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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Desafio dos Lápis de Cor #laranja

Ao entardecer

Charneca em flor, 24.02.21

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Pôr-do-Sol, Costa de Caparica

Sofia nem sabia bem como se tinha deixado convencer mas, por enquanto, não se arrependera. Tomás conduzia a moto ao longo da costa. Ele tinha-a desafiado para irem até à praia ver o pôr-do-sol. Sofia teve que mentir à mãe para ter uma desculpa para chegar depois do entardecer. Para todos os efeitos, estava com a amiga Ana a terminar um trabalho de grupo enquanto, na verdade, seguia abraçada a Tomás, o seu amor recém-descoberto. Nunca tinha andado de moto e estava a adorar a sensação do vento a beijar-lhe o rosto. Seguia tão agarrada a Tomás como se se quisesse fundir com ele. Pela primeira vez na sua, ainda curta, vida percebia o que era a felicidade plena.

Finalmente, chegaram à praia. Tomás imobilizou o veículo de 2 rodas e desmontou com cuidado para que Sofia não se desequilibrasse. Sofia sentia as pernas a tremer provavelmente pela excitação de ter andado sobre aquelas rodas pela primeira vez.
Tomás, com algum nervosismo, perguntou:

- Então, minha rosa, tiveste medo? Ou gostaste?

- No princípio, estava um pouco receosa mas tu conduziste de uma forma tão segura que me senti mesmo segura e protegida. Na verdade, foi espectacular.

Tomás abraçou-a com uma gargalhada feliz e beijou-a com paixão. Felizes correram, de mãos dadas, para a praia e escolheram o melhor lugar para aguardarem pelo momento mágico do ocaso.

No entanto, Tomás estava preocupado com a reacção que Sofia tinha tido mais cedo quando todos os colegas o rodearam para verem a moto mas nem sabia bem como introduzir o assunto. Apesar de estarem abraçados, o silêncio começou a instalar-se o que não era nada comum entre eles. Sofia olhou para ele e acabou por perguntar:

- Porque estás tão pensativo?

Tomás brincava com a areia e estava com alguma dificuldade em articular aquilo que lhe ia no pensamento:

- Esta manhã dei pela tua falta. Quando a malta veio ter comigo para ver a moto…
Sofia corou, lembrando-se do que lhe tinha passado pela cabeça nessa altura:

- Não gosto de ser o centro das atenções. Quando toda a gente te rodeou, não me senti muito bem naquele ambiente. E, na verdade, achei estranho porque tu me pareceste muito satisfeito por estares na ribalta. Não pensei que fosses assim. – Sofia calou-se para recuperar o fôlego.

Tomás continuava a fazer os grãos de areia passarem entre os dedos. Sofia baixara a cabeça e Tomás pegou-lhe no queixo para que ela olhasse para ele:

- Sofia, a melhor coisa que me podia ter acontecido quando cheguei aqui foi ter-te conhecido. Mas, ainda não me sinto perfeitamente integrado. Tens alguma razão, também não gosto de ser o centro das atenções mas até gostei que viessem todos ter comigo. Isso incomodou-te?

- Acho que sim. Senti-me um bocadinho à parte, na verdade.

- Eu nunca te poria de parte. Eu amo-te, sabes disso, não sabes? – Tomás sentia o coração acelerado. Já tinha tido outras namoradas mas nunca tinha dito aquilo a nenhuma delas. Nunca passara do “gosto de ti". Mas aquele “amo-te" saíra do âmago do seu ser.

Sofia emocionou-se e as lágrimas afloraram aos seus lindos olhos:

- Oh, Tomás – a voz saia-lhe embargada pela emoção – eu também te amo.

Enquanto se perdiam num beijo demorado e apaixonado, esqueciam-se do cenário que os trouxera ali. Lentamente o sol descia até tocar no mar e o céu incendiava-se com os mais ricos tons de laranja.

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xá e João-Afonso Machado

Desafio dos Lápis de cor #verde escuro

Charneca em flor, 10.02.21

Sofia sonhava acordada enquanto acariciava uma rosa. Sentia a suavidade das pétalas, as folhas carnudas com o seu tom verde-escuro e até apreciava os espinhos pontiagudos. Ainda sentia a pressão da mão de Tomás na sua. Não conseguia acreditar naquilo que o bilhete dele tinha despoletado:


“《Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante》
O tempo que passámos a conversar foi muito importante para mim. Tu és uma miúda especial mas eu falhei contigo porque nunca mais consegui ir à tua procura na escola. Peço que me desculpes. Gostava muito de te conhecer melhor. Amanhã, como não há aulas à tarde, adorava encontrar-me contigo. Se quiseres, claro. Estou à tua espera, no portão da escola, depois da última aula.
Gostei muito do livro.
Tomás”


Naquela noite, Sofia continuou sem dormir mas, desta feita, já não foi de tristeza mas sim pela antecipação do encontro prometido. Afinal, ele também pensava nela.
O tempo, durante a manhã de aulas, parecia não passar e foi extremamente difícil concentrar-se. Era muito difícil deixar de sorrir e, nos intervalos, as amigas bem tentaram arrancar-lhe um desabafo mas ela quis saborear, sozinha, o que estava a sentir.

Assim que acabou a última aula, o coração de Sofia começou a bater desalmadamente. E se ele não estivesse lá? O que é que ela fazia? Mas, ao portão, lá estava ele sorrindo.

Quando se olharam nos olhos, deixou de existir o mundo à volta deles. As amigas, ainda, esperaram por ela durante uns minutos mas depois perceberam que não valia a pena.

Tomás fez-lhe uma festa no cabelo e beijou-a no rosto, com carinho.

- Estava com medo que não viesses. – disse ele.

Sofia riu-se divertida. Afinal, ele também não era tão seguro quanto parecia.

- Eu também achei que tu não ias aparecer. Pensei que te tivesses arrependido de ter escrito o bilhete.

- Estamos em sintonia. – Tomás pegou-lhe na mão – Espero que tenhas fome.

- Fome? - interrogou-se ela.

- Sim, trouxe um piquenique. – disse-lhe ele enquanto a conduzia até ao parque que havia perto da escola. – Passo sempre por aqui quando venho para a escola. É giro, não é?

Sofia conhecia o parque mas, na companhia de Tomás, via-o com outro encanto. Tinha um aspecto entre o selvagem e o organizado. A copa das árvores estendia-se sobre o tapete verde escuro da relva viçosa. Tinha um ar tão macio e acolhedor que convidava a sentar. E foi ali que os jovens se deliciaram com um simples farnel que, por estarem na companhia um do outro, pareceu um banquete. A conversa rolava escorreita bem como as gargalhadas. Apesar de se conheceram há tão pouco tempo, sentiam-se cada vez melhor na companhia um do outro.

- Espera um pouco. – Tomás levantou-se repentinamente e voltou com a flor. – Queres ser a minha rosa?

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xáe João-Afonso Machado.

 

 

Desafio dos lápis de cor #castanho

No teu olhar

Charneca em flor, 27.01.21

Ataviada com o seu vestido novo, Sofia deixou-se convencer pelas amigas a ir até ao bar mais popular da cidade. Normalmente, preferia ficar em casa a ler do que ir para lá segurar a vela uma vez que era a única do seu grupo que não tinha namorado. Mas com o vestido azul-marinho sentia-se poderosa o suficiente para arriscar.
Sofia e as amigas foram, alegremente, em grupo até ao bar. Os namorados das outras esperavam-nas lá. Ao início da tarde, ainda lhe fizeram alguma companhia mas depressa se espalharam pelos recantos mais obscuros para namorarem. A jovem tímida viu-se sozinha na mesa bebericando um refrigerante. De vez em quando havia um colega da escola que metia conversa mas logo desaparecia. Foi, então, que reparou naquele rapaz que não conhecia. Também parecia pouco à-vontade como ela. Sofia foi-o seguindo com o olhar. Pressentindo que estava a ser observado, o rapaz virou-se na direcção de Sofia e o olhar dela prendeu-o. Ele sorriu e a jovem sorriu de volta mas a timidez de Sofia prevaleceu levando-a a desviar o rosto.
No coração do rapaz, nasceu uma enorme vontade de a conhecer. Os pais tinham-no arrastado para aquela nova cidade onde ele ainda não conhecia quase ninguém. Naquela tarde de domingo, resolvera dar uma volta e descobrira o bar. Como viu tantos miúdos da sua idade à porta, pensou em entrar para se começar a ambientar. Porque não começar por aquela rapariga que o observava? A sua expressão, diferente das miúdas que ele conhecia, despertara-lhe curiosidade.
Sofia sentia-se a tremer por dentro quando, pelo canto do olho, percebeu que o rapaz caminhava na sua direcção.
- Olá. Estás sozinha? Posso sentar-me aqui? – Sofia levantou o rosto e perdeu-se nos mais belos olhos castanhos que já vira. Sem conseguir articular palavra, acenou com a cabeça.
- Obrigado. Como te chamas?
A jovem encontrou um fiozinho de voz para responder:
- Sofia. E tu? – disse ela, muito baixinho.
- Tomás. Vivo cá há pouco tempo. Ainda não conheço muita gente. Como te vi aqui sozinha, pensei que não te importasses de me fazer companhia. Vens aqui muitas vezes?
- Nem por isso. Ao domingo, costumo ficar em casa a ler mas, hoje, as minhas amigas convenceram-me a vir.
- Que sorte a minha. – Tomás sorriu e olhou no fundo dos olhos dela. Sofia nem queria acreditar mas ele parecia, genuinamente, interessado em conhecê-la. Os romances que lhe preenchiam as horas sempre a tinham feito sonhar com um príncipe encantado loiro de olhos azuis. No entanto, começava a achar que o azul era sobrevalorizado. Se calhar, ela estava a conhecer o seu príncipe muito diferente do que imaginava. A começar naquele profundo olhar de tom castanho avelã.

 

Primeiro capítulo desta história de cordel

Continua a minha participação no Desafio da Caixa de Lápis de Cor, da Fátima Bento.

Desafio dos lápis de cor #azul marinho

Novo Capítulo

Charneca em flor, 20.01.21

A jovem deambulava pelas ruas da cidade. Procurava alguma coisa mas não sabia bem o quê. Os seus olhos pousavam nas montras mas nem via bem aquilo que as lojas exibiam.

Sofia era tímida, insegura e tinha poucos amigos. Na verdade, os seus verdadeiros amigos eram os livros que lia avidamente. Só vivia através das histórias que lhe preenchiam as horas livres. A sua alma perdia-se naquelas páginas. Era ali que sofria e se alegrava, que chorava mas também que se divertia. Só quando mergulhava naquelas letras se sentia completa. Foi assim que aprendeu o que era o amor, na ficção, porque, na vida real, nunca tinha amado. Bem, na verdade, sentira-se, algumas vezes, apaixonada mas nunca tinha sido correspondida.

A sua melhor amiga era a miúda mais popular da escola. Ana era muito bonita, inteligente, sociável, divertida. Todos gostavam dela, rapazes e raparigas. Era como uma luz que atraía todos a si, como mariposas à volta de uma lâmpada. Sofia e Ana conheciam-se desde os 6 anos e cresceram juntas mas, à medida que Ana desabrochava e se transformava numa jovem desejável, Sofia enroscava-se cada vez mais no seu casulo.

Perdida nos seus pensamentos, Sofia estava há vários minutos parada em frente a uma loja de roupa. A funcionária já tinha vindo espreitar cá fora mas achou com um ar tão distante que nem teve coragem de meter conversa. Uma travagem brusca na estrada teve o condão de a despertar. E foi então que o viu. Nunca os seus olhos tinham visto algo assim. Olhou para a etiqueta com o preço e fez contas de cabeça.
Naquele dia saíra, precisamente, para comprar um presente com o dinheiro que avó e o padrinho lhe tinham dado pelo seu aniversário. Fizera 16 anos há poucos dias. Obviamente, que o seu primeiro pensamento tinha sido gastar parte do valor mas a livraria não tinha nada mesmo interessante. E a mãe já não podia com tantos livros espalhados pela casa.
Voltou a olhar para o que estava no centro da montra e decidiu entrar. A funcionária acolheu-a com um sorriso. Ainda envergonhada, Sofia pediu para experimentar o vestido exposto. Nem queria acreditar no que sentiu quando viu a imagem que o espelho lhe devolvia. Sentia-se uma pessoa diferente, poderosa, segura. Seria possível que aquele vestido azul-marinho a tivesse mudado por dentro? Vestida assim sentia-se capaz de qualquer coisa. Com o seu vestido novo escreveria um novo capítulo, completamente diferente, da sua história.

 

Embora com pouca inspiração e com baixa força anímica, consegui arranjar ânimo para participar no Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima.

No teu olhar

Charneca em flor, 19.12.20

Luísa sorriu-lhe e Filipe decidiu pegar nos seus pertences para ir conversar com ela:

- Olá. Posso sentar-me contigo? Gostaria de conversar contigo.

Luísa assentiu e Filipe sentou-se:

- Primeiro que tudo, tenho que te pedir desculpa pela cena na cascata.

- Estás a pedir desculpa por me teres impedido de cair?! Só tenho a agradecer.

Filipe riu-se:

- Não me referia a isso. Falava da cena que a minha amiga te fez. Nada lhe dava o direito de te falar daquela maneira.

- Ah, isso. Até sou capaz de entender. Se calhar, eu faria o mesmo se visse o meu namorado agarrado a outra mulher. Bom, talvez não usasse o mesmo tipo de linguagem mas ainda assim…

- A Vanessa não é minha namorada. Não temos nenhum compromisso. Ela fez -se de convidada para vir comigo e eu não consegui evitar que ela viesse. O melhor é começar pelo princípio.

Filipe contou que era fotógrafo. Embora tivesse paixão pela parte artística da fotografia mas era obrigado a fazer trabalhos de freelancer em produções de moda e publicidade para conseguir manter-se e manter o seu trabalho artístico. Foi assim que conhecera Vanessa. Ela participara num trabalho que Filipe fizera para um catálogo de roupa. A marca fizera uma festa para celebrar o fim da produção e Filipe deixara-se seduzir por ela. Era para ser um encontro fortuito, one night stand como dizem os americanos, mas ela colara-se a ele e fizera-se de convidada para ir com ele até à aldeia.

- Mas com aquela reacção, ela parece alimentar sentimentos por ti.

- Não me parece. Conheço muitas mulheres daquele tipo. Ela aproximou-se de mim porque achou que eu a podia ajudar a subir na sua ansiada carreira de modelo.

- Tens-te assim em tão pouca conta? És um homem atraente – Luísa corou apercebendo-se do que tinha dito.

- Obrigada. Também não estás nada mal. – Filipe olhou Luísa nos olhos de forma profunda.

O silêncio instalou-se entre eles e nenhum dos dois desviou o olhar. Luísa estava a ficar constrangida por isso tentou encaminhar a conversa noutro sentido.

- A Maria diz que és um artista com muito talento.

- Oh, a Maria não é propriamente isenta. Ela conhece-me desde miúdo. É como se fosse da minha família. Gosto muito dela e do Fernando.

- Não sejas modesto. Reparei nalguns desenhos teus na pousada e são muito bons. Desenhas e fotografas, é isso?

- Basicamente. – as suas mãos pousavam no seu bloco, de forma protectora.

- E o que estavas a desenhar há pouco? Era a paisagem aqui da praia fluvial e da aldeia?

- Não era bem isso. Estava a desenhar de memória.

- Gostava de ver, se não te importares, claro.

Filipe ia abrir o caderno mas hesitou. Passado uns momentos, lá se decidiu.

- Espero que não leves a mal mas não consegui resistir.

Luísa não percebeu até os seus olhos baterem na folha que Filipe lhe estendia. Nas suas mãos estava um maravilhoso desenho a carvão. Era ela na cascata mas, ao mesmo tempo, era alguém diferente. Filipe retratara com um ar diáfano, como uma visão, uma deusa. Emocionou-se ao ver-se através do olhar artístico de Filipe.

- Não dizes nada, Luísa? Não gostaste? Ofendi-te de alguma forma?

Com voz embargada:
- Não, de maneira nenhuma. Está absolutamente… nem sei que dizer. Nunca me vi assim.

- Mas foi assim que eu te vi. Como uma visão mágica, uma deusa saída das águas da cascata. Fiquei maravilhado quando te encontrei. – A medo, acariciou-lhe a mão.

Luísa resistiu ao primeiro impulso de retirar a mão e deixou-se embalar pela sensação de tranquilidade que aquele cenário e a companhia de Filipe lhe proporcionavam. Ao contrário do que dizia a sua cabeça, o seu coração insistia na premente necessidade de conhecer melhor aquele homem que se atravessara, inesperadamente, no seu caminho.

Manhã de esperança

Charneca em flor, 12.12.20

- Oh, Luísa, compreendo perfeitamente o que sentes. Mas, não te deves sentir envergonhada. Esses 2 espécimes de hominídeos são indignos de ti. Fizeste bem em afastar-te. Claro que nem queres ouvir falar em homens agora mas, acredita, que as pessoas, sejam homens ou mulheres, não são todas iguais.

- Achas que não, Maria? Tu gostas muito do Filipe, pelo que percebo, mas não sei se ele é assim tão diferente. Afinal, assim que pôde, descartou aquela mulher que estava com ele.

- Bom, Luísa, tal como eu e o Fernando não contámos ao Filipe, a conversa que tiveste connosco ao jantar, eu também não posso partilhar contigo aquilo que ele nos contou. Não me quero armar em casamenteira mas ainda acho que devias, ao menos, conversar com ele. Suspeito que mexeste com ele tanto como ele mexeu contigo.

- Mas como é que sabes se ele mexeu comigo? Eu acho que não disse nada sobre isso.

- É, apenas, um palpite. Eu senti ali alguma química quando ele entrou na sala de jantar. Era palpável.

Luísa voltou a corar e não conseguiu evitar um sorriso. Maria sabia ler os sinais.

- Bom, já é tarde. É melhor irmos dormir. Obrigada pelo chá e por me ouvires, Maria.

- Eu é que agradeço a confiança.

- Se calhar, vou antecipar o meu regresso a casa.

- Mas, porquê? Acabaste de dizer que te sentias bem aqui. É por causa do Filipe? Ele não te vai perseguir, descansa. Não é pessoa para isso. A não ser que tu queiras – rematou Maria rindo.

- Não é por ele porque mal o conheço mas tenho medo daquilo que me fez sentir na cascata. Confesso que me perturbou.

- Não tenhas receio. Quem sabe até tenhas uma boa surpresa aqui na aldeia. Não te preocupes que esta conversa não saí desta cozinha. Dorme bem.


Apesar de tudo, Luísa dormiu muito bem e acordou com excelente disposição. Resolveu ficar mais uns dias ali na aldeia. Agora que estava desempregada, era dona do seu tempo. E se encontrasse Filipe, logo se via o que aconteceria.

Depois de se arranjar, desceu para tomar o pequeno-almoço. Como era dia de semana, havia poucos hóspedes. Apenas ela e um casal de meia-idade que se recolhiam cedo e madrugavam pela manhã. Raramente se cruzava com eles, faziam grandes caminhadas que envergonhavam pessoas mais jovens.

Quando a viu chegar, Maria sorriu-lhe com carinho enquanto lhe servia o pequeno-almoço. O ambiente na pousada era mesmo acolhedor tal como toda a aldeia. Não imaginava melhor lugar para se recuperar e para planear os passos que daria a seguir. Mas por enquanto só queria pensar no momento presente e naquela manhã soalheira. Com um livro debaixo do braço, caminhou até à praia fluvial da aldeia e instalou-se na esplanada.

Antes de abrir o romance que estava a ler, olhou em volta e reparou que, numa mesa mais distante, um homem de boné desenhava concentrado e absorto.

“É um artista, desenha maravilhosamente”, as palavras de Maria ecoaram na sua cabeça.

Seria ele? Seria Filipe, o rapaz da cascata? Sentiu o seu coração bater descompassado. A sua cabeça não conseguia controlar as suas emoções.

Como se pressentisse que estava a ser observado, Filipe levantou a cabeça e o seu olhar, intenso, cruzou-se com o olhar dela.

Desabafo doloroso

Charneca em flor, 05.12.20

Tudo começou como uma brincadeira. Devido ao desafio das palavras da Mel e da Mula, escrevi uma história que só devia ter 2 capítulos. Só que alguns simpáticos seguidores convenceram-me a dar continuidade à história. Hoje publico mais um capítulo. Para quem quiser seguir a história, vou agregar todos os posts com a hastag #luísaefilipe

"Luísa contou à sua recente amiga e anfitriã como tinha tido uma experiência traumática com o seu chefe. A jovem trabalhava há alguns anos numa empresa de marketing e publicidade, desde que terminara a faculdade. Conhecia o seu chefe desde essa altura uma vez que tinham trabalhado juntos nalguns projectos até ele ter sido promovido. Luísa considerava-o um amigo e tinham saído várias vezes juntos com os respectivos companheiros. Qual não foi o espanto que sentiu quando, nos últimos meses, começou a perceber que o chefe não era a pessoa que ela imaginava. Começara a notar pequenos sinais estranhos que não valorizou, inicialmente. Uns toques na mão, um roçar no corpo como se fosse inadvertido, um olhar mais lascivo que ela pensou que fosse só a sua imaginação… Até ao dia em que ele foi directo ao assunto. Surgira a possibilidade de Luísa ser promovida mas não era a única candidata. Ele disse-lhe, claramente, que se prolongassem a hora do almoço até um quarto de hotel, ele ia indicá-la para o lugar. Nessa altura, as lágrimas corriam pelo bonito rosto de Luísa e ela não foi capaz de prosseguir.
Maria abraçou-a com carinho.
- Que horror, Luísa, parece uma história daquelas que se vêem em filmes. E o teu namorado? Falaste há pouco que ambos tinham companheiros. Ai, desculpe, não queria tratá-la por tu.
A jovem foi-se controlando, a pouco e pouco.
- Estou a abrir o meu coração. Não faz grande sentido um tratamento tão formal. Também posso tratar-te por tu, Maria?
- Claro que sim. Mas continua, se te sentires capaz.
- O João é meu namorado desde os nossos 15 anos. Vivemos juntos desde que começamos a trabalhar. Ele foi a minha segunda desilusão.
- Então? Não compreendo.
- Quando lhe contei, pensei que ele fosse tirar satisfações com o meu chefe ou dar-me apoio para eu me despedir imediatamente mas não foi nada disso que aconteceu. Disse-me que eu era pouco ambiciosa, que ele não se importava que eu acedesse aos caprichos do outro se isso significasse uma progressão na minha carreira e no meu ordenado. Senti que o João achava que eu era uma prostituta e ele, o meu proxeneta. Nunca me senti tão humilhada e envergonhada na vida.
Luísa chorava copiosamente e Maria tentou, em vão, enxugar as suas lágrimas. Pobre rapariga, pensava ela.
- E o que fizeste?
- Disse ao João que não era essa a reacção que eu esperava e que talvez fosse melhor dar um tempo na nossa relação. Fiz uma mala e fui para a casa dos meus pais. Não lhes disse o que se tinha passado, só que tinha tido uma discussão com o João. No dia seguinte, fui aos recursos humanos e apresentei a minha carta de demissão. Como tivemos muito trabalho durante vários meses, eu tinha muitos dias de férias para tirar bem como folgas por ter trabalhado vários fins-de-semana. Assim vim de férias para este paraíso. Tinha visto a vossa pousada num artigo de uma revista e cá estou eu. Desliguei todas as minhas redes sociais e só atendo chamadas dos meus pais e da minha irmã. Só eles é que sabem onde estou. Nos primeiros dias houve muitas tentativas de contacto quer do João quer do meu chefe, por várias formas por isso desliguei tudo. Só quero estar aqui, em contacto com a natureza, com as pessoas acolhedoras aqui da aldeia e com os meus livros. E estou quase a conseguir encontrar-me de novo.

Mágoas do passado

Charneca em flor, 28.11.20

Mais um capítulo da história da "minha" Luísa

"A noite ia avançada mas Luísa não conseguia dormir. Tentara ler mas não se estava a conseguir concentrar. Há pouco ouvira a porta da rua fechar-se e, pela janela, vira Filipe sair. Não sabia se devia continuar as férias ou antecipar o regresso a casa. Afinal, pensara estar a salvo ali na pousada mas os seus anfitriões pareciam ser muito próximos de Filipe. Não lhe apetecia estar sempre a tropeçar nele. Não estava preparada para lidar com as sensações que ele lhe provocava.
A jovem pensou em descer e ir até à cozinha da pousada preparar um chá para a ajudar a adormecer. Ao aproximar-se da cozinha reparou que a luz estava acesa. Maria tinha tido a mesma ideia:

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- Então, Luísa. Também não conseguia dormir?! Eu estou a beber um chá de camomila. Quer uma chávena?
- Pode ser, obrigada.
- Presumo que o desconhecido que encontrou na cascata foi o nosso Filipe.
- Sim, foi ele. Notou-se muito que fiquei atrapalhada?
- Quase nada – disse Maria com um sorriso rasgado.
- É da vossa família?
- É como se fosse. Quando ele nasceu, os pais eram muito novos e ele foi criado aqui na aldeia, pela avó nos primeiros anos de vida enquanto os pais orientavam a vida lá em Lisboa. O tio dele fazia parte do nosso grupo de amigos. Aliás, é o melhor amigo do Fernando a ponto de ser nosso sócio aqui na pousada. Nós éramos adolescentes mas adorávamos o Filipe. Sentíamo-nos todos como se fossemos tios dele. Ele é um óptimo rapaz. Era muito ligado à avó, teve um desgosto enorme quando ela faleceu. Viveu com ela até aos 12 anos e depois foi viver com os pais. Mas assim que começavam as férias escolares, vinha logo para cá. Gosta muito de cá estar. É um artista, desenha maravilhosamente. Temos alguns trabalhos dele aqui nas nossas paredes. E foi ele que fez as fotografias da pousada que estão na nossa página electrónica.
- Ele comentou que estão a restaurar a casa da avó.
- Sim, é verdade. Ele não descansou enquanto os pais não ficaram com a casa. Sabe, ele pediu-nos o seu número de telefone mas, como é óbvio, nós não lhe demos. Temos que respeitar a privacidade dos nossos hóspedes mas, se quer que lhe diga, eu ficava muito feliz se vocês se conhecessem melhor. Porque não lhe dá uma oportunidade, Luísa?!
- Sabe, Maria, apesar de a conhecer há tão pouco tempo, sinto que posso confiar em si. Eu vim aqui para a sua aldeia para fugir de uma grande desilusão que sofri. Acho que vou ter muita dificuldade em confiar num homem mesmo que seja só como amigo."

Passa palavra #amor

Charneca em flor, 12.11.20

A pedido de muitas famílias, decidi continuar a história da passada semana. Felizmente a palavra sugerida pela Mula e pela Mel para facilitou bastante a tarefa.

 

Amor ao primeiro banho

A jovem baixou-se, na tentativa de se esconder.
- Importas-te de olhar para outro lado para eu poder sair?
- Peço desculpa se te assustei. Não era essa a minha atenção. Só que fiquei extasiado quando te vi. Pensei que estava a sonhar. Eu viro-me de costas para que possas sair.
E, sem demora mas a contragosto, o jovem volta-se para outro lado.
- Já podes sair.
A jovem, desconfiada, saiu de dentro da pequena lagoa formada pela cascata. Correu até à mochila onde tinha uma toalha. Como é que era possível ter-se esquecido de vestir o bikini de manhã?!
O jovem, ainda atordoado com aquela visão, não resistiu a tentar encetar uma conversa.
- Não estava à espera de encontrar aqui ninguém. Já te tenho visto na aldeia mas não és de cá, pois não?
Ela não sabia se era sensato alimentar a conversa mas também já reparara nele e achara-o muito atraente.
- Não, estou de férias. E tu?
- Não vivo cá mas a minha família é desta aldeia. A minha avó faleceu há uns meses e estamos a restaurar a casa dela. Como eu posso trabalhar em qualquer sítio, venho cá de vez em quando para supervisionar as obras.
Enquanto ele falava, a jovem acabou de se vestir.
- Se quiser, já te podes voltar.
O jovem voltou-se, sorrindo. A jovem estremeceu com aquele sorriso. Ele era mesmo muito atraente. Tinha um olhar límpido e sincero
- Então, olá. Se calhar, posso apresentar-me. Eu sou o Filipe. E tu?
- Realmente, já me viste nua e nem sabes o meu nome – disse ela com uma gargalhada. – Eu chamo-me Luísa.
Filipe ficou surpreendido com a atitude jovial e divertida de Luísa. Nem queria acreditar, de certeza que estava a sonhar e que ia acordar, a qualquer momento.
Luísa encaminhou-se para Filipe mas, quando estava muito perto, desequilibrou-se. Filipe esticou-se e conseguiu agarrá-la no último minuto.
Quando se viu nos braços dele, Luísa sentiu algo que nunca tinha sentido. E, finalmente, percebeu o significado da expressão “borboletas na barriga”.
O coração de Filipe batia aceleradamente. Não sabia o que fazer com a preciosidade que tinha nos braços. Tinha medo de falar e estragar aquele momento mágico.
Luísa nunca acreditou em amor à primeira vista mas…
Ouviu-se um grito estridente:
- Filipe! O que é que isto significa? Quem é essa mulher?
Filipe esquecera-se de que tinha vindo acompanhado.

 

Muito obrigada, Mula e Mel, pela iniciativa. Adorei.

Passa Palavra #cartas

Charneca em flor, 30.10.20

Cartas do passado

Leninha sentia-se entediada. As férias escolares iam a meio e ela já tinha feito todos os trabalhos escolares e lido os livros que tinha trazido da biblioteca. A televisão não tinha grande interesse. Afinal viviam-se os idos anos 80 e só havia 2 canais disponíveis para optar. As redes sociais ainda não tinham sido inventadas. A internet já existia mas a sua utilização não era tão vulgarizada como hoje. A jovem não sabia que mais inventar para se entreter.

Olhando em volta, surgiu-lhe a ideia de explorar um velho armário onde a mãe guardava algumas relíquias do passado. Embora sabendo que a mãe não gostava que se mexesse naquilo que tinha ali guardado, Leninha resolveu arriscar porque achava ser capaz de dissimular a sua aventura exploratória. Abriu a gaveta e ficou encantada por encontrar as suas roupinhas de bebé. Só que, bem lá no fundo, fez uma descoberta surpreendente . A sua mãe era muito arrumada e por isso Leninha olhou, com estranheza, para o que acabara de encontrar. Nada tinha a ver com o restante conteúdo da gaveta.

Nas suas mãos estavam vários maços de cartas, cuidadosamente atados com fitas de cetim. Pelos carimbos dos envelopes, percebeu que as missivas datavam do início da década de 70. A maioria das cartas eram aquelas que os pais trocaram enquanto namorados mas também encontrou cartas enviadas por outros familiares.
Leninha sentia-se dividida sobre o que fazer com aquele achado. Quase que podia ouvir, dentro da sua cabeça, a contenda entre o anjo bom e o anjo do mal. Por um lado, sabia que devia respeitar a privacidade da sua família, principalmente a dos seus pais. De certeza que não se sentiria confortável se se deparasse com juras de amor trocadas entre os pais. Por outro lado, a curiosidade estava quase a dominá-la. As cartas escaldavam nas suas mãos. Apresentava-se-lhe a oportunidade de descobrir o segredo de família que os adultos escondiam há anos. Há muito que desconfiava que se passara algo de muito grave para que não se dessem com a tia Conceição. Às vezes, dava-se conta de conversas murmuradas entre os pais, os tios ou os avós mas nunca conseguira perceber qual tinha sido o drama que conduzira ao corte de relações.

De repente resolveu-se, abriu o primeiro envelope e começou a ler.

No fim, quisera esquecer o que lera tal era a gravidade. Tinha sido preferível ter continuado ignorante.

 

A Mel e a Mula voltaram a desafiar a blogosfera com mais uma palavra, Cartas. Foi inspiradora.