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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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A Casa do Monte - Aconteceu à hora do ocaso

Charneca em flor, 03.07.20

- Olá - responde Sofia, timidamente – Nós conhecemo-nos? É que não me lembro de ti.

- Na verdade, não. Posso sentar-me aqui ao lado? – Pedro sentou-se sem esperar pela resposta - Eu passo todos os dias pela tua casa quando venho para a praia.

- Ah, é verdade. Hoje acenaste-me.

- Já tinha reparado na tua casa. Mas não costumas cá vir muitas vezes, pois não? Já tinha pensado que era uma pena uma casa tão bonita, e com uma vista espectacular, estar sempre fechada.

- Não é minha. É a casa de férias dos pais da minha melhor amiga mas eles não têm conseguido cá vir com frequência nos últimos anos. Já são idosos. Como não tenho andado muito bem deram-me a oportunidade de vir cá passar uma temporada. – Sofia calou-se. Não conseguia perceber porque é que tinha revelado tantos pormenores com um perfeito desconhecido.

- Nunca te tinha visto aqui na praia.

- É natural. Foi a primeira vez que aqui vim.

- A sério? Mas estás aqui tão perto e o tempo tem estado óptimo. Desculpa, estou a ser muito intrometido. Afinal nem me apresentei. Eu sou o Pedro.

- Eu chamo-me Sofia.

Os seus olhares cruzaram-se. Um frémito de emoção percorreu o corpo de Pedro. Sofia nem queria acreditar que estava, efectivamente, a sentir borboletas na barriga. Ao fundo ouviam-se as ondas do mar e sentia-se uma suave brisa a tocar a pele. Uma cena digna do mais lamecha romance de cordel. Nada que fizesse parte da vida real.

Sofia foi a primeira a desviar o olhar e fitando o mar disse:

- Tens muito jeito para o surf. Gostei de te ver ali nas ondas.

- Se quiseres dou-te umas aulas.

Sofia riu-se com gosto pela primeira vez em muitos meses.

- Não me parece. Eu não sou dada a desportos radicais. Gosto muito de ter os pés bem assentes no chão.

- Nunca se sabe. Se mudares de ideias, estou disponível.

Pedro esperava que Sofia soubesse ler nas entrelinhas e percebesse que não era só para aulas de surf que ele estava disponível. O jovem tinha muita vontade de continuar ali a conversar mas não queria abusar da sorte.

- Bom, vou andando. Gostei de te conhecer, Sofia. Até à próxima.

- Também gostei de te conhecer, Pedro – disse Sofia em voz baixa e sorrindo.

Este encontro casual foi, apenas, o primeiro. No dia seguinte, Sofia aguardou, com ansiedade, que Pedro surgisse na sua bicicleta com a prancha acoplada. Desta vez foi ela que lhe acenou animadamente. De forma inesperada, convidou Pedro para tomar um café com ela. A conversa entre os dois fluiu de tal forma que nem deram pelo tempo passar. Nesse dia o surf ficou para trás.

Num dia foi um café , noutro dia foi um almoço, um passeio pela mata, uma aula de surf, uma ida ao cinema. A atracção entre os dois ia aumentando de dia para dia. Todos os momentos pareciam especiais mas quando estavam na casa do monte, a emoção tomava conta deles. O ambiente entre eles era electrizante. Mas Sofia não estava completamente recuperada e tinha medo de se deixar conduzir pelo coração.

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Depois de muitos encontros inocentes como se fossem dois adolescentes, combinaram um jantar na casa do monte para verem o pôr-do-sol. Cozinharam juntos, abriram uma garrafa de vinho e jantaram no jardim iluminados pelas cores vibrantes do ocaso. E Sofia deixou-se ir, entregou-se à paixão que despontava e descobriu que, afinal, era possível voltar a ser feliz.

Na manhã seguinte, Sofia telefonou à sua amiga Júlia para lhe contar o que estava a viver. E nem queria acreditar no que ouvia do outro lado:

- Eu sabia, eu sabia. A magia voltou a acontecer. Tinha tudo para resultar.

- O que queres dizer com isso? Tu sabias que eu ia conhecer o Pedro? Isto é um arranjinho teu, Júlia? Eu não posso acreditar.

- Não é nada disso, querida. Estás a entender tudo errado. Vou ter contigo para te explicar.

 

Primeiros capítulos aqui e aqui.