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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Mau tempo no Canal, Vitorino Nemésio

Charneca em flor, 02.12.19

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Já há muito tempo que queria ler este livro, um clássico da nossa literatura. Este exemplar já estava pousado nas minhas prateleiras há uns anos aguardando a altura certa para o ler. A leitura levou-me algum tempo porque há outras actividades que se vão sobrepondo. Ou é a vida do dia-a-dia que se impõe ou mesmo a actividade de escrever os textos para o Desafio dos Pássaros, para já não falar do Curso de Escrita Criativa que vou fazendo a um ritmo muito lento. Obviamente que "Mau tempo no Canal" também é uma obra de alguma densidade que deve ser saboreada no seu devido tempo. 

O livro foi publicado nos anos 40 do século passado mas a trama diz respeito à segunda década do mesmo século e decorre nos Açores. O canal a que se refere o título é o canal que separa a ilha do Faial e a ilha do Pico. É, principalmente, nestas 2 ilhas que acontece a história narrada embora a acção também se estenda à ilha de São Jorge e à Terceira. Na primeira cena descobrimos um namoro entre 2 jovens, Margarida Clark Dulmo e João Garcia. Esta relação encontra alguns obstáculos já que há conflitos antigos entre as famílias dos jovens. Ou seja, é uma espécie de história de Romeu e Julieta que se passa na Horta e não em Verona. Este conflito vai ser preponderante no enredo deste romance.

Na história também se aborda os muitos casos da peste que afectou o arquipélago e a pesca, ou caça para ser mais exacta, da baleia. Aliás os pescadores são das personagens mais pitorescas que Vitorino Nemésio descreve.

O romance encantou-me, não só pela história mas, sobretudo, pelo talento literário do autor. As suas descrições fabulosas das paisagens insulares fizeram-me viajar pelas ilhas da bruma. Aliás, ao ler este romance consegui abstrair-me da realidade e penetrar na história como se estivesse lá. Outro pormenor que eu adorei foi os recursos fonéticos que Vitorino Nemésio encontrou para percebermos a particularidade do sotaque açoriano e o linguajar das pessoas mais simples.

Quanto a mim, ler este romance aumentou o meu conhecimento da literatura portuguesa bem como da nossa cultura. Também foi uma oportunidade de recordar os dias que passei nos Açores. Não conheci nenhuma das ilhas mencionadas, ou melhor, conheci o Aeroporto da Horta onde fiz escala na viagem de regresso ao continente. Vi a ilha do Pico a partir do avião (cortesia do piloto para deliciar os passageiros). Achei mesmo que tinha um aspecto mágico com as nuvens à volta do pico. Os Açores ocupam um lugar especial no meu baú das memórias.

Partilho aqui um excerto em que Margarida descreve a experiência de subir ao pico do Pico e o que sentiu ao ter oportunidade de ver o nascer do sol naquele cenário.

"Passara o fim de Agosto até às vindimas no Pico, nas vinhas que o avô conservara entre a Candelária e São Mateus, em Campo Raso. Satisfizera em setembro a grande ambição da sua vida: subir ao pico do Pico, embora não fosse a melhor época. Passava-se uma noite a meio da encosta, numa furna. De madrugada - leite quente de vaca, que o pai (e nisso era bem amigo!) fazia ordenhar por Manuel Bana, tendo-a mandado de véspera, para chegar descansada o mais perto possível da étape. Não estava um dia muito claro; mas vir aparecer o Sol dos lados da Terceira, todo sangrento num mar de chumbo, um mar como nunca tinha visto, fresco e sem nada que lhe cortasse a limitação parada, a não ser as ilhas negras e acobardadas numa neblina. Para a banda das Flores, uma Lua de bordos tristes que ia morrer. Mas ela sentia-se contente a ver o Sol crescer devagar para ela, que o esperava à beira da cratera apagada do Pico, com um pau ferrado. O vulto de São Jorge, da Ponta dos Rosais ao Topo, parecia um navio azulado pelo próprio fumo da marcha, de proa à "suposta ilha" de Fernão Dulmo, que via a nudez do Sol primeiro que outra alguma."

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