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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Felicidade, João Tordo

Charneca em flor, 14.01.21

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Li os primeiros livros de João Tordo na altura em que o autor foi premiado com o Prémio Saramago em 2008 com o romance "As três vidas". Nessa altura o livro premiado do qual gostei muito, li "O Bom Inverno" e o mais antigo "O Livro dos Homens sem Luz". Depois foram-se infiltrando outras leituras e fui-lhe perdendo o rasto embora fosse acompanhado a sua evolução como escritor. Há muito que não lia nada dele até João Tordo publicar este "Manual de sobrevivência de um escritor". Gostei tanto que resolvi dar uma nova oportunidade a este escritor e tive muita pena de não ter lido aquilo que foi publicando ao longo dos anos. 

"Felicidade" foi um dos últimos livros que li em 2020 e posso dizer que foi um dos melhores. A história começa em 1973 quando a personagem principal tem 17 anos e se apaixona por Felicidade, uma das trigémeas que fascinavam todos os colegas do Liceu Passos Manuel. Esse primeiro amor termina de forma extremamente trágica influenciando a maneira como o jovem vai crescer e determinando o adulto que será. As trigémeas têm um tal magnetismo que o jovem nunca mais se conseguirá afastar delas e a sua vida vai-se enredar, de forma indelével, na vida das trigémeas. Ao mesmo tempo, e como pano de fundo, vemos como o país foi evoluindo ao longo das últimas décadas.

João Tordo construiu, com muito talento, uma história surpreendente e inesperada repleta de personagens fascinantes, cada uma com a sua particularidade. O enredo é tão intenso e tão bem escrito que me senti imersa nas situações que as personagens atravessam. É muito difícil largar o livro porque queria saber o que mais ia acontecer àquelas personagens mas, ao mesmo tempo, a intensidade deste romance deixava-me emocionalmente esgotada levando-me a pousar o livro para descansar. Uma obra verdadeiramente brilhante.

"A vida começou com Felicidade. Embora as três frequentassem a mesma turma e fossem em tudo idênticas (as mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo, a mesma distância que mantinham dos outros), eu sentia-me atraído pela irmã que andava sempre no meio, encaixada entre as outras duas, uma espécie de líder daquela pequena seita. Felicidade caminhava com a leveza de uma nuvem e a segurança de um pêndulo. Havia um sorriso quase permanentemente nos seus lábios - não de troça, mas de bonomia - , nos seus olhos castanhos-mel (grandes, redondos) reflectia-se um universo a que eu aspirava. Cheirava a limão; sempre que passava por mim, eu inspirava com mais força, para reter o seu perfume."

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