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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.8

Foi tão bom, não foi

Charneca em flor, 23.03.20

A vida corria sem sobressaltos. De manhã, os adultos iam trabalhar e as crianças iam alegremente para a escola para aprender mas também para conviverem e brincarem com os amigos. Algumas pessoas cumprimentavam-se efusivamente, com beijos e abraços, e ninguém receava a proximidade do outro.
Nas ruas circulavam carros, autocarros, eléctricos, trotinetes e muitos tuktuk's com turistas. Como estava a começar a Primavera, as esplanadas estavam repletas de pessoas que aproveitavam os primeiros dias de sol. Algumas, menos friorentas, caminhavam à beira-mar. Outras enchiam os corredores dos centros comerciais.
Ao domingo, as igrejas estavam abertas para a missa dominical, casamentos e baptizados. Mas havia sempre quem aproveitasse o tempo-livre para as compras do mês num qualquer hipermercado com prateleiras repletas de opções mais ou menos saudáveis para as refeições quotidianas.
Faltavam poucos dias para as férias da Páscoa e eu já andava ocupada com os preparativos para a viagem que faria ao sul de Espanha. O plano era acompanhar as cerimónias da Páscoa que são sempre maravilhosas no nosso país vizinho. Era tão fácil viajar porque não havia fronteiras entre nós. Os europeus faziam parte de uma grande família, a União Europeia. Era possível percorrer, sem qualquer problema, toda a distância que separa Lisboa de Helsínquia.
Recordo-me de que já estava também a organizar as férias de Verão. Era tão bom, poder descobrir inúmeros caminhos desconhecidos por esse mundo fora. Para mim, essa era a verdadeira liberdade.
Só que depois acordei e lembrei-me de que a vida era muito diferente daquele sonho tão bom e delicioso. Acordar deixou-me tão triste. Só queria continuar a dormir para não deixar de viver naquela fantasia.
Olhando pela janela reparei que não havia carros na estrada e ninguém ia trabalhar ou para a escola. O mundo real era completamente diferente do meu mundo sonhado. As poucas pessoas que andavam na rua, caminhavam isoladamente esforçando-se por deixar uma distância segura entre elas e os outros que também cirandavam por ali. Um ou outro indivíduo usava máscara e luvas nas mãos. Tudo isto é fruto da nuvem negra que paira sobre a humanidade por estes dias. Sim, a doença de que todos falam é como uma neblina que cobre tudo transformando o mundo num lugar triste e cinzento. Por isso, foi tão ter vivido aquele sonho esta noite. Por momentos, consegui fugir desta dura realidade.

 

Texto criativo escrito no âmbito dos desafio lançados pelos Pássaros

O meu tempo é limitado mas vou fazer um esforço por participar para manter alguma normalidade nesta surrealidade que nos rodeia.

 

Let’s make blogs great again!

Lotaria Literária #82

Charneca em flor, 23.03.20

"Era um volume pequeno, publicado há mais de vinte anos, cuja autora começava logo por arriscar a pele na primeira página dedicando-o 《aos poucos homens que não se deixam amestrar, às poucas mulheres que não se vendem, e aos felizes que não têm valor de mercado, porque são demasiado velhos, ou feios, ou doentes.》"

Uma mulher não chora

Rita Ferro

Dom Quixote

ISBN 978-972-20-3306-0