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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Vários Círculos

Charneca em flor, 02.02.22

Depois de uma fila imensa, entrei, finalmente, no Museu Guggenheim. Já era o segundo dia da minha viagem a Nova Iorque que dedicava a museus.

No dia anterior, enquanto passeava por Central Park, vislumbrara o edifício do museu e tinha decidido que tinha que lá entrar. O aspecto arquitectónico exterior era, ele próprio, uma obra de arte que me deixou intrigada sobre aquilo que albergava no interior.

Aquilo que fui encontrando no Museu impressionou-me pela estranheza. Solomon R. Guggenheim criou uma impressionante colecção de arte moderna o que o levou a criar a Fundação Solomon R. Guggenheim bem como o museu. Tenho que confessar que nunca fui muito entendida em arte mas sempre apreciei objectos bonitos mas que eu conseguisse compreender. Isto significa que a arte moderna e contemporânea sempre escapou ao meu entendimento.

320px-Vassily_Kandinsky,_1926_-_Several_Circles,_G

Inesperadamente, um quadro chamou-me a atenção pela motivo e pelas cores electrizantes. Era Einige Kreize (Vários Círculos) de Wassily Kandinsky. Senti-me atraída, de forma magnética, fiquei diante dele e deixei que comunicasse comigo. Embrenhei-me por aquilo que o quadro mostrava e compreendi a sua mensagem. Pelo menos, a mensagem que o artista me transmitiu a mim. Olhei todos aqueles círculos e vi a minha vida. Cada objecto colorido daquele quadro representava as pessoas e os ambientes que foram fazendo parte da minha vida ao longo dos anos. Kandinsky pintou círculos maiores e mais pequenos, uns tão próximos que tocam nos outros e até se sobrepõem. As pessoas que passam pela nossa vida são assim. Num momento são-nos muito próximas mas depois vão-se afastando até quase desaparecendo. Nós somos pessoas diferentes consoante os ambientes em que nos movemos. Há ambientes que nunca se tocam mas há outros que se cruzam quase se sobrepondo. E foi isso que aquele quadro me disse. Eu vi a minha vida naqueles círculos coloridos. O quadro fascinou-me tanto que quando dei por mim tinha chegado a hora de encerramento e quase que eu ficava fechada no interior do Museu Guggenheim.

 

Texto escrito para o Desafio Arte e Inspiração organizado pela Fátima Bento e com a participação de Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yueCélia, Charneca Em FlorCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSetePartidas

O presente difícil de encontrar

Os Desafios da Abelha | Conto de Natal de 2021

Charneca em flor, 30.11.21

Nos dias anteriores, a cidade tinha sido afectada por um enorme nevão. Na televisão, as autoridades de segurança mostravam-se muito preocupadas com a segurança rodoviária. Só que a véspera de Natal chegara e as pessoas queriam fazer as compras de última hora, como era costume. Nada as fazia ficar em casa, nem sequer a neve.

Os limpa-neves trabalhavam sem descanso mas, assim que acabavam de limpar uma estrada, ela voltava a ficar coberta de neve. Mesmo assim, os parques de estacionamento da superfícies comerciais apresentavam-se quase cheios. Apesar das péssimas condições atmosféricas, as pessoas arriscavam fazendo deslocações, nem que tivessem que estar horas numa fila de trânsito. Tudo valia a pena para salvar o Natal.

Contra todas as adversidades, havia alguém que se deslocava, freneticamente, de centro comercial em centro comercial, de loja em loja. Os engarrafamentos não o preocupavam. Aquele senhor, bonacheirão, vestido de vermelho, deslocava-se num trenó. Mas não era um trenó qualquer, era puxado pela experiente Rena Rudolfo. Não havia engarrafamento, cruzamento, semáforo ou rotunda que a parasse porque Rudolfo se deslocava pelo céu, não voando que isso deixava para os pássaros, mas pulando de nuvem em nuvem. Na noite mais mágica do ano, era vê-los, Pai Natal e Rudolfo, saltitando pelos céus.

Só que, naquele ano, o Pai Natal começou a ser avistado muito antes de a noite cair. Um menino tinha-lhe escrito uma carta muito comovente mas tinha-o colocado perante uma situação complicada. O pedido não se conseguia satisfazer na fábrica de brinquedos do Pólo Norte. Sendo assim, o Pai Natal andava, tal e qual o mais comum dos mortais, a tentar comprar aquilo que o menino, João de seu nome, tanto ansiava. Na sua busca infrutífera foi estacionando em vários locais surpreendendo os incautos transeuntes embora a maioria pensasse que se tratava de uma mera estratégia de marketing.

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O céu estava a escurecer porque o dia ia chegando ao fim e o Pai Natal não resolvia a sua questão. Até que teve a ideia de ir consultar um colega que também costumava trabalhar nesta época do ano, o Menino Jesus. Com a ajuda da sua fiel Rena Rudolfo, foi até ao Paraíso expôr o seu problema. Depois de ser muito bem recebido, contou a situação o mais depressa que conseguiu. O Menino Jesus riu-se com gosto dizendo:

- Querido amigo, como é que é possível que um homem com a tua experiência esteja a fazer um problema tão grande dessa situação?! Procura bem dentro de ti, no coração, que vais encontrar a solução. Até te vou dar uma ajuda. – E deu-lhe uma caixa vazia enquanto se despedia uma vez que não havia tempo a perder. Era chegada a hora de levar os presentes a todas as casas do mundo.

O Pai Natal compreendeu tudo, finalmente. E, de nuvem em nuvem, lá foi saltitando e deixando presentes em todos os lares, dos mais humildes aos mais ricos.

Na manhã de Natal, a neve continuava a cair lá fora. Na grande casa que se erguia no cimo da colina, inúmeras crianças saíam dos seus quartos e desciam as escadas, com grande algazarra, até à árvore de Natal da sala comum. No orfanato do Menino Jesus, nenhuma criança ficava sem presente mas os olhos que mais brilhavam eram os do João porque a sua prenda era a mais reluzente. No momento em que se preparava para abri-la, soou a campainha.

- Vem, João, os teus pais chegaram para te levar. Vais passar o dia de Natal com a tua nova família.

Da caixa entreaberta espalhou-se no ar o doce aroma do amor. O desejo do pequeno João tinha sido realizado. O presente que pediu ao Pai Natal foi apenas este, Amor.

 

Este pequeno conto, inspirado na imagem que o ilustra, foi escrito no âmbito do desafio lançado pela Ana de Deus, inspirado na iniciativa anual da Mãe Natal dos Blogs do Sapo, imsilva.

Desafio Arte e Inspiração #9

Mentes perturbadas

Charneca em flor, 10.11.21

João não tinha muitos amigos. Sempre fora um miúdo estranho. O amor extremo que a mãe lhe devotava nunca a deixou perceber que o seu filho não era igual às outras crianças. Aos seus olhos, o seu filho era perfeito. Durante muitos anos, esperara por ele que só chegara quando já não contavam que pudesse acontecer.

Quando João nasceu, os pais já estavam casados há 15 anos. Aquela criança era a realização de um sonho. De tão imaginado e desejado, João tornara-se num menino da mamã. O pai, pessoa introvertida, colocara-se sempre à margem do seu crescimento. Não é que não o amasse, mas não conseguia penetrar naquela simbiose perfeita entre mãe e filho. Também ele jamais suspeitara que algo no interior da mente do seu filho não funcionava da maneira que seria expectável.

Os anos foram passando e o João foi crescendo sem sair muito debaixo da asa da mãe. Na escola ficava sempre sentado perto da professora e nunca saía para o recreio. A interacção com as crianças da sua idade era mínima. Na verdade, João era incapaz de olhar os outros nos olhos e pouco falava. No entanto, era o aluno que tinha os melhores resultados desde que não fosse preciso falar com ninguém. A mãe, quando interpelada pela professora, conseguia arranjar sempre justificações. Obviamente, que ela já tinha reparado que João tinha muita dificuldade em olhá-la de frente. Aliás, às vezes até achava que o seu filho ficava de olhar vazio, perdido nos caminhos tortuosos da sua mente. Só que, para si, a natureza do seu filho era assim, calado e tímido, e a ela restava-lhe aceitá-lo e amá-lo.

Nada preparara aqueles pais para aquilo que estava por vir. Certa noite, acordaram com um estranho barulho que vinha do telhado. Com o medo a dominá-los, avançaram pelo corredor em direcção à porta. Não se aperceberam que o filho não estava na cama. Com cautela, saíram para o pátio descobrindo que o filho se equilibrava em cima do telhado enquanto gritava palavras incompreensíveis.

A mãe começou a chorar compulsivamente porque já estava a imaginar o filho morto no chão do pátio.

- João, o que estás aí a fazer? Como é que foste aí parar? – o pai, embora assustado, tentava manter-se calmo.

- Pai, ajuda-me. Eu preciso de chegar ali a cima.

- Ali, onde?

- Ao céu. Tenho que ajudar aquele cabelo.

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Cabelo perseguido por dois planetas, Joan Miró

 

- Mas que cabelo? Do que estás a falar? Não é melhor saíres daí? Eu vou ter contigo para te tirar daí.

- Não. – o grito de João foi lancinante. – Eu tenho que ajudar o pobre cabelo. Não vês aqueles dois planetas? Estão a persegui-lo, coitadinho.

Efectivamente, no céu observava-se um fio de luz, rasto de algum avião, mas o pai não estava a compreender nada do que o filho dizia.

O barulho acordara os vizinhos e alguém tomara a iniciativa de ligar para o serviço de socorro. No fundo da rua, surgiram uma ambulância e um carro de bombeiros.
João continuava a gritar coisas sem nexo e a tentar erguer-se no cimo do telhado. A mãe, desesperada, tomou consciência de que o seu filho não era perfeito. A sua mente estava irremediavelmente desarrumada. Quando os bombeiros o conseguiram fazer descer, os pais tiveram que aceitar que o seu filho precisava de ajuda médica. E, abraçados, choraram a “morte" de um filho que nunca existiu, o filho de sonho.

 

Neste desafio de inspiração artística, participam estes criativos  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

Desafio Arte e Inspiração #8

A sedutora

Charneca em flor, 03.11.21

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Ilustração de Moda, Almada Negreiros

 

Quando a via passar, Bento ficava completamente transtornado. Aquela mulher era magnética. A altivez e a elegância com que ela caminhava conferia-lhe uma certa nobreza. Não se pense que ele a vigiava. Apenas se dava a estranha coincidência de ele sair de casa precisamente à mesma hora a que ela passava à sua porta. Todos os dias. Mantendo uma certa distância, ele acompanhava-lhe os passos sentindo o halo de perfume que ela deixava à sua passagem.

Bento era um homem tímido, muito diferente dos homens da sua geração.

Naquela época, era suposto que o homem fosse o sedutor e que a mulher fosse recatada. Pelo menos, aparentemente. Na verdade, uma mulher inteligente era perfeitamente capaz de ser ela a sedutora mas fazendo com que o homem acreditasse nas suas qualidades irresistíveis de galanteio.

Conceição Felicidade era, sem dúvida, uma mulher inteligente e já percebera que aquele desconhecido se perturbava com a sua presença. Há muito que reparava nele e na maneira como a olhava quando se cruzavam. Na verdade, o seu aspecto e porte também lhe tinham chamado a atenção. Só ainda não descobrira como havia de chegar à fala com aquele homem sem o assustar nem parecer uma oferecida. O equilíbrio era muito ténue. Por mais que se vivessem os loucos anos 20 por essa Europa fora, Portugal continuava a ser um país retrógrado. Algumas atitudes nunca seriam bem vistas numa mulher séria. Ela ansiava que aquele homem lhe dirigisse a palavra porque ela teria todo o prazer em retribuir-lhe essa atenção. No entanto, a situação já se arrastava há semanas e Conceição Felicidade queria confirmar se aquele homem estava mesmo interessado. De repente, fez-se luz na sua mente.
Sem perceber bem de que se tratava, Bento reparou que a sua musa deixara cair algo. O homem estugou o passo. Abandonada no passeio, jazia uma singela luva amarela. Aquela era a oportunidade que Bento precisava. A luva pertencia àquela bela mulher e fora isso que ele vira cair. Bento andou ainda mais depressa de modo a conseguir alcançá-la.

Conceição Felicidade olhou para trás, o mais disfarçadamente que conseguiu, e viu que ele mordera o isco. Percebendo que ele começara a andar mais depressa, ela parou diante de uma montra para lhe facilitar a tarefa.

- Minha Senhora, peço desculpa mas penso que isto lhe pertence.

Fingindo-se sobressaltada, Conceição Felicidade virou-se para o encarar.

- Oh, perdão. Não queria assustá-la. Acho que deixou cair a sua luva.

Conceição Felicidade sorriu-lhe, corando de forma encantadora. Aceitando a luva, deixou que os dedos de ambos se tocassem provocando-lhes um arrepio electrizante.

- Muito obrigada, não me tinha apercebido de que a tinha perdido. – disse ela enquanto o olhava nos olhos de modo fugaz.

Bento, espezinhando a sua timidez e percebendo tinha que aproveitar aquela oportunidade única, arriscou num convite:

- Posso oferecer-lhe alguma coisa para compensar o susto que lhe provoquei? Aqui ao lado há uma casa de chá muito agradável.

Conceição Felicidade já não tinha dúvidas de que estava no bom caminho. Apoiando-se no braço que ele lhe oferecia, ela preparou-se para concluir, com sucesso, a ardilosa tarefa de o cativar.

 

Neste desafio de inspiração artística, participam estes criativos  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

Desafio Arte e Inspiração #6

Alentejo do meu coração

Charneca em flor, 20.10.21

O automóvel rolava, suavemente, pela estrada que eu conhecia tão bem. Sem razão aparente, sentia-me um pouco ansiosa. Pensando bem, aquela reacção era-me familiar. A expectativa de voltar aos meus lugares causava-me, sempre, alguma perturbação.

Sem nunca deixar de estar atenta à condução, comecei a reparar que a paisagem que ladeava a via se ia alterando. Os tons tornavam-se, progressivamente, mais dourados. E, finalmente, vi a placa que indicava o início do meu Alentejo. Avistar aquele marco fazia-me respirar doutra forma. A partir dali, sentia-me em casa.

Não nasci no Alentejo mas é onde se encontram as minhas raízes. Os meus pais migraram para os arredores de Lisboa no início dos anos 70, acompanhando o movimento do interior para o litoral. Assim eu cresci, maioritariamente, longe do Alentejo mas os meus pais mantiveram uma relação muito estreita com a família que por lá ficou. Sempre que possível rumavam ao torrão natal. Desde cedo que percebi que o Alentejo era a minha verdadeira casa. Talvez isso se tenha devido à minha maneira de ser mas nunca senti a terra onde cresci como a minha terra natal. Foi no regaço da minha avó que construí as minhas memórias mais felizes. Ao contrário dos meus amigos da ciddade, eu sempre soube de onde vêm os ovos ou a diferença entre um sobreiro e uma oliveira. Durante toda a infância e adolescência, férias escolares rimavam com Alentejo. Nesses momentos, os dias corriam velozes e eu terminava-os suja mas extremamente feliz. Os meus brinquedos eram a terra, as folhas e os galhos. Os meus companheiros tanto podiam ser cães, gatos, porcos, cabras mas também os outros miúdos da terra. A maioria dos meus amigos das férias eram, mesmo, alentejanitos mas também um ou outro miúdo da cidade.

Na adolescência, o cenário foi-se alterando. Os jovens da cidade já não apareciam tantas vezes e alguns adolescentes da terra também desapareceram. O trabalho começou a escassear por ali e as famílias que tinham resistido aos primeiros movimentos migratórios acabaram por se verem obrigadas a procurar outras paragens com mais oportunidades. Os velhos ficaram e eu continuei a ser das poucas adolescentes que continuava a preferir passar ali o Verão do que numa qualquer praia lotada do Algarve.

Depois de a minha avó falecer, foram poucas as vezes que voltei ao Alentejo. As recordações eram muito dolorosas e não soube lidar com elas. Só eu sei a falta que a minha avó me faz. O seu amor ainda me aquece o coração.

A seguir à  última curva da estrada, a aldeia surgiu encavalitada num monte. Chegada à casa da minha avó, senti o coração apertado como era habitual desde que ela partira. A sua ausência ocupava todas as divisões mas ao mesmo tempo cada canto despoletava em mim recordações muito felizes.

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Sobreiro, El Rei D. Carlos de Bragança, 1905

Olhei para o relógio e reparei que se aproximava a hora do evento que me levara a regressar ali. Com o coração aos saltos, encaminhei-me para o montado contíguo ao quintal da minha avó. As árvores já não eram bem iguais às que viviam na minha memória, os anos não passavam só pelas pessoas. De repente, lá estava ele, o quercus mais antigo da região. Por momentos, voltei a ser uma adolescente tímida e apaixonada. Ali, encostada ao seu tronco poderoso, aconteceu o meu primeiro beijo. E, à minha espera, estava o protagonista da minha mais bela história de amor. Os 30 anos que passaram apagaram-se num ápice quando o nosso olhar se cruzou. As nossas conversas, pela noite fora, no Messanger já tinham reacendido a chama da paixão. No momento do reencontro, as emoções inundaram-nos em catadupa e o sobreiro grande voltou a ser a testemunha silenciosa dos nossos beijos apaixonados.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

 

 

Desafio Arte e Inspiração #5

Esqueleto no quarto

Charneca em flor, 13.10.21

O ano de 1966 ficou marcado na vida daquela família. Depois de um trabalho de parto de várias horas, nasceu Frederica. O dia 6 do 6º mês começara há, apenas, 6 minutos quando se ouviu o choro inconfundível de uma criança acabada de nascer.

A velha parteira, que ajudava bebés a nascer há 60 anos, pousou a pequena criatura nos braços da mãe dizendo:

- É uma menina especial. O momento do nascimento ficou marcado por um número mágico. – a anciã referia-se à coincidência do número 6 no momento do nascimento.

A mãe, exausta, nem percebia bem o que dizia a parteira mas fez um esforço para sorrir. Aquela filha tinha sido muito desejada mas o cansaço acumulado dominava-a. Agora que tinha a filha nos braços e que a via tão perfeita, o corpo pedia-lhe que fechasse os olhos e dormisse.

Toda a família se deixou encantar por aquele ser tão pequenino. Desde o primeiro minuto, Frederica tornou-se no centro do pequeno universo formado pelas grossas paredes da casa. No entanto, nem tudo ia bem. Durante o dia, era um bebé tranquilo mas, quando caía a noite, a pobre criança chorava desalmadamente. Ninguém conseguia acalmá-la. Durante todas as horas da noite, havia sempre alguém com ela ao colo mas o pranto não parava.

A família não poupou recursos e procurou os melhores especialistas mas não se conseguia descobrir qual era o problema. Desesperada, a mãe levou-a ao padre da aldeia vizinha, conhecido por ser exorcista. Na presença daquele santo homem, a menina chorava e ria ao mesmo tempo, de maneira assustadora. O sacerdote não hesitou e exorcizou a menina.

A visita ao padre teve efeitos durante alguns dias mas, rapidamente, o choro nocturno voltou a ouvir-se por toda a casa e redondezas.

Até que um dia apareceu por ali uma estranha personagem. A mulher era muito idosa e estava vestida pobremente. Os cabelos e as unhas pareciam muitos sujos e o rosto era dominada por uma verruga gigantesca donde saíam compridos pêlos. O feitor encontrara-a à beira do caminho onde pedia ajuda. O homem era dono de um coração bondoso e, como o monte tinha algumas casas vazias, ofereceu-lhe guarida.

O choro nocturno ouvia-se até às casas do monte. Todas as noites, a velha sentava-se à porta hipnotizada com aquele som. Durante o dia começou a espalhar, pelos vizinhos, que conseguia ajudar a menina.

Não tardou que tal assunto chegasse aos ouvidos da mãe da criança e numa manhã pegou em Frederica e foi procurar a tal velha.

Quando viu a estranha mulher, ficou assustada mas não teve coragem para voltar para trás.

- Ainda bem que vieste, minha filha. Sei que em tua cass têm sofrido muito mas eu vou ajudar-te. Deixa-me pegar na tua menina.

A velha pegou na criança e sentou-a no colo. Fixou o seu estranho olhar na criança. De repente, revirou os olhos e ficou estática durante um bom bocado. De início, Frederica ainda choramingou mas depois começou a olhar para a velha com interesse. A mulher balbuciou qualquer coisa que ninguém percebeu.

A estranha voltou-se para a mãe de Frederica:

- A tua filha nasceu de noite, não foi? Ela foi marcada pela lua. Desde o dia em que nasceu que há 6 espíritos que a atormentam todas as noites.

As lágrimas corriam pelo rosto da mãe de Frederica. Agora é que estava apavorada.

- E não há nada a fazer?

- A única solução é apelar à ajuda de uma antepassada da Frederica. No jazigo mais antigo do cemitério, têm que procurar o caixão da tataravó. O nome é Madalena Carmem. Quando abrirem o esquifo, vão descobrir que, apesar dela ter morrido há mais de 150 anos, o esqueleto está intacto. A menina tem que dormir na companhia do esqueleto. A presença da tararavó afastará todos os outros espíritos e vai protegê-la para toda a vida.

A velha mulher calou-se enquanto a mãe levava Frederica pela mão. Ia um pouco desalentada porque não sabia como é que ia convencer a família a pôr um esqueleto no quarto da menina.

Obviamente que a ideia não foi muito bem aceite mas tanto insistiu que o marido moveu influências e, por portas e travessas, lá conseguiu o esqueleto da tataravó.

Desde a primeira noite em que teve o esqueleto por companhia que Frederica dormiu perfeitamente. Nunca mais deixou de dividir o quarto com a tataravó. Os outros espíritos mantiveram-se bem afastados e isso é que era importante.

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El sueño, Frida Kahlo (1940)

A velha? Assim que o esqueleto chegou, ela desapareceu sem deixar rasto.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

 

Desafio Arte e Inspiração #3

Desespero ao entardecer

Charneca em flor, 29.09.21

O entardecer incendiava o céu. Junto à amurada da ponte, Gonçalo seguia com o olhar o curso revolto do rio. Naquela zona, o rio era bastante profundo escurecendo as suas águas. Mesmo assim, a escuridão das águas não se comparava ao negrume que sentia dentro dele. Não sabia que rumo dar à sua vida. Não conseguia conceber como seria o seu futuro, a sua única certeza era a infelicidade que sentia. Ele construíra uma vida mas, no seu íntimo, tinha a consciência que vivia há muito numa mentira. Só que não estava preparado para enfrentar o olhar reprovador dos outros. Ninguém o ia compreender. A única solução que via diante de si passava debaixo daquela ponte. Só precisava de um empurrão de coragem para conseguir ultrapassar aquele obstáculo e perder-se, para sempre, na fundura das águas.

Com força, fincava os dedos no parapeito antigo. Só precisava de mais esforço para seguir o seu destino.

- Atira-te. Não hesites tanto. – a seu lado, alguém cochichava. Não tinha reparado em ninguém ali perto. A pouca distância, viu um vulto. Não percebeu bem de quem se tratava, parecia uma senhora idosa e curvada.

- O que disse?

- Oh, filho, disse para te atirares à água. Tenho mais que fazer, não posso estar aqui o dia todo.

- Mas quem é a senhora? Como é que sabe que eu estava a pensar atirar-me ao rio? Eu nunca partilhei os meus pensamentos em voz alta. – Gonçalo estava atónito.

- Eu sei tudo. Conheço-te ao mais ínfimo pormenor até aos teus pensamentos mais escondidos. Eu sou… eu sou a Senhora da Morte. Estou aqui para te acompanhar na tua passagem.

- Mas veio aqui para me empurrar?! É que eu não tenho assim tanta certeza de que o caminho é este.

- O caminho é para baixo e despacha-te que eu tenho coisas a fazer e sítios para ir. Queres ajuda?

A idosa aproximou-se perigosamente e ele sentiu o frio que emanava da criatura.

- Não, não faças isso. Eu não sei viver sem ti – uma voz familiar gritava ao início da ponte. Era ele, a razão do seu desespero, o homem que ele amava. Quase desde a infância que ele sabia que nunca seria um homem como os outros. Ele sentia-se atraído por outros homens mas a sua família nunca iria aceitar. Para agradar aos seus, ele tinha casamento marcado para dali a uns dias mas sabia que não era justo para a sua noiva. A Margarida era uma grande amiga mas não a amava. Ali, correndo na sua direcção, estava o seu verdadeiro amor, Manel.
Manel abraçou-se a Gonçalo. As lágrimas corriam pelo rosto de ambos.
- Gonçalo, a solução não é esta. Eu estou contigo e não te vou abandonar. Juntos vamos conseguir com lidar com a tua família.

Lentamente, Manel afastou Gonçalo do parapeito da ponte. Unidos, como nunca tinham estado, e lado a lado, afastam-se em direcção ao futuro.

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Gonçalo, ainda, olhou para trás para ver se a Senhora da Morte continuava por lá. No meio da névoa, pareceu-lhe ver uma sombra que se desvanecia-se.

Desta vez, a Senhora da Morte não levou a melhor.

 

Mais uma semana do Desafio Arte e Inspiração. O quadro que nos serviu dr inspiração foi "O Grito" de Edvard Munch.

Quem o terá escolhido? 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina AveiroGorduchita, Fátima Bento,  ImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMaria AraújoMarquesaMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

Desafio Arte e Inspiração #2

Junto ao cipreste

Charneca em flor, 22.09.21

Do alto da janela do meu quarto, observo o céu estrelado. No ar nocturno sente-se o aroma a fim de Verão salpicado com o cheiro do alecrim e da alfazema que crescem ali pela serra. Aqui, neste velho palacete, aumenta em mim a esperança de me conseguir reencontrar e voltar a sentir-me viva e inteira.

O que me trouxe até aqui foi, apenas e só, a minha vontade. As minhas deambulações pela internet conduziram-me a este sítio, a esta pequena cidade do sul de França que antevejo da minha janela. O edifício onde estou é antigo e um pouco sinistro. O meu quarto fica numa das torres por isso usufruo de um panorama desafogado da cidade. Todas as noites, antes de me deitar, fico aqui a apreciar esta vista maravilhosa. Gosto de ver as casas da cidade e imaginar como será a vida de quem lá vive. Gostava de me perder naquelas ruelas. Por enquanto, não passa de um projecto porque não me deixam sair daqui. O único contacto com o exterior é quando estico os braços e toco no cipreste, com a ponta dos dedos.
Lá em baixo, o sino do campanário começa a tocar as doze badaladas que assinalam a meia-noite. Já devia estar deitada há muito. Os horários deste hospício onde me encontro são muito rígidos. Daqui a poucas horas, eu e outros como eu teremos que percorrer os corredores para participar nas actividades que farão de nós pessoas mais normais e menos loucas.

Pouco depois de me deitar, sinto que alguém me toca suavemente nos ombros. Ouço alguém falar com alguma urgência mas não é a minha língua materna que oiço. Abro os olhos sem compreender o que se passa nem onde estou. Vários rostos fixam-me com ar preocupado e estupefacto. Começo a perceber o que me diz a pessoa que me acordou. Acho que é um segurança pela roupa que veste:

- Minha senhora, sente-se bem? – o homem fala em inglês. Eu entendo mas não consigo raciocinar o suficiente para lhe responder. Assim sorrio e aceno com a cabeça.

As outras pessoas desinteressam-se de mim e começam a afastar-se. Alguém me pergunta:

- És portuguesa, não és? Precisas de ajuda? – é uma mulher que fala.

- Sim, sou portuguesa. Como sabes?

A mulher diz algo ao segurança que se desvia ligeiramente.

- Há pouco, ouvi-te murmurar e pareceu-me português .

- O que é que aconteceu? Onde estou?

- Estás no MoMa*, em Nova Iorque. Quando cheguei, já estavas deitada nesse banco e parecias adormecida. Pelo que percebi, viram-te como ar de quem estava em transe a olhar para um quadro. Até derrubaste as barreiras de protecção e tocaste no quadro a ponto de disparar os alarmes. Nesse momento, vieste deitar-te no banco. Os turistas que andavam por aqui disseram que parecias sonâmbula. Estás sozinha? Será melhor chamarmos os paramédicos?

- E que quadro era?

- Aquele, o “Starry Night" do Van Gogh.

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A minha patrícia atenciosa afasta-se e ajuda-me a sentar no banco. Diante de mim, vejo a paisagem que se via do meu quarto no hospício soberbamente pintada pela mestria de Vincent Van Gogh. Eu estive dentro de um quadro de Van Gogh. Não, não digam que foi um sonho. Eu estive mesmo naquele hospício. Ainda sinto o aroma do alecrim e da alfazema nas minhas narinas e na ponta dos dedos guardo a sensação de tocar nos ramos do cipreste. Estarei tão louca como o pintor holandês do séc. XIX? Ou serei uma reencarnação? Instintivamente levo a mão à minha orelha esquerda.

*Museu de Arte Moderna de Nova Iorque

Quem terá escolhido este quadro? Talvez a Fátima Bento.

 

Este texto é a minha participação no Desafio Arte e Inspiração lançado pelo blogue Porque Eu Posso e conta com a participação de Ana de DeusAna Mestrebii yue, CéliaCristina Aveiro, Fátima BentoGorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

Desafio Arte e Inspiração #1

A fúria do mar

Charneca em flor, 15.09.21

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 "A Grande Onda de Kanagawa" 

Katsushika Hokusai

 

A meteorologia anunciou, há pouco, alerta vermelho em todo o país devido ao mau tempo causado pela tempestade que se aproximava.

As entidades competentes desaconselham a presença em zonas junto do mar mas o temporal não será maior do que o turbilhão que sinto dentro de mim. Quando me sinto muito ansiosa é o mar que me acalma. A grandiosidade do oceano faz-me tomar contacto com a minha pequenez e consigo colocar qualquer problema em perspetiva.

O parque de estacionamento da praia está quase vazio. Sem sair do automóvel, olho as ondas gigantescas. O mar é como uma pessoa furiosa, com vontade de destruir tudo à sua volta. Realmente, algumas pessoas afadigam-se à volta do bar da praia para protegerem a frágil construção antes da temporal chegar em força.

Apesar do perigo eminente, o perpétuo movimento daquela massa de água exerce uma irresistível atracção sobre mim. Não tenho forças para lutar contra o magnetismo do mar. Ainda hesito mas saio do automóvel e caminho pela areia da praia.

“E se eu entrasse na água? Talvez nunca mais voltasse e todos os meus problemas se transformariam em espuma dos dias.” Estes pensamentos atravessam o meu espírito enquanto a ondulação se torna cada vez mais impressionante.

De repente, há uma onda que me envolve. Não luto com ela e deixo-me ir. Ao longe alguém grita por mim mas estou perdida no abraço das ondas do mar que ora me arrastam para as profundezas, ora me erguem na crista da onda até que desapareço da face da terra em direcção a uma luz muito brilhante. O túnel formado por aquela massa de água abre-se no lugar mais bonito que já vi. Os meus olhos estão incrédulos com a paisagem que conseguem observar; verdes prados, cascatas brilhantes, animais saltitantes e pessoas felizes, tudo iluminado pelo sol radioso. A pouca distância vejo alguém, estranhamente, familiar. É um homem de longas barbas brancas, olhar doce e braços abertos para me receber:
- Não me reconheces, minha filha? Sou o teu Deus. Tanto clamaste por mim que pedi ao mar que te trouxesse para o Paraíso.

O medo invade-me as entranhas. Verdadeiramente, eu não queria morrer. Só queria desfazer-me dos problemas. Este sítio é maravilhoso mas como é que digo a este Senhor: “Enganei-me, por favor deixe-me voltar à minha vida.”?

 

Hoje inicia-se o Desafio Arte e Inspiração organizado pela inexcedível Fátima Bento do blogue Porque Eu Posso.

A ideia consiste em excrever um texto inspirado num quadro. Achei a ideia excelente porque a pintura é uma forma de arte que me interessa muito. O quadro proposto é escolhido por um dos participantes. Consfesso que não conhecia este quadro e estou intrigada com quem o terá escolhido. Vou apostar no José da Xã.

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

 

 

 

Desafio de Escrita dos Pássaros 3.0

Afinal havia outro... fogão

Charneca em flor, 21.05.21

A chave rodou na fechadura com alguma dificuldade o que não me surpreendeu. Afinal, aquela porta já não devia ser aberta há anos.

Durante muito tempo não fui capaz de entrar na casa da minha avó onde passei os momentos mais felizes da minha infância. Mas desde dia negro da “zanga", nunca mais vi a minha avó. Os meus pais levaram-me para longe, cresci e fui-me esquecendo desta pessoa que tanto me amou. Só que ela nunca se esqueceu de mim deixando a sua casa como herança. O meu coração foi invadido pela culpa por ter deixado que a minha avó partisse sem sentir, novamente, o meu abraço e levei anos a decidir voltar aqui.

Depois de algum esforço , lá abri a porta para poder entrar. Logo ali, na entrada, fiquei envolvida, dos pés à cabeça, em teias de aranha. Encontrei uma janela que estava tão perra como a porta. Abri-a permitindo que a claridade do dia iluminasse aquele cenário desolador. Os móveis estavam protegidos com lençóis velhos e plásticos mas, em cima deles, repousava uma espessa camada de pó.

Continuei a explorar a casa da qual me recordava vagamente. Quando encontrei a cozinha, lembrei das muitas horas que passava com a minha avó a cozinhar. Só que aquela cozinha é-me estranha. Não reconheci aquele fogão ou aquela bancada por mais que rebuscasse na minha memória. Não consegui visualizar a minha avó naquele espaço. Talvez a cozinha tivesse sido remodelada.

Olhei através do vidro baço da janela e reparei numa outra construção diante da cozinha. Por coincidência, ou talvez não, ao lado da porta estava uma chave identificada com “cozinha do quintal”. Será…

Meia dúzia de passos separavam a casa principal daquele anexo. Assim que me aproximei, senti-me invadida por uma sensação de conforto. Estranhamente entrei, com relativa facilidade, e comigo entraram também os raios de sol que fizeram brilhar algo que se encontrava em frente da porta. Foi então que o vi, tão reluzente como se fosse novo, o fogão a lenha da minha avó. Só nesse instante é que as recordações regressaram em catadupa. Senti a presença da minha avó visualizando-a enquanto mexia os tachos confeccionando comida reconfortante que me enchia o estômago e a alma. Caí de joelhos diante do fogão a lenha da minha avó e chorei pelo tempo irrecuperável que passei longe dela. 

Pela porta entrou uma brisa que me abraçou e enxugou as lágrimas. Só podia ser a minha avó. Finalmente reconciliei-me com o passado e resolvi começar a limpeza pela maravilhoso fogão da minha avó. Só faltava aprender a cozinhar ali e assim honrar-lhe a memória, entre tachos e tachinhos.

 

Aqui está a minha resposta ao Desafio dos Pássaros.