus e sobre a religião é totalmente diferente da minha forma de olhar estes temas. Se fosse interpretar este livro, apenas, à luz da doutrina cristã não teria sido capaz de o ler. No entanto, aqui não se trata de doutrina, mas de literatura. E esta é uma obra magnífica, sem sombra de dúvida. Li este livro com grande prazer porque, mesmo conhecendo as linhas gerais desta história, fiquei fascinada com a forma como José Saramago construíu este evangelho alternativo. 

Ao contrário de "Caim" de que não gostei especialmente e até me chocou nalgumas passagens, "O Evangelho segundo Jesus Cristo" não me chocou de forma nenhuma, nem sequer nas passagens que se referem à concepção de Jesus ou à sua relação com Maria Madalena. Mesmo que Jesus Cristo tivesse sido mais humano e menos divino, eu continuaria a acreditar na Sua presença na minha vida.

Seja como fôr, este livro é um dos melhores que José Saramago escreveu e faz parte dos melhores livros que li em 2022.

"Está visto que as pessoas não andam todas por aí a pedir milagres, cada um de nós, com o tempo, habitua-se às suas pequenas ou medianas mazelas e com elas vai vivendo sem que alguma vez lhe passe pela cabeça importunar os altos poderes, mas os pecados são outra coisa, os pecados atormentam por baixo do que se vê, não são perna coxa nem braço tolhido, não são lepra de fora, mas são lepra de dentro. Por isso tinha tido Deus muita razão quando a Jesus disse que todo o homem tem pelo menos um pecado de que se arrepender, e o mais corrente e normal é que tenha muitíssimos."

Bocas do Mundo, Sara Correia e Israel Fernández

Charneca em flor, 16.01.23

Quando o fado se encontra com o flamemgo, o resultado é este

Sara Correia é uma mais potentes vozes do fado da actualidade. A fadista tem, apenas, 29 anos e o seu primeiro disco saiu em 2018 mas já tem o seu nome gravado no firmamento do fado.

Israel Fernández nasceu no seio de uma família cigana em Toledo e desde cedo que lhe foi inculcado o amor pela música flamenga. Tendo participado em concursos de talentos, gravou o seu primeiro disco em 2008 quando tinha 18 anos.

Sara Correia e Israel Fernández cruzaram-se na cerimónia de entrega dos Grammys Latinos onde estavam os dois nomeados. Saíram de mãos a abanar mas entre eles começou a despontar a amizade e a vontade de fazerem um projecto em conjunto. Assim nasceu "Bocas do Mundo".

Boa semana.

Daqui fala o Sam, Dustin Thao

Charneca em flor, 11.01.23

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"Daqui fala o Sam" foi a escolha de Dezembro, da Joana da Silva, para o Clube do Livra-te. Aproveito já para esclarecer que tenho consciência de que não sou o público-alvo deste romance mas, nos últimos anos, tenho tentado diversificar as minhas leituras. As propostas do Livra-te são uma boa forma de ler livros que, de outra maneira, não me chamariam a atenção.

"Daqui fala o Sam" tem como personagem central, uma jovem de 17 anos, Julie Clarke. Como todas as jovens, Julie tem sonhos por realizar e projectos para concretizar, ao lado do seu namorado Sam. Até que tudo muda quando Sam morre num trágico acidente. A dor profunda que sente faz com queira "enterrar" as recordações que partilhara com Sam. No entanto, um dia resolve ligar para o telemóvel dele para ouvir, pela última vez, a mensagem de voicemail. Só que Sam atende a chamada e, de forma surpreendente, estabelece-se uma comunicação entre eles para que Julie se possa despedir. 

Não sendo um livro marcante, foi uma boa leitura. Na minha opinião, Dustin Thao descreveu bem a forma como um adolescente lida com a morte de alguém próximo, seja um namorado ou um amigo. A premissa de que o autor partiu é muito boa tendo em conta a relação que, hoje em dia, se estabelece com o telemóvel. Não tenho a certeza de que a ideia tenha sido bem concretizada uma vez que o autor deixou muitas pontas soltas e pormenores que mereciam um maior desenvolvimento. 

Nesta fase da minha vida, e embora me tenha comovido, esta história não me apelou tanto ao sentimento como seria de esperar. Se o lesse aos 18 anos, provocaria muitas lágrimas, com toda a certeza.

Seja como fôr, escrever sobre o tema do luto na adolescência parece-se muito meritório. Não seria bom que houvesse uma última oportunidade para nos despedirmos daqueles que amamos?!

"Não te preocupes. Temos todo o tempo do mundo para fazer isso. Todo o tempo do mundo... As palavras ecoam por mim enquanto uma aragem entra pela janela, volteando sobre a minha pele. Fito o relógio sobre a porta. Não tinha reparado nele antes. Faltam-lhe os ponteiros.
Lá fora continua a não haver nada além de nuvens reluzentes. Agora que penso nisso, há quanto tempo é que o sol se esta a pôr?

- Passa-se alguma coisa? - A voz do Sam traz-me de volta para ele. Pestanejo algumas vezes."

Jane Eyre, Charlotte Brontë

Charneca em flor, 30.12.22

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No mês de Novembro, ainda houve tempo para a leitura do clássico "Jane Eyre". Este livro foi escolhido pelos seguidores do Livra-te para leitura conjunta do penúltimo mês de 2022.

Conhecemos Jane Eyre como uma criança órfã e infeliz, acolhida pela viúva do seu tio. Jane Eyre cresce sem amor e carinho até que é enviada para um colégio interno onde a sua situação não é muito melhor mas adquire as ferramentas para se tornar, também ela, professora. Quando a sua amiga directora abandona o colégio depois de se casar, Jane Eyre resolve tentar a sorte como preceptora. Jane Eyre é contratada para Thornfield Hall de forma a ensinar a pequena Adèle, uma criança acolhida pelo taciturno Mr. Rochester.

A minha edição deste livro tem esta capa linda mas encontrei alguns erros na edição de texto. Nada que me impedisse de ficar encantada com este livro. Apesar de Charlotte Brontë contar uma história que se enquadra na época em que foi escrita, nas entrelinhas encontramos um pensamento à frente do seu tempo. As identidades femininas e masculinas têm características muito marcadas mas a nossa personagem central apresenta uma certa dualidade na maneira como decide os passos a tomar na sua vida. No séc. XIX era muito difícil a uma mulher subsistir sem familiares que olhassem por ela mas isso não impede Jane Eyre de ir à luta e tentar ser dona do seu destino. Embora este livro tenha cerca de 175 anos, percebe-se continuam a existir pessoas com as mesmas características das personagens deste romance, sejam femininas ou masculinas. Afinal, aquilo que nos torna aquilo que somos não depende das épocas mas atravessa os tempos.

"- Isso vai além dos poderes m6agicos, senhor. - E acrescentei, só para mim: 《Uns olhos apaixonados são todo o encanto necessário: para eles, és belo suficientemente; ou, por outra, a tua rudeza vale mais do que todas as belezas.》

O Sr. Rochester lera por vezes nos meus pensamentos com uma tal clareza que me parecia incompreensível. Desta vez, porém, nanão o reparou na breve resposta que eu lhe dera e pôs-se a sorrir, com um sorriso só dele, mas que só raramente lhe aparecia como se o achasse bom de mais para as ocasiões ordinárias; esse sorriso era um verdadeiro raio de sol... Senti-me iluminada, inundada, aquecida."

De Amanhã em Amanhã, Gabrielle Zevin

Charneca em flor, 27.12.22

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Este livro foi escolhido, no mês de Novembro pela Joana da Silva do Clube do Livra-te. Devo começar por dizer que, dificilmente, pegaria neste livro se não fosse o Clube do Livra-te. A capa é muito apelativa já que se trata de um pormenor do quadro "A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai que até já passou por este blog.

Em "De Amanhã em Amanhã" encontramos Sam e Sadie. As suas vidas cruzam-se na infância, num hospital, por circunstâncias dramáticas. O principal interesse que partilham é a paixão pelos videojogos. Entre ambos surge uma forte amizade mas um mal entendido acaba por afastá-los. Até que se voltam a cruzar no início da vida adulta. Quer Sam quer Sadie continuam a adorar jogos de computador e estão na universidade. Sam convence Sadie a desenvolverem um jogo em conjunto e as suas vidas ficarão, irremediavelmente, ligadas.

"De Amanhã em Amanhã" lê-se muito bem e a leitura foi uma experiência agradável. Não me identifiquei com as personagens mas acabei por gostar desta história de amizade e amor pontuada por inúmeros equívocos.

Nunca fui grande apreciadora de jogos embora tenha tido as minhas fases de Sims, Farmville ou Angry Birds. Não sei se foi por isso mas não me senti muito cativada pelo contexto onde a história se insere nem percebi algumas das referências relacionadas com o universo do gaming. A autora situa a história no início dos anos 90 mas encontram-se algumas incongruências temporais nesse contexto histórico como, por exemplo, a alusão à identidade de género. Outro ponto menos positivo é a extensão do livro. Para contar esta história não eram necessárias tantas páginas. A autora pretende, de tal maneira, mostrar os problemas de comunicação entre as personagens centrais que repete várias vezes a mesma ideia. 

A construção das personagens centrais, Sam e Sadie, é um dos pontos positivos do livro. Adorei as suas personalidades ressentidas, com os seus defeitos e as suas dificuldades comunicacionais. Os diálogos são, também, um dos pontos fortes do livro.O final, para mim, foi o culminar perfeito para esta história. "De Amanhã em Amanhã" não entra nos meus livros preferidos de 2022 mas não deixa de ser uma boa leitura. Experimentem.

 

"- Concordo. Mesmo assim, ainda gostaria de voltar a fazer um jogo contigo, se alguma vez arranjares tempo.
- Achas que é boa ideia?
- Provavelmente não - admitiu Sam, com uma risada. - Mas quero fazê-lo na mesma. Não sei como deixar de querer. Sempre que te encontrar, para o resto das nossas vidas, vou pedir-te para fazeres um jogo comigo. Ha um sulco no meu cérebro que insiste que é boa ideia.
- Mas essa não é a definição de loucura? Continuar a repetir a mesma coisa, a espera de um resultado diferente?
- É também a vida da personagem de um jogo - disse Sam. - O mundo de reinícios infinitos. Recomeça do principio, desta vez talvez consigas ganhar. E nem todos os nossos resultados foram maus. Eu adoro as coisas que criámos. Éramos uma equipa fantástica."