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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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A Gorda, Isabela Figueiredo

Charneca em flor, 25.08.22

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Tal como dizia no post anterior, tenho lido bastante neste Verão. No mês passado li um livro que ainda não partilhei por aqui, "A Gorda" de Isabela Figueiredo.

A protagonista é Maria Luísa que acompanhamos como adolescente, jovem adulta e mulher madura. Maria Luísa nasceu em Moçambique e a independência do país, em 1975, apanha-a no início da adolescência. Por uma questão de segurança, os pais enviam-na para Portugal onde passa pelas casas de vários parentes até ir parar a um colégio. O percurso escolar de Maria Luísa é excelente mas tem uma característica que influencia a sua relação com as outras pessoas, é gorda. No entanto, Maria Luísa luta para viver a sua vida da melhor maneira possível mesmo com o "peso" do seu aspecto físico sempre presente.

Tendo em conta, a importância que a aparência física tem na nossa sociedade, alterada com os melhores filtros, este livro mexeu comigo. É impossível não nos identificarmos com os problemas e dores que Maria Luísa sente pelo facto de ter excesso de peso. Não há ninguém que não identifique um defeito físico em si próprio. Seja o peso, a celulite, o acne, as rugas, os dentes desalinhados ou os óculos com lentes grossas como é o meu caso.

"A Gorda" é um relato impressionante e cru, na 1a pessoa, dos sentimentos que Maria Luísa transporta dentro de si. Ao longo da vida faz amizades, diverte-se, apaixona-se mas também sofre humilhações, desgostos e perdas. 

Gostei muito da escrita de Isabela Figueiredo e da maneira como organizou os capítulos do livro. Cada capítulo tem o nome de uma divisão da casa onde Maria Luísa mora com os pais e onde continua a morar depois do falecimento deles. A história avança e recua ao ritmo das memórias de Maria Luísa dando a ilusão de estarmos mesmo no interior da sua cabeça de forma a sentirmos, como nossas, as suas mágoas e as suas vitórias.

Apesar de "A Gorda" ter mexido com as minhas próprias inseguranças físicas, a história de Maria Luísa foi uma boa companhia. Recomendo muito esta leitura.

"O meu corpo continuava a manifestar tendência para alargar. Não era conforme. Os pneus na cintura não me permitiam blusas mais justas, nem a barriga saliente nem as mamas grandes e suspensas, que não se adequavam ao padrão e me envergonhavam, mas havia outros trunfos que me permitiam progredir: lindos olhos amarelos, lábios pulposos, atrevimento e palavra forte. E escrevia bem."

"《Diz, David. Diz a verdade. Gozam contigo porque arranjaste uma gorda, não é?! É por isso. Por ser gorda. Por não ser como as raparigas de quem todos gostam e falam, a quem assobiam e mandam piropos. As normais. Gozam contigo porque sou gorda!》 Temo ouvi-lo, mas quero a confirmação. E quero atirá-lo contra os seus sentimentos, medos e inseguranças."