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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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A Casa do Monte - Capítulo final

Charneca em flor, 17.07.20

Sofia não aguentava de impaciência. Não compreendera o que a amiga lhe queria dizer. Confiava nela cegamente e queria acreditar que Júlia nunca faria nada para a magoar mas ainda se sentia a fervilhar de raiva por aquilo que intuíra das palavras de Júlia. A sua desconfiança estendia-se a Pedro a ponto de não lhe responder a nenhuma mensagem.
Finalmente vislumbrou o carro de Júlia curvando para a rua que dava acJúlia tinha o mesmo ar sereno de sempre e um sorriso sincero estampado no rosto.
Júlia parecia saltitar alegremente até junto da amiga.
- Oh, minha querida. Estás com tão bom ar. – e abraçou-a mas Sofia manteve-se rígida não correspondendo ao carinho que Júlia lhe votava. – O que foi, Sofia? Continuas a achar que eu era capaz de arranjar um rapaz para te seduzir? Achas-me capaz disso? E tens-te em tão baixa conta que não acreditas que alguém se apaixone por ti? Aquele fulano com quem estiveste casada arruinou a tua auto-estima dessa maneira?
A menção ao seu passado e a emoção do que vivera nos últimos dias provocaram uma incontrolável torrente de lágrimas em Sofia. Júlia encaminhou-a para dentro e deixou-a chorar. Só a largou para procurar um velho álbum de fotografias, ponto de partida para a história que vinha contar.
Depois de algum tempo, as lágrimas foram secando e Sofia conseguiu falar:
- Desculpa por aquilo que pensei de ti, Júlia. No fundo, eu sei que tu és incapaz de me magoar e que só me queres ver feliz. Mas a minha história com o Pedro parece-me tão inverosímil que, por momentos, achei que era uma fantasia. E aquilo que disseste pelo telefone foi tão estranho que…
- Minha querida, não sei se é fantasia mas magia, talvez.
- Como assim?
- Para perceberes, vou contar-te um bocadinho da história da minha família e desta casa. Vês aqui esta fotografia? São os meus bisavós, Francisco e Maria Amélia. Foram eles que construíram esta casa. A relação entre eles era uma relação proibida. Ele era um jovem pescador ali da aldeia dos pescadores e ela era filha de um dos proprietários mais ricos aqui das redondezas. Como a minha bisavó, em jovem, tinha uma saúde muito frágil, o médico recomendava que ela fizesse caminhadas à beira-mar. Na maioria das vezes, ela levava uma dama de companhia mas, de vez em quando, conseguia sair sozinha. E foi numa dessas ocasiões que se conheceram. Os caminhos deles foram-se cruzando e apaixonaram-se. Quando o meu trisavô descobriu, caiu o carmo e a trindade. Fechou a filha, perseguiu o pescador até lhe ofereceu dinheiro para desaparecer. Só não contou com a persistência daquele amor. Maria Amélia conseguiu fugir e correr para os braços do seu amado. Os pescadores uniram-se para a esconder e para os ajudar a saírem aqui da terra para poderem viver em paz. E assim foi. Os meus bisavós trabalharam muito para construir uma vida digna. O amor deles cresceu, amadureceu e multiplicou-se nos seus 4 filhos.
Os pais de Maria Amélia não aguentaram o burburinho que se levantou depois da fuga da filha. Venderam tudo e foram para uma cidade longínqua e o mais longe possível do mar.
Entretanto, Maria Amélia recebeu, como herança de uma tia solteirona, este pequeno terreno e algum dinheiro. E esse acontecimento foi a oportunidade que esperavam. O casal voltou para cá. Com esforço, e o trabalho de ambos, ergueram esta casa como símbolo do amor que os unia para além das vicissitudes da vida.
- É uma história linda, Júlia, mas não percebo o que é que isso tem a ver comigo e com o Pedro.
- Como podes imaginar, esta casa foi passando de geração em geração. Ao longo dos anos, a minha família foi percebendo que este espaço era especial. Aqui nasceram inúmeras relações amorosas, quer com familiares quer com amigos, e todas elas cresceram sólidas como estas paredes. Como se a casa fosse um cupido de alvenaria. O amor com que foi construída fez com que esse sentimento se transmitisse a todos os que passaram por cá. Todas as relações que começaram aqui foram longas e muito felizes. Eu acredito que o mesmo acontecerá contigo e com o teu surfista.
- Eu não tenho tanta certeza assim. Desde o teu telefonema que não lhe atendo o telefone nem lhe respondo às mensagens. E também me custa a acreditar na tua narrativa.
- Quando estavas quase a adormecer, não sentias que alguém te abraçava?
Sofia anuiu com a cabeça.
- Quase todas pessoas sentem isso. São os braços do amor que invade cada cantinho deste local. Não tenhas medo. Aquilo que a Casa do Monte une nem a morte separa. Corre para esse homem que a vida colocou no teu caminho. Serás muito feliz com ele e esquecerás tudo aquilo que te magoou.
Ao fundo do jardim, surgiu Pedro com ar preocupado. O coração de Sofia saltou no peito. Correu para ele com a esperança renovada num novo capítulo do livro de sua vida. Ainda com alguma perplexidade, começava a acreditar da magia da Casa do Monte.