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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Deus-Dará, Alexandra Lucas Coelho

Charneca em flor, 01.12.21

"Deus-Dará" foi o livro que escolhi para o mês de Novembro no Desafio Uma Dúzia de Livros. O tema proposto foi "Um livro que te foi oferecido". Não costumo receber muitos livro de presente porque já compro muitos livros ao longo do ano e ninguém se arrisca a oferecer-me mais nenhum. Só que, escavando nas minhas prateleiras, descobri este livro que me foi oferecido pela editora, a Tinta da China, quando eu assinava a Granta. Vou ser franca, possivelmente nunca teria comprado este livro se não me tivesse sido oferecido o que teria sido uma grande pena.. Este desafio tem sido refrescante para mim porque me tem levado a pegar em livros diferentes daqueles que costumava ler.

Nunca tinha lido nada de Alexandra Lucas Coelho embora já tivesse ouvido falar nesta autora. Um dos meus objectivos pessoais deste ano de 2021 era, precisamente, ler mais livros escritos por mulheres por isso este livro também contribuiu para esse objectivo. Alexandra Lucas Coelho começou por ser jornalista tendo estado em zonas de conflito no Médio Oriente e Ásia Central. Já viveu em vários locais do mundo tendo sido correspondente no Brasil onde morou durante cerca de 4 anos. Presumo que essa vivência tenha sido preponderante para a realização deste livro.

Esta obra é muito difícil de catalogar. Durante a sua leitura fiquei na dúvida se era um livro de História ou se contava as histórias particulares de cada personagem. O livro está organizado em 3 grandes capítulos e 7 subcapítulos em que cada um representa um dia da semana começando à 4a. feira. As personagens principais são também 7, Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel e Noé. O narrador acaba por ser uma espécie de personagem que, de quando em vez, nos vai interpelando directamente tornando o relato mais dinâmico. Através destas personagens, Alexandra Lucas Coelho mostra-nos a diversidade do povo brasileiro e a História da construção deste povo. A acção desenrola-se no Rio de Janeiro, ou melhor, em São Sebastião do Rio de Janeiro no tempo que antecedeu a preparação do Campeonato Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos. Alexandra Lucas Coelho leva-nos numa vertiginosa pelo Rio de Janeiro passando pelas favelas, pelo Corcovado ou pelo elegante bairro Cosme Velho. Mas, também, nos conduz numa fantástica viagem no tempo ao longo dos 500 anos de História, partilhados por Portugal e Brasil.

A estrutura do livro pode-se tornar algo confusa uma vez que intercala a acção propriamente dita com a abordagem histórica. Esta obra exige alguma concentração para podermos apreender tudo aquilo que a autora nos pretendeu transmitir. "Deus- dará" encaixa na categoria de livros que nos fazem pensar uma vez que desconstrói muitas das ideias feitas que temos sobre o papel dos portugueses nos Descobrimentos, na colonização e no processo da escravatura. A autora mostra-nos um retrato do Brasil numa época em que o país vivia um período de maior prosperidade na era pré-Bolsonaro e pré-pandemia. Apesar de a acção se situar há menos de 10 anos, retrata uma realidade que já se pode considerar histórica.

 

"- Mas continua a ser o presente, é o que estás a sentir, o que sente quem cá vive. Entre o seculo XVI e o fim da escravatura, Portugal tirou quase seis milhões de pessoas de Africa...

- Caramba. É o numero de mortos no Holocausto.

- E o número de habitantes do Rio, hoje. E uns quatro milhões foram trazidos para aqui, para extrair açúcar, garimpar ou ouro, diamantes. Tudo isto já em cima do extermínio dos indios. Como é possível que não haja um museu ou um memorial da escravatura em Portugal, quando nenhum pais europeu foi responsável por escravizar tantos africanos? Ou dos povos indígenas, quando demos cabo de tantos?

- Sim, nunca vejo isso nos discursos políticos.

- Se não nos virmos nesse espelho nunca seremos capazes de mudar, ir além. Acho cada vez mais que o grande problema portugues é a incapacidade de transformação . Fomos para o mundo a querer mudar os outros, e incapazes de ser mudados por eles. Ajeitamo-nos, mas nao mudamos. Enfim, longa conversa."

 

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