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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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A Casa do Monte (continuação)

Segundo andamento

Charneca em flor, 26.06.20

Pedro adorava viver perto do mar. Sentia que tinha reunido as condições ideais para ter uma vida perfeita. Como trabalhava a partir de casa, tinha a possibilidade de aproveitar as melhores ondas e fazia surf quase todos os dias, fosse Verão ou Inverno. O seu percurso passava pela estrada entre a mata e a fileira de algumas casas de férias antigas mas pitorescas. Já há muito que tinha reparado naquela casa, construída numa parte mais elevada do terreno. Tinha um jardim bem cuidado mas nunca se via ninguém por ali. Enquanto as outras casas tinham movimento no Verão ou nalgum fim-de-semana prolongado, ali as portadas estavam sempre fechadas mas o espaço não tinham um ar abandonado. Aquele local aguçava a curiosidade de Pedro por isso nunca deixava de olhar para lá quando estava a caminho da praia.

Surpreendentemente, um dia reparou que uma das janelas estava aberta. E nos dias seguintes constatou que a bela casinha tinha uma ocupante embora só a visse de relance. Certo vez ela olhava pela janela e parecia observá-lo. Como ia na sua bicicleta, sorriu-lhe e acenou mas não viu nenhuma reacção da mulher. A cada passagem por ali, a casa exercia uma atracção irresistível sobre ele e não conseguia deixar de olhar para lá, em busca da sua estranha ocupante. Tornou a vê-la e, de quando em vez, sorria-lhe e acenava mas ela parecia alheada da realidade.

Pedro não se tinha apaixonado muitas vezes. As relações que tivera foram curtas e não deixaram grandes recordações. Na verdade, ele era um solitário e habituara-se a não partilhar o seu espaço. Daí ter muita dificuldade em deixar alguém entrar na sua bolha. Só que agora dava por si a pensar na misteriosa mulher da casa do monte. A tal ponto que isso começava a interferir com o seu rendimento profissional. Quem seria ela e qual seria a sua história? Por mais que tentasse não conseguia que ela saísse da sua mente. Seria possível apaixonar-se por alguém que não conhecia, que só via à distância? Estaria a ficar louco? É que nada daquilo fazia qualquer sentido.

O jovem decidiu que tinha que lutar contra aquelas ideias e tentou mudar o seu percurso para chegar à praia. Só que as pernas não lhe obedeciam e voltavam a levá-lo para aquele caminho. E qual não foi o seu espanto quando, numa manhã soalheira, ela lhe acenou de volta. Nem queria acreditar. Parecia que ela tinha acordado de um sono profundo e o vira, finalmente. O ritmo cardíaco de Pedro acelerou e ele sentiu-se, inexplicavelmente, feliz como nunca.

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Continuou a pedalar em direcção às ondas com uma energia renovada. O mar estava fantástico. Já havia outros surfistas e ele pouco demorou até entrar na água. Pedro estava mesmo inspirado, apanhou todas as ondas e fez manobras espectaculares. Tudo lhe saia bem, parecia que ele e a prancha eram um só. Ficou no mar até se sentir exausto mas era um cansaço que o fazia sentir-se bem.

O surfista encaminhou-se para o local onde tinha deixado a bicicleta. Nem queria acreditar nos seus olhos. A mulher misteriosa estava na praia e a curta distância das suas coisas. E parecia observá-lo. Pedro era uma pessoa tímida mas descobriu uma réstia de coragem no fundo de si e aproveitou aquela oportunidade:

- Olá. Por aqui? – perguntou ele.

 

Primeiro andamento

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