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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Passa-Palavra #amarelo

Charneca em flor, 25.09.20

A Mula e a Mel desafiaram a blogosfera para o Passa-Palavra. Todos os domingos propõem uma palavra diferente para nos inspirarem a escrever. Como não podia deixar de ser eu tinha que participar. Aqui fica o primeiro andamento do desafio.

 

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O casaco amarelo

Leonor passeava pelo centro da cidade. Sem prestar grande atenção, via as montras da principal rua comercial. Seguia entregue aos seus pensamentos até que, de repente, estancou. Ali estava ele, colorido, luminoso e reluzente. Naquela montra brilhava um espectacular casaco amarelo. Ela nunca vira um casaco daquela cor, mais brilhante do que mil sóis. Só nesse momento percebeu que precisava daquele casaco, custasse o que custasse. Aquela peça de roupa, tão pouco discreta, era o motor que faltava para ela se sentir segura.

Mesmo através do vidro se percebia a macieza da fazenda. Como ela gostaria de lhe tocar, de aconchegar aquela gola de rebuço à volta do pescoço. E o que dizer do corte? Era absolutamente perfeito.

Não se decidia a entrar na loja. O ambiente da boutique não lhe parecia adequado para a sua maneira de ser. Leonor era uma pessoa simples e vestia modestamente. Finalmente resolveu-se a entrar.

Todas as funcionárias levantaram os olhos ao sentirem o movimento de alguém a entrar. Os sorrisos que começavam a esboçar, depressa esmoreceram.
Assim que entrou, viu um expositor com mais casacos iguais. Tocou-lhes ao de leve e sentiu a textura que imaginara. Quando se preparava para retirar um casaco para experimentar, a gerente aproximou-se impedindo-a de o fazer.

- Posso ajudar?
- Obrigada mas já encontrei o que queria.
- Não me parece que esse casaco seja adequado para si.
- Como assim? Nem sequer o experimentei.
A gerente olhou-a de alto a baixo com enfado.
- Este casaco não se enquadra no seu estilo – disse a gerente com rispidez.
- Por isso é que eu estou interessada neste casaco maravilhoso. Não tenho nada assim no meu roupeiro. Já percebi o que está a pensar. Pode ficar descansada que eu posso pagar o casaco. Não se deixe iludir pelo meu aspecto.

A gerente corou violentamente não se percebendo se de vergonha ou de raiva. Enquanto isso Leonor vestia o casaco amarelo e sentiu-se envolvida numa nuvem tal era o conforto. Ainda não estava frio suficiente para usar o casaco mas ela não tinha vontade de o despir. Olhou o reflexo no espelho e adorou o que viu. O contraste do seu cabelo preto com a cor luminosa do agasalho dava-lhe uma aura de mistério. Lá atrás era possível ver a face carrancuda da gerente.

Foi pagar e saiu alegremente vestindo o casaco amarelo-sol apesar do dia soalheiro.

 

Um dia de chuva

Charneca em flor, 05.09.20

"Sentada no sofá, olho pela janela e vejo a chuva a cair. Aninhada debaixo de uma mantinha e com um livro por companhia, até sabe bem escutar o som da chuva lá fora. O vento faz rodopiar as folhas dos plátanos do jardim. A casa cheira a maçãs e canela. No forno está um bolo a cozer. É um típico dia de Outono, tão saboroso quanto cinzento. Quando o bolo estiver pronto, vou fazer um delicioso chocolate quente para acompanhar. E não preciso de mais nada para ser feliz."

Sou só eu que já estou com saudades do Outono?

Texto escrito para responder aos Desafios da Abelha, da Ana de Deus. Para mais dias chuvosos, é calçar as galochas e caminhar até aqui.

 

Resposta à resposta

Charneca em flor, 27.08.20

A Ana respondeu à minha primeira quadra do seu desafio.

Aqui a sua quadra de resposta

Tenência é uma aldeia bela
lá p'rós lados do Guadiana
alegra-me que tenha nela
encontrado a flor-de-diana

Assim não me resta outro remédio senão responder-lhe à letra .


Para acompanhar a Ana
É preciso imaginação
Estou longe do Guadiana
Deixei lá a inspiração.

Uma quadra para a Ana

Charneca em flor, 26.08.20

A Ana de Deus, exímia criadora de desafios, teve a gentileza de me desafiar a escrever uma quadra por dia. O desafio começou ontem mas já era muito tarde quando dei por isso. Sendo assim começo hoje. Inspirei-me no meu fim de semana no Algarve e foi isto que aconteceu

 

Percorri a longa estrada
Em busca da minha essência
Encontrei-a na luz da alvorada
Ali naquela aldeia, Tenência

 

Vou tentar participar todos os dias, não sei se com uma quadra, efectivamente, mas com um  texto poético.

 

 

 

 

 

 

Desafio de escrita dos Pássaros #jánãoseionúmero

Vou ali e já venho

Charneca em flor, 22.05.20

Dizer que a nossa vida passa por muitas fases pode parecer um lugar comum. No entanto, essa é uma verdade que não se pode escamotear. É essencial perceber quando a nossa presença num determinado lugar se torna obsoleta. Esse é o momento ideal para encerrarmos esse capítulo e partirmos para outro.
Era nisto que eu meditava naquele momento crucial em que me preparava para decidir que caminho seguir. A minha vida já não me fazia feliz. O meu trabalho não me satisfazia. Sentia que já nada fazia sentido. Eu necessitava de procurar um novo percurso sob pena de me perder a mim mesma.
A única solução que conseguia vislumbrar era fazer a mala e partir. Descobrir outros lugares, outras pessoas, outras estradas e veredas para desbravar. Eu precisava me voltar a sentir inteira, viva. Naquele momento limitava-me a existir e isso não me bastava.
Por isso, fiz mesmo as malas e iniciei a viagem da minha vida. Viajei ao âmago do meu ser ao mesmo tempo que conhecia países, cidades, vilas e aldeias, montes e vales, praias e florestas.
A quem me conhecia e amava disse apenas que ia só ali dar uma volta e que voltava em menos de nada. Já passaram tantos meses que nem lembro de quantos. Mas todos os dias acordo com a sensação de que “vou ali e já venho” mesmo estando a milhares de quilómetros de casa. A cada dia, uma nova viagem, mais curta ou mais longa, só o destino dirá.

 

Com esta reflexão chega ao fim a minha viagem pelo Desafio dos Pássaros. Foi uma viagem e tanto. Obrigada aos meus companheiros de viagem. Nunca os esquecerei.

Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.13

E elas saltaram e saltaram, sem nunca mais parar.

Charneca em flor, 26.04.20

Todas as pessoas arrastavam, arrastavam e continuavam a arrastar os pés. Não era possível parar aquele movimento de tristeza e terror.


Durante muito tempo, viveu-se um Inverno perpétuo. Os dias sucediam-se frios, escuros e soturnos. Não havia raio de sol que iluminasse a existência daquele povo. O Inverno durou tantos anos que ninguém acreditava ser possível que a Primavera chegasse algum dia. O povo manteve-se pobre e analfabeto. Os que ousavam sonhar com um mundo diferente, mais quente e luminoso, eram sujeitos a perseguições e terríveis sevícias.
Até que um dia, um grupo de almas corajosas uniram-se para derrubar a barreira que tapava o sol e que não deixava o calor invadir as almas. Assim conseguiram acabar com o Inverno que parecia eterno. O esforço colectivo rompeu a escuridão e logrou instalar a manhã clara da Primavera.
No início era apenas um punhado de gente mas conseguiram arrastar uma multidão. Nesse momento, a multidão conheceu o doce sabor da Liberdade e da Justiça.


Todas as pessoas saltaram, saltaram e saltaram de alegria. Nunca ninguém mais conseguiu parar aquele movimento de alegria infinita.


E as ruas das cidades, das vilas, das aldeias pintaram-se de rubro. Mas não era a cor do sangue que salpicava as vielas mas sim a cor alegre dos cravos vermelhos, símbolo indelével de um país finalmente livre.
Assim se passaram 46 anos desta alegre Primavera, mais do que os anos que se viveram no triste Inverno.
No entanto, não se pode pensar que a Liberdade é uma certeza garantida. Tal como uma flor delicada, esta conquista tem que ser cuidada e acarinhada. Não nos podemos distrair porque há sempre quem queira voltar a caminhar na obscuridade. Cabe a cada um de nós fazer a sua parte perante a fragilidade da nossa Liberdade. Acarinhar a tal flor delicada, regá-la, mudar-lhe a terra e deixá-la apanhar alguma luz. Só assim a Liberdade florescerá.


Todas as pessoas saltam, saltam e saltam de alegria. Nunca nada nem ninguém conseguirá parar este movimento de alegria infinita. 

 

Exercício de escrita criativa inspirado pelo tema proposto pelos Pássaros mas também inspirado pelas estranhas comemorações do aniversário da Revolução dos Cravos. Até faço alguma referência a este maravilhoso poema de Sophia.

Sigam o Desafio dos Pássaros aqui.

Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.11

Actualizem-me

Charneca em flor, 17.04.20

Um belo dia, fartei-me da vida que levava. Tudo aquilo que eu fazia deixou de fazer sentido. Senti necessidade de fazer silêncio, virar-me para dentro para me poder encontrar. Tinha vontade de fugir de mim. Pensei fazer uma viagem para um sítio longínquo, durante uns meses. Talvez para um destino oriental, a Índia, por exemplo. Assim à semelhança do “Comer, orar, amar.” Mas nunca teria a coragem necessária para empreender numa jornada semelhante. Felizmente descobri que já havia “agências de viagens” especializadas em organizar viagens ao âmago de cada um de nós.
Assim há várias semanas isolei-me no meio do nada. Sem qualquer ligação com exterior, sem televisão, sem telemóvel, sem internet. Fiquei sozinha comigo mesma. E como é que ocupei o tempo? A ler, ouvir música, escrever e a pensar. Só assim, percebi quem era e para onde queria ir.
A empresa que organiza este retiro individual tem-me fornecido alimentos com regularidade. Nunca mais vi ninguém. A comida aparecia-me à porta pela manhã e é tudo.
Comecei a sentir que era chegada a hora de abandonar este meu retiro voluntário. De qualquer modo, a equipa das entregas não apareceu no dia habitual. Não sei o que se estava a passar mas era tudo muito estranho. A casa possuía uma única forma de contacto com a civilização, um telefone para ligar ao coordenador do retiro. Este objecto existia por razões de segurança e era suposto ser usado apenas em casos de emergência. Eu também me sentia mais segura por saber que existia a possibilidade de chamar alguém. Só que já tinha tentado telefonar e ninguém atendia do outro lado.
Estava a ficar muito arrependida por ter entrado nesta aventura.
Até que um dia, a comida acabou. Não havia outra solução, teria que caminhar até à povoação mais próxima. Munida, apenas, com água e bolachas, lá fui eu.
E caminhei, caminhei, caminhei… até chegar, finalmente. Pelas minhas contas, estavamos numa terça-feira mas o ambiente da vila era muito estranho. Não se via vivalma. A sensação era de que se estava a chegar a uma daquelas cidade do faroeste. Na zona central, os estabelecimentos estavam quase todos fechados. Lá ao fundo via-se uma estranha fila para a farmácia. Eu não entendia o que se estava a passar. Resolvi perguntar às pessoas que esperavam na farmácia. Talvez elas me atualizassem de modo a entender esta bizarria.
Só que as pessoas fugiram de mim.

 

Exercício de escrita criativa realizado no âmbito do Desafio de escrita dos Pássaros. Força nesse isolamento social. Continuamos no bom caminho.

Desafio da escrita dos Pássaros tema 2.10

Não tenho tempo, nem paciência, para te aturar

Charneca em flor, 10.04.20

Ó SARS-CoV-2, vamos ter aqui uma conversa de pé de orelha. Quer dizer não é bem pé de orelha porque temos que respeitar com distanciamento social. Na verdade, eu vim apetrechada com máscara, touca, luvas, protecções nos sapatos e fato de protecção descartável que tu não és de fiar.
O que eu queria falar contigo era pedir, ou melhor, exigir que desapareças. Já ninguém te pode aturar.
Já viste que estás a atrapalhar a vida das pessoas?
Umas ficam doentes, muito doentes por dias a fio até não aguentarem mais e partirem. Aquelas que cuidam dos doentes ficam exaustas e às vezes acabam também por adoecer. Os sistemas de saúde de vários países estão no limite, ou já implodiram, com os problemas que essa realidade acarreta também para quem sofre de outras doenças.
Aqueles que tiveram a sorte de não serem contagiados por ti, morrem, também, um bocadinho todos os dias. Porque têm os seus negócios parados e não sabem como se vão aguentar. Porque as empresas onde trabalham entraram em lay-off e aquilo que recebem não é suficiente para fazerem frente aos compromissos que têm. Muitos não vêem nenhuma luz ao fundo do túnel.
Outros sofrem porque não podem abraçar pais, filhos, netos e avós. Ou porque estão sozinhos em casa ou porque estão em família mas já não se podem aturar uns outros. Têm ainda menos paciência para a família do que a que têm para te aturar a ti, SARS-CoV-2.
Mas vou-me deixar de divagações filosóficas. O que me chateia mesmo é que tu estás a parar a minha vida. Nem estou assim muito preocupada com os outros. O que me interessa é que eu não tenho tempo para te aturar. Exijo que desapareças de uma vez por todas porque eu tenho sítios para ir e agora não posso. Quero passear na praia, quero ir almoçar num restaurante com vista para o mar, quero planear a comemoração do meu aniversário com a certeza de que vou conseguir concretizar os meus planos. Já me estragaste as férias das Páscoa. Vê lá se ficas por aqui. Ainda tenho muitas paragens para conhecer, sítios para ir, aventuras para viver e é por isso que eu não tenho mesmo tempo para aturar o teu mau feitio. Desaparece de uma vez e vai para a caverna de onde nunca devias ter saído. Tenho dito.

 

Texto criativo escrito no âmbito do Desafio de escrita dos Pássaros. Podem seguir o desafio aqui.