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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Os Irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski

Charneca em flor, 25.07.20

1540-1.jpgEm 2016, tive o privilégio de visitar a cidade de São Petersburgo na Rússia. Devido a essa viagem comecei a ter alguma curiosidade pela literatura clássica russa. Comecei pelo "Guerra e Paz" numa versão em 2 volumes mas ainda só li o primeiro. Com o entusiasmo de Tolstoi, comprei "Os Irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski. Comecei a lê-lo durante o estado de emergência porque estava a trabalhar menos horas e um livro de quase 800 páginas precisa de algum tempo. Afinal, o estado de emergência foi mais curto do que a minha leitura  mas consegui acabá-lo antes do fim da pandemia.

"Os Irmãos Karamázov" é, realmente, um livro brilhante que nos mostra um retrato deveras interessante sobre a sociedade russa do séc. XIX. O ponto fulcral deste romance é a relação entre os 3 irmãos bem como a relação mais ou menos conflituosa de cada um deles com o pai. Mas à volta desta história percebemos os contrastes da sociedade russa entre ricos e pobres, cultos e incultos, religiosos e ateus e entre homens e mulheres. E, por estranho que pareça, muitos desses contrastes ainda se verificam actualmente. A dada altura ocorre um crime, um assassinato e roubo, e há poucas dúvidas sobre a identidade do criminoso mas o autor coloca imensas dúvidas na nossa cabeça e pinta o alegado culpado com tais cores que acabamos a gostar dele e a torcer para que ele seja ilibado. Aliás mesmo quando o autor apresenta outras respostas para explicar o tal crime, fica sempre a dúvida. 

No entanto, mais do que um romance sobre uma tragédia familiar ou um policial, a obra "Os Irmãos Karamázov" é, também, um tratado filosófico e moral sobre a existência e a importância de Deus na vida dos homens. As inúmeras horas que passei na companhia destes 3 irmãos foram enriquecedoras e fizeram-me pensar sobre as minhas próprias convicções. Na fase da vida em que me encontro, procuro mais nos livros que escolho do que a simples distracção. Procuro obras que questionem a minha visão do mundo e que me façam crescer enquanto pessoa. E esta é uma dessas obras.

"b) Pode julgar-se o próximo? Perseverança na fé

Tende bem presente que não é dado julgar ninguém,  porque  ninguém julgará bem outro por não se reconhecer tão criminoso como o acusado e talvez mais culpado que ninguém do crime que tenha cometido. Só quem está bem persuadido disto se capacita para ser juiz. Poderá parecer absurdo, mas é verdade. Se eu fosse justo, talvez não tivesse um único criminoso ante mim. Se puderes carregar com o crime de quem se apresenta ao teu juízo íntimo, alivia o criminoso, sofre por ele e deixa-o em paz. E quando tenhas de sentenciar por obrigação da lei, fá-lo com o mesmo espírito enquanto te seja possível, pois ele se afastará aflito, acusando-se mais severamente do que tu o julgaste; e, quando corresponder ao teu beijo de paz com insensibilidade e mofa, não seja ele para ti uma pedra de escândalo, e sim prova e sinal de que o seu tempo não chegou ainda, mas chegará."