Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

A morte do comendador, Haruki Murakami (vol I)

Charneca em flor, 02.04.19

250x.jpeg

Começo já por dizer que sou fã incondicional de Murakami. Já li vários livros deles embora só hoje tenha reparado que só fiz, aqui, 2 posts sobre livros dele. Imagino que tenha sido porque as histórias de Murakami são tão apaixonantes e envolventes que me deixam sem palavras. Aliás, este deixou-me literalmente de boca aberta sem conseguir dizer nada porque acabou de uma forma abrupta. Tudo para abrir o apetite para ir à procura do II volume. 

A figura central deste romance é um pintor de retratos encomendados é surpreendido pela decisão da mulher se separar dele. O seu mundo fica virado do avesso. Depois de fazer uma longa viagem pelo norte do Japão, vai viver para a casa do pai de um amigo que ficara vazia quando o proprietário vai para um lar. A casa fica numa montanha, num lugar isolado. Parece o lugar ideal para voltar a pintar como na juventude mas a inspiração não aparece até que o personagem principal/narrador conhece um homem estranho mas fascinante que lhe encomenda o seu próprio retrato. E esse encontro vai ser primordial para que o pintor reencontre a sua arte. O génio e o estilo peculiar do escritor japonês prenderam-me até à surpresa da última página. Os acontecimentos estranhos, fantasiosos e inverossímeis voltam a ter presença ao longo da história.

Tal como noutras obras, Murakami entrelaça outras formas de arte na literatura como sejam a pintura e a música. Dei por mim a procurar óperas no Youtube e quadros no Google. Ler Murakami é sempre sinónimo de momentos muito bem passados.

"Só se avistava uma fiada de luzinhas de presença. Como pouco antes, não se ouvia um pio. O que teria acontecido aos insectos?

Passada um bocado, captei um barulho insólito. Ou seria imaginação minha? Um som praticamente inaudível. Se os insetos estridulassem, como era seu apanágio, provavelmente não teria dado por ele, mas o excessivo silêncio permitiu-me ouvi-lo. Retive a respiração e pus-me à coca. Os insectos não eram para ali chamados. Aquele som nada tinha de natural. Era o som produzido por um utensílio ou um instrumento. Uma espécie de tinido. Se não era de um sino, andava lá perto."

"Dança, Dança, Dança", Haruki Marukami

Charneca em flor, 13.01.12

 

 

Por sugestão de Carlos Manuel Lopes da Silva no blogue Clube de Leitura, resolvi ir à procura do livro que se segue ao "Em busca do carneiro Selvagem". E é este "Dança, Dança, Dança". Ainda gostei mais deste livro do que do primeiro. Talvez tenha sido por já estar mais familiarizada com o universo de Marukami. Ou pela história ainda mais cativante e fantástica tocando o suspense.. Ou pela riqueza das personagens ou pelas referências musicais ainda mais constantes. A personagem principal, e narrador, é um homem solitário na casa dos 30. A história inicia-se com a necessidade deste homem ir à procura da sua namorada da qual se desencontrou no livro anterior. Esta procura condu-lo, novamente, ao misterioso Hotel Golfinho.

Esta busca real transforma-se numa busca espiritual de si mesmo, do sentido da sua vida e de como há-de construir a sua vida. Uma história detectivesca mas também uma história de amizade e amor. Mais um romance brilhantemente escrito por Haruki Murakami

 

 

"Passo a vida a sonhar com o Hotel Golfinho.

Nos meus sonhos, sinto  que faço parte do hotel. Que é como quem diz, esses sonhos revelam claramente que tenho com ele uma relação sem a qual não poderia existir, como se o hotel fosse uma espécie de prolongamento do meu ser. A imagem apresenta-se-me distorcida, mostrando um edifício alongado no sentido do comprimento. Mais parece uma imensa ponte coberta, que se estende de um passado distante até aos confins do mundo. E eu faço parte desse cenário. Há ainda alguém que chora, e essas lágrimas são por minha causa.

O hotel envolve o meu corpo. Consigo sentir nitidamente os batimentos do seu coração e o seu calor. Em sonhos, faço parte dele.

É assim, no meu sonho."

"Em busca do carneiro selvagem", Haruki Murakami

Charneca em flor, 05.12.11

 

Tal como há uma escrita sul-americana influenciada peça cultura daquela região, há também uma maneira de contar histórias típica dos países asiáticos. Haruki Murakami é um escritor japonês muito aplaudido pela crítica que eu só descobri agora.

"Em busca do carneiro selvagem" foi o primeiro livro que requisitei nestemeu regresso ao universo das bibliotecas, fruto da necessária contenção de gastos bem como da manifesta falta de espaço para continuar a dar largas à minha paixão pela leitura.

a história desta procura de um carneiro muito especial é ao mesmo tempo real e fantástica. É difícil distinguir a acção propriamente dita da fantasia. Obviamente, Murakami é influenciado pela cultura japonesa mas também é tocado pela cultura norte-americana, literária ou musical, à qual faz muitas referências. Estamos perante um romance detectivesco onde a busca incessante pelo tal carneiro se confunde com a busca de um amigo do passado e a busca do sentido para a vida do narrador/personagem principal. Uma história onde há espaço para a atracção por umas orelhas perfeitas, um especialista em carneiros encerrado no quarto de um hotel e um verdadeiro homem-carneiro.

Um livro difícil de largar até chegar à última página, ao desfecho final...

 

"a verdadeira razão pela qual eu não guardava as fotografias no fundo de uma gaveta prendiam-se com o visível fascínio que aquelas orelhas passaram a evercer sobre mim. Eram cem por cento perfeitas. Umas orelhas de sonho. (...)

Uma das suas curvas, de uma ousadia inimaginável, rasgava a fotografia de alto a baixo, outras enrolavam-se em delicadas filigranas de luz formando sombras subtis, outras ainda havia que descreviam, como se uma antiga pintura mural se tratasse, inúmeras lendas de tempos antigos."

 

 

"O homem-carneiro vestia uma pele de carneiro que o cobria da cabeça aos pés. A vestimenta ajustava-se na perfeição ao seu físico atarracado, apesar de se ver a pele na zona dos braços e das pernas tinha sido cosida poeteriormente, em jeito de remendo. O capuz que lhe envolvia a cabeça também era feito de retalhos de pele, mas os chifres enrolados em espiral que lhe saíam do alto do crânio, esses eram verdadeiros. Duas orelhas achatadas, sem dúvida  armadas com a ajuda  de arame, projectavam-se horizontalmente dos lados do capuz."