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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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levantado do chão, José Saramago

Charneca em flor, 25.10.22

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Em Setembro li mais um livro de José Saramago para a Leitura Conjunta de Saramago. O livro escolhido pelo grupo foi "levantado do chão". Esta obra foi publicada em 1980 e é considerada uma das obras fundamentais do autor. Durante a escrita do livro, José Saramago viveu algum tempo em Lavre no concelho de Montemor-o-Novo. As conversas com os habitantes da vila bem como as histórias que lhe contaram foram, de certeza, fonte de inspiração.

A acção de "levantado do chão" decorre desde o final do séc. XIX até aos primeiros dias após a Revolução dos Cravos. Os grandes protagonistas são os trabalhadores do campo, com especial relevo para as três gerações da família Mau-Tempo. Saramago construíu uma história em torno da vida numa estrutura latifundiária, sistema de propriedade muito comum  no Alentejo. José Saramago retrata de forma brilhante a miséria, o sofrimento, as humilhações e a repressão a que os camponeses estavam sujeitos nesse sistema, não só perante o poder económico dos grandes proprietários mas também perante a Igreja e as autoridades policiais. Neste livro percebemos também os movimentos de revolta e de luta por melhores condições de trabalho e de vida que, de forma mais ou menos organizada, foram surgindo mesmo durante o tempo da ditadura. A Reforma Agrária que ocorreu após o 25 de Abril de 1974 tem as suas raízes, precisamente, nesses movimentos pelo direito ao trabalho condigno e ao justo pagamento.

No início, não foi muito fácil para mim entrar no livro porque José Saramago utiliza muitas personagens dificultando o acompanhamento do curso da narrativa. A partir de metade do livro, sensivelmente, já li com muito mais velocidade e interesse. Acredito que foi com "levantado do chão" que o autor descobriu a sua maneira de escrever tão característica.

Esta leitura foi muito significativa para mim porque as minhas origens são alentejanas e a minha mãe cresceu num latifúndio, não muito longe de Lavre. Embora a família da minha mãe não tenha passado por este tipo de problemas - o meu avô tinha trabalho fixo e não trabalhava à jorna como os camponeses do livro - revi, nesta obra, as histórias que ouvi desde pequena sobre a vida no campo. Aliás, sempre gostei de saber como era a vida nesse tempo.

Eis o que José Saramago disse sobre o livro:

"O livro chama-se Levantado do Chão porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro."

Para mim, a experiência acabou por ser muito positiva mas reconheço que não será um livro adequado a todos aqueles que gostam de ler.

"O mundo, com todo este seu peso, esta bola sem começo nem fim, coberta de mares e de terras, toda esfaqueada de rios, ribeiras e regatos, a escorrer a aguazinha clara que vai e volta e é sempre a mesma, suspense nas nuvens ou escondido nas nascentes por baixo das grandes lajes subterrâneas, o mundo que parece uma brutidão aos tombos no céu, ou silencioso pião como um dia o hão-de ver os astronautas e já podemos ir antecipando, o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, "