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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Desafio dos Lápis de Cor #azul claro

Olhos azuis são ciúme*

Charneca em flor, 03.03.21


Algumas horas antes do pôr-do-sol

A tarde de aulas ia a meio. Os alunos usufruíam do intervalo mais alargado. Sofia estava aborrecida com o facto de Tomás se ter deixado deslumbrar com a atenção provocada pela sua chegada de moto. Durante a maior parte do dia tinha conseguido evitar encontrar-se com Tomás mas, desta feita, ele tinha conseguido chegar à fala com ela. Conversavam, animadamente. Tomás não poupava nas carícias enquanto tentava convencer a sua amada a irem de moto até à praia ao entardecer.
Ao longe, Ana observava a cena em silêncio rodeada da sua corte de outras miúdas que a bajulavam com esperança de também serem populares só por acompanharem com a mais popular. Os seus olhos azuis, de um tom de azul tão claro quase transparente, faiscavam. Rute reparou naquele olhar e seguiu-lhe a direcção:
- Então, Ana, porque estás com esse olhar? – perguntou surpreendida por ver a amiga a olhar para aquele par de namorados.
- Ainda estou para saber como é que aquela mosquinha morta conseguiu fisgar o rapaz novo.
- Então, não te lembras?! Ela contou que se conheceram no bar e estiveram horas a conversar.
- Eu ouvi essa história mas custa-me a acreditar. Nunca pensei que conversar sobre livros seduzisse alguém, ainda mais um rapaz daqueles, bom como o milho.
Helena ouvia a conversa a curta distância e não conseguiu deixar de intervir:
- Como é que podes falar assim da Sofia? Vocês são amigas há tantos anos. Ela considera-te como a melhor amiga.
Ana deu uma gargalhada estranha, quase maquiavélica:
- Dá-se demasiada importância à amizade. É um bocado exagerado dizer que somos as melhores amigas. Temos uma relação de… como é que disse a professora de biologia? Simbiose, será? Ela ganha em ser minha amiga porque, sendo minha amiga, a malta não a acha assim tão estranha. Eu ganho os melhores trabalhos de casa. – o olhar de Ana revelou-se mais frio do que era habitual. As outras raparigas arrepiavam-se ao olhar para aqueles olhos azuis translúcidos.
Sofia encaminhou-se até ao grupo de Ana com um sorriso tímido e uma expressão feliz mas ligeiramente ensombrada por alguma preocupação:
- Olha, Ana, no fim das aulas vou dar uma volta com o Tomás e vou chegar a casa mais tarde. Posso dizer à minha mãe que estive em tua casa para um trabalho de grupo?
- Claro que sim. – Só a Rute e a Helena é que repararam no tom falso daquela afirmação.
- Obrigada, és uma querida. – Sofia afastou-se em direcção à casa de banho.
- Sabem que mais? Já sei como é que posso afastar a Sofia do queridinho. E depois o caminho fica livre para mim. Quero ver se ele não me vai preferir em vez da intelectual. – o olhar voltou a faiscar.
- O que é que vais fazer? – perguntaram as outras.
- Logo verão.
Nos lindos olhos azuis, claros como água, brilhava a imagem do ciúme e da inveja.

 

Participam neste Desafio da Caixa de Lápis de Cor da Fátima Bento, as brilhantes ConchaA 3a FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilva, Luisa de SousaMariaAna DCéliaGorduchitaMiss LollipopAna MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue e os brilhantes  José da Xá e João-Afonso Machado

 

*título, descaradamente, roubado à canção "Olhos castanhos" de Francisco José.

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