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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

"Vera Lagoa, Um Diabo de Saias", Maria João da Câmara

Charneca em flor, 20.05.22

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Inspirada pela estreia da 2a temporada das "3 Mulheres", resolvi pegar, finalmente, na biografia de Maria Armanda Falcão, mais conhecida por Vera Lagoa.

Esporadicamente, gosto de ler este género literário e aprecio biografias de mulheres fortes como é o caso de Maria Armanda Falcão. Há pessoas cujas vidas são mais surpreendentes que a própria ficção.

Ainda antes de se tornar Vera Lagoa, Maria Armanda Falcão esteve sempre do lado contrário a quem estava no poder. A sua consciência política foi despertada pelo pai, militar que caiu em desgraça depois de ter participado no Reviralho. Devido a essa circunstância, acabou por não ter uma educação escolar regular mas isso não a impediu de ser uma figura incontornável e incómoda do jornalismo português dos anos 70 e 80. Mulher de armas e trabalhadora, teve o privilégio de privar com grandes figuras do panorama cultural português como os seus grandes amigos Natália Correia ou Luís de Sttau Monteiro. A sua entrada no mundo do jornalismo aconteceu pela mão de Francisco Pinto Balsemão que a convidou para escrever uma crónica no jornal "Diário Popular". Assim nasceu a misteriosa figura, Vera Lagoa.

Antes da Revolução dos Cravos, participou activamente na campanha eleitoral de Humberto Delgado e ajudou presos políticos bem como as suas famílias. Embora tenha recebido o fim da ditadura com entusiasmo, cedo se desiludiu com os excessos cometidos pelos novos poderosos* nos primeiros anos da democracia. Como foi capaz de colocar o dedo nessas feridas, acabou por sofrer o afastamento de alguns dos seus amigos e conhecidos. Vera Lagoa foi sempre fiel às suas convicções nunca deixando de dizer aquilo que pensava sem se deixar intimidar seja por quem fosse. Essa postura valeu-lhe processos judiciais e ataques bombistas aos jornais onde trabalhou.

Este livro descreve-nos, profundamente, a riquíssima vida desta mulher destemida que encontrou nas palavras, a sua arma. Mas a autora não se limita ao trabalho biográfico à volta desta figura, Maria João da Câmara apresenta-nos, também, um detalhado retrato de Portugal nas últimas décadas do séc XX.

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"Há mulheres assim. Mulheres que, pela sua forma de ser e de estar, não passam despercebidas. Mulheres cuja voz se faz ouvir, ainda que muitos silêncios pretendam pesar sobre elas. Porque incomodam. Porque são diferentes. Porque vão contra as correntes - de ontem e de hoje. Porque são, afinal, mulheres fortes.

Conhecida como a primeira locutora da RTP, Maria Armanda FaFalcão oi despedida por se recusar a cumprir uma ordem com a qual não concordava. Foi sempre assim, de personalidade vincada, pelo que ser seu amigo nao era fácil nem cómodo.' Tendo começado, em 1966, a escrever no Diário Popular pequenas crónicas com o título sugestivo (e por ela odiado) de 《Bisbilhotices》, o sucesso de Maria Armanda Falcão adveio não apenas do que escrevia e de como escrevia, mas também de utilizar um pseudónimo - Vera Lagoa -, que adensou o mistério e aguçou a curiosidade sobre a sua identidade. O publico revia-se nos seus textos (e temia-os) e, se não comprava o Diario Popular por causa da coluna de Vera Lagoa, não deixava de a ler com grande curiosidade.

Tuteando tudo e todos, directa e vocative, usava uma linguagem coloquial, muito própria e muito nova: a sua coluna era viva, jocosa, imprevista, muito mordaz, que dissecava, descobria e revelava a sociedade portuguesa. Apesar das limitações da época, Vera Lagoa conseguiu simultaneamente gracejar com ministros, denunciar miserias e vicios de grandes e pequenos, de falsos ídolos, de pretensiosos, de arrivistas."

 

 

*Refiro-me ao tempo do PREC, do Verão Quente, das acções da Esquerda Radical do MFA e à  criação do Conselho da Revolução.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Isabel Nery

Charneca em flor, 21.06.19

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Como já tenho escrito por aqui, gosto muito de biografias. Assim que descobri que este livro ia sair, resolvi logo que ele viria morar cá para casa. E não me arrependi. Este livro é um excelente trabalho da jornalista Isabel Nery. Percebe-se que fez uma extraordinária investigação para percebermos quem foi esta figura maior da cultura portuguesa do século XX. Para fazer este livro, Isabel Nery procurou as origens de Sophia chegando ao ponto de ir à ilha onde o seu bisavô Jan Andresen nasceu e de onde saiu na viagem que terminou, inesperadamente, no Porto. Nesta obra, descobrimos que Sophia foi, ao mesmo tempo, humana e divina. O livro aborda as origens, como já disse, a ligação com o mar, com a Grécia, a relação com a família incluindo a relação com Francisco Sousa Tavares e com os filhos, com os amigos, com outros escritores e a sua intervenção cívica e política. 

Este livro reforçou a minha convicção de que Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma pessoa especial. Para além do seu talento, amplamente conhecido, encontrei uma personalidade peculiar, uma mulher, ao mesmo tempo forte e frágil, e que dominou a língua portuguesa como ninguém. 

Esta obra devia ser de leitura obrigatória para todos os portugueses, especialmente neste ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.

"Mais do que um lugar, a Grécia passou a ser um estado de espírito. Uma explicação. Ao ponto de amigos e confidentes como frei Bento Domingues afirmarem que Sophia era composta por mar e cultura grega.

De facto, dificilmente se compreenderá a relação simbiótica entre ética, estética, poder e a poesia de Sophia sem rumar à Grécia. Agora não tanto ao território geográfico da luz pura, que idealiza, mas ao legado helénico da cultura que Homero, considerado o educador de todos os poetas, deixou ao Ocidente."

"E 《O Poeta》:

O poeta é igual ao jardim das estátuas 

Ao perfume do Verão que se perde no vento.

Veio sem que os outros nunca o vissem

E as suas palavras devoravam o tempo."

               Os Poetas, Sophia de Mello Breyner Andresen 

 

"António Variações, Entre Braga e Nova Iorque", Manuela Gonzaga

Charneca em flor, 20.02.19

Gosto de ler biografias. Há pessoas que viveram a sua vida de forma tão intensa que a sua história quase que parece ficção. Este é já a segunda obra de Manuela Gonzaga que leio. Este livro reflecte um intenso trabalho de pesquisa da autora para nos dar a conhecer um pouco daquilo que foi a vida deste ímpar artista português. A sua passagem pelo panorama musical português foi efémera. O seu primeiro single saiu em 1982 e ele faleceu em 1984 mas marcou de forma indelével a música portuguesa sendo cantado até aos dias de hoje. Com Manuela Gonzaga descobrimos a infância numa aldeia minhota, a sua relação com a família, o seu gosto pela música que começou desde cedo, a sua vinda ainda adolescente para Lisboa, a passagem pela tropa, as suas viagens, as suas amizades, o desenvolvimento do seu trabalho como barbeiro e o seu caminho até ao estrelato como cantor abordando, obviamente, a estranheza que a figura de António Variações provocou na sociedade portuguesa.

Entre os vários factos que descobri sobre o artista, o que achei mais curioso foi o facto de António Variações não saber absolutamente nada de música, nem uma nota. Mesmo assim deixou um espólio musical fantástico. O método de composição utilizado para que os músicos o pudessem acompanhar é inacreditável. Claro que não posso contar senão mais ninguém lia o livro.

Para além da vida de António Variações, Manuela Gonzaga faz um excelente retrato social do país desde a década de 40 até à década de 80. Só por isso já valia a pena ler o livro.

Eu tinha apenas 8 anos quando ele desapareceu mas tenho uma vaga memória de o ver na televisão. No entanto, sou fã incondicional da sua obra.

"Quando, em Junho de 1982, surge no mercado o maxi single Estou Além, cujo lado B contém uma versão difícil de qualificar de 《Povo que lavas no rio, dedicada a Amália 《minha fonte de inspiração》, o mote estava dado. Um barbeiro que recusava o título de cabeleireirom servido por uma voz de sonoridade inqualificável, caíra na alçada da música pop, irrompendo no mundo da música ligeira portuguesa através daquilo que  alguns, muitos, consideraram uma heresia"