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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Desafio da escrita dos Pássaros tema #14

A vida que não vivi

Charneca em flor, 13.12.19

Mais um dia que começa e eu com tão pouca vontade de ir trabalhar. Sair da cama, todas as manhãs, é cada vez mais difícil. Os dias são todos iguais, monótonos e rotineiros. Não foi assim que eu imaginei o meu futuro.
No meu quarto de adolescente, sonhei em encontrar a cura para o cancro mas a minha vida encaminhou-se num sentido diferente. Em vez de passar os meus dias num laboratório de investigação, estou numa caixa de supermercado. Eu sei que é um trabalho tão válido como qualquer outro mas eu não nasci para isto. Os clientes olham para mim mas parece que não me vêem. Dou os bons-dias e a maioria dos clientes nem se dá ao trabalho de me responder. Eu estou farta de estar sempre a perguntar se os clientes querem saco ou se querem número de contribuinte na factura. Ou de contar os trocos dos velhotes. Eu não nasci mesmo para isto. Se a minha vida tivesse sido diferente, as pessoas olhariam para mim com um respeito e admiração. Assim sou transparente.
Desde a infância que os meus pais me estimularam a estudar. Acreditei que a dedicação aos estudos me iria encaminhar para uma profissão mais gratificante. As minhas amigas saíam para se divertirem e eu ficava em casa porque o meu foco era só um. Até que um dia me apaixonei e a escola deixou de ser o mais importante. Só queria estar com o meu amor e pouco estudava.
Os meus resultados escolares ressentiram-se e o projecto de tirar um curso superior ficou pelo caminho já que falhei a entrada na faculdade. Os meus pais ficaram muito desiludidos porque tinham sonhado um futuro dourado para mim que não se concretizou. E eu ainda lhes dei mais um desgosto já que fiquei grávida logo a seguir.
Para criar a minha filha tive que prescindir de muito, tive que crescer à pressa. Já não houve oportunidade de voltar a concorrer ao ensino superior porque era necessário começar a trabalhar. Agarrei o primeiro trabalho que me apareceu e onde continuo até hoje. O pai da minha filha fartou-se depressa de brincar às casinhas. Não o condeno. Não é fácil ser pai, ou mãe, aos 18/19 anos. Eu tive que continuar a lutar pela minha filha.
A minha filha é a minha maior riqueza mas mesmo assim eu carrego uma grande mágoa pela vida que não vivi.

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