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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

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A Casa do Monte - Capítulo final

Charneca em flor, 17.07.20

Sofia não aguentava de impaciência. Não compreendera o que a amiga lhe queria dizer. Confiava nela cegamente e queria acreditar que Júlia nunca faria nada para a magoar mas ainda se sentia a fervilhar de raiva por aquilo que intuíra das palavras de Júlia. A sua desconfiança estendia-se a Pedro a ponto de não lhe responder a nenhuma mensagem.
Finalmente vislumbrou o carro de Júlia curvando para a rua que dava acJúlia tinha o mesmo ar sereno de sempre e um sorriso sincero estampado no rosto.
Júlia parecia saltitar alegremente até junto da amiga.
- Oh, minha querida. Estás com tão bom ar. – e abraçou-a mas Sofia manteve-se rígida não correspondendo ao carinho que Júlia lhe votava. – O que foi, Sofia? Continuas a achar que eu era capaz de arranjar um rapaz para te seduzir? Achas-me capaz disso? E tens-te em tão baixa conta que não acreditas que alguém se apaixone por ti? Aquele fulano com quem estiveste casada arruinou a tua auto-estima dessa maneira?
A menção ao seu passado e a emoção do que vivera nos últimos dias provocaram uma incontrolável torrente de lágrimas em Sofia. Júlia encaminhou-a para dentro e deixou-a chorar. Só a largou para procurar um velho álbum de fotografias, ponto de partida para a história que vinha contar.
Depois de algum tempo, as lágrimas foram secando e Sofia conseguiu falar:
- Desculpa por aquilo que pensei de ti, Júlia. No fundo, eu sei que tu és incapaz de me magoar e que só me queres ver feliz. Mas a minha história com o Pedro parece-me tão inverosímil que, por momentos, achei que era uma fantasia. E aquilo que disseste pelo telefone foi tão estranho que…
- Minha querida, não sei se é fantasia mas magia, talvez.
- Como assim?
- Para perceberes, vou contar-te um bocadinho da história da minha família e desta casa. Vês aqui esta fotografia? São os meus bisavós, Francisco e Maria Amélia. Foram eles que construíram esta casa. A relação entre eles era uma relação proibida. Ele era um jovem pescador ali da aldeia dos pescadores e ela era filha de um dos proprietários mais ricos aqui das redondezas. Como a minha bisavó, em jovem, tinha uma saúde muito frágil, o médico recomendava que ela fizesse caminhadas à beira-mar. Na maioria das vezes, ela levava uma dama de companhia mas, de vez em quando, conseguia sair sozinha. E foi numa dessas ocasiões que se conheceram. Os caminhos deles foram-se cruzando e apaixonaram-se. Quando o meu trisavô descobriu, caiu o carmo e a trindade. Fechou a filha, perseguiu o pescador até lhe ofereceu dinheiro para desaparecer. Só não contou com a persistência daquele amor. Maria Amélia conseguiu fugir e correr para os braços do seu amado. Os pescadores uniram-se para a esconder e para os ajudar a saírem aqui da terra para poderem viver em paz. E assim foi. Os meus bisavós trabalharam muito para construir uma vida digna. O amor deles cresceu, amadureceu e multiplicou-se nos seus 4 filhos.
Os pais de Maria Amélia não aguentaram o burburinho que se levantou depois da fuga da filha. Venderam tudo e foram para uma cidade longínqua e o mais longe possível do mar.
Entretanto, Maria Amélia recebeu, como herança de uma tia solteirona, este pequeno terreno e algum dinheiro. E esse acontecimento foi a oportunidade que esperavam. O casal voltou para cá. Com esforço, e o trabalho de ambos, ergueram esta casa como símbolo do amor que os unia para além das vicissitudes da vida.
- É uma história linda, Júlia, mas não percebo o que é que isso tem a ver comigo e com o Pedro.
- Como podes imaginar, esta casa foi passando de geração em geração. Ao longo dos anos, a minha família foi percebendo que este espaço era especial. Aqui nasceram inúmeras relações amorosas, quer com familiares quer com amigos, e todas elas cresceram sólidas como estas paredes. Como se a casa fosse um cupido de alvenaria. O amor com que foi construída fez com que esse sentimento se transmitisse a todos os que passaram por cá. Todas as relações que começaram aqui foram longas e muito felizes. Eu acredito que o mesmo acontecerá contigo e com o teu surfista.
- Eu não tenho tanta certeza assim. Desde o teu telefonema que não lhe atendo o telefone nem lhe respondo às mensagens. E também me custa a acreditar na tua narrativa.
- Quando estavas quase a adormecer, não sentias que alguém te abraçava?
Sofia anuiu com a cabeça.
- Quase todas pessoas sentem isso. São os braços do amor que invade cada cantinho deste local. Não tenhas medo. Aquilo que a Casa do Monte une nem a morte separa. Corre para esse homem que a vida colocou no teu caminho. Serás muito feliz com ele e esquecerás tudo aquilo que te magoou.
Ao fundo do jardim, surgiu Pedro com ar preocupado. O coração de Sofia saltou no peito. Correu para ele com a esperança renovada num novo capítulo do livro de sua vida. Ainda com alguma perplexidade, começava a acreditar da magia da Casa do Monte.

 

 

A Casa do Monte - Aconteceu à hora do ocaso

Charneca em flor, 03.07.20

- Olá - responde Sofia, timidamente – Nós conhecemo-nos? É que não me lembro de ti.

- Na verdade, não. Posso sentar-me aqui ao lado? – Pedro sentou-se sem esperar pela resposta - Eu passo todos os dias pela tua casa quando venho para a praia.

- Ah, é verdade. Hoje acenaste-me.

- Já tinha reparado na tua casa. Mas não costumas cá vir muitas vezes, pois não? Já tinha pensado que era uma pena uma casa tão bonita, e com uma vista espectacular, estar sempre fechada.

- Não é minha. É a casa de férias dos pais da minha melhor amiga mas eles não têm conseguido cá vir com frequência nos últimos anos. Já são idosos. Como não tenho andado muito bem deram-me a oportunidade de vir cá passar uma temporada. – Sofia calou-se. Não conseguia perceber porque é que tinha revelado tantos pormenores com um perfeito desconhecido.

- Nunca te tinha visto aqui na praia.

- É natural. Foi a primeira vez que aqui vim.

- A sério? Mas estás aqui tão perto e o tempo tem estado óptimo. Desculpa, estou a ser muito intrometido. Afinal nem me apresentei. Eu sou o Pedro.

- Eu chamo-me Sofia.

Os seus olhares cruzaram-se. Um frémito de emoção percorreu o corpo de Pedro. Sofia nem queria acreditar que estava, efectivamente, a sentir borboletas na barriga. Ao fundo ouviam-se as ondas do mar e sentia-se uma suave brisa a tocar a pele. Uma cena digna do mais lamecha romance de cordel. Nada que fizesse parte da vida real.

Sofia foi a primeira a desviar o olhar e fitando o mar disse:

- Tens muito jeito para o surf. Gostei de te ver ali nas ondas.

- Se quiseres dou-te umas aulas.

Sofia riu-se com gosto pela primeira vez em muitos meses.

- Não me parece. Eu não sou dada a desportos radicais. Gosto muito de ter os pés bem assentes no chão.

- Nunca se sabe. Se mudares de ideias, estou disponível.

Pedro esperava que Sofia soubesse ler nas entrelinhas e percebesse que não era só para aulas de surf que ele estava disponível. O jovem tinha muita vontade de continuar ali a conversar mas não queria abusar da sorte.

- Bom, vou andando. Gostei de te conhecer, Sofia. Até à próxima.

- Também gostei de te conhecer, Pedro – disse Sofia em voz baixa e sorrindo.

Este encontro casual foi, apenas, o primeiro. No dia seguinte, Sofia aguardou, com ansiedade, que Pedro surgisse na sua bicicleta com a prancha acoplada. Desta vez foi ela que lhe acenou animadamente. De forma inesperada, convidou Pedro para tomar um café com ela. A conversa entre os dois fluiu de tal forma que nem deram pelo tempo passar. Nesse dia o surf ficou para trás.

Num dia foi um café , noutro dia foi um almoço, um passeio pela mata, uma aula de surf, uma ida ao cinema. A atracção entre os dois ia aumentando de dia para dia. Todos os momentos pareciam especiais mas quando estavam na casa do monte, a emoção tomava conta deles. O ambiente entre eles era electrizante. Mas Sofia não estava completamente recuperada e tinha medo de se deixar conduzir pelo coração.

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Depois de muitos encontros inocentes como se fossem dois adolescentes, combinaram um jantar na casa do monte para verem o pôr-do-sol. Cozinharam juntos, abriram uma garrafa de vinho e jantaram no jardim iluminados pelas cores vibrantes do ocaso. E Sofia deixou-se ir, entregou-se à paixão que despontava e descobriu que, afinal, era possível voltar a ser feliz.

Na manhã seguinte, Sofia telefonou à sua amiga Júlia para lhe contar o que estava a viver. E nem queria acreditar no que ouvia do outro lado:

- Eu sabia, eu sabia. A magia voltou a acontecer. Tinha tudo para resultar.

- O que queres dizer com isso? Tu sabias que eu ia conhecer o Pedro? Isto é um arranjinho teu, Júlia? Eu não posso acreditar.

- Não é nada disso, querida. Estás a entender tudo errado. Vou ter contigo para te explicar.

 

Primeiros capítulos aqui e aqui.

A Casa do Monte (continuação)

Segundo andamento

Charneca em flor, 26.06.20

Pedro adorava viver perto do mar. Sentia que tinha reunido as condições ideais para ter uma vida perfeita. Como trabalhava a partir de casa, tinha a possibilidade de aproveitar as melhores ondas e fazia surf quase todos os dias, fosse Verão ou Inverno. O seu percurso passava pela estrada entre a mata e a fileira de algumas casas de férias antigas mas pitorescas. Já há muito que tinha reparado naquela casa, construída numa parte mais elevada do terreno. Tinha um jardim bem cuidado mas nunca se via ninguém por ali. Enquanto as outras casas tinham movimento no Verão ou nalgum fim-de-semana prolongado, ali as portadas estavam sempre fechadas mas o espaço não tinham um ar abandonado. Aquele local aguçava a curiosidade de Pedro por isso nunca deixava de olhar para lá quando estava a caminho da praia.

Surpreendentemente, um dia reparou que uma das janelas estava aberta. E nos dias seguintes constatou que a bela casinha tinha uma ocupante embora só a visse de relance. Certo vez ela olhava pela janela e parecia observá-lo. Como ia na sua bicicleta, sorriu-lhe e acenou mas não viu nenhuma reacção da mulher. A cada passagem por ali, a casa exercia uma atracção irresistível sobre ele e não conseguia deixar de olhar para lá, em busca da sua estranha ocupante. Tornou a vê-la e, de quando em vez, sorria-lhe e acenava mas ela parecia alheada da realidade.

Pedro não se tinha apaixonado muitas vezes. As relações que tivera foram curtas e não deixaram grandes recordações. Na verdade, ele era um solitário e habituara-se a não partilhar o seu espaço. Daí ter muita dificuldade em deixar alguém entrar na sua bolha. Só que agora dava por si a pensar na misteriosa mulher da casa do monte. A tal ponto que isso começava a interferir com o seu rendimento profissional. Quem seria ela e qual seria a sua história? Por mais que tentasse não conseguia que ela saísse da sua mente. Seria possível apaixonar-se por alguém que não conhecia, que só via à distância? Estaria a ficar louco? É que nada daquilo fazia qualquer sentido.

O jovem decidiu que tinha que lutar contra aquelas ideias e tentou mudar o seu percurso para chegar à praia. Só que as pernas não lhe obedeciam e voltavam a levá-lo para aquele caminho. E qual não foi o seu espanto quando, numa manhã soalheira, ela lhe acenou de volta. Nem queria acreditar. Parecia que ela tinha acordado de um sono profundo e o vira, finalmente. O ritmo cardíaco de Pedro acelerou e ele sentiu-se, inexplicavelmente, feliz como nunca.

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Continuou a pedalar em direcção às ondas com uma energia renovada. O mar estava fantástico. Já havia outros surfistas e ele pouco demorou até entrar na água. Pedro estava mesmo inspirado, apanhou todas as ondas e fez manobras espectaculares. Tudo lhe saia bem, parecia que ele e a prancha eram um só. Ficou no mar até se sentir exausto mas era um cansaço que o fazia sentir-se bem.

O surfista encaminhou-se para o local onde tinha deixado a bicicleta. Nem queria acreditar nos seus olhos. A mulher misteriosa estava na praia e a curta distância das suas coisas. E parecia observá-lo. Pedro era uma pessoa tímida mas descobriu uma réstia de coragem no fundo de si e aproveitou aquela oportunidade:

- Olá. Por aqui? – perguntou ele.

 

Primeiro andamento

A Casa do Monte

Primeiro andamento

Charneca em flor, 19.06.20

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A cada amanhecer, Sofia sentia-se um pouco melhor. Quando a sua amiga lhe deu a ideia de ir para aquela casa, não ofereceu grande resistência. O caminho de volta a si mesma estava, apenas, no início. Depois do divórcio, perdera-se numa depressão profunda. Fora para consolidar a recuperação que Júlia lhe sugerira passar uma temporada naquela antiga casa de férias dos seus pais.

A casa era pequena mas encantadora. Empoleirada numa elevação do terreno, tinha um jardim bem cuidado que descia até à estrada pela qual se chegava à praia. Do outro lado da estrada encontrava-se uma mata com pinheiros, medronheiros e rosmaninho entre outras árvores e arbustos. A localização cimeira proporcionava ampla vista para o mar imenso e permitia observar um maravilhoso ocaso todos os dias.

Nos primeiros dias sentia-se uma morta-viva. Quase que não se apercebia da passagem do tempo. Só se sentia bem quando estava quase a adormecer. Sabia que era impossível mas tinha a sensação de que alguém a estava a embalar. Como se a própria casa a abraçasse e a ajudasse a adormecer. Estranhamente essa sensação não a assustava, muito pelo contrário, confortava-a. Sofia precisava de renascer, de começar de novo como uma parede pintada de fresco. Aquela velhinha casa de férias e toda a paisagem circundante tinham conseguido despertá-la da letargia em que caíra meses antes mas ainda havia uma longa caminhada pela frente.

Naquela manhã sentia-se particularmente bem e com uma vontade renovada de reagir. Enquanto tomava o pequeno-almoço no jardim, reparou que passava na estrada um rapaz de bicicleta, transportando uma prancha de surf. O surfista olhou na sua direcção, sorriu e acenou. Sofia não o conhecia mas acenou de volta. Nem sabia porque é que tinha feito aquilo. De repente, percebeu que aquele rapaz passava por ali todos os dias. O seu subconsciente registara aquele mesmo cenário mas Sofia só o vira, verdadeiramente, naquela manhã. Que sensação tão estranha.

Sofia ainda não se tinha arriscado a ir até à praia porque só em casa é que se sentia protegida. Mas o dia convidava a um passeio. Quando esse pensamento lhe atravessou a mente, não hesitou e encetou o caminho até às dunas. Corria uma brisa suave transportando o aroma doce das plantas que povoavam a areia bem como o cheiro a maresia. Como ainda não era Verão, viam-se poucas pessoas por ali. As ondas eram dominadas pelos inúmeros surfistas que enfrentavam a fúria do mar. Ela não era dada a actividades desportivas , muito menos aquáticas por isso aquelas pessoas que rebolavam nas ondas inspiravam-lhe um grande respeito. Lá ao fundo havia uma figura que se destacava. Nenhuma onda lhe escapava e fazia coisas fantásticas em cima da prancha. Sofia estava maravilhada. Nunca na vida seria capaz de fazer tal coisa. O surfista talentoso encaminhou-se para a praia e, curiosamente, parecia dirigir-se na direcção do sítio onde Sofia se sentara.

- Olá. Por aqui? – disse o surfista quando estava a poucos metros de Sofia. Só nesse momento é que ela reparou numa bicicleta pousada ali perto.

 

(continua...)

Alegoria da buganvília

Charneca em flor, 12.06.20

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As outras plantas viram chegar uma planta nova. A humana que tomava conta delas vinha toda sorridente. Nunca tinham visto uma planta daquelas, alta e com bonitas flores cor de rosa mas não tinha um ar muito simpático nem parecia ter qualquer vontade de interagir com as plantas que viviam nos outros vasos.

A planta recém-chegada tinha um ar triste e, de dia para dia, as suas belas flores foram caindo e as folhas iam murchando.
As outras plantas cochichavam, cochichavam para decidirem quem é que ia meter conversa. A comissão das plantas escolheu a begónia por ser a planta mais tranquila de todas e porque vivia no vaso mais próximo.
- Olá. Eu sou a begónia e tu, quem és? Nunca tínhamos visto uma planta tão encantadora.

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A recém-chegada lá se dignou a olhar para baixo, na direcção da begónia, com um ar muito afectado:
- Eu sou a buganvília. É natural que não me conheçam. Afinal, as plantas da minhas estirpe costumam viver em sítios bem mais interessantes do que este pobre pátio onde nos encontramos.
As folhas da begónia coraram de raiva pelo comentário negativo que a buganvília fez ao lugar onde viviam.
- Peço desculpa, não era minha intenção ofender-te Só queria conhecer-te e apresentar-te as nossas companheiras.
- Se isso vos fizer felizes…
Uma a uma, as outras plantas foram apresentadas à buganvília que demonstrava pouco ou nenhum interesse pelas suas novas companheiras.
- Não querendo ser invasiva, temos reparado que tens um ar muito triste. Gostaria muito de te ajudar.
- Impossível. Só há uma coisa que me faria feliz. Sair deste cubículo, deste país pequeno e desinteressante e viajar para junto das minhas parentes. Como é que alguém pode ser feliz neste espaço?! – rebolou as folhas com desprezo – Nesta aldeola insignificante?!
- Realmente não posso fazer nada disso por ti mas, diz-me, onde é que as suas parentes estão plantadas?
- Vocês aqui têm mesmo um horizonte muito curto. Existem buganvílias maravilhosas por todo o Mediterrâneo. As minhas parentes habitam em jardins e pátios da Côte d ‘Azur, na Costa Amalfitana, na ilha de Capri ou nas ilhas gregas, há pátios e terraços maravilhosos com buganvílias.

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- Compreendo. E vivem isoladas ou em conjunto?
- Quase sempre vivem muitas buganvílias juntas dando origem a paisagens coloridas e absolutamente instagramáveis.
- Mais uma razão para seres muito mais feliz aqui.
- Achas?
- Claro que sim. Aqui vais ser uma planta muito mais especial do que todas as tuas parentes que vivem nesses locais glamourosos.
- E porquê?
- Porque, aqui, és a única da tua espécie e não mais uma entre muitas. Não reparou como a nossa humana sorri sempre que olha para ti? Como tenta fazer de tudo para que te sintas o melhor possível? De certeza que todas essas buganvílias, cujas vidas tanto admiras, nunca foram tão bem tratadas como tu serás, aqui, neste humilde pátio.
- Talvez tenhas razão. Vou tentar valorizar mais o amor e dedicação da nossa humana. Obrigada pelas tuas palavras, begónia.
- E já agora vou só dizer mais uma coisa. Onde a vida nos colocar é que temos que desabrochar e florescer. O que esperas para te voltares a encher de flores?

Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.6

Oh, não, um vírus outra vez!

Charneca em flor, 06.03.20

Última hora: A Organização Mundial de Saúde (OMS) acaba de declarar que identificou um novo vírus. A disseminação deste agente é extremamente rápida e atinge pessoas de qualquer idade.


Não, não estamos a falar do Covid-19 embora tenha aparecido, de algum modo, associado ao vírus que surgiu a Oriente.
As pessoas que sofrem desta nova patologia viral não têm nem febre, nem tosse, nem espirros nem sequer dores musculares embora se tenha detectado algumas situações de tendinite* que podem, ou não, estar relacionados com a virose.
A doença provocada apresenta uma sintomatologia nunca vista. Há que estar atento a sensações de ansiedade, medo ou mesmo pânico nos casos mais graves. Algumas pessoas têm dores de cabeça e secura ocular devido ao tempo que despendem a olhar para aparelhos electrónicos. Quem sente compulsão para comprar máscaras cirúrgicas ou desinfectantes para as mãos pode já ter sido atingido pelo terrível vírus. Os doentes foram vistos a encher o carrinho de supermercado com pacotes de leite ultrapasteurizado, água, enlatados, pacotes de bolachas, massa ou arroz, tudo em quantidades impressionantes e muito superiores às necessidades quotidianas.
A OMS tudo tem feito para tentar travar a progressão deste microorganismo virtual mas os especialistas crêem que poderá mesmo provocar uma infodemic, uma situação inédita neste século embora se tenha andado muito perto de um caso semelhante em 2009 aquando da Gripe A.
A origem do vírus ainda não está completamente estabelecida mas tudo indica que se deve à rápida difusão de informações pouco rigorosas ou mesmo falsas em variadíssimos suportes.
A melhor prevenção para evitar esta infecção é manter a distância, não só de pessoas doentes como no caso do Covid-19, mas principalmente de redes sociais como o Facebook ou o Twitter, de caixas de comentários de jornais ou mesmo de certos meios de comunicação social. A profilaxia consiste também em procurar informação em páginas fidedignas como a DGS, Direcção Geral de Saúde, o ECDC (Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças) ou a OMS.
Os especialistas daquele organismo internacional já estão a discutir uma possível designação para este novo agente patogénico. Até agora o nome que reúne maior consenso é VHE, ou melhor dizendo, Vírus da Humana Estupidez.

P. S. – Este texto é um exercício de escrita criativa mas nem tudo o que está escrito é ficção.

*Por estarem muito tempo a clicar nas teclas do computador ou no ecrã do telemóvel.

Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.5

Sonhos dentro do sonho

Charneca em flor, 28.02.20

“O aroma a café atravessa toda a casa e chega ao quarto onde eu ainda durmo. Aquele odor que tanto aprecio desperta-me e descubro-me sozinha na cama. Por momentos, sinto-me confusa. Sou invadida pela sensação de que este é um dia especial. De repente, o meu cérebro ilumina-se. Este será um dos dias mais especiais da minha vida. Ultrapasso a preguiça, levanto-me e caminho na direcção do aroma. Quando chego à cozinha, sou recebida pela luz difusa do dia que nasce e pelos sorrisos dos meus filhos gémeos. O pai deles tinha preparado, amorosamente, o meu pequeno-almoço preferido. As três pessoas que mais amo na vida tinham feito tudo para que eu me sentisse a mais adorada das mulheres. Tudo aquilo que alcancei a eles o devo. Para eu realizar o meu sonho, abdiquei de muitas horas em família. Nem o pai nem os filhos me cobraram a atenção que não lhes pude dispensar.
De seguida vou ultimar os preparativos para o meu grande momento. Vou cuidar de mim para que, mais logo, possa estar no meu melhor.
Sei que vou estar rodeada de amor. Toda a minha família estará comigo. Vai ser maravilhoso perder-me no abraço da minha avó já tão velhinha. Também poderei contar com o apoio incondicional dos meus pais. O caminho que percorri para chegar até aqui distanciou-se muito do percurso que o meu pai sonhou para mim. Mas cada um deve ser o dono da sua própria vida. Só eu sou responsável por aquilo que desejei. E sei que, dissimulado pela sua aparente desconfiança, ele sente um imenso orgulho da sua menina. A ponto de ter organizado um almoço para juntar a família na celebração deste acontecimento.
Nem nos meus maiores desvarios imaginei ser possível viver esta imensa alegria. Ainda me custa a acreditar. Hoje, ao fim da tarde, vou receber o Prémio Literário Raízes Profundas que premeia autores que publicam um primeiro romance depois dos 40 anos. O reconhecimento dos meus pare é extremamente motivador mas o prémio possibilita-me dar uma reviravolta à minha vida e dedicar-me à escrita a 100%.”
E depois acordei. Sim, foi um sonho feliz mas tratou-se apenas de uma fantasia do meu inconsciente. Aquela seria uma bela vida mas a que tenho também me faz sentir plena e abençoada. Nunca imaginei aquilo que tem sido a minha existência. Nem nos meus maiores sonhos. E ainda bem que é assim.

 

P.S - Este texto é um exercício de escrita criativa escrito no âmbito do Desafio dos Pássaros.

O tema era: Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia

Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.4

Googlite grave

Charneca em flor, 21.02.20

Talvez se lembrem da D. Mirandolina, a minha utente que não se fiava nos médicos. A neta dela, a Vanessa, também frequenta a farmácia onde trabalho. A Vanessa padece de um caso grave de hipocondria intensificada por googlite. Nunca ouviram falar em googlite? É uma inflamação generalizada do raciocínio provocada por pesquisas intensivas no Google.
Bom, adiante. Este padecimento da Vanessa dá origem a longos atendimentos para esclarecer as dúvidas, ou as “certezas", que a assaltam sempre que vai consultar o Dr. Google. Só a toleramos porque ela é uma grande consumidora de suplementos nutricionais os quais utiliza para reforçar o seu sistema imunitário e prevenir o aparecimento de doenças. E também temos a obrigação ética de a esclarecer, obviamente.
Aqui há umas semanas reparei que a jovem vinha mais acabrunhada do que é costume. Quando chegou a vez dela, indaguei sobre o motivo da preocupação que era patente no seu rosto:
- Ai, Dra Charneca em Flor, nem queira saber. Estou muito mal. Tenho um cancro na cabeça.
- O quê? Mas como… quando é que soube?
- Tenho todos os sintomas. Vi no Google. Dores de cabeça muito fortes, alterações da visão e ontem senti-me tão mal que ia desmaiando. Só tive tempo de me sentar no sofá para não desfalecer no chão.
- Então, Vanessa, já lhe tenho dito que não se podem fazer diagnósticos baseados no que se lê na internet. De certeza que há uma explicação bem mais simples para esses sintomas.
Depois de muita conversa lá a convenci a marcar uma consulta com o médico assistente.
De quando em vez, ela passava pela farmácia para eu me inteirar do progresso da situação. Com muita insistência, a Vanessa conseguiu convencer o médico a prescrever uma série de exames e a encaminhá-la para um neurologista.
Fiquei umas boas semanas sem a atender. Eis senão quando ela me entra pela farmácia com uns modernos óculos novos.
- Então, Vanessa, como está? O que é que o neurologista lhe disse?
- Nem sabe, Sra. Dra. O neurologista era muito antipático. Riu-se na minha cara quando lhe disse que desconfiava que tinha um tumor na cabeça. Depois enviou-me para um colega oftalmologista. Afinal, o Google estava errado. O problema está na visão. O oftalmologista diz que foi provocado por passar muitas horas na internet. Agora tenho que usar óculos e estou proibida de consultar o Google. Dá para acreditar?

 

Texto criativo escrito no âmbito do Desafio de escrita dos Pássaros que podem seguir aqui. O tema desta semana era "O google está errado"

Desafio de escrita dos Pássaros tema 2.3

Manual para um novo amor

Charneca em flor, 14.02.20

Só quando a solidão conseguires apreciar,
contigo mesma fores capaz de viver
E quando o teu “eu" lograres amar,
aí uma nova história poderás escrever.

Outros capítulos surgirão
na narrativa que vais conceber.
A dor pode ser inspiração
mas, acredita, um dia irás perceber.

Finalmente fará sentido
tudo aquilo que viveste.
O teu sorriso deixará de ser fingido
Enxugarás as lágrimas que verteste.

Se alguém partiu o teu coração
Deixando-o em pequenos pedaços
Procura o caminho da reconstrução
Com amor, preenche os vazios espaços.

Do passado poderás trazer
Aprendizagem e experiência
Os mesmos erros não quererás cometer
Já aprendeste o valor da tolerância.

Não te feches no teu casulo
Transforma-te na borboleta que voa
Que o passado não seja obstáculo
E que a tua força dissipe a névoa.


Nunca deixes de acreditar
Que é possível ser feliz
Afinal, nunca é tarde para amar
Ou para pintar a vida com um novo matiz.

 

Poema escrito no âmbito do Desafio de escrita dos Pássaros.

 

Feliz Dia de São Valentim .