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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Desafio dos Lápis de Cor #azul claro

Olhos azuis são ciúme*

Charneca em flor, 03.03.21


Algumas horas antes do pôr-do-sol

A tarde de aulas ia a meio. Os alunos usufruíam do intervalo mais alargado. Sofia estava aborrecida com o facto de Tomás se ter deixado deslumbrar com a atenção provocada pela sua chegada de moto. Durante a maior parte do dia tinha conseguido evitar encontrar-se com Tomás mas, desta feita, ele tinha conseguido chegar à fala com ela. Conversavam, animadamente. Tomás não poupava nas carícias enquanto tentava convencer a sua amada a irem de moto até à praia ao entardecer.
Ao longe, Ana observava a cena em silêncio rodeada da sua corte de outras miúdas que a bajulavam com esperança de também serem populares só por acompanharem com a mais popular. Os seus olhos azuis, de um tom de azul tão claro quase transparente, faiscavam. Rute reparou naquele olhar e seguiu-lhe a direcção:
- Então, Ana, porque estás com esse olhar? – perguntou surpreendida por ver a amiga a olhar para aquele par de namorados.
- Ainda estou para saber como é que aquela mosquinha morta conseguiu fisgar o rapaz novo.
- Então, não te lembras?! Ela contou que se conheceram no bar e estiveram horas a conversar.
- Eu ouvi essa história mas custa-me a acreditar. Nunca pensei que conversar sobre livros seduzisse alguém, ainda mais um rapaz daqueles, bom como o milho.
Helena ouvia a conversa a curta distância e não conseguiu deixar de intervir:
- Como é que podes falar assim da Sofia? Vocês são amigas há tantos anos. Ela considera-te como a melhor amiga.
Ana deu uma gargalhada estranha, quase maquiavélica:
- Dá-se demasiada importância à amizade. É um bocado exagerado dizer que somos as melhores amigas. Temos uma relação de… como é que disse a professora de biologia? Simbiose, será? Ela ganha em ser minha amiga porque, sendo minha amiga, a malta não a acha assim tão estranha. Eu ganho os melhores trabalhos de casa. – o olhar de Ana revelou-se mais frio do que era habitual. As outras raparigas arrepiavam-se ao olhar para aqueles olhos azuis translúcidos.
Sofia encaminhou-se até ao grupo de Ana com um sorriso tímido e uma expressão feliz mas ligeiramente ensombrada por alguma preocupação:
- Olha, Ana, no fim das aulas vou dar uma volta com o Tomás e vou chegar a casa mais tarde. Posso dizer à minha mãe que estive em tua casa para um trabalho de grupo?
- Claro que sim. – Só a Rute e a Helena é que repararam no tom falso daquela afirmação.
- Obrigada, és uma querida. – Sofia afastou-se em direcção à casa de banho.
- Sabem que mais? Já sei como é que posso afastar a Sofia do queridinho. E depois o caminho fica livre para mim. Quero ver se ele não me vai preferir em vez da intelectual. – o olhar voltou a faiscar.
- O que é que vais fazer? – perguntaram as outras.
- Logo verão.
Nos lindos olhos azuis, claros como água, brilhava a imagem do ciúme e da inveja.

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xá e João-Afonso Machado

 

*título, descaradamente, roubado à canção "Olhos castanhos" de Francisco José.

Desafio Era uma princesa tão gorda que só ocupava espaço

Charneca em flor, 28.02.21

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Imagem daqui

Era uma vez uma princesa tão gorda que só ocupava espaço. Era tão gorda que as portas do palácio tiveram de ser alargadas depois de ela ficar entalada quando tentava entrar na cozinha à socapa. A comida era aquilo que havia de mais importante para a princesa. Nos tempos livres, ou seja entre refeições, também gostava de ler. Às vezes até experimentava escrever qualquer coisa. Só que depois dava-lhe cá uma fraqueza que tinha que ir comer qualquer coisita.

Um dia, a internet chegou ao palácio e a vida da princesa nunca mais foi a mesma. Um mundo completamente novo abriu-se perante os seus olhos. Passava horas entretida com a internet que se esquecia de comer. Sem saber bem como, conheceu um rapaz. Começaram a conversar, primeiro durante uns minutos, depois horas estendendo-se pela noite fora. E a princesa percebeu-se que era possível apaixonar-se, apenas, pelo poder das palavras, muito para além do aspecto físico. Mas o seu corpo deixava-a insegura e quando o seu apaixonado lhe propôs um encontro, ela não quis arriscar. Fazendo um grande sacrifício, conseguiu emagrecer, emagrecer, emagrecer até se conseguir transformar numa mulher saudável e elegante. Pela primeira vez, em muito tempo, saiu do palácio.

 

Consegui participar antes da Ana de Deus lançar outro desafio . Foi por pouco.

Sonho num dia de Inverno

Desafio "Sonhamos ir por aí!"

Charneca em flor, 28.02.21

O dia acordou luminoso. Depois da chuva, o sol voltou a brilhar. Lá fora já se ouviam os passarinhos. Abri a janela. Apesar de ainda ser cedo, senti a carícia de uma temperatura amena.

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Pelo aroma a torradas e café acabado de fazer, percebi que o pequeno-almoço me esperava. Com prazer, deliciei-me com a leveza da espuma de leite no cappuccino.

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A relva verde do jardim convidou-me a aproveitar o sol do Inverno que findava para pôr as leituras em dia. Foi uma manhã muito agradável, espraiando-me numa cadeira confortável acompanhada por um bom livro. No ar já se notava o cheiro da iminência primaveril. Nos ramos despidos da ameixieira despontavam singelas flores, promessas de frutos suculentos. As plantas do jardim começavam a encher-se de folhas viçosas.

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Nem me apercebi que era chegada a hora do almoço. O ambiente estava propício para uma refeição na esplanada e a ementa não podia ser outra, peixe grelhado, acompanhado de um bom vinho branco. Às vezes, não é preciso ir muito longe para se vivenciar uma boa experiência.

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A tarde continuou amena, quase quente. Tão difícil acreditar que ainda era Fevereiro, o Inverno não tinha acabado mas a estação seguinte insinuava-se pé ante pé. O dia soalheiro levou-me a sair para uma caminhada. Passei por jardins repletos de flores, cheirosas frésias ou tímidas rosas. Ao longe, o contorno inconfundível da Serra do Montejunto. Será que teria coragem de subir até lá? Ao longo do caminho, campos cultivados, vinhas podadas, pinheiros e eucaliptos serviam-me de companhia. De vez em quando, o ladrar de um cão rasgava o silêncio característico da aldeia. As flores silvestres alegravam os campos numa sinfonia de cores. Em cada curva, descobria um novo pormenor num percurso já amplamente trilhado. E recantos nos quais nunca tinha reparado.

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Ao fim do dia, o corpo já estava cansado de tanto caminhar mas o céu presenteou-me com um maravilhoso entardecer colorindo-se dos mais ricos tons do ocaso. E ainda consegui ouvir o canto das cigarras que começavam a despertar.

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Neste tempo estranho que nos foi dado viver, é preciso usar a imaginação e transformar um pátio, uma varanda, um quintal, terraço ou mesmo uma marquise numa esplanada idêntica àquelas que estão, infelizmente, encerradas. Mesmo deliciosa espuma de leite e preparar um cappuccino idêntico aos que bebi nos inesquecíveis pequenos-almoços dos hotéis onde já estive quando era possível viajar. Se só podemos fazer pequenos passeios higiénicos, esse conceito novo, então porque não aproveitar para descobrir aquilo que nos rodeia e em que não reparamos na lufa lufa do quotidiano. Seja numa aldeia no sopé da Serra do Montejunto, numa grande cidade ou numa vila dos subúrbios. Agora que a pandemia nos impede de realizar sonhos grandiosos, porque não procurar as pequenas alegrias que se podem encontrar na mais curta distância?!

Aqui fica o meu convite para que descubram todas as maravilhas que vos rodeiam porque é possível encontrar beleza seja onde fôr. Só é preciso estar atenta.

 

A Cristina Aveiro desafiou-me, e a mais uma grupeta*, para escrever uma proposta de passeio para quando acabar o confinamento. No entanto, eu achei que o que seria interessante era propôr um passeio para o confinamento .  Pensei em destabilizar, portanto. Às vezes, o sonho está ao alcance da mão.

 

*Aqui está a grupeta desafiada

Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, e a bii yue

Desafio dos Lápis de Cor #laranja

Ao entardecer

Charneca em flor, 24.02.21

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Pôr-do-Sol, Costa de Caparica

Sofia nem sabia bem como se tinha deixado convencer mas, por enquanto, não se arrependera. Tomás conduzia a moto ao longo da costa. Ele tinha-a desafiado para irem até à praia ver o pôr-do-sol. Sofia teve que mentir à mãe para ter uma desculpa para chegar depois do entardecer. Para todos os efeitos, estava com a amiga Ana a terminar um trabalho de grupo enquanto, na verdade, seguia abraçada a Tomás, o seu amor recém-descoberto. Nunca tinha andado de moto e estava a adorar a sensação do vento a beijar-lhe o rosto. Seguia tão agarrada a Tomás como se se quisesse fundir com ele. Pela primeira vez na sua, ainda curta, vida percebia o que era a felicidade plena.

Finalmente, chegaram à praia. Tomás imobilizou o veículo de 2 rodas e desmontou com cuidado para que Sofia não se desequilibrasse. Sofia sentia as pernas a tremer provavelmente pela excitação de ter andado sobre aquelas rodas pela primeira vez.
Tomás, com algum nervosismo, perguntou:

- Então, minha rosa, tiveste medo? Ou gostaste?

- No princípio, estava um pouco receosa mas tu conduziste de uma forma tão segura que me senti mesmo segura e protegida. Na verdade, foi espectacular.

Tomás abraçou-a com uma gargalhada feliz e beijou-a com paixão. Felizes correram, de mãos dadas, para a praia e escolheram o melhor lugar para aguardarem pelo momento mágico do ocaso.

No entanto, Tomás estava preocupado com a reacção que Sofia tinha tido mais cedo quando todos os colegas o rodearam para verem a moto mas nem sabia bem como introduzir o assunto. Apesar de estarem abraçados, o silêncio começou a instalar-se o que não era nada comum entre eles. Sofia olhou para ele e acabou por perguntar:

- Porque estás tão pensativo?

Tomás brincava com a areia e estava com alguma dificuldade em articular aquilo que lhe ia no pensamento:

- Esta manhã dei pela tua falta. Quando a malta veio ter comigo para ver a moto…
Sofia corou, lembrando-se do que lhe tinha passado pela cabeça nessa altura:

- Não gosto de ser o centro das atenções. Quando toda a gente te rodeou, não me senti muito bem naquele ambiente. E, na verdade, achei estranho porque tu me pareceste muito satisfeito por estares na ribalta. Não pensei que fosses assim. – Sofia calou-se para recuperar o fôlego.

Tomás continuava a fazer os grãos de areia passarem entre os dedos. Sofia baixara a cabeça e Tomás pegou-lhe no queixo para que ela olhasse para ele:

- Sofia, a melhor coisa que me podia ter acontecido quando cheguei aqui foi ter-te conhecido. Mas, ainda não me sinto perfeitamente integrado. Tens alguma razão, também não gosto de ser o centro das atenções mas até gostei que viessem todos ter comigo. Isso incomodou-te?

- Acho que sim. Senti-me um bocadinho à parte, na verdade.

- Eu nunca te poria de parte. Eu amo-te, sabes disso, não sabes? – Tomás sentia o coração acelerado. Já tinha tido outras namoradas mas nunca tinha dito aquilo a nenhuma delas. Nunca passara do “gosto de ti". Mas aquele “amo-te" saíra do âmago do seu ser.

Sofia emocionou-se e as lágrimas afloraram aos seus lindos olhos:

- Oh, Tomás – a voz saia-lhe embargada pela emoção – eu também te amo.

Enquanto se perdiam num beijo demorado e apaixonado, esqueciam-se do cenário que os trouxera ali. Lentamente o sol descia até tocar no mar e o céu incendiava-se com os mais ricos tons de laranja.

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xá e João-Afonso Machado

Desafio dos Lápis de Cor #azul-cobalto

Reluzente

Charneca em flor, 17.02.21

Os dias corriam serenos e felizes. Sofia e Tomás viviam o seu amor de acordo com o mote lançado pelo livro que desencadeara a sua própria história. Sempre que podiam, encontravam-se e despendiam tempo cativando-se um ou outro. Sofia dava por si a ler menos romances cor-de-rosa, afinal ela própria se tornara na protagonista de uma bonita história. Nos primeiros tempos, era difícil concentrar-se nas aulas. Os seus pensamentos voavam para os momentos de que desfrutavam juntos. Não ganhou para o susto quando recebeu uma nota menos boa. Sofia martirizou-se, chorou desalmadamente e pensou em terminar tudo com Tomás. Mas, quando o olhou nos olhos, não foi capaz. Juntos arranjaram estratégias de estudo e Sofia percebeu que era possível apaixonar-se e continuar a ser a aluna brilhante que sempre tinha sido.

Naquela manhã, Sofia caminhava para a escola sentindo alguma ansiedade. Na véspera, ela e Tomás não se tinham encontrado como era habitual. Ela tinha-o sentido ausente e evasivo e isso estava a preocupá-la de sobremaneira. Embora ele tivesse dito que tinha uma surpresa, Sofia continuava apreensiva. Nem sempre, surpresa era sinónimo de algo positivo.

Ao longe, começou a ouvir-se o barulho de uma moto. Sofia não ligou porque muitos dos seus colegas utilizavam aquele veículo de 2 rodas para chegarem à escola. Afinal, dava um certo ar de rebeldia. E, realmente, muitas das raparigas adoravam e achavam muito excitante. Os rapazes “motards" eram sempre alvo de imensas atenções. Sofia nunca ligou muito a tal coisa. Daí ficou muito surpreendida quando viu uma moto desconhecida a circular junto dela, buzinando. Nem olhou. Só podia ser engano. Ela não conhecia ninguém que andasse numa coisa daquelas. Só que o condutor cortou-lhe o caminho, imobilizando-se à sua frente e tirando o capacete, revelando o rosto sorridente de Tomás:

- Não percebeste que era eu?!

Sofia não ficou muito agradada. Olhou para ele e para a reluzente moto azul-cobalto. Pelo menos, a cor era bonita.

- Não sabia que tinhas uma moto.

- E não tinha. Chegou ontem. Gostaste da surpresa? Logo vamos dar uma volta?

- Não sei se sou capaz de subir aí para cima. Não me parece muito seguro.

- Confia em mim. Tu és aquilo que tenho de mais precioso. Nunca te poria em perigo. – e puxando-a suavemente para si, beijou-a em frente a toda a escola.

Nunca se tinham escondido mas sempre se tinham mantido discretos. Só os mais próximos é que tinham percebido que Sofia e Tomás eram namorados. Sofia era conhecida por ser uma intelectual, tímida e estudiosa e nunca se lhe tinha conhecido um namorado. Quando se apercebeu que os colegas batiam palmas com entusiasmo, sentiu que um fogo que lhe queimava o rosto.

Mas não foi só o beijo que deixou os outros jovens entusiasmados. A chegada de Tomás na sua reluzente moto azul-cobalto não tinha sido nada discreta. Não demorou muito para que Sofia se perdesse no meio de uma pequena multidão que rodeava Tomás e a sua máquina rolante. Até Ana, a melhor amiga de Sofia, parecia exageradamente eufórica com a figura de Tomás em cima da tal moto.

Sofia afastou-se. Aquele não era o seu ambiente. Não conseguia compreender como é que o seu Tomás, romântico e carinhoso, se prestava àquela cena e parecia tão à-vontade sendo o centro das atenções. Antes de entrar no edifício, voltou a olhar e descortinou Tomás distribuindo sorrisos enquanto deixava os colegas experimentarem a sensação de subirem para a sua nova moto.

Só quando a campainha tocou para a primeira aula é que os adolescentes dispersaram deixando-a solitária, à bela moto azul-cobalto.

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xá e João-Afonso Machado.

Desafio dos Lápis de cor #verde escuro

Charneca em flor, 10.02.21

Sofia sonhava acordada enquanto acariciava uma rosa. Sentia a suavidade das pétalas, as folhas carnudas com o seu tom verde-escuro e até apreciava os espinhos pontiagudos. Ainda sentia a pressão da mão de Tomás na sua. Não conseguia acreditar naquilo que o bilhete dele tinha despoletado:


“《Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante》
O tempo que passámos a conversar foi muito importante para mim. Tu és uma miúda especial mas eu falhei contigo porque nunca mais consegui ir à tua procura na escola. Peço que me desculpes. Gostava muito de te conhecer melhor. Amanhã, como não há aulas à tarde, adorava encontrar-me contigo. Se quiseres, claro. Estou à tua espera, no portão da escola, depois da última aula.
Gostei muito do livro.
Tomás”


Naquela noite, Sofia continuou sem dormir mas, desta feita, já não foi de tristeza mas sim pela antecipação do encontro prometido. Afinal, ele também pensava nela.
O tempo, durante a manhã de aulas, parecia não passar e foi extremamente difícil concentrar-se. Era muito difícil deixar de sorrir e, nos intervalos, as amigas bem tentaram arrancar-lhe um desabafo mas ela quis saborear, sozinha, o que estava a sentir.

Assim que acabou a última aula, o coração de Sofia começou a bater desalmadamente. E se ele não estivesse lá? O que é que ela fazia? Mas, ao portão, lá estava ele sorrindo.

Quando se olharam nos olhos, deixou de existir o mundo à volta deles. As amigas, ainda, esperaram por ela durante uns minutos mas depois perceberam que não valia a pena.

Tomás fez-lhe uma festa no cabelo e beijou-a no rosto, com carinho.

- Estava com medo que não viesses. – disse ele.

Sofia riu-se divertida. Afinal, ele também não era tão seguro quanto parecia.

- Eu também achei que tu não ias aparecer. Pensei que te tivesses arrependido de ter escrito o bilhete.

- Estamos em sintonia. – Tomás pegou-lhe na mão – Espero que tenhas fome.

- Fome? - interrogou-se ela.

- Sim, trouxe um piquenique. – disse-lhe ele enquanto a conduzia até ao parque que havia perto da escola. – Passo sempre por aqui quando venho para a escola. É giro, não é?

Sofia conhecia o parque mas, na companhia de Tomás, via-o com outro encanto. Tinha um aspecto entre o selvagem e o organizado. A copa das árvores estendia-se sobre o tapete verde escuro da relva viçosa. Tinha um ar tão macio e acolhedor que convidava a sentar. E foi ali que os jovens se deliciaram com um simples farnel que, por estarem na companhia um do outro, pareceu um banquete. A conversa rolava escorreita bem como as gargalhadas. Apesar de se conheceram há tão pouco tempo, sentiam-se cada vez melhor na companhia um do outro.

- Espera um pouco. – Tomás levantou-se repentinamente e voltou com a flor. – Queres ser a minha rosa?

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xáe João-Afonso Machado.

 

 

Desafio dos Lápis de Cor #preto

Noite Escura

Charneca em flor, 03.02.21

Sofia abrira os olhos mas, à sua volta, só via a mais negra escuridão. Aquela noite ia ser a mais longa da sua vida, sentia-o. Não conseguia dormir. O seu coração estava tão negro como o quarto com a desilusão que tinha sofrido.

Na tarde de domingo tinha conhecido aquele que acreditara ser a sua alma gémea. A conversa prolongara-se durante algumas horas com tal intensidade que parecia que se conheciam desde sempre. Tomás contara-lhe tudo sobre a terra donde vinha. Sofia falara-lhe da sua grande paixão, os livros. Ele acompanhara a casa para ela lhe emprestar alguns livros e despediram-se com um beijo no rosto. Mas tinha sido mais do que um beijo de amizade. Os lábios de Tomás aproximaram-se tanto dos lábios de Sofia que lhe tocaram no cantinho da boca. Um beijo quase inocente mas tão carregado de sensualidade que ela sentira as borboletas na barriga de que os romances falavam.

- Vemo-nos na escola? – perguntara Tomás, em tom de promessa ao que Sofia concordou com o olhar. Mas a semana já ia a meio e ainda não se tinham cruzado. A timidez da jovem não lhe permitia ter a iniciativa de ir procurá-lo como as amigas aconselhavam. Assim, de dia para dia, Sofia ia ficando mais triste, com a alma cada vez mais negra. A sua insegurança fazia acreditar que Tomás só tinha querido divertir-se à sua custa. Ele devia ter percebido a sua falta de jeito para lidar com rapazes e nunca tinha feito intenção de a procurar na escola.

A noite continuava mais escura que o habitual. Sofia sabia que era noite de lua nova mas achava estranho que a iluminação da rua não entrasse pelas frestas das persianas. Foi, então, que reparou que o seu rádio-despertador não exibia o horário. Agora percebia aquela estranha negritude que combinava com o seu estado de espírito.

De repente, ouviu um barulho que a assustou. Será que tinha ouvido bem? O som vinha da sua varanda, parecia que uma pedra tinha lá caído. Só havia uma maneira de descobrir, abrir as persianas e espreitar lá para fora. Às apalpadelas, lá conseguiu chegar até à janela. Fazendo o menor barulho possível, levantou as persianas. Nesse momento, como por magia, as luzes da rua voltaram a brilhar e Sofia descobriu um pequeno embrulho. Era uma pedra da calçada embrulhada num papel. Olhou para a rua que parecia tão silenciosa como era habitual. Não se via vivalma. Pelo canto do olho, tivera o vislumbre de um blusão preto que dobrava a esquina mas quando virara para lá o rosto já não conseguira descortinar ninguém.

Novamente deitada na cama, e esperando que os pais nada tivessem escutado, desembrulhou aquilo que parecia um bilhete. Escrito a tinta preta, começava assim:
“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante”*

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes Concha, A 3a Face, Maria Araújo, Peixe Frito, Imsilva, Luisa de Sousa, Maria, Ana D, Célia, Gorduchita, Miss Lollipop, Ana Mestre, Ana de Deus, Cristina Aveiro, bii yue e o brilhante  José da Xá

 

*"O Principezinho" de Antoine Saint-Exupéry foi um dos livros que Sofia emprestou a Tomás

Actualização: capítulos anteriores

Azul Escuro

Castanho

Desafio dos lápis de cor #castanho

No teu olhar

Charneca em flor, 27.01.21

Ataviada com o seu vestido novo, Sofia deixou-se convencer pelas amigas a ir até ao bar mais popular da cidade. Normalmente, preferia ficar em casa a ler do que ir para lá segurar a vela uma vez que era a única do seu grupo que não tinha namorado. Mas com o vestido azul-marinho sentia-se poderosa o suficiente para arriscar.
Sofia e as amigas foram, alegremente, em grupo até ao bar. Os namorados das outras esperavam-nas lá. Ao início da tarde, ainda lhe fizeram alguma companhia mas depressa se espalharam pelos recantos mais obscuros para namorarem. A jovem tímida viu-se sozinha na mesa bebericando um refrigerante. De vez em quando havia um colega da escola que metia conversa mas logo desaparecia. Foi, então, que reparou naquele rapaz que não conhecia. Também parecia pouco à-vontade como ela. Sofia foi-o seguindo com o olhar. Pressentindo que estava a ser observado, o rapaz virou-se na direcção de Sofia e o olhar dela prendeu-o. Ele sorriu e a jovem sorriu de volta mas a timidez de Sofia prevaleceu levando-a a desviar o rosto.
No coração do rapaz, nasceu uma enorme vontade de a conhecer. Os pais tinham-no arrastado para aquela nova cidade onde ele ainda não conhecia quase ninguém. Naquela tarde de domingo, resolvera dar uma volta e descobrira o bar. Como viu tantos miúdos da sua idade à porta, pensou em entrar para se começar a ambientar. Porque não começar por aquela rapariga que o observava? A sua expressão, diferente das miúdas que ele conhecia, despertara-lhe curiosidade.
Sofia sentia-se a tremer por dentro quando, pelo canto do olho, percebeu que o rapaz caminhava na sua direcção.
- Olá. Estás sozinha? Posso sentar-me aqui? – Sofia levantou o rosto e perdeu-se nos mais belos olhos castanhos que já vira. Sem conseguir articular palavra, acenou com a cabeça.
- Obrigado. Como te chamas?
A jovem encontrou um fiozinho de voz para responder:
- Sofia. E tu? – disse ela, muito baixinho.
- Tomás. Vivo cá há pouco tempo. Ainda não conheço muita gente. Como te vi aqui sozinha, pensei que não te importasses de me fazer companhia. Vens aqui muitas vezes?
- Nem por isso. Ao domingo, costumo ficar em casa a ler mas, hoje, as minhas amigas convenceram-me a vir.
- Que sorte a minha. – Tomás sorriu e olhou no fundo dos olhos dela. Sofia nem queria acreditar mas ele parecia, genuinamente, interessado em conhecê-la. Os romances que lhe preenchiam as horas sempre a tinham feito sonhar com um príncipe encantado loiro de olhos azuis. No entanto, começava a achar que o azul era sobrevalorizado. Se calhar, ela estava a conhecer o seu príncipe muito diferente do que imaginava. A começar naquele profundo olhar de tom castanho avelã.

 

Primeiro capítulo desta história de cordel

Continua a minha participação no Desafio da Caixa de Lápis de Cor, da Fátima Bento.

Desafio dos lápis de cor #azul marinho

Novo Capítulo

Charneca em flor, 20.01.21

A jovem deambulava pelas ruas da cidade. Procurava alguma coisa mas não sabia bem o quê. Os seus olhos pousavam nas montras mas nem via bem aquilo que as lojas exibiam.

Sofia era tímida, insegura e tinha poucos amigos. Na verdade, os seus verdadeiros amigos eram os livros que lia avidamente. Só vivia através das histórias que lhe preenchiam as horas livres. A sua alma perdia-se naquelas páginas. Era ali que sofria e se alegrava, que chorava mas também que se divertia. Só quando mergulhava naquelas letras se sentia completa. Foi assim que aprendeu o que era o amor, na ficção, porque, na vida real, nunca tinha amado. Bem, na verdade, sentira-se, algumas vezes, apaixonada mas nunca tinha sido correspondida.

A sua melhor amiga era a miúda mais popular da escola. Ana era muito bonita, inteligente, sociável, divertida. Todos gostavam dela, rapazes e raparigas. Era como uma luz que atraía todos a si, como mariposas à volta de uma lâmpada. Sofia e Ana conheciam-se desde os 6 anos e cresceram juntas mas, à medida que Ana desabrochava e se transformava numa jovem desejável, Sofia enroscava-se cada vez mais no seu casulo.

Perdida nos seus pensamentos, Sofia estava há vários minutos parada em frente a uma loja de roupa. A funcionária já tinha vindo espreitar cá fora mas achou com um ar tão distante que nem teve coragem de meter conversa. Uma travagem brusca na estrada teve o condão de a despertar. E foi então que o viu. Nunca os seus olhos tinham visto algo assim. Olhou para a etiqueta com o preço e fez contas de cabeça.
Naquele dia saíra, precisamente, para comprar um presente com o dinheiro que avó e o padrinho lhe tinham dado pelo seu aniversário. Fizera 16 anos há poucos dias. Obviamente, que o seu primeiro pensamento tinha sido gastar parte do valor mas a livraria não tinha nada mesmo interessante. E a mãe já não podia com tantos livros espalhados pela casa.
Voltou a olhar para o que estava no centro da montra e decidiu entrar. A funcionária acolheu-a com um sorriso. Ainda envergonhada, Sofia pediu para experimentar o vestido exposto. Nem queria acreditar no que sentiu quando viu a imagem que o espelho lhe devolvia. Sentia-se uma pessoa diferente, poderosa, segura. Seria possível que aquele vestido azul-marinho a tivesse mudado por dentro? Vestida assim sentia-se capaz de qualquer coisa. Com o seu vestido novo escreveria um novo capítulo, completamente diferente, da sua história.

 

Embora com pouca inspiração e com baixa força anímica, consegui arranjar ânimo para participar no Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima.

No teu olhar

Charneca em flor, 19.12.20

Luísa sorriu-lhe e Filipe decidiu pegar nos seus pertences para ir conversar com ela:

- Olá. Posso sentar-me contigo? Gostaria de conversar contigo.

Luísa assentiu e Filipe sentou-se:

- Primeiro que tudo, tenho que te pedir desculpa pela cena na cascata.

- Estás a pedir desculpa por me teres impedido de cair?! Só tenho a agradecer.

Filipe riu-se:

- Não me referia a isso. Falava da cena que a minha amiga te fez. Nada lhe dava o direito de te falar daquela maneira.

- Ah, isso. Até sou capaz de entender. Se calhar, eu faria o mesmo se visse o meu namorado agarrado a outra mulher. Bom, talvez não usasse o mesmo tipo de linguagem mas ainda assim…

- A Vanessa não é minha namorada. Não temos nenhum compromisso. Ela fez -se de convidada para vir comigo e eu não consegui evitar que ela viesse. O melhor é começar pelo princípio.

Filipe contou que era fotógrafo. Embora tivesse paixão pela parte artística da fotografia mas era obrigado a fazer trabalhos de freelancer em produções de moda e publicidade para conseguir manter-se e manter o seu trabalho artístico. Foi assim que conhecera Vanessa. Ela participara num trabalho que Filipe fizera para um catálogo de roupa. A marca fizera uma festa para celebrar o fim da produção e Filipe deixara-se seduzir por ela. Era para ser um encontro fortuito, one night stand como dizem os americanos, mas ela colara-se a ele e fizera-se de convidada para ir com ele até à aldeia.

- Mas com aquela reacção, ela parece alimentar sentimentos por ti.

- Não me parece. Conheço muitas mulheres daquele tipo. Ela aproximou-se de mim porque achou que eu a podia ajudar a subir na sua ansiada carreira de modelo.

- Tens-te assim em tão pouca conta? És um homem atraente – Luísa corou apercebendo-se do que tinha dito.

- Obrigada. Também não estás nada mal. – Filipe olhou Luísa nos olhos de forma profunda.

O silêncio instalou-se entre eles e nenhum dos dois desviou o olhar. Luísa estava a ficar constrangida por isso tentou encaminhar a conversa noutro sentido.

- A Maria diz que és um artista com muito talento.

- Oh, a Maria não é propriamente isenta. Ela conhece-me desde miúdo. É como se fosse da minha família. Gosto muito dela e do Fernando.

- Não sejas modesto. Reparei nalguns desenhos teus na pousada e são muito bons. Desenhas e fotografas, é isso?

- Basicamente. – as suas mãos pousavam no seu bloco, de forma protectora.

- E o que estavas a desenhar há pouco? Era a paisagem aqui da praia fluvial e da aldeia?

- Não era bem isso. Estava a desenhar de memória.

- Gostava de ver, se não te importares, claro.

Filipe ia abrir o caderno mas hesitou. Passado uns momentos, lá se decidiu.

- Espero que não leves a mal mas não consegui resistir.

Luísa não percebeu até os seus olhos baterem na folha que Filipe lhe estendia. Nas suas mãos estava um maravilhoso desenho a carvão. Era ela na cascata mas, ao mesmo tempo, era alguém diferente. Filipe retratara com um ar diáfano, como uma visão, uma deusa. Emocionou-se ao ver-se através do olhar artístico de Filipe.

- Não dizes nada, Luísa? Não gostaste? Ofendi-te de alguma forma?

Com voz embargada:
- Não, de maneira nenhuma. Está absolutamente… nem sei que dizer. Nunca me vi assim.

- Mas foi assim que eu te vi. Como uma visão mágica, uma deusa saída das águas da cascata. Fiquei maravilhado quando te encontrei. – A medo, acariciou-lhe a mão.

Luísa resistiu ao primeiro impulso de retirar a mão e deixou-se embalar pela sensação de tranquilidade que aquele cenário e a companhia de Filipe lhe proporcionavam. Ao contrário do que dizia a sua cabeça, o seu coração insistia na premente necessidade de conhecer melhor aquele homem que se atravessara, inesperadamente, no seu caminho.