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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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A Caverna, José Saramago

Charneca em flor, 07.12.22

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Alguém do clube de leitura, Leituras Conjuntas de Saramago, já tinha mencionado este romance. Na altura não foi escolhido mas acabou por ser um dos livros propostos para o mês de Novembro. "A Caverna" fazia parte da minha biblioteca pessoal sem eu suspeitar da pérola que morava na minha estante. Este livro passou a fazer parte do Top 3 dos meus livros preferidos de José Saramago em conjunto com "as intermitências da morte" e "Ensaio sobre a cegueira". Cada um deles deve o seu lugar no meu coração por motivos completamente diferentes.

A figura central deste romance é Cipriano, um oleiro que, na sua olaria artesanal, produz peças de barro tradicionais. O seu principal cliente é o Centro, um gigantesco edifício comercial e habitacional, que se situa na cidade. Na olaria, Cipriano conta com a ajuda da sua filha, Marta, com a qual tem uma relação muito próxima. Logo no início acompanhamos a viagem de Cipriano desde à aldeia até ao Centro. A viagem serve dois propósitos, entregar uma encomenda das suas louças de barro e transportar o seu genro até ao Centro. Marçal trabalha naquele empreendimento como guarda e ambiciona ser promovido a guarda residente o que lhe daria o privilégio de viver, com a família, nos apartamentos do Centro. No entanto, Cipriano é confrontado com a diminuição do interesse comercial nos seus produtos colocando em risco a sua fonte de rendimento.

Neste romance, José Saramago leva-nos a reflecfir sobre o consumismo desenfreado, os malefícios da industrialização, a projecção de imagens falsas que alteram a percepção da realidade, o envelhecimento e consequente sentimento de inutilidade que muitas pessoas enfrentam quando o seu trabalho é considerado desnecessário. Ao mesmo tempo, o autor construiu personagens brilhantes, não só as personagens centrais (Cipriano, Marta, Marçal) mas também os outros elementos que vão aparecendo para ajudar a consolidar a história. Como o cão, Achado, que aparece na olaria e "decide" ficar com aquela família. O elemento canino repete-se em várias obras, como o inesquecível cão das lágrimas dos "Ensaios" ou o cão que reúne todas as personagens humanas n' "A Jangada de Pedra".

Na verdade, gostei tanto deste livro que nem consigo explicá-lo em palavras. De entre os inúmeros pormenores inesquecíveis, destaco a relação tão carinhosa e especial entre Cipriano e a filha Marta. Mesmo quando há algum conflito entre eles, o amor nunca deixa de estar presente bem como o entendimento mútuo. Nem que para isso seja necessário dar ao outro o espaço de que precisa. A figura do genro, Marçal, longe de ser um factor de discórdia, acaba por complementar, na perfeição, aquela família. No fundo, "A Caverna" mostra-nos que o amor é imensamente mais importante que os objectos que somos levamos a consumir.

Quase que sublinhei todo o livro porque José Saramago escreveu tantas frases e parágrafos maravilhosos que é difícil escolher só algumas. Apetece citar todas as páginas deste romance.

E porque será que se chama "A Caverna"? O título faz todo o sentido mas, para saberem que sentido é esse, têm que o ler.


"Estou a ficar surpreendida com o seu conhecimento destas matérias, Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar a outra margem, a outra margem e que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que le seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar, Bem observado, disse Cipriano Algor, mais uma vez fica demonstrado que não convém aos velhos discutir com as gerações novas, sempre acabam por perder, enfim, há que reconhecer que também aprendem alguma coisa, Muito agradecida pela parte que me toca,"

 

 

 

 

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