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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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Desafio de escrita dos Pássaros tema #9

Como é que eu vim aqui parar?

Charneca em flor, 08.11.19

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Sinto a luz do sol a bater-me nos olhos mas não tenho vontade nenhuma de os abrir. A cabeça está a latejar intensamente. Porque é que me esqueci de fechar as persianas? Que barulho é este? Gaivotas?! O melhor é abrir os olhos para perceber de onde vem este som. 

Lentamente lá vou levantando as pálpebras. Olho à minha volta e não percebo onde estou. É surreal. Como é que é possível acordar numa praia deserta com gaivotas a sobrevoarem-me?! Só pode ser um sonho ou um pesadelo.
De repente, sinto um arrepio de frio e é nesse momento que eu me apercebo que estou completamente nua. Não é possível que isto seja verdade. Vou beliscar-me. Ui, não estou a dormir, estou bem acordada.
Começo a sentir-me cada vez mais nervosa. Como é que eu vim parar a esta praia toda nua?! Pensando bem, também não me lembro da noite de ontem. Deixa-me cá puxar pela cabeça. Então, pedi para sair mais cedo do trabalho. Fui a casa para me mascarar de zombie porque ia a uma festa de Halloween. Chamei um Uber porque não dava jeito conduzir mascarada. E depois, o que é que aconteceu? Será que bebi assim tanto? Juro, se me livrar desta situação, nunca mais toco numa gota de álcool.
O meu estômago já está a roncar. Estou cheia de fome. Olho em volta. Que sorte, está ali uma bananeira. Vou ver se consigo chegar às bananas. Consegui. Que boas, a fome é o melhor dos temperos.
Mas o que é aquilo ali? Uma caixa? Vou ver o que tem dentro. Que papel é este?

“Benvinda à Ilha dos Pássaros. Esta é uma ilha deserta e tu aceitaste o Desafio dos Pássaros. Este desafio consiste em viveres aqui durante uma semana sem outra companhia que não seja a tua própria companhia. A ideia é aprenderes a viver, apenas e só, com o que é essencial. Nesta caixa encontras um mapa para uma fonte de água doce que existe no centro da ilha. Também colocámos aqui uma cana de pesca para ser mais fácil alimentares-te. Este mar ė rico em peixe por isso não será complicado. Também está aqui um foguete sinalizador mas só poderás usar em caso de perigo extremo. Se for mal usado, o castigo dos Pássaros será implacável…”


Não consigo ler mais. Estes Pássaros são terríveis. Mas porque é que eu fui aceitar este Desafio?

 

Cá está o meu texto para o Desafio de escrita dos Pássaros. Mais um tema refinado . Achei a vingança muito suave, Osapo .

Desafio de escrita dos Pássaros #8

Olá, Charneca em Flor

Charneca em flor, 01.11.19

 

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Tu não me conheces mas eu conheço-te muito bem. Quem te escreve é a mulher adulta que tu vais ser. Esta carta viajou desde 2019 para chegar até às tuas mãos. Não, o mundo não vai acabar no ano 2000. 

Lembro-me bem de ter passado pela infância que tu ainda não deixaste. És boa aluna, adoras ler e detestas usar óculos. A este propósito, deixa-me dizer-te que, vão passar muitos anos, mas um dia já não será preciso usares óculos todos os dias. És tímida, sonhadora e muito calada. Imagino que seja difícil acreditares mas o trabalho que te fará sentir realizada será em contacto com o público. Não acreditas mas é verdade.
Se eu consegui endereçar bem esta missiva, tens agora 10 anos. Estás no limiar da adolescência. Vou ser sincera. O período que se avizinha não será fácil. Durante os próximos anos, serás amiga das raparigas mais bonitas e populares da turma. Não resistirás em comparar-te com elas e isso far-te-á chorar muito em frente ao espelho porque te vais achar feia. O meu conselho é que, em vez de olhares para a imagem que o espelho reflecte, olhes para dentro de ti e vejas como és bonita. O teu interior e o teu coração são muito mais importantes do que a beleza exterior. Quando deixares de estar escondida atrás dos teus óculos, a beleza do teu olhar ficará à vista de todos.
Nunca te esqueças que os teus pais te amam acima de tudo. Mesmo que a tua vontade não coincida com a vontade deles, não os contraries. Abraça-os e mostra-lhes que também os amas. Aquilo que vais alcançar na vida será, em primeiro lugar, aos sacrifícios que sempre fizeram por ti.
Os 35 anos que separam a criança que és desta mulher que vais ser não vão ser fáceis. A vida reserva para ti momentos duros mas não temas. As lágrimas que tiveres que chorar farão sentido mais tarde. Vais cair muitas vezes mas não vais ficar no chão. Todas as vezes que te conseguires reerguer serão essenciais para construir a tua identidade e para que eu seja, em 2019, uma pessoa bem resolvida e realizada.
Nem todos os teus sonhos se irão realizar mas viverás muitos mais momentos de felicidade do que podes imaginar.
Um dia ficará claro para ti que é sempre possível ser feliz, sejam quais forem as circunstâncias.

Desafio de escrita dos Pássaros #7

Os benefícios da compota de abóbora

Charneca em flor, 25.10.19

As tardes são sempre calmas na loja de produtos naturais “A linhaça dourada" onde trabalho. Nesses momentos, aproveito para actualizar as redes sociais da loja. Naquele momento, tentava fazer uma publicação atractiva sobre o produto da semana, compota de abóbora com amêndoas. O dono da loja tinha comprado uma imensa quantidade daquele produto e eu não estava a conseguir escoá-lo. Entretida como estava, quase que não me apercebia da entrada de uma das mais habituais clientes d'“A linhaça dourada", a arrogante Sra. D. Constança. Esta senhora tem, sempre, uma ideia muito concreta sobre o que quer comprar. Convencê-la a adquirir qualquer coisa, para além da sua ideia inicial, é quase impossível.
- Sra. D. Constança, como tem passado? Já me tinha lembrado de si. Recebi um produto fantástico que acredito que a senhora vai gostar de experimentar.
- Oh, querida, não se canse. Sabe que eu detesto que me tentem impingir seja o que fôr. Vá-me buscar uma máscara capilar natural porque eu tenho o cabelo sequíssimo. Veja se é à base de manteiga de karité. E depressa que eu tenho pouco tempo.
- Não diga mais. Tenho o produto ideal para si – e nisto pego num frasco da maldita compota.
- Mas a menina está a brincar comigo? Então eu peço-lhe um produto para o cabelo e aparece-me com isso. Não pensa, certamente, que vou pôr isso no cabelo?!
- Não quero contrariá-la mas todas as influenciadoras digitais falam dos benefícios desta compota, não só para comer, mas também para aplicar no cabelo e na pele.
A Sra. D. Constança olha para mim já de sobrancelha levantada.
- Acho um verdadeiro disparate mas explique-se melhor. Quem sabe…
- A abóbora é rica em vitaminas e sais minerais, tem uma grande concentração em betacaroteno o que é excelente para o cabelo uma vez que ajuda a recuperar o seu brilho natural. O açúcar da compota fornece energia às células do couro cabeludo provocando a aceleração do crescimento do cabelo. E as amêndoas, então? São muito nutritivas. Esta compota vai substituir o óleo de coco como panaceia. Só não dá para fritar bifes.
- Pronto, convenceu-me. Levo 3 embalagens. E, já agora, um pacote de bolachas de espelta. Por via das dúvidas.
- Óptima escolha. Assim ainda lhe ofereço estas sementes de abóbora. São ricas em triptofano e por isso ajudam a manter o bom humor. – talvez precise, pensei eu.

 

Como sempre à sexta-feira, chega a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros. Para seguirem o Desafio é só passarem por aqui.

O que está aqui escrito é ficção. Não tentem usar compota de abóbora no cabelo que eu não me responsabilizo pelos resultados .  E se as sementes de abóbora, é só visitarem o Triptofano, um blogue que faz muito pelo nosso bom humor.

Desafio de escrita dos Pássaros #6

O Amor, uma cabana... e um frigorífico

Charneca em flor, 18.10.19

Lembram-se da Sofia e do seu marido Gonçalo? Queixava-se ela de que o marido se tornara um homem acomodado. Mas nem sempre fora assim. Quando começaram a namorar, Gonçalo era extremamente romântico. Os seus gestos carinhosos eram quase quotidianos. Mesmo assim, Sofia achava que faltava qualquer coisa para ser plenamente feliz. Esta insatisfação seria, talvez, provocada pelos romances cor-de-rosa que ela lia.

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Gonçalo percebia estes sentimentos na namorada e fazia de tudo para corresponder aos seus anseios. O primeiro aniversário da relação aproximava-se e o jovem queria proporcionar uma surpresa inesquecível a Sofia. O problema é que não lhe ocorria nenhuma ideia suficientemente boa.

Mas os deuses estavam do lado dele. Sofia esqueceu-se do livro que andava a ler no banco do automóvel. Gonçalo folheou o livro, leu algumas partes e descobriu uma excelente maneira de surpreender a namorada.

Primeiro conseguiu que ambos tivessem um fim-de-semana prolongado. De seguida, deslocou-se ao local escolhido. Era uma singela cabana, junto a um ribeiro. Já não era utilizada há muito tempo e precisou de muitas horas de trabalho para ficar digna da sua “princesa". A mãe de Sofia também ajudou à festa preparando um saco de viagem. Sofia permanecia na ignorância.

Na véspera do aniversário, o jovem foi buscá-la ao emprego e convenceu-a a deixar-se vendar. No porta-bagagem seguia, para além das malas, um cesto de piquenique recheado de iguarias para o jantar.

A cabana ficara encantadora e Sofia ficou absolutamente derretida com o cenário. Sentiu-se a viver uma história de amor igual às que lia nos seus queridos romances. Depois do delicioso jantar, regado com um vinho que parecia néctar dos deuses, viveram uma noite de paixão arrebatadora como nunca tinham vivido.

Na manhã seguinte, ainda sob o efeito da paixão escaldante, Gonçalo levou-lhe o pequeno-almoço à cama. Como não havia fogão, ele preparou café e torradas numa fogueira que fez junto ao ribeiro. As torradas foram acompanhadas com doce caseiro e, no tabuleiro, Gonçalo colocou flores silvestres. Sofia acordou com um beijo do seu príncipe e sorriu. Mas a refeição matinal deixou-a aborrecida:

- Mas, meu amor, eu bebo sempre leite quente e torradas com manteiga. Não vou conseguir comer isto.
- Peço desculpa, meu amor, mas a cabana não tem electricidade. Como não temos frigorífico, não pude trazer-te leite nem manteiga.

Nesse momento, Sofia percebeu que “Amor e uma cabana" não era suficiente. Ela nunca seria feliz sem um frigorífico.

 

Aqui está a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros. Se quiserem encontrar mais histórias de amor é só passar por aqui.

 

 

Desafio de escrita dos Pássaros #5

Mais diabólico que o próprio Diabo

Charneca em flor, 11.10.19

 

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O meu tempo sobre esta terra tinha chegado ao fim. Quando dei por mim estava na mais completa obscuridade. A pouco e pouco, os meus olhos foram-se habituando à escuridão e nessa altura reparei que andavam por ali outras almas. Eu chegara ao purgatório.
O movimento das almas foi-me encaminhando para a frente daquela massa em eterno movimento. Só aí é que vi que havia, lá bem no fundo, um feixe de luz iluminando alguém que jazia de joelhos no chão.
Fiquei estarrecida quando percebi quem era. A alma que ainda não tinha encontrado o eterno descanso já tinha deixado a terra há mais de 70 anos. Deus e o Diabo discutiam, de modo exaltado, o seu destino eterno. Quem desencadeava a exaltação era Adolf Hitler.
Como quem não quer a coisa, aproximei-me e meti-me na conversa:
- Peço desculpa. Eu compreendo que Deus não queira este cavalheiro no céu mas não consigo conceber que ele não tenha tido entrada directa no fogo do inferno.
O Diabo olhou-me com os olhos em brasa:
- Charneca em Flor, ao seu dispôr. Se não se importam, eu gostava de dar uma achega à vossa discussão. Como devem saber, as acções deste homem provocaram muita dor e sofrimento a toda a humanidade. Ele conseguiu criar um verdadeiro inferno sobre a terra. Milhões de pessoas conheceram a face do mal pela mão de Hitler.
Diz-me o Diabo:
- Por isso mesmo é que eu não quero do meu lado. Ele conseguiu ser mais diabólico do que eu.
- Não me diga que tem receio que ele lhe roube o lugar?! Olhe bem para ele. É uma fraca figura.
Ele só conseguiu provocar aquele terror porque se rodeou de indivíduos ainda mais cruéis do que ele. É verdade que ele possuía, para além de um grande carisma, um poder que não é de desprezar, o poder da palavra. Ele fez discursos inflamados que incendiaram multidões. Só assim é que permitiram a sua ascensão até Chanceler da Alemanha, desencadeasse uma guerra mundial e que escrevesse uma das páginas mais negras da História. Sem o poder da palavra, Adolf Hitler teria sido inofensivo.
- Olha deste uma ideia…
A última vez que vi o Führer, ele era arrastado pelo Diabo e tinha o olhar mais assustado que eu já alguma vez vira. Imagino que os judeus tiveram o mesmo olhar quando começaram a perceber para onde caminhavam.

 

 

Esta semana, o tema proposto foi este

"Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo"

Para descobrir como é que os outros participantes deram a volta a este tema, é só passar por aqui.

Desafio de escrita dos Pássaros tema #4

Beatriz disse que não. E agora?

Charneca em flor, 04.10.19

O que eu faço com este desejo que me incendeia as entranhas? Como é que ela me pôde dizer que não. Nós somos as melhores amigas há mais de vinte anos. Será que devia dizer que “éramos as melhores amigas"?


Beatriz disse que não. E agora?


Quando tínhamos 10 anos, fizemos um juramento de sangue. Dissemos que seríamos amigas até à eternidade. Que estaríamos sempre presentes na vida uma da outra. Quando uma de nós precisasse, a outra andaria por perto para dividir o fardo, por mais pesado que fosse. Um peso dividido torna-se sempre mais leve.


Beatriz disse que não. E agora?


Quando ela se apaixonou pela primeira vez, eu fui a primeira a saber. Quando ela ficou de coração perdido, foi no meu ombro que chorou. Eu estive sempre com ela. No momento em que conheceu aquele que seria “o tal", eu estava lá. No dia do seu casamento, eu chorei de emoção. Fui das primeiras pessoas a pegar nos seus filhos recém-nascidos. Eu via a Beatriz como a irmã que nunca tive e acreditava que ela sentia o mesmo.


Beatriz disse que não. E agora?


Eu penso que não lhe pedi um sacrifício assim tão grande. Ela disse-me que lhe pedi em demasia. Que a pergunta que lhe fiz, ultrapassava os limites da amizade. Para ela, os seus desejos concretizaram-se com tanta facilidade mas, para mim, este problema é uma barreira intransponível sem a sua ajuda.
O que eu faço com todos os meus sonhos? Com os planos que fiz na certeza do seu “sim" que, afinal, nunca chegou.


Beatriz disse que não. E agora?


Como é que eu vou realizar este meu anseio? Afinal, eu só pedi o seu ventre emprestado. O seu útero fértil que já acolheu 3 bebés maravilhosos que eu amo como se fossem meus. Eu só queria uma derradeira prova do seu amor fraternal e da sua amizade. Eu só queria sentir, tal como ela a felicidade plena do amor maternal. Mas…


Beatriz disse que não. E agora?


O que eu faço, sem útero, sem filhos, sem o consolo da sua amizade?


Dedicado a todos os projectos de maternidade e paternidade que nunca se concretizaram.

Aqui fica a minha participação no Desafio de escrita dos Pássaros para esta semana. Para descobrirem os outros textos é só passarem por aqui

Desafio de escrita dos Pássaros tema#3

Alegria contida

Charneca em flor, 27.09.19

Esta semana, o desafio foi escrever sobre uma aventura ou um momento marcante. Para acompanharem todo o desafio, é só passarem por aqui. Aqui está o meu contributo.

 

Todos anos, em Setembro, recordo, com carinho, um dos momentos mais felizes da minha vida.
O Verão de 1992 foi, para mim, o mais longo de sempre. Durante esses meses esperei, ansiosamente, pelos resultados do concurso de acesso ao ensino superior. Todos aqueles que me eram próximos, família e amigos, davam-me força fazendo-me acreditar que o meu ingresso no ensino superior era quase certo mas, parte de mim, receava que eles não tivessem razão.
Nesse ano distante, a internet ainda não tinha sido democratizada. Aliás , a rede que comanda a nossa vida, pouco mais era que uma criança. Por isso, nos idos de 90, os candidatos a universitários tinham que se deslocar à sede do distrito e procurar o nome nas pautas de colocação.
Assim, no dia marcado pela manhã, eu e as minhas amigas lá fomos, alegremente, de autocarro até Santarém. Os resultados eram afixados no Instituto Politécnico. Era preciso andar um bom bocado a pé, e a subir, para lá chegar. A nossa excitação nem nos deixava sentir o cansaço. Lá chegadas, foi cada uma procurar o seu nome.
Ainda consigo sentir a mesma emoção que me invadiu naquele momento em que li a palavra “colocado" à frente do meu nome. Com o coração aos pulos, fui procurar as minhas amigas Infelizmente, só uma delas, a Catarina*, é que tinha entrado. Eu e ela nem sabíamos como agir. Afinal, nós queríamos extravasar a alegria por termos conseguido realizar o nosso sonho mas isso contrastava com a desilusão de quem não tinha alcançado esse objectivo. Nós tínhamos vontade de chorar de alegria mas havia outros rostos molhados com lágrimas de desgosto. Eu e a Catarina* tentámos controlar a nossa euforia para não as magoarmos.
A viagem de regresso pareceu mais demorada que o normal. Faltava a alegria despreocupada da manhã. Só quando chegámos à nossa terra, e conseguimos ficar sozinhas, é que demos largas à nossa felicidade. Corremos até à minha casa, que era mais perto para contarmos à minha mãe. Eu tive a ideia de lhe pregar uma partida dizendo que não tínhamos entrado. Ainda tentámos “mentir" mas, assim que chegámos à porta, desatámos a rir desalmadamente como só se consegue rir aos 18 anos. A minha mãe nem precisou de perguntar porque descobriu, facilmente, a resposta. E foi ali, na soleira da porta, que pudemos libertar a alegria que tinha estado contida durante todas aquelas horas.

*Nome fictício, personagem real

 

Desafio de escrita dos Pássaros #2

É só um estalo

Charneca em flor, 20.09.19

A minha história começou há alguns anos. Nunca fui muito namoradeira. Durante a adolescência preferia ficar a estudar ou a ler do que sair com as minhas amigas. Como era muito introvertida, tinha alguma dificuldade em conversar com os rapazes sem ficar corada. Na faculdade, tornei-me um pouco mais sociável. O ambiente académico fez com que eu me libertasse da minha timidez e até tive alguns namoros mas nunca tive muita experiência amorosa.
Quando comecei a trabalhar, conheci aquele que seria o meu marido. Eu tomava café sempre na mesma pastelaria. Ele também. A dada altura, os nossos olhares cruzaram-se. Nunca pensei que aquele homem lindo reparasse em mim. Mas, para minha surpresa, ele não só reparou em mim como me convidou para jantar. Ele era muito sedutor e eu apaixonei-me loucamente. Daí até começarmos a namorar e ele fazer o “pedido", passaram muito poucos meses. Eu estava encantada mas a minha família, e os meus amigos, achavam que eu estava enfeitiçada. Todos me aconselhavam em não embarcar num casamento tão depressa. Afinal, eu conhecia-o muito mal e não sabia nada do seu passado.
Umas semanas antes do casamento, durante uma discussão, ele deu-me um estalo. Eu não contava com aquela atitude e fiquei sem reacção. Mal eu sabia que aquilo era só o início. Com o casamento, tudo piorou. A pouco e pouco, ele conseguiu afastar-me da minha família e dos meus amigos. Ele insistia para que eu ficasse grávida. Como também tinha esse desejo, deixei de tomar a pílula. Na minha ingenuidade, acreditava que um filho o iria suavizar. Não podia estar mais enganada. As discussões e a violência foram crescendo. Mesmo durante a gravidez, ele não teve qualquer pejo em bater-me. Podem perguntar: “Mas porque é que não o deixaste?”. Não tenho uma resposta para essa pergunta. A verdade é que ele me fazia acreditar de que, de certa forma, eu era a culpada.
Quando ele bateu na nossa filha, fez-se luz. Aquilo não podia continuar. Resolvi deixá-lo mas ele apanhou-me a fazer as malas. Nesse momento, a minha vida acabou. Literalmente. Ele espancou-me até à morte.
Agora estou aqui, gelada, neste caixão rodeada pela minha família e pelos meus amigos. Queria pedir-lhes desculpa por não ter acreditado neles mas eles não me conseguem ouvir.
Tudo começou com aquele primeiro estalo que eu perdoei. Porque nunca é só um estalo. É por aí que tudo começa.

 

Aqui está a minha participação no Desafio de Escrita dos Pássaros. Num registo mais sério do que na semana passada.

Que venha o próximo

Charneca em flor, 15.09.19

Ainda não consegui ler todos os textos do Desafio de escrita dos Pássaros mas estou encantada. É tão engraçado ver as várias formas de dar à volta ao tema "Problemas, só problemas". Uns foram pelo lado do humor, outros trataram o tema de forma mais séria. Há quem tenha dissertado sobre a dificuldade do tema, há quem tenha recuado às memórias da infância e até apareceu uma blogger que apresentou, efectivamente, 2 problemas matemáticos. Enfim, já dá para perceber que há muito talento por essa blogosfera fora. 

Eu, por mim, estou ansiosa para que chegue o próximo tema . Até lá pode-se seguir a publicação dos "Problemas, só problemas" aqui.

Desafio de escrita dos Pássaros #1

Antes os meus problemas do que os dos outros

Charneca em flor, 13.09.19

Sofia não conseguia adormecer. O dia tinha sido muito complicado. No emprego tinha tido uma grande discussão que tornara o ambiente pesado. Quando chegou ao carro, descobriu que alguém lhe tinha amolgado o pára-choques e nem se tinha dignado a deixar o contacto. O marido estava cada vez mais acomodado e as suas noites eram rotineiras e pouco românticas. Desabafara as suas mágoas no blogue e, agora, suspirava ao olhar para as vidas perfeitas do Instagram. Ela dava tudo para ter um quotidiano, assim, glamoroso.
De repente formou-se uma névoa à volta do seu telemóvel de onde surgiu um belo jovem, igualzinho ao Lourenço Ortigão.
- Boa noite. Eu sou o génio do Instagram. Estou aqui para realizar os teus desejos.
Sofia estava estupefacta. Olhou para o lado para ver se o marido tinha acordado mas ele dormia tão profundamente que até ressonava.
- Mas, mas… isto não pode estar a acontecer. Nunca ouvi falar de um génio do Instagram.
- Eu só apareço em situações especiais. Afinal, o que é que precisas para ser feliz?
Sofia ficou muito atrapalhada.
- O que eu mais desejo é viver uma vida como estas que aparecem no Instagram.
- Tens a certeza? Então assim seja.
Sofia acordou para um novo dia. O seu quarto estava perfeito, sem sinais da desarrumação habitual, O marido aparece com um tabuleiro. Quer dizer parece o marido dela, Gonçalo, mas está diferente, com um físico invejável.
- Então, dorminhoca? Estamos atrasados para o ginásio. Tens aqui a tua granola. Hoje temos um dia cheio.
Mas quem é este? O Gonçalo nunca pôs um pé num ginásio, pensou Sofia. Nem queria acreditar no que ouvia
Mas isto foi só o princípio. Sofia entrou numa roda-viva de treinos, encenação de stories para a sua página de Instagram, fotos e mais fotos em poses impossíveis para alimentar a ânsia voyeurista dos seus mais de 20 mil seguidores. Não sabia quanto tempo iria aguentar naquela montanha-russa.
- Acorda, Sofia. Estás a ter um pesadelo. – Sofia acordou com Gonçalo a abaná-la.
- O que aconteceu? – acendeu a luz e olhou em volta. Estava, novamente, no seu quarto de sempre.
Tinha sido um sonho, ou melhor, um pesadelo. Ainda bem. A vida de Instagram não era para ela. Mal por mal, preferia a sua vida anónima e verdadeira mesmo com problemas. E já não aguentava comer panquecas durante mais tempo.