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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

O Palácio de Papel, Miranda Cowley Heller

Charneca em flor, 29.11.22

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Quase que me esquecia de falar do último livro que li em Outubro. "O Palácio de Papel" foi uma das escolhas do passado mês do Clube do Livra-te da Rita da Nova e Joana da Silva. Este livro é o primeiro romance da autora. Miranda Cowley trabalhou na imprensa mas também foi produtora de séries televisivas de sucesso.

A acção d' "O Palácio de Papel" decorre durante as vinte e quatro horas mais decisivas da protagonista Elle. Tudo começa numa manhã de Agosto enquanto Elle está de férias com a família no local de sempre, "O Palácio de Papel". Entrelaçadas, com as decisões que Elle sente que tem que tomar, estão as suas recordações mais felizes mas também as mais dolorosas e dramáticas. Através desses recuos vamos percebendo com é que a vida da protagonista chegou ali, ao momento em que terá de decidir a segurança de um amor adulto ou a quimera do primeiro amor.

Gostei muito deste livro, a história é fantástica, e surpreendente nalguns pontos  e as personagens foram muito bem construídas, embora umas mais realistas do que outras. A personagem que mais me encantou foi Wallace, a mãe de Elle. E adorei a relação entre ela e o genro, Peter. Que diálogos deliciosos. Só achei que a organização dos capítulos e nomes atribuídos a cada capítulo não tinham muita lógica induzindo alguma confusão no leitor. 

A escrita de Miranda Cowley Heller é muito cinematográfica e gostaria de ler mais romances escritos por ela. Não vai para a lista dos livros com 5  mas fica perto.

 

"Largo o robe para o chão e fico nua a beira da água. No outro lado da lagoa, além dos pinheiros e dos arbustos, o oceano ruge, furioso.Deve trazer uma tempestade no seu âmago, chegada de algures no mar alto. Mas aqui, a beira da lagoa, o ar continua calmo e sereno. Espero, observo, escuto... os piados, o zumbir dos pequenos insetos, um vento que agita suavemente as folhas das arvores. Depois entro até aos joelhos e mergulho de cabeca na água gelida. Nado até fora de pé, além dos nenúfares, levada pelo entusiasmo, pela liberdade, pela adrenalina advinda de um pânico inexprimível. Tenho medo que uma tartaruga-mordedora chegue das profundezas e me trinque os seios pesados. Ou talvez seja atraída pelo cheiro a sexo que se liberta quando abro e fecho as pernas. De repente, sinto-me assoberbada pela necessidade de voltar a seguranca dos baixios, onde consigo ver o fundo arenoso. Quem me dera ser mais corajosa. Mas também adoro o medo, o fôlego que me fica preso na garganta, o coração aos saltos quando saio da água."

Carrie Soto está de volta, Taylor Jenkins Reid

Charneca em flor, 23.11.22

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Das leituras do mês de Outubro, fez parte este "Carrie Soto está de volta" escolhido pelo Clube do Livra-te. Taylor Jenkins Reid (TJR) é uma conhecida escritora norte-americana, com milhares de fãs em todo o mundo mas eu nunca tinha lido nada dela. Este livro faz parte de um conjunto de 4 romances* que podem ser lidos em separado mas que têm pontos de ligação entre eles.

Carrie Soto é uma tenista de alta competição, detentora de vários recordes internacionais que se retirou cedo devido a uma lesão. No início da história, acompanhamo-la enquanto assiste a uma partida da jovem tenista com maior capacidade para bater os seus recordes. Carrie Soto não consegue lidar com esse facto e resolve regressar à competição disposta a tudo fazer para não ser ultrapassada pelas tenistas mais jovens. 

Confesso que o início do livro não me estava a agarrar porque não me estava a conseguir identificar com a personagem. Carrie Soto é muito competitiva e ambiciosa  e eu não tenho essas características. Para além disso, achei um pouco entediante toda a explicação das regras deste desporto embora fosse necessário fazer esse enquadramento para um melhor entendimento da situação.

No entanto, a autora e as suas personagens acabaram por me conquistar. TJR é uma brilhante contadora de histórias e também constrói personagens com mestria. A relação com o pai, com altos e baixos, é enternecedora. Adorei a maneira como a autora finalizou toda a história. O livro tem uma organização muito dinâmica e a divisão dos capítulos, pelos torneios em que a personagem participa, faz-nos mergulhar facilmente no mundo do ténis.

Carrie Soto fez-me pensar que os desportistas de alta competição não têm vida fácil mesmo que venham a ter uma vida privilegiada e uma conta bancária recheada. E ser mulher desportista é ainda mais complexo porque não se respeitam as atletas de alta competição como se respeitam os homens na mesma situação. Para jogarem ao mais alto nível, seja em que desporto fôr, é necessário que os atletas prescindam de muitas coisas que nós, comuns mortais, damos como garantido. Regra geral, é preciso começar a trabalhar desde a infância e o ténis é uma das modalidades em que isso é muito frequente. Os tenistas com mais sucesso começam a praticar este desporto desde idades muito precoces. Enquanto estão no auge da carreira, têm o mundo e os fãs aos seus pés. E quando a carreira chega ao fim?! Deve ser muito difícil lidar com a ausência das ovações e das palmas. Por mais rodeados de amigos e família que estejam, é natural que experimentem uma sensação de solidão difícil de suportar.

Em resumo, "Carrie Soto está de volta" foi uma boa experiência. Valeu a pena o esforço de ultrapassar a overdose de ténis.

"Uma das grandes injustiças deste mundo virado do avesso em que vivemos é que se considera que as mulheres se vão desgastando com a idade e os homens vão ganhando algum tipo de profundidade." 

"Sinto-me tão grata neste momento por todos os jogos, todas as vitórias, todas as derrotas e todos os ensinamentos que trago na bagagem. Sabe-me tão bem ter 37 anos neste momento. Ter percebido pelos menos algumas coisas.
Conhecer a terra que piso." 

 

*Os sete maridos de Evelyn Hugo, Malibu renasce, Carrie Soto está de volta e Daisy Jones & The Six.

Como se fôssemos vilões, M. L. Rio

Charneca em flor, 18.10.22

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"Como se fôssemos vilões" foi o livro escolhido pela Rita da Nova para o Clube do Livra-te no mês de Setembro. Neste livro encontramos sete jovens estudantes de uma escola de arte muito especial onde estudam a dramaturgia de Shakespeare. Os jovens frequentam o último ano do curso. Oliver, James, Filipa, Richard, Alexander, Meredith e Wren apresentam personalidades muito similares às personagens que encarnam nas peças de Shakespeare que são encenadas na escola a ponto de os conflitos das obras se prolongarem para a vida real estabelecendo-se entre eles uma rivalidade saudável. A dada altura a amizade entre eles enfrenta uma prova inesperada após um acontecimento trágico.

O livro está organizado como uma peça de teatro, em actos e cenas, o que faz com que o leitor se sinta espectador de uma verdadeira peça de teatro. Esta história conquistou-me quase desde o início e adorei o ambiente outonal que se sente. "Como se fôssemos vilões" fez-me recordar os meus tempos de jovem universitária e tive muitas saudades dessa época. Gostei muito da forma como a autora construiu a história e do tom de mistério que envolve o acontecimento determinante para toda a história. 

A overdose de Shakespeare era dispensável. Obviamente que era essencial que houvessem passagens da obra quando estavam a encenar as peças mas utilizarem frases de Shakespeare numa conversa "normal" já me pareceu exagero. Outro ponto negativo é que se percebe, desde uma fase mais precoce da narrativa, quem foi o maior responsável pela tragédia que lhes mudou a vida. No entanto, acredito que a autora pretendeu dar mais ênfase à dinâmica que se estabelece entre os jovens quando estão perante uma situação limite. A resolução do mistério era secundária para a história que a autora pretendia contar.

Esta leitura foi uma óptima experiência mas dificilmente teria lido este livro se não tivesse sido escolhido para o Clube do Livra-te. Como estava com outras leituras, demorei algum tempo a terminá-lo mas é um livro que se lê com vontade em pouco tempo.

 

"Entram em cena os atores. Éramos sete nessa altura, sete almas fulgurantes com futuros prodigiosos a nossa frente, embora não víssemos mais longe do que os livros diante dos nossos rostos. Estávamos sempre rodeados por livros e palavras e poesia, todas as paixões ferozes do mundo em papel fino entre capas de carneira. (Atribuo em parte a culpa do que aconteceu a esse facto.) A biblioteca do Castelo era uma sala octogonal arejada, forrada a estantes, atravancada com peças de mobiliário antigas e sumptuosas, e mantida a uma temperatura que provocava sonolência, por um monumental fogão de sala quase constantemente aceso, independentemente da temperatura no exterior. O relógio na prateleira por cima da lareira deu as doze badaladas, e nós mexemo-nos, um a um, como sete estátuas a
ganharem vida."

Romance de Verão, Emily Henry

Charneca em flor, 02.08.22

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No passado mês de Julho, a Rita da Nova escolheu este "Romance de Verão"* de Emily Henry para o Clube do Livra-te. Nunca tinha ouvido falar desta autora norte-americana parece que já é muito conhecida. Eu não costumo ligar muito aos livros que estão mais em voga ou best sellers mas este meu preconceito pode impedir-me de ler livros giros como é o caso deste "Romance de Verão".

A história parte de uma premissa muito curiosa e interessante.

As personagens principais são January, uma escritora de livros românticos, e August, ou Gus, que escreve livros densos e tristes designados por ficção literária. January e August conhecem-se na faculdade mas tornam-se rivais uma vez que os seus estilos literários nada tem a ver um com o outro. Num momento particularmente difícil da vida, ela muda-se para uma casa junto à praia onde o seu pai viveu uma história de amor extra-conjugal. O seu vizinho mais próximo é August que ela já não via há anos.

Sem revelar muito vou só dizer que, a dada altura, January e August entram num desafio e combinam trocar de género literário. O vencedor será o que vender o livro primeiro ganhando mais dinheiro.

A leitura desta obra foi uma boa experiência. A escrita de Emily Henry é cativante, constrói boas personagens e consegue alternar, com mestria, momentos de humor com elementos mais dramáticos e comoventes.

Gostei muito do livro e talvez experimente ler outros livros da autora se tiver oportunidade. No entanto, achei que algumas personagens deviam ter tido mais protagonismo. Por exemplo, January cruza-se com a amante do pai algumas vezes mas interagem pouco. Na minha opinião, elas deviam ter estabelecido algum tipo de relacionamento, acho que a história ganharia com esse aspecto. O final pareceu-me atabalhoado já que a autora tratou o final do desafio da escrita dos livros de forma muito superficial. Seja como fôr, é uma boa leitura para levar para a praia, para a piscina mas também se pode guardar para as tardes de Outono, sabe bem ler este livro em qualquer das estações.


"– Tu vais tentar escrever ficção literária sombria, ver se te transformaste nesse tipo de escritora agora, se és capaz de ser essa pessoa. – Revirei os olhos e roubei o último pedaço de donut da sua "mão. Ele continuou, imperturbável: – E eu vou escrever um livro com um final feliz.

Os meus olhos fixaram-se nos dele. As franjas de luz do alpendre começavam a abrir caminho através do nevoeiro agora, roçando na janela do carro e captando o ângulo pronunciado do seu rosto e a madeixa escura que lhe caíra na testa.

– Estás a brincar.
– Nada disso – disse ele. – Não és a única que caiu na rotina. Sabia-me bem fazer uma pausa no que estou a fazer...

– Porque escrever um romance cor-de-rosa vai ser tão fácil que essencialmente será uma sesta para ti – provoquei.

– E tu podes abraçar a tua nova perspetiva sombria e ver se te agrada. Se esta é a nova January Andrews. E quem vender o seu livro primeiro, com um pseudónimo, se preferires, ganha."

 

 

* "Beach Read" no título original 

Beloved, Toni Morrison

Charneca em flor, 27.06.22

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Junho já está quase a acabar e eu ainda não partilhei todos os livros que li em Maio. "Beloved" foi a escolha desse mês da Rita da Nova para o Clube do Livra-te. Esta obra desenrola-se à volta de uma história tão dura e pesada que me levou a não consegui a escrever sobre ele senão um mês depois de o ter lido.

A autora, Toni Morrison, foi distinguida com o Prémio Nobel da Literatura em 1993 e este livro ganhou o Prémio Pulitzer.  No entanto, um livro premiado, tal um vinho por exemplo, pode ou não ser adequado às nossas preferências. Tudo depende daquilo que nos faz sentir.

A trama principal de Beloved gira à volta de um facto verídico ocorrido em Kentucky em 1856. A autora parte desse acontecimento para nos mostrar o horror da escravatura a que tantos homens, mulheres e crianças foram sujeitos.

O processo de abolição da escravatura nos Estados Unidos da América foi gradual uma vez que, enquanto os estados no Norte optavam por acabar com essa prática desumana, os estados do Sul, onde existiam as grandes plantações, pretendiam perpetuá-lo. O papel deste diferente entendimento do trabalho escravo nos diferentes estados pode ter contribuído para a Guerra Civil Americana (Norte-Sul) mas esta influência é controversa historicamente.

Toni Morrison através deste romance e das suas personagens principais como a mulher negra Sethe faz-nos olhar para as sevícias a que os negros eram sujeitos nessa época e como isso pode ser determinante para "justificar" atitudes incompreensíveis das pessoas que vivenciaram algum tipo de tratamento desumano. A autora aborda, também, como certos actos irreflectidos podem gerar sentimentos de culpa que pesam na alma para o resto da vida. A culminar toda esta dureza e crueldade, no fim, o amor e a amizade acabam, de certa forma, por triunfar.

Não foi um livro fácil de ler o que prova que é aceitável não adorar tudo aquilo que é premiado. Não desisti de ler porque a vontade de perceber até onde esta história ia foi mais forte. No fim, acho que valeu a pena porque saí mais rica desta leitura. 

 

"Falava acerca do tempo. É-me difícil acreditar nele. Algumas coisas passam. Desaparecem. Outras limitam-se a ficar. Eu achava que era a minha memória. Tu sabes. Esquecemo-nos de algumas coisas. Outras nunca esquecemos. Mas não é  isso que acontece. Os lugares, os lugares permanecem. Se uma casa arde, desaparece, mas o lugar onde se encontrava, a sua imagem, fica, e não apenas na minha memória, mas também lá fora, no mundo. Aquilo que lembro e uma imagem que flutua fora da minha cabeça. Quero dizer, mesmo que não pense nela, mesmo que morra, a imagem do que fiz, ou conheci ou vi permanece lá. No mesmo sítio onde tudo aconteceu."

"A Filha do Guardião do Fogo, Angeline Boulley

Charneca em flor, 03.06.22

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No âmbito do Clube do Livra-te, um dos livros que li no mês de Maio foi "A Filha do Guardião do Fogo" de Angeline Boulley, escolhido pela Joana da Silva.

Esta obra foi uma excelente surpresa. Inicialmente, pensei tratar-se de um livro muito conotado com o estilo "young adult" mas não tem nada a ver. Este livro saiu há pouco tempo em Portugal e foi traduzido por uma jovem muito activa no Bookstragram*, Elga Fontes. A autora aborda várias problemáticas que, a meu ver, se conjugam na perfeição.

A personagem principal é uma inteligente jovem de mãe branca, de uma das famílias mais abastadas da cidade, e de pai nativo-americano. Embora sinta algumas dificuldades em se integrar quer numa comunidade quer na outra, vai tentando chegar a um certo equilíbrio embora a sua vida recente tenha passado por alguns percalços. De repente, a cidade começa a ser abalada por acontecimentos trágicos onde Daunis se vê, inesperadamente envolvida. 

"A Filha do Guardião do Fogo" tem inúmeros ingredientes que tornam a leitura cativante como sejam mistério, crime, romance e cultura indígena americana. Apercebi-me de que pouco mais sei da realidade nativo-americana do que aquilo que Hollywood nos mostrava nos antigos westerns e os indígenas eram, quase, sempre os maus. Confesso que fiquei fascinada e com vontade de saber mais. Um dos pormenores desta cultura, ou pelo menos da tribo retratada no livro, é o respeito pelos mais velhos. A relação com os elementos mais idosos da comunidade é encantadora.

Em suma, gostei muito deste livro e recomendo-o a quem aprecie conhecer uma cultura diferente mas que também goste de mistério e romance.

"Repouso sobre uma grande rocha, numa ilha de pedra rodeada de bosques. A chuva acabou de parar; gotas pesadas escorrem dos ramos e pingam quando se encontram no chão da floresta. Uma brisa agita as árvores, transformando-as em sinos de vento. Os últimos vestígios de chuva escorrem agora em salpicos mais suaves. Os pedregulhos roncam, baixos e constantes. A luz do Sol penetra a cobertura da floresta lançando feixes que despertam os amores-perfeitos adormecidos.
À esquerda, há uma pequena fogueira rodeada pelas pedras do avô. A este. O seu fumo sobe, convocando orações nas cadências melódicas de Anishinaabemowin. À
minha frente, a sul, há outra fogueira com mais avôs e orações transportadas em fumo cinzento. A minha direita, a oeste, os avos aguardam. Ainda não há fogo. Atrás de mim, a norte, mais Avôs pacientes.
Os amores-perfeitos cantam para mim. Circundam a rocha, pontilhando a periferia com caras amarelas e roxas, balançando suavemente. Todas estas vozes que se misturam. Adiciono a minha, avançando através do refrão até encontrar um nicho que a minha voz preencha, para tornar a canção completa.

Este mundo existe para lá de qualquer contentamento e beleza que alguma vez conheci."

 

*páginas de Instagram onde se publicam, maioritariamente, conteúdos relacionados com livros e literatura.

Mil Sóis Resplandecentes, Khaled Hosseini

Charneca em flor, 06.05.22

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Este livro foi mais uma sugestão para o mês de Abril do Clube do Livra-te. Desta feita, a escolha foi da Rita da Nova.

O pano de fundo deste romance é o Afeganistão desde os anos 60 (ainda no tempo da Monarquia) até ao início deste milénio passando pela Revolução Marxista, e consequente invasão soviética, pela guerra entre as forças governamentais (apoiadas pela URSS) e os Mujahidin, seguida pela guerra civil entre grupos rebeldes e que terminou com a vitória dos Talibã chegando à invasão norte-americana posterior aos atentados do 11 de Setembro.

As figuras centrais deste romance são 2 mulheres de gerações diferentes, Marian e Laila, que acabam por se casar com o mesmo homem em circunstâncias muito díspares. Através delas conseguimos perceber perfeitamente as condições de vida a que as mulheres afegãs estavam, e continuam a estar, sujeitas.

O contexto histórico e político está muito bem entrelaçado na narrativa de forma a que este não se torne aborrecida. A construção das personagens é excelente. Não são lineares, têm várias camadas e vão evoluindo ao longo dos anos, com tudo aquilo que lhes vai sucedendo. O autor consegue que o leitor estabeleça uma conexão empática com Laila e Marian embora de forma diferente e evolutiva.

Para além da condição feminina imposta pelo ambiente social que se vive, é abordada a violência doméstica de forma tão realista que quase conseguimos sentir as dores destas 2 mulheres.

"Mil Sóis Resplandecentes" é um livro perturbador, duro, que abala as nossas certezas e que nos confrontam com uma realidade muito diferente da nossa realidade ocidental. Este livro encaixa na categoria dos livros que, mais do que uma fonte de distracção, nos fazem reflectir sobre a natureza humana, sobre a maldade e sobre tudo aquilo que falta fazer para construirmos uma sociedade mais justa e um  futuro mais digno para todos. E ler esta obra fez-me sentir grata porque a lotaria da Vida me fez nascer num país onde ser mulher é diametralmente diferente daquilo que significa sê-lo no Afeganistão, principalmente neste tempo em que vimos regressar os Talibãs ao poder, ainda que em versão 2.0.

Em suma, ainda bem que a Rita da Nova sugeriu este livro porque de outro modo não teria pegado nele perdendo uma óptima oportunidade de enriquecimento pessoal.

"- Lamento - diz Laila, achando espantoso que as histórias de todos os afegãos sejam marcadas pela morte, pela perda e por inimagináveis desgostos. E no entanto, como ela testemunha, as pessoas acham maneira de sobreviver, de seguir em frente. Pensa na sua própria pria vida e em tudo o que lhe aconteceu, e admira-se por também ela ter sobrevivido, por estar viva e sentada naquele taxi a ouvir a história daquele homem."

 

Lizzie & Dante, Mary Bly

Charneca em flor, 26.04.22

IMG_20220425_215939.jpg"Lizzie & Dante" foi o livro escolhido pela Joana da Silva, do Clube do Livra-te, para o mês de Abril. 

Quando percebi que a história se desenrolava numa ilha italiana, fiquei logo interessada. Como não tenho viajado nestes 2 últimos anos, este livro foi uma excelente maneira de "viajar" até um cantinho da "minha" Itália.

A ilha é Elba onde eu nunca fui mas que é conhecida por ter sido a ilha onde Napoleão Bonaparte esteve exilado. 

Este livro aqueceu-me a alma e o coração. "Lizzie & Dante" sabe a Verão, a vinho italiano, a limoncello, a pasta e cheira a maresia. Embora me tenha sabido bem em Abril é, nitidamente, um livro de Verão, para ler à beira-mar ou à beira da piscina.

Lizzie é uma professora, especialista em Shakespeare, que enfrenta um grave problema de saúde. Elba é o seu destino de férias, talvez o último, na companhia do seu melhor amigo, Grey, e do companheiro deste, Rohan, um famoso actor de Hollywood. Um dia na praia "tropeça" num charmoso Chef italiano, Dante, que traz na bagagem uma filha e uma cadela. E o resto fica para descobrirem quando lerem o livro.

Uma história comovente onde o passado se cruza com o presente e se embrulha no futuro. Uma história de dor, amor, amizade e vontade de viver regada com o melhor vinho italiano e alimentada a antipasti, prosciutto e mozarella. Em suma, abre o apetite.

"Lizzie & Dante" tem a leveza das histórias românticas mas tem também algumas sombras para contrabalançar. Gostei muito deste livro mas fiquei com pena de não ter lido em inglês. Na minha opinião, a edição portuguesa deixou um pouco a desejar, pelo menos, na versão digital. Nalgumas passagens senti que faltavam frases, parecia não haver ligação de um parágrafo para outro. Não sei se estava assim, originalmente, ou se foi da tradução ou alguma falha da revisão do livro. Outro pormenor é que a acção parece ser muito rápida nalgumas passagens e excessivamente lenta noutras. O final não é tão previsível como se poderia pensar ao longo do livro.

Tendo em conta que me deu muito prazer lê-lo, a minha classificação é 

⭐⭐⭐⭐

"Afastou as cortinas de linho e empurrou para trás as pesadas persianas de madeira. O mar parecia verde-escuro perto da costa e amarelo nohorizonte, onde o Sol nascia. Guarda-sóis cor-de-rosa com franjas esvoacavam à direita, onde a areia fora varrida como um jardim de pedras japonês.

À esquerda, ficava a praia pública. Os guarda-sóis ainda estavam atados, as cadeiras dobradas. Uma fieira de algas de um cinzento-esverdeado tinha acostado a beira-mar e ali deixada pela maré. Na noite anterior, o ar era inebriante com um perfume a flores, mas agora apresentava-se fresco e limpo, com uma delicada coloração do mar.
Elba era sedutora de manha cedo. A água parecia renda num voltear de espuma, quando se juntava à areia e, sustivesse a respiração, conseguia ouvi-la embater na costa."

 

 

"O momento em que nos perdemos" Maria José Núncio

Charneca em flor, 31.03.22

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No mês de Março li mais um livro sugerido pelo Clube do Livra-te, desta feita uma escolha de Rita da Nova. As premissas para as escolhas do podcast Livra-te para o mês que hoje termina foram duas efemérides que se assinalam no mês de Março, o Dia Internacional da Mulher e o Dia do Livro Português.

Maria José Núncio, doutorada em Sociologia, tem uma presença assídua na televisão portuguesa já que participa numa rubrica de crónica criminal. Neste livro acompanhamos as vidas, que se cruzam a dada altura, de Toni e Maria dos Remédios que tiveram uma vida glamorosa nos anos 80 mas que acabam por cair em desgraça. A autora conduz-nos através destas páginas para percebermos os caminhos que ambos escolheram e que os levaram ao que vivem na actualidade.

Toni é um homossexual que foi expulso de casa pelo pai, um burguês conservador, no dia do funeral da mãe, em 1974. Maria do Remédios foi a única sobrevivente da família nas cheias de 1967 e foi entregue à madrinha que a criou. As suas vidas cruzam-se na Lisboa dos anos 80, ela como modelo e ele como decorador, e entre os dois nasce uma amizade que se prolonga pela vida fora acompanhando as mudanças que a cidade atravessou até à actualidade. 

Gostei muito deste livro principalmente porque me fez viajar no tempo embora eu não tenha vivido as mesmas experiências que estas duas personagens. Só tenho pena que a autora não tenha desenvolvido mais a história. O tema era tão interessante que merecia muito mais.

"Mas éramos tão ingénuos... Tão ingénuos que acreditámos que tudo duraria para sempre, esquecendo-nos de que fomos nós, com as nossas tendências, quem  precisamente, inaugurou a efemeridade: das roupas e da fama. E pagámos o elevado preço do esquecimento e do anacronismo. A decadência dos lugares justapunha-se à nossa própria decadência."

 

"Para Interromper o Amor", Mónica Marques

Charneca em flor, 30.03.22

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Este livro foi o escolhido pela Joana da Silva para o mês de Março do Clube do Livra-te. Esta obra gira à volta de um certo triângulo amoroso, duas mulheres e um homem, em que a amizade, o sexo e o amor se misturam. As mulheres não podiam tem um passado mais distante já que uma delas é filha de um português que se refugiou no Brasil depois de 1974 e a outra é filha de um dirigente comunista. A acção desenvolve-se entre o Lisboa, o Rio de Janeiro e ainda uma passagem pelo Porto. O livro está organizado em pequenos capítulos, cada um deles com a "voz" de cada uma das personagens. 

"Para Interromper o Amor" lê-se em pouco tempo devido aos capítulos curtos mas não entrou para a categoria dos meus livros preferidos. Nem sempre consegui acompanhar a história, ou ausência dela, já que não é fácil acompanhar a organização que a autora imprimiu ao livro. Também achei a utilização de vernáculo algo exagerada. Não fez bem o meu género de livro mas é sempre interessante ler livros diferentes daquilo que é habitual.

"O que é que uma mulher quer de um homem? Quer viajar com ele? Perder-se nele, perder-se com ele, ou, nestes tempos de ambiguidade sexual, o que é que uma mulher quer de uma mulher? Viajar com ela? Perder-se nela ou no mundo qualquer (mas muito melhor) dela? Gostar de viajar pode ser outra coisa: querer muito ser levada, enganada, e talvez outras invenções da nossa língua? Não. Existe coisa mais sexy que viajar?"