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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Natal em tempo de pandemia

Charneca em flor, 14.12.21

 

21273791_ERk3P.jpegA noite começava a cair e as luzes coloridas alegravam as ruas. As poucas pessoas que se viam seguiam atarefadas procurando chegar a casa o mais depressa possível para se reunirem com as suas famílias na noite mais mágica do ano, a Véspera de Natal. Quem andava por ali seguia tão absorto com os seus problemas que nem reparava num homem jovem que percorria as ruas desesperadamente.

José procurava uma farmácia aberta mas, todas as que encontrava, já tinham encerrado para que os seus funcionários celebrassem o Natal. Aquele dia preparava-se para ser um dos dias mais importantes para ele e para a sua família. No entanto, o eminente acontecimento estava a ser ensombrado pelas regras que a terrível pandemia tinha imposto no país.

Já tinham passado quase dois anos desde que se descobrira uma doença de tal modo contagiosa que se tinha espalhado por todos os países do Mundo provocando uma pandemia. Cada país tinha lutado o melhor que podia contra as consequências desta ocorrência mas tinha sido impossível impedir que aquela doença afectasse os cuidados de saúde, a economia, os negócios, a vida em comunidade, a maneira como as pessoas se relacionavam umas com as outras ou usufruíam dos direitos outrora conquistados.

O governo do país de José tinha decretado que, para aceder aos espaços públicos, todos os cidadãos teriam que apresentar um teste negativo para a doença. Só que o homem não conseguia encontrar nenhum sítio disposto a realizar o dito procedimento o que o estava a afastar do lugar onde ele desejava estar, acima de tudo e de todos, ao lado da mulher da sua vida. Eles estavam prestes a conhecer a felicidade mais plena mas nunca tinham imaginado que não estivessem juntos naquele momento.

Quando estava prestes a desistir, viu uma luz a piscar. Por momentos, pensou que era a estrela que os Reis Magos viram, a Oriente, no primeiro Natal mas tratava-se de uma cruz verde que assinalava a farmácia de serviço. Apesar de iluminado, não se via vivalma no interior do espaço. De repente, a porta automática abriu-se assustando o pobre José. Com a esperança de encontrar ali a solução para o seu problema, entrou. Enquanto explicava a situação à simpática farmacêutica que lá se encontrava, viu surgir um ser etéreo vestido de bata azul, máscara e viseira. Para ele, aquela pessoa transformou-se no seu anjo da guarda porque lhe fez o tão aguardado teste, felizmente, negativo.

Assim que pôde saiu a correr a tal velocidade que parecia voar em direcção ao carro enquanto telefonava à sua amada:

- Maria, meu amor, consegui. Vou a caminho do hospital. Diz ao nosso filho que espere mais um pouco para nascer.

Algumas horas depois, Maria e José recebiam, nos braços, o filho tão desejado. Porque não há tempestade ou pandemia que seja capaz de afastar aqueles que se amam.

Feliz Natal 

 

Este conto de Natal foi escrito para responder ao desafio lançado pela querida imsilva do blogue pessoas e coisas da vida.

Serve também de homenagem todos os profissionais de saúde, onde me incluo, que continuam, dia após dia, a desempenhar o seu papel no combate à pandemia. Que tenham todos um Santo e Feliz Natal.

P.S. - Foto captada no Mercadito de Trento, Itália, no Natal de 2016.

 

O presente difícil de encontrar

Os Desafios da Abelha | Conto de Natal de 2021

Charneca em flor, 30.11.21

Nos dias anteriores, a cidade tinha sido afectada por um enorme nevão. Na televisão, as autoridades de segurança mostravam-se muito preocupadas com a segurança rodoviária. Só que a véspera de Natal chegara e as pessoas queriam fazer as compras de última hora, como era costume. Nada as fazia ficar em casa, nem sequer a neve.

Os limpa-neves trabalhavam sem descanso mas, assim que acabavam de limpar uma estrada, ela voltava a ficar coberta de neve. Mesmo assim, os parques de estacionamento da superfícies comerciais apresentavam-se quase cheios. Apesar das péssimas condições atmosféricas, as pessoas arriscavam fazendo deslocações, nem que tivessem que estar horas numa fila de trânsito. Tudo valia a pena para salvar o Natal.

Contra todas as adversidades, havia alguém que se deslocava, freneticamente, de centro comercial em centro comercial, de loja em loja. Os engarrafamentos não o preocupavam. Aquele senhor, bonacheirão, vestido de vermelho, deslocava-se num trenó. Mas não era um trenó qualquer, era puxado pela experiente Rena Rudolfo. Não havia engarrafamento, cruzamento, semáforo ou rotunda que a parasse porque Rudolfo se deslocava pelo céu, não voando que isso deixava para os pássaros, mas pulando de nuvem em nuvem. Na noite mais mágica do ano, era vê-los, Pai Natal e Rudolfo, saltitando pelos céus.

Só que, naquele ano, o Pai Natal começou a ser avistado muito antes de a noite cair. Um menino tinha-lhe escrito uma carta muito comovente mas tinha-o colocado perante uma situação complicada. O pedido não se conseguia satisfazer na fábrica de brinquedos do Pólo Norte. Sendo assim, o Pai Natal andava, tal e qual o mais comum dos mortais, a tentar comprar aquilo que o menino, João de seu nome, tanto ansiava. Na sua busca infrutífera foi estacionando em vários locais surpreendendo os incautos transeuntes embora a maioria pensasse que se tratava de uma mera estratégia de marketing.

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O céu estava a escurecer porque o dia ia chegando ao fim e o Pai Natal não resolvia a sua questão. Até que teve a ideia de ir consultar um colega que também costumava trabalhar nesta época do ano, o Menino Jesus. Com a ajuda da sua fiel Rena Rudolfo, foi até ao Paraíso expôr o seu problema. Depois de ser muito bem recebido, contou a situação o mais depressa que conseguiu. O Menino Jesus riu-se com gosto dizendo:

- Querido amigo, como é que é possível que um homem com a tua experiência esteja a fazer um problema tão grande dessa situação?! Procura bem dentro de ti, no coração, que vais encontrar a solução. Até te vou dar uma ajuda. – E deu-lhe uma caixa vazia enquanto se despedia uma vez que não havia tempo a perder. Era chegada a hora de levar os presentes a todas as casas do mundo.

O Pai Natal compreendeu tudo, finalmente. E, de nuvem em nuvem, lá foi saltitando e deixando presentes em todos os lares, dos mais humildes aos mais ricos.

Na manhã de Natal, a neve continuava a cair lá fora. Na grande casa que se erguia no cimo da colina, inúmeras crianças saíam dos seus quartos e desciam as escadas, com grande algazarra, até à árvore de Natal da sala comum. No orfanato do Menino Jesus, nenhuma criança ficava sem presente mas os olhos que mais brilhavam eram os do João porque a sua prenda era a mais reluzente. No momento em que se preparava para abri-la, soou a campainha.

- Vem, João, os teus pais chegaram para te levar. Vais passar o dia de Natal com a tua nova família.

Da caixa entreaberta espalhou-se no ar o doce aroma do amor. O desejo do pequeno João tinha sido realizado. O presente que pediu ao Pai Natal foi apenas este, Amor.

 

Este pequeno conto, inspirado na imagem que o ilustra, foi escrito no âmbito do desafio lançado pela Ana de Deus, inspirado na iniciativa anual da Mãe Natal dos Blogs do Sapo, imsilva.

Desafio Arte e Inspiração #9

Mentes perturbadas

Charneca em flor, 10.11.21

João não tinha muitos amigos. Sempre fora um miúdo estranho. O amor extremo que a mãe lhe devotava nunca a deixou perceber que o seu filho não era igual às outras crianças. Aos seus olhos, o seu filho era perfeito. Durante muitos anos, esperara por ele que só chegara quando já não contavam que pudesse acontecer.

Quando João nasceu, os pais já estavam casados há 15 anos. Aquela criança era a realização de um sonho. De tão imaginado e desejado, João tornara-se num menino da mamã. O pai, pessoa introvertida, colocara-se sempre à margem do seu crescimento. Não é que não o amasse, mas não conseguia penetrar naquela simbiose perfeita entre mãe e filho. Também ele jamais suspeitara que algo no interior da mente do seu filho não funcionava da maneira que seria expectável.

Os anos foram passando e o João foi crescendo sem sair muito debaixo da asa da mãe. Na escola ficava sempre sentado perto da professora e nunca saía para o recreio. A interacção com as crianças da sua idade era mínima. Na verdade, João era incapaz de olhar os outros nos olhos e pouco falava. No entanto, era o aluno que tinha os melhores resultados desde que não fosse preciso falar com ninguém. A mãe, quando interpelada pela professora, conseguia arranjar sempre justificações. Obviamente, que ela já tinha reparado que João tinha muita dificuldade em olhá-la de frente. Aliás, às vezes até achava que o seu filho ficava de olhar vazio, perdido nos caminhos tortuosos da sua mente. Só que, para si, a natureza do seu filho era assim, calado e tímido, e a ela restava-lhe aceitá-lo e amá-lo.

Nada preparara aqueles pais para aquilo que estava por vir. Certa noite, acordaram com um estranho barulho que vinha do telhado. Com o medo a dominá-los, avançaram pelo corredor em direcção à porta. Não se aperceberam que o filho não estava na cama. Com cautela, saíram para o pátio descobrindo que o filho se equilibrava em cima do telhado enquanto gritava palavras incompreensíveis.

A mãe começou a chorar compulsivamente porque já estava a imaginar o filho morto no chão do pátio.

- João, o que estás aí a fazer? Como é que foste aí parar? – o pai, embora assustado, tentava manter-se calmo.

- Pai, ajuda-me. Eu preciso de chegar ali a cima.

- Ali, onde?

- Ao céu. Tenho que ajudar aquele cabelo.

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Cabelo perseguido por dois planetas, Joan Miró

 

- Mas que cabelo? Do que estás a falar? Não é melhor saíres daí? Eu vou ter contigo para te tirar daí.

- Não. – o grito de João foi lancinante. – Eu tenho que ajudar o pobre cabelo. Não vês aqueles dois planetas? Estão a persegui-lo, coitadinho.

Efectivamente, no céu observava-se um fio de luz, rasto de algum avião, mas o pai não estava a compreender nada do que o filho dizia.

O barulho acordara os vizinhos e alguém tomara a iniciativa de ligar para o serviço de socorro. No fundo da rua, surgiram uma ambulância e um carro de bombeiros.
João continuava a gritar coisas sem nexo e a tentar erguer-se no cimo do telhado. A mãe, desesperada, tomou consciência de que o seu filho não era perfeito. A sua mente estava irremediavelmente desarrumada. Quando os bombeiros o conseguiram fazer descer, os pais tiveram que aceitar que o seu filho precisava de ajuda médica. E, abraçados, choraram a “morte" de um filho que nunca existiu, o filho de sonho.

 

Neste desafio de inspiração artística, participam estes criativos  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

Desafio Arte e Inspiração #8

A sedutora

Charneca em flor, 03.11.21

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Ilustração de Moda, Almada Negreiros

 

Quando a via passar, Bento ficava completamente transtornado. Aquela mulher era magnética. A altivez e a elegância com que ela caminhava conferia-lhe uma certa nobreza. Não se pense que ele a vigiava. Apenas se dava a estranha coincidência de ele sair de casa precisamente à mesma hora a que ela passava à sua porta. Todos os dias. Mantendo uma certa distância, ele acompanhava-lhe os passos sentindo o halo de perfume que ela deixava à sua passagem.

Bento era um homem tímido, muito diferente dos homens da sua geração.

Naquela época, era suposto que o homem fosse o sedutor e que a mulher fosse recatada. Pelo menos, aparentemente. Na verdade, uma mulher inteligente era perfeitamente capaz de ser ela a sedutora mas fazendo com que o homem acreditasse nas suas qualidades irresistíveis de galanteio.

Conceição Felicidade era, sem dúvida, uma mulher inteligente e já percebera que aquele desconhecido se perturbava com a sua presença. Há muito que reparava nele e na maneira como a olhava quando se cruzavam. Na verdade, o seu aspecto e porte também lhe tinham chamado a atenção. Só ainda não descobrira como havia de chegar à fala com aquele homem sem o assustar nem parecer uma oferecida. O equilíbrio era muito ténue. Por mais que se vivessem os loucos anos 20 por essa Europa fora, Portugal continuava a ser um país retrógrado. Algumas atitudes nunca seriam bem vistas numa mulher séria. Ela ansiava que aquele homem lhe dirigisse a palavra porque ela teria todo o prazer em retribuir-lhe essa atenção. No entanto, a situação já se arrastava há semanas e Conceição Felicidade queria confirmar se aquele homem estava mesmo interessado. De repente, fez-se luz na sua mente.
Sem perceber bem de que se tratava, Bento reparou que a sua musa deixara cair algo. O homem estugou o passo. Abandonada no passeio, jazia uma singela luva amarela. Aquela era a oportunidade que Bento precisava. A luva pertencia àquela bela mulher e fora isso que ele vira cair. Bento andou ainda mais depressa de modo a conseguir alcançá-la.

Conceição Felicidade olhou para trás, o mais disfarçadamente que conseguiu, e viu que ele mordera o isco. Percebendo que ele começara a andar mais depressa, ela parou diante de uma montra para lhe facilitar a tarefa.

- Minha Senhora, peço desculpa mas penso que isto lhe pertence.

Fingindo-se sobressaltada, Conceição Felicidade virou-se para o encarar.

- Oh, perdão. Não queria assustá-la. Acho que deixou cair a sua luva.

Conceição Felicidade sorriu-lhe, corando de forma encantadora. Aceitando a luva, deixou que os dedos de ambos se tocassem provocando-lhes um arrepio electrizante.

- Muito obrigada, não me tinha apercebido de que a tinha perdido. – disse ela enquanto o olhava nos olhos de modo fugaz.

Bento, espezinhando a sua timidez e percebendo tinha que aproveitar aquela oportunidade única, arriscou num convite:

- Posso oferecer-lhe alguma coisa para compensar o susto que lhe provoquei? Aqui ao lado há uma casa de chá muito agradável.

Conceição Felicidade já não tinha dúvidas de que estava no bom caminho. Apoiando-se no braço que ele lhe oferecia, ela preparou-se para concluir, com sucesso, a ardilosa tarefa de o cativar.

 

Neste desafio de inspiração artística, participam estes criativos  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

Desafio Arte e Inspiração #7

"O Beijo"

Charneca em flor, 27.10.21

Emília sentia-se muito feliz. Empreender uma viagem sozinha tinha sido uma ideia temerária uma vez que era contrária à sua maneira de ser. Nunca fora muito aventureira. No entanto, sonhava conhecer Viena há muito. Quando ainda era muito jovem ficara fascinada com o filme “Sissi", baseada na vida da Imperatriz Elisabete, esposa do jovem Imperador Francisco José de Habsburgo.

Ao longo dos anos foi pesquisando tudo o que podia sobre a Áustria e a sua capital Viena. A sua dedicação levaram-na a perceber o papel influente que a família Habsburgo tivera na História da Europa ao longo de nove séculos bem como a importância que a Áustria teve na cultura europeia. Na Áustria nasceram pessoas tão talentosas, como Sigmund Freud, Gregor Mendel, Hans Asperger, os compositores Strauss, Mozart, Schubert ou o pintor Gustav Klimt. No que diz respeito à música, a importância que a família Habsburgo lhe atribuía atraiu também compositores estrangeiros como Beethoven por exemplo.

Deambulando pelas ruas de Viena, Emília tinha a sensação que se respirava cultura. A cidade era mesmo a capital imperial a julgar pela imponência dos seus edifícios e pela grandeza das suas estátuas. Nos seus dias sem compromissos, Emília perdera-se na atmosfera dos cafés vienenses e passeara nos magníficos jardins do Palácio de Schönbrunn, onde vivera D. Leopoldina de Habsburgo que foi Rainha de Portugal pelo casamento com D. Pedro IV. Infelizmente, a semana estava quase no fim e o regresso à rotina aproximava-se. Naquele dia, Emília programara a visita ao Palácio Belvedere onde se situa a Galeria Belvedere. Ali podiam-se ver obras desde a Idade Média, passando pelo período Barroco, pelo período de Arte Nova até ao séc. XXI. Ela foi observando todas as obras com mais ou menos atenção enquanto procurava um quadro que sempre lhe despertara curiosidade. Até que entrou numa sala e lá estava ele, “O Beijo" de Gustav Klimt.

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"O Beijo" de Gustav Klimt

O magnetismo que aquela obra exerceu sobre ela fez com que se abstraísse de tudo o que a rodeava. Os seus olhos estavam presos nos pormenores da pintura. Qual teria sido a intenção do artista ao conceber aquela cena? Porque é representara o homem com linhas rectas enquanto a mulher está coberta por figuras geométricas circulares? Aquele “Beijo" terá sido consentido ou não? Afinal o homem pega no rosto da mulher e agarra-a de uma maneira que transmite a sensação de domínio. A expressão que Klimt atribuí à mulher é enigmática. Será que gosta do beijo ou nem por isso? E os pés? Estão numa posição estranha, dão a impressão de crispação.

- A beleza da arte é que cada pessoa lhe pode dar o seu próprio significado.

Emília sobressaltou-se. A seu lado, estava homem muito atraente que lhe sorria. Emília imaginou-se a ser beijada por aquele homem como a protagonista do quadro de Klimt e pensou que devia ser muito agradável. Sem perceber de onde saíra aquela ideia despropositada, corou enquanto dizia:

- Como?

- Desculpe mas não pude deixar de ouvir aquilo que “conversava" com este quadro.

Não percebia o que lhe dizia aquele homem. Será que tinha pensado em voz alta outra vez?

- Lamento se perturbei o seu sossego. Tenho o hábito de pensar alto. Já me tem trazido alguns dissabores.

- De modo nenhum. Até achei graça. Quer acompanhar-me pelo resto do Museu? Estou sozinho e gosto de discutir o que vejo com outras pessoas.

Emília pensou: “ E porque não? Não tenho nada a perder.”

Assim a viagem deixou de ser solitária porque Gustavo, assim se chamava o homem, a levou a conhecer a Viena que se escondia atrás dos edifícios imponentes da cidade imperial.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

Desafio Arte e Inspiração #6

Alentejo do meu coração

Charneca em flor, 20.10.21

O automóvel rolava, suavemente, pela estrada que eu conhecia tão bem. Sem razão aparente, sentia-me um pouco ansiosa. Pensando bem, aquela reacção era-me familiar. A expectativa de voltar aos meus lugares causava-me, sempre, alguma perturbação.

Sem nunca deixar de estar atenta à condução, comecei a reparar que a paisagem que ladeava a via se ia alterando. Os tons tornavam-se, progressivamente, mais dourados. E, finalmente, vi a placa que indicava o início do meu Alentejo. Avistar aquele marco fazia-me respirar doutra forma. A partir dali, sentia-me em casa.

Não nasci no Alentejo mas é onde se encontram as minhas raízes. Os meus pais migraram para os arredores de Lisboa no início dos anos 70, acompanhando o movimento do interior para o litoral. Assim eu cresci, maioritariamente, longe do Alentejo mas os meus pais mantiveram uma relação muito estreita com a família que por lá ficou. Sempre que possível rumavam ao torrão natal. Desde cedo que percebi que o Alentejo era a minha verdadeira casa. Talvez isso se tenha devido à minha maneira de ser mas nunca senti a terra onde cresci como a minha terra natal. Foi no regaço da minha avó que construí as minhas memórias mais felizes. Ao contrário dos meus amigos da ciddade, eu sempre soube de onde vêm os ovos ou a diferença entre um sobreiro e uma oliveira. Durante toda a infância e adolescência, férias escolares rimavam com Alentejo. Nesses momentos, os dias corriam velozes e eu terminava-os suja mas extremamente feliz. Os meus brinquedos eram a terra, as folhas e os galhos. Os meus companheiros tanto podiam ser cães, gatos, porcos, cabras mas também os outros miúdos da terra. A maioria dos meus amigos das férias eram, mesmo, alentejanitos mas também um ou outro miúdo da cidade.

Na adolescência, o cenário foi-se alterando. Os jovens da cidade já não apareciam tantas vezes e alguns adolescentes da terra também desapareceram. O trabalho começou a escassear por ali e as famílias que tinham resistido aos primeiros movimentos migratórios acabaram por se verem obrigadas a procurar outras paragens com mais oportunidades. Os velhos ficaram e eu continuei a ser das poucas adolescentes que continuava a preferir passar ali o Verão do que numa qualquer praia lotada do Algarve.

Depois de a minha avó falecer, foram poucas as vezes que voltei ao Alentejo. As recordações eram muito dolorosas e não soube lidar com elas. Só eu sei a falta que a minha avó me faz. O seu amor ainda me aquece o coração.

A seguir à  última curva da estrada, a aldeia surgiu encavalitada num monte. Chegada à casa da minha avó, senti o coração apertado como era habitual desde que ela partira. A sua ausência ocupava todas as divisões mas ao mesmo tempo cada canto despoletava em mim recordações muito felizes.

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Sobreiro, El Rei D. Carlos de Bragança, 1905

Olhei para o relógio e reparei que se aproximava a hora do evento que me levara a regressar ali. Com o coração aos saltos, encaminhei-me para o montado contíguo ao quintal da minha avó. As árvores já não eram bem iguais às que viviam na minha memória, os anos não passavam só pelas pessoas. De repente, lá estava ele, o quercus mais antigo da região. Por momentos, voltei a ser uma adolescente tímida e apaixonada. Ali, encostada ao seu tronco poderoso, aconteceu o meu primeiro beijo. E, à minha espera, estava o protagonista da minha mais bela história de amor. Os 30 anos que passaram apagaram-se num ápice quando o nosso olhar se cruzou. As nossas conversas, pela noite fora, no Messanger já tinham reacendido a chama da paixão. No momento do reencontro, as emoções inundaram-nos em catadupa e o sobreiro grande voltou a ser a testemunha silenciosa dos nossos beijos apaixonados.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

 

 

Desafio Arte e Inspiração #5

Esqueleto no quarto

Charneca em flor, 13.10.21

O ano de 1966 ficou marcado na vida daquela família. Depois de um trabalho de parto de várias horas, nasceu Frederica. O dia 6 do 6º mês começara há, apenas, 6 minutos quando se ouviu o choro inconfundível de uma criança acabada de nascer.

A velha parteira, que ajudava bebés a nascer há 60 anos, pousou a pequena criatura nos braços da mãe dizendo:

- É uma menina especial. O momento do nascimento ficou marcado por um número mágico. – a anciã referia-se à coincidência do número 6 no momento do nascimento.

A mãe, exausta, nem percebia bem o que dizia a parteira mas fez um esforço para sorrir. Aquela filha tinha sido muito desejada mas o cansaço acumulado dominava-a. Agora que tinha a filha nos braços e que a via tão perfeita, o corpo pedia-lhe que fechasse os olhos e dormisse.

Toda a família se deixou encantar por aquele ser tão pequenino. Desde o primeiro minuto, Frederica tornou-se no centro do pequeno universo formado pelas grossas paredes da casa. No entanto, nem tudo ia bem. Durante o dia, era um bebé tranquilo mas, quando caía a noite, a pobre criança chorava desalmadamente. Ninguém conseguia acalmá-la. Durante todas as horas da noite, havia sempre alguém com ela ao colo mas o pranto não parava.

A família não poupou recursos e procurou os melhores especialistas mas não se conseguia descobrir qual era o problema. Desesperada, a mãe levou-a ao padre da aldeia vizinha, conhecido por ser exorcista. Na presença daquele santo homem, a menina chorava e ria ao mesmo tempo, de maneira assustadora. O sacerdote não hesitou e exorcizou a menina.

A visita ao padre teve efeitos durante alguns dias mas, rapidamente, o choro nocturno voltou a ouvir-se por toda a casa e redondezas.

Até que um dia apareceu por ali uma estranha personagem. A mulher era muito idosa e estava vestida pobremente. Os cabelos e as unhas pareciam muitos sujos e o rosto era dominada por uma verruga gigantesca donde saíam compridos pêlos. O feitor encontrara-a à beira do caminho onde pedia ajuda. O homem era dono de um coração bondoso e, como o monte tinha algumas casas vazias, ofereceu-lhe guarida.

O choro nocturno ouvia-se até às casas do monte. Todas as noites, a velha sentava-se à porta hipnotizada com aquele som. Durante o dia começou a espalhar, pelos vizinhos, que conseguia ajudar a menina.

Não tardou que tal assunto chegasse aos ouvidos da mãe da criança e numa manhã pegou em Frederica e foi procurar a tal velha.

Quando viu a estranha mulher, ficou assustada mas não teve coragem para voltar para trás.

- Ainda bem que vieste, minha filha. Sei que em tua cass têm sofrido muito mas eu vou ajudar-te. Deixa-me pegar na tua menina.

A velha pegou na criança e sentou-a no colo. Fixou o seu estranho olhar na criança. De repente, revirou os olhos e ficou estática durante um bom bocado. De início, Frederica ainda choramingou mas depois começou a olhar para a velha com interesse. A mulher balbuciou qualquer coisa que ninguém percebeu.

A estranha voltou-se para a mãe de Frederica:

- A tua filha nasceu de noite, não foi? Ela foi marcada pela lua. Desde o dia em que nasceu que há 6 espíritos que a atormentam todas as noites.

As lágrimas corriam pelo rosto da mãe de Frederica. Agora é que estava apavorada.

- E não há nada a fazer?

- A única solução é apelar à ajuda de uma antepassada da Frederica. No jazigo mais antigo do cemitério, têm que procurar o caixão da tataravó. O nome é Madalena Carmem. Quando abrirem o esquifo, vão descobrir que, apesar dela ter morrido há mais de 150 anos, o esqueleto está intacto. A menina tem que dormir na companhia do esqueleto. A presença da tararavó afastará todos os outros espíritos e vai protegê-la para toda a vida.

A velha mulher calou-se enquanto a mãe levava Frederica pela mão. Ia um pouco desalentada porque não sabia como é que ia convencer a família a pôr um esqueleto no quarto da menina.

Obviamente que a ideia não foi muito bem aceite mas tanto insistiu que o marido moveu influências e, por portas e travessas, lá conseguiu o esqueleto da tataravó.

Desde a primeira noite em que teve o esqueleto por companhia que Frederica dormiu perfeitamente. Nunca mais deixou de dividir o quarto com a tataravó. Os outros espíritos mantiveram-se bem afastados e isso é que era importante.

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El sueño, Frida Kahlo (1940)

A velha? Assim que o esqueleto chegou, ela desapareceu sem deixar rasto.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam  Ana D.Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCéliaCristina Aveiro, Fátima BentoImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

 

Desafio Arte e Inspiração #4

Prima donna

Charneca em flor, 06.10.21

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Solange folheava um velho caderno de folhas amareladas. De vez em quando, parava e lia um pouco do que estava escrito. A ingenuidade que transparecia daquelas palavras inspirava-lhe inúmeros sorrisos. Aquilo que estava à sua frente era o diário que escrevia na adolescência. Encontrara-o, perdido, numa caixa de livros que nunca chegara a arrumar. O achado tinha-a feito recuar mais de 20 anos.

Por momentos, voltara a ser uma jovem sonhadora que imaginava como seria a sua vida de adulta. Naquelas páginas derramara as suas alegrias e as suas angústias bem como as suas lágrimas. Na época, a dança já ocupava grande parte do seu tempo. A professora que a acompanhava fizera-a acreditar que tinha as capacidades para se tornar uma prima donna. E ela alicerçara a sua vida nessa certeza. A sua dedicação era total. Enquanto as suas amigas iam ao cinema, a discotecas, namoriscavam com este ou com aquele, Solange treinava e voltava a treinar. Mesmo assim, ela julgara ser possível chegar ao topo do mundo da dança e construir uma vida familiar estável onde coubessem um marido e 2 filhos. Nas páginas do diário encontrava-se a descrição do marido perfeito e até os hipotéticos nomes para os filhos que nunca chegaram a nascer. Quanta ingenuidade.

A sua luta diária para ser a melhor bailarina do mundo dera resultado. Solange chegou a prima donna dançando com as melhores companhias de bailado e pisara alguns dos mais icónicos palcos do mundo. Nessa auto-estrada de sucesso, perdera-se do amor. Os poucos homens por quem se apaixonou espalharam-se pelas estradas secundárias da existência. Para que um sonho se realizasse, outros tiveram que se desfazer.

Agora, passados tantos e tantos anos, ali estava ela recordando os seus momentos de glória que, durante muito tempo, foram ofuscando a ausência daqueles que não chegaram a ser.

Solange vivera rodeada de pessoas que fingiam interessar-se por ela mas que só queriam aproveitar a sua sombra de árvore frondosa que se destacava na floresta. Aplaudida por multidões, agora ali estava ela, só, com um simples caderno de páginas amareladas por única companhia.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina AveiroGorduchitaFátima Bento,  ImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMaria AraújoMarquesaMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

 

 

Desafio Arte e Inspiração #3

Desespero ao entardecer

Charneca em flor, 29.09.21

O entardecer incendiava o céu. Junto à amurada da ponte, Gonçalo seguia com o olhar o curso revolto do rio. Naquela zona, o rio era bastante profundo escurecendo as suas águas. Mesmo assim, a escuridão das águas não se comparava ao negrume que sentia dentro dele. Não sabia que rumo dar à sua vida. Não conseguia conceber como seria o seu futuro, a sua única certeza era a infelicidade que sentia. Ele construíra uma vida mas, no seu íntimo, tinha a consciência que vivia há muito numa mentira. Só que não estava preparado para enfrentar o olhar reprovador dos outros. Ninguém o ia compreender. A única solução que via diante de si passava debaixo daquela ponte. Só precisava de um empurrão de coragem para conseguir ultrapassar aquele obstáculo e perder-se, para sempre, na fundura das águas.

Com força, fincava os dedos no parapeito antigo. Só precisava de mais esforço para seguir o seu destino.

- Atira-te. Não hesites tanto. – a seu lado, alguém cochichava. Não tinha reparado em ninguém ali perto. A pouca distância, viu um vulto. Não percebeu bem de quem se tratava, parecia uma senhora idosa e curvada.

- O que disse?

- Oh, filho, disse para te atirares à água. Tenho mais que fazer, não posso estar aqui o dia todo.

- Mas quem é a senhora? Como é que sabe que eu estava a pensar atirar-me ao rio? Eu nunca partilhei os meus pensamentos em voz alta. – Gonçalo estava atónito.

- Eu sei tudo. Conheço-te ao mais ínfimo pormenor até aos teus pensamentos mais escondidos. Eu sou… eu sou a Senhora da Morte. Estou aqui para te acompanhar na tua passagem.

- Mas veio aqui para me empurrar?! É que eu não tenho assim tanta certeza de que o caminho é este.

- O caminho é para baixo e despacha-te que eu tenho coisas a fazer e sítios para ir. Queres ajuda?

A idosa aproximou-se perigosamente e ele sentiu o frio que emanava da criatura.

- Não, não faças isso. Eu não sei viver sem ti – uma voz familiar gritava ao início da ponte. Era ele, a razão do seu desespero, o homem que ele amava. Quase desde a infância que ele sabia que nunca seria um homem como os outros. Ele sentia-se atraído por outros homens mas a sua família nunca iria aceitar. Para agradar aos seus, ele tinha casamento marcado para dali a uns dias mas sabia que não era justo para a sua noiva. A Margarida era uma grande amiga mas não a amava. Ali, correndo na sua direcção, estava o seu verdadeiro amor, Manel.
Manel abraçou-se a Gonçalo. As lágrimas corriam pelo rosto de ambos.
- Gonçalo, a solução não é esta. Eu estou contigo e não te vou abandonar. Juntos vamos conseguir com lidar com a tua família.

Lentamente, Manel afastou Gonçalo do parapeito da ponte. Unidos, como nunca tinham estado, e lado a lado, afastam-se em direcção ao futuro.

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Gonçalo, ainda, olhou para trás para ver se a Senhora da Morte continuava por lá. No meio da névoa, pareceu-lhe ver uma sombra que se desvanecia-se.

Desta vez, a Senhora da Morte não levou a melhor.

 

Mais uma semana do Desafio Arte e Inspiração. O quadro que nos serviu dr inspiração foi "O Grito" de Edvard Munch.

Quem o terá escolhido? 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana de DeusAna Mestrebii yue, Bruno EverdosaCélia, Cristina AveiroGorduchita, Fátima Bento,  ImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMaria AraújoMarquesaMiaOlgaPeixe FritoSam ao LuarSetePartidas

Desafio de Escrita dos Pássaros 3.0

Caramba, quase que conseguia!

Charneca em flor, 18.06.21


Eis que chegou, finalmente
A encomenda tão ansiada
Demorou, francamente
Até andava agoniada

Tenho o coração acelerado
Tal é a minha expectativa
Pelo conteúdo imaginado
Na minha mente criativa

É agora, o saco vou abrir
Ai, que não consigo
Um golpe vou desferir
Para descobrir o artigo

Por agora, está preso
Vou buscar uma faca
Para este pacote coeso
Cortei-me, estou fraca

O sangue começa a correr
Mas nada acontece
Não mais o que fazer
Isto já me enlouquece

Talvez esta tesoura
Me possa ajudar
Mas que grande loucura
Já não consigo lidar

Ufa, será que vou tê-la?
A encomenda resistente
Espero conseguir protegê-la
De atenção é carente.

 

A brincadeira,desta vez, é em forma de verso para responder ao Desafio dos Pássaros.