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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Desafio de escrita dos Pássaros #8

Olá, Charneca em Flor

Charneca em flor, 01.11.19

 

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Tu não me conheces mas eu conheço-te muito bem. Quem te escreve é a mulher adulta que tu vais ser. Esta carta viajou desde 2019 para chegar até às tuas mãos. Não, o mundo não vai acabar no ano 2000. 

Lembro-me bem de ter passado pela infância que tu ainda não deixaste. És boa aluna, adoras ler e detestas usar óculos. A este propósito, deixa-me dizer-te que, vão passar muitos anos, mas um dia já não será preciso usares óculos todos os dias. És tímida, sonhadora e muito calada. Imagino que seja difícil acreditares mas o trabalho que te fará sentir realizada será em contacto com o público. Não acreditas mas é verdade.
Se eu consegui endereçar bem esta missiva, tens agora 10 anos. Estás no limiar da adolescência. Vou ser sincera. O período que se avizinha não será fácil. Durante os próximos anos, serás amiga das raparigas mais bonitas e populares da turma. Não resistirás em comparar-te com elas e isso far-te-á chorar muito em frente ao espelho porque te vais achar feia. O meu conselho é que, em vez de olhares para a imagem que o espelho reflecte, olhes para dentro de ti e vejas como és bonita. O teu interior e o teu coração são muito mais importantes do que a beleza exterior. Quando deixares de estar escondida atrás dos teus óculos, a beleza do teu olhar ficará à vista de todos.
Nunca te esqueças que os teus pais te amam acima de tudo. Mesmo que a tua vontade não coincida com a vontade deles, não os contraries. Abraça-os e mostra-lhes que também os amas. Aquilo que vais alcançar na vida será, em primeiro lugar, aos sacrifícios que sempre fizeram por ti.
Os 35 anos que separam a criança que és desta mulher que vais ser não vão ser fáceis. A vida reserva para ti momentos duros mas não temas. As lágrimas que tiveres que chorar farão sentido mais tarde. Vais cair muitas vezes mas não vais ficar no chão. Todas as vezes que te conseguires reerguer serão essenciais para construir a tua identidade e para que eu seja, em 2019, uma pessoa bem resolvida e realizada.
Nem todos os teus sonhos se irão realizar mas viverás muitos mais momentos de felicidade do que podes imaginar.
Um dia ficará claro para ti que é sempre possível ser feliz, sejam quais forem as circunstâncias.

Desafio de escrita dos Pássaros #7

Os benefícios da compota de abóbora

Charneca em flor, 25.10.19

As tardes são sempre calmas na loja de produtos naturais “A linhaça dourada" onde trabalho. Nesses momentos, aproveito para actualizar as redes sociais da loja. Naquele momento, tentava fazer uma publicação atractiva sobre o produto da semana, compota de abóbora com amêndoas. O dono da loja tinha comprado uma imensa quantidade daquele produto e eu não estava a conseguir escoá-lo. Entretida como estava, quase que não me apercebia da entrada de uma das mais habituais clientes d'“A linhaça dourada", a arrogante Sra. D. Constança. Esta senhora tem, sempre, uma ideia muito concreta sobre o que quer comprar. Convencê-la a adquirir qualquer coisa, para além da sua ideia inicial, é quase impossível.
- Sra. D. Constança, como tem passado? Já me tinha lembrado de si. Recebi um produto fantástico que acredito que a senhora vai gostar de experimentar.
- Oh, querida, não se canse. Sabe que eu detesto que me tentem impingir seja o que fôr. Vá-me buscar uma máscara capilar natural porque eu tenho o cabelo sequíssimo. Veja se é à base de manteiga de karité. E depressa que eu tenho pouco tempo.
- Não diga mais. Tenho o produto ideal para si – e nisto pego num frasco da maldita compota.
- Mas a menina está a brincar comigo? Então eu peço-lhe um produto para o cabelo e aparece-me com isso. Não pensa, certamente, que vou pôr isso no cabelo?!
- Não quero contrariá-la mas todas as influenciadoras digitais falam dos benefícios desta compota, não só para comer, mas também para aplicar no cabelo e na pele.
A Sra. D. Constança olha para mim já de sobrancelha levantada.
- Acho um verdadeiro disparate mas explique-se melhor. Quem sabe…
- A abóbora é rica em vitaminas e sais minerais, tem uma grande concentração em betacaroteno o que é excelente para o cabelo uma vez que ajuda a recuperar o seu brilho natural. O açúcar da compota fornece energia às células do couro cabeludo provocando a aceleração do crescimento do cabelo. E as amêndoas, então? São muito nutritivas. Esta compota vai substituir o óleo de coco como panaceia. Só não dá para fritar bifes.
- Pronto, convenceu-me. Levo 3 embalagens. E, já agora, um pacote de bolachas de espelta. Por via das dúvidas.
- Óptima escolha. Assim ainda lhe ofereço estas sementes de abóbora. São ricas em triptofano e por isso ajudam a manter o bom humor. – talvez precise, pensei eu.

 

Como sempre à sexta-feira, chega a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros. Para seguirem o Desafio é só passarem por aqui.

O que está aqui escrito é ficção. Não tentem usar compota de abóbora no cabelo que eu não me responsabilizo pelos resultados .  E se as sementes de abóbora, é só visitarem o Triptofano, um blogue que faz muito pelo nosso bom humor.

Desafio de escrita dos Pássaros #6

O Amor, uma cabana... e um frigorífico

Charneca em flor, 18.10.19

Lembram-se da Sofia e do seu marido Gonçalo? Queixava-se ela de que o marido se tornara um homem acomodado. Mas nem sempre fora assim. Quando começaram a namorar, Gonçalo era extremamente romântico. Os seus gestos carinhosos eram quase quotidianos. Mesmo assim, Sofia achava que faltava qualquer coisa para ser plenamente feliz. Esta insatisfação seria, talvez, provocada pelos romances cor-de-rosa que ela lia.

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Gonçalo percebia estes sentimentos na namorada e fazia de tudo para corresponder aos seus anseios. O primeiro aniversário da relação aproximava-se e o jovem queria proporcionar uma surpresa inesquecível a Sofia. O problema é que não lhe ocorria nenhuma ideia suficientemente boa.

Mas os deuses estavam do lado dele. Sofia esqueceu-se do livro que andava a ler no banco do automóvel. Gonçalo folheou o livro, leu algumas partes e descobriu uma excelente maneira de surpreender a namorada.

Primeiro conseguiu que ambos tivessem um fim-de-semana prolongado. De seguida, deslocou-se ao local escolhido. Era uma singela cabana, junto a um ribeiro. Já não era utilizada há muito tempo e precisou de muitas horas de trabalho para ficar digna da sua “princesa". A mãe de Sofia também ajudou à festa preparando um saco de viagem. Sofia permanecia na ignorância.

Na véspera do aniversário, o jovem foi buscá-la ao emprego e convenceu-a a deixar-se vendar. No porta-bagagem seguia, para além das malas, um cesto de piquenique recheado de iguarias para o jantar.

A cabana ficara encantadora e Sofia ficou absolutamente derretida com o cenário. Sentiu-se a viver uma história de amor igual às que lia nos seus queridos romances. Depois do delicioso jantar, regado com um vinho que parecia néctar dos deuses, viveram uma noite de paixão arrebatadora como nunca tinham vivido.

Na manhã seguinte, ainda sob o efeito da paixão escaldante, Gonçalo levou-lhe o pequeno-almoço à cama. Como não havia fogão, ele preparou café e torradas numa fogueira que fez junto ao ribeiro. As torradas foram acompanhadas com doce caseiro e, no tabuleiro, Gonçalo colocou flores silvestres. Sofia acordou com um beijo do seu príncipe e sorriu. Mas a refeição matinal deixou-a aborrecida:

- Mas, meu amor, eu bebo sempre leite quente e torradas com manteiga. Não vou conseguir comer isto.
- Peço desculpa, meu amor, mas a cabana não tem electricidade. Como não temos frigorífico, não pude trazer-te leite nem manteiga.

Nesse momento, Sofia percebeu que “Amor e uma cabana" não era suficiente. Ela nunca seria feliz sem um frigorífico.

 

Aqui está a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros. Se quiserem encontrar mais histórias de amor é só passar por aqui.

 

 

Desafio de escrita dos Pássaros tema #4

Beatriz disse que não. E agora?

Charneca em flor, 04.10.19

O que eu faço com este desejo que me incendeia as entranhas? Como é que ela me pôde dizer que não. Nós somos as melhores amigas há mais de vinte anos. Será que devia dizer que “éramos as melhores amigas"?


Beatriz disse que não. E agora?


Quando tínhamos 10 anos, fizemos um juramento de sangue. Dissemos que seríamos amigas até à eternidade. Que estaríamos sempre presentes na vida uma da outra. Quando uma de nós precisasse, a outra andaria por perto para dividir o fardo, por mais pesado que fosse. Um peso dividido torna-se sempre mais leve.


Beatriz disse que não. E agora?


Quando ela se apaixonou pela primeira vez, eu fui a primeira a saber. Quando ela ficou de coração perdido, foi no meu ombro que chorou. Eu estive sempre com ela. No momento em que conheceu aquele que seria “o tal", eu estava lá. No dia do seu casamento, eu chorei de emoção. Fui das primeiras pessoas a pegar nos seus filhos recém-nascidos. Eu via a Beatriz como a irmã que nunca tive e acreditava que ela sentia o mesmo.


Beatriz disse que não. E agora?


Eu penso que não lhe pedi um sacrifício assim tão grande. Ela disse-me que lhe pedi em demasia. Que a pergunta que lhe fiz, ultrapassava os limites da amizade. Para ela, os seus desejos concretizaram-se com tanta facilidade mas, para mim, este problema é uma barreira intransponível sem a sua ajuda.
O que eu faço com todos os meus sonhos? Com os planos que fiz na certeza do seu “sim" que, afinal, nunca chegou.


Beatriz disse que não. E agora?


Como é que eu vou realizar este meu anseio? Afinal, eu só pedi o seu ventre emprestado. O seu útero fértil que já acolheu 3 bebés maravilhosos que eu amo como se fossem meus. Eu só queria uma derradeira prova do seu amor fraternal e da sua amizade. Eu só queria sentir, tal como ela a felicidade plena do amor maternal. Mas…


Beatriz disse que não. E agora?


O que eu faço, sem útero, sem filhos, sem o consolo da sua amizade?


Dedicado a todos os projectos de maternidade e paternidade que nunca se concretizaram.

Aqui fica a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros para esta semana. Para descobrirem os outros textos é só passarem por aqui

Desafio de escrita dos Pássaros #1

Antes os meus problemas do que os dos outros

Charneca em flor, 13.09.19

Sofia não conseguia adormecer. O dia tinha sido muito complicado. No emprego tinha tido uma grande discussão que tornara o ambiente pesado. Quando chegou ao carro, descobriu que alguém lhe tinha amolgado o pára-choques e nem se tinha dignado a deixar o contacto. O marido estava cada vez mais acomodado e as suas noites eram rotineiras e pouco românticas. Desabafara as suas mágoas no blogue e, agora, suspirava ao olhar para as vidas perfeitas do Instagram. Ela dava tudo para ter um quotidiano, assim, glamoroso.
De repente formou-se uma névoa à volta do seu telemóvel de onde surgiu um belo jovem, igualzinho ao Lourenço Ortigão.
- Boa noite. Eu sou o génio do Instagram. Estou aqui para realizar os teus desejos.
Sofia estava estupefacta. Olhou para o lado para ver se o marido tinha acordado mas ele dormia tão profundamente que até ressonava.
- Mas, mas… isto não pode estar a acontecer. Nunca ouvi falar de um génio do Instagram.
- Eu só apareço em situações especiais. Afinal, o que é que precisas para ser feliz?
Sofia ficou muito atrapalhada.
- O que eu mais desejo é viver uma vida como estas que aparecem no Instagram.
- Tens a certeza? Então assim seja.
Sofia acordou para um novo dia. O seu quarto estava perfeito, sem sinais da desarrumação habitual, O marido aparece com um tabuleiro. Quer dizer parece o marido dela, Gonçalo, mas está diferente, com um físico invejável.
- Então, dorminhoca? Estamos atrasados para o ginásio. Tens aqui a tua granola. Hoje temos um dia cheio.
Mas quem é este? O Gonçalo nunca pôs um pé num ginásio, pensou Sofia. Nem queria acreditar no que ouvia
Mas isto foi só o princípio. Sofia entrou numa roda-viva de treinos, encenação de stories para a sua página de Instagram, fotos e mais fotos em poses impossíveis para alimentar a ânsia voyeurista dos seus mais de 20 mil seguidores. Não sabia quanto tempo iria aguentar naquela montanha-russa.
- Acorda, Sofia. Estás a ter um pesadelo. – Sofia acordou com Gonçalo a abaná-la.
- O que aconteceu? – acendeu a luz e olhou em volta. Estava, novamente, no seu quarto de sempre.
Tinha sido um sonho, ou melhor, um pesadelo. Ainda bem. A vida de Instagram não era para ela. Mal por mal, preferia a sua vida anónima e verdadeira mesmo com problemas. E já não aguentava comer panquecas durante mais tempo.

 

No que é que me fui meter?!

Charneca em flor, 08.09.19

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Imagem daqui

Como tenho muito tempo livre , aderi ao Desafio dos Pássaros. Quando vejo um desafio, não consigo resistir. Tenho que me inscrever . Só percebi que o desafio se estendia por 17 loooongas semanas depois de me ter inscrito. Devo ter lido as regras na diagonal. Agora o mal já está feito . O Desafio dos Pássaros consiste num desafio de escrita. Todas as semanas será lançado um tema. Gosto muito de escrever mas, às vezes, falta-me a inspiração. Por isso este desafio é "ouro sobre azul". Os textos com que participarei no desafio serão publicados aqui no "Livros de Cabeceira e outras histórias" porque faz mais sentido do que no "O Voo da Garça"  Esta semana já escrevi um texto para explicar porque é que me inscrevi no desafio. 

Aqui está o primeiro andamento do desafio:

Quando comecei a ler e a escrever, abriu-se um novo mundo para mim. Foi assim que comecei a viajar, através das histórias que lia. Ler era, de longe, a minha actividade favorita.
Todas as horas que passei a ler ajudaram-me muito no meu desempenho escolar. Adorava quando tinha a tarefa de fazer uma composição. As minhas composições eram, frequentemente, elogiadas. Foi assim que fui adquirindo gosto pela escrita. Aliás, como era muito tímida, a escrita foi-se tornando um escape. Ainda devem existir, em casa da minha mãe, folhas e folhas com as minhas histórias e os meus poemas. Na adolescência foi surgindo, na minha cabeça, o sonho de me tornar escritora e publicar livros como aqueles que eu lia compulsivamente. Esse sonho levou a que me tivesse sentido indecisa entre as Letras e as Ciências quando surgiu a altura de decidir o meu futuro académico. As Ciências venceram este duelo quer porque também gostava muito dessa área quer por motivos bem prosaicos. Sempre me pareceu que a empregabilidade na área científica seria superior. Nunca me arrependi dessa escolha porque gostei muito do meu curso e sou muito feliz na minha profissão. No entanto, o sonho da escrita nunca se extinguiu por completo. Nesta fase da vida, já percebi que a minha escrita não tem qualidade suficiente para publicar um livro mas continuo a gostar muito de escrever.
Quando comecei a ouvir falar dos blogues vi aqui uma óptima oportunidade para dar largas à minha paixão pela escrita. Infelizmente, nem sempre tenho tempo para escrever tanto quanto gostaria. O stress do dia-a-dia acaba por afectar a minha imaginação e, ao longo do dia, lembro-me de temas interessantes sobre os quais escrever mas, quando estou perante a página em branco, a inspiração acaba por me fugir. Ora quando, nos meus passeios pela blogosfera, encontro algum desafio, fico logo entusiasmada. É uma oportunidade de me pôr à prova, de ultrapassar as minhas limitações, tentar dar o meu melhor e viver intensamente a minha paixão pela escrita.

Desafio "Uma citação por semana" #7

Charneca em flor, 12.02.18

 

 "After all, tomorrow is another day", Scarlett O'Hara no filme "E tudo o vento levou..."

Desta vez, trago uma citação do cinema que eu acho muito inspiradora. Por mais negra que possa parecer a noite, amanhã é um novo dia com todas as suas oportunidades. Por mais problemas que possa ter, acredito sempre que tempos melhores virão. E tem sido verdade.

 

Desafio "Uma citação por semana" #3

Charneca em flor, 15.01.18

"O Bom Combate é aquele que é travado em nome dos nossos sonhos. Quando eles explodem em nós com todo o seu vigor - na juventude - nós temos muita coragem, mas ajnda não aprendemis a lutar. Depois de muito esforço, acabamos a aprender a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disso, voltamo- nos contra nós e combatemo-nos a nós mesmos, e passamos a ser o nosso pior inimigo. Dizemos que os nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto do nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos os nossos sonhos porque temos medo de travar o Bom Combate."

                                                    Paulo Coelho in O Diário de um Mago

 

Paulo Coelho não é um escritor muito considerado no meio literário mas a verdade é que um dos escritores mais vendidos do mundo tendo já ultrapassado Jorge Amado como o escritor de língua portuguesa mais vendido de todos os tempos. Apesar de não ser muito bem visto pela crítica, já recebeu inúmeros prémios e condecorações em vários países. 

Paulo Coelho foi uma das minhas obsessões literárias no fim da adolescência e início da vida adulta por isso não podia deixar de ter lugar neste desafio de revisitar as obras da minha vida.