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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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A vida no campo vol II - Os anos da maturidade, Joel Neto

Charneca em flor, 01.09.19

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Antes de começar este post, fui consultar o arquivo do blogue para ver se tinha escrito sobre o 1o volume de "A vida no campo". Descobri 2 coisas. Primeiro descobri que não partilhei convosco as minhas impressões sobre esse livro mas descobri que as histórias de Joel Neto têm acompanhado as minhas férias desde 2017. Em Agosto de 2017 li "Arquipélago" e em Agosto de 2018 terminei de ler "Meridiano 28". Nestas férias que agora ter terminam li as maravilhosas crónicas de "A vida no campo". Curioso, não é? Joel Neto transporta-me para o encantador universo das ilhas açorianas. A minha primeira viagem de avião foi até aos Açores e foi uma viagem inesquecível.

"A vida no campo" reúne crónicas, originalmente publicadas no Diário de Notícias, sobre a vida de Joel Neto depois de voltar às origens, ou seja, depois de regressar à sua ilha natal. Em 2012, Joel Neto deixou a sua vida em Lisboa e foi viver, com a mulher, a tradutora Catarina Ferreira de Almeida, para a Ilha Terceira. As pessoas que vivem na sua aldeia, e que fazem parte das suas recordações, são a principal fonte de inspiração para as suas fantásticas crónicas. Mas também as suas conquistas no jardim que vai construindo com a ajuda dos amigos. E as pequenas coisas do dia-a-dia, uma fatia de pão de milho, as árvores, as flores, os passeios com os cães, todos são personagens dos pequenos episódios d' "A vida no campo". 

As histórias de Joel Neto são tão mais ricas quanto mais singelas. Transparecem uma felicidade que só é possível a quem ousa viver num contacto íntimo com a natureza mas também com os outros. As crónicas d' "A vida no campo" são pequeninas jóias da literatura.

"Lugar de Dois Caminhos

Sábado, 1 de Setembro

(...)

Uma figueira. Enorme e tentacular - suportada por estacas, já, nos seus ramos mais gordos e trémulos. Em quantas mesas de jantar terão estado os seus frutos, os dela e os das suas crias? A quantos aniversários terão assistido? E nascimentos? E casamentos? E divórcios? De quantos momentos de alegria esfuziante terão partilhado? De quantas tragédias? De quantos silêncios lentos e irreparáveis? Poderiam  as amoras das minhas amoreiras partilhar desses momentos? Poderia eu plantar uma figueira igual e ainda ir a tempo de subsistir dela?

Sempre deram boas parábolas, as figueiras - nem Jesus Cristo resistiu.

(...)"

 

Meridiano 28, Joel Neto

Charneca em flor, 30.08.18

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 Ultimamente tenho lido a uma velocidade menor do que era meu hábito. Os olhos não ajudam mas tenho a vantagem de saborear melhor cada livro. Este Meridiano 28 já o andava a ler há algum tempo mas terminei-o na passada semana, no Aeroporto de Vantaa, Helsínquia. Pensando bem até é uma história que faz sentindo ler em viagem. Afinal, a acção passa por vários locais, maioritariamente, o Faial, Lisboa, Praga, Friburgo e até Nova Iorque. Para não falar nas várias viagens no tempo já que a história atravessa várias épocas. No fundo é uma história de amor(es) e de amizade em que o pano de fundo, em grande parte, é a Segunda Guerra Mundial, os anos que a antecederam e os anos que se seguiram e a sua influência no ambiente social faialense. 

Já tinha lido outros livros de Joel Neto como "A vida no Campo" e "Arquipélago", cada um deles com a sua particularidade. Neste último romance, Joel Neto superou-se. A pesquisa histórica foi, de certeza, exaustiva tornando a história muito mais fidedigna. A forma como escreve e o encadeamento da história são fantásticos mas o final é, absolutamente, surpreendente. Meridiano 28 é a afirmação absoluta de Joel Neto como um dos melhores escritores do Séc XXI. Recomendo, sem dúvida.

"A primeira impressão que José Filemom teve da Horta foi essa: a de uma cidade que entardece à sombra, como se lhe houvessem amputado metade do dia. Aterrou no Faia., percorreu a costa sul da ilha, guinou frente àquele a que chamavam Monte da Guia e, durante todo o percurso do táxi, sentiu na pele o calor de um sol tão quente como inesperado. Mas, antes mesmo de encontrar a baía, deu por si imerso numa escuridão e, depois desta, numa névoa espessa, incapaz de descortinar um palmo à frente do nariz."

 

P.S. - Será que a história de José Filemom tem continuidade? Quanto a mim, muito ficou ainda por contar. Caro Joel, se algum dia ler estas palavras, pense nisso.

"Arquipélago" por Joel Neto

Charneca em flor, 27.08.17

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A primeira vez que tive este livro nas mãos foi para ajudar uma colega a comprar um presente para o sobrinho. Chamou-me a atenção pela capa e pelo título. E porque falava nos Açores. Apaixonei-me por essas ilhas misteriosas há uns anos quando lá passei uma semana inesquecível. Não sabia quem era Joel Neto. A sinopse interessou-me e aconselhei a colega a comprá-lo. Nunca mais pensei nele. Um dia, saltou para as mãos "A vida no campo" que li com avidez. Nunca mais deixei de seguir as crónicas de Joel Neto. Aí lembrei-me deste "Arquipélago". Já há uns tempos que ele descansa na minha estante. Tenho lido pouco e devagar. Este Verão fui buscá-lo para me acompanhar nas idas à praia. Uma excelente companhia. A história é cativante e as personagens são deliciosas. Adorei os diálogos em que o autor recorreu, muitas vezes, à maneira de falar típica da região.

Joel Neto, para além de nos levar a viajar pelos mistérios da ilha Terceira, leva-nos a viajar pela geografia da ilha. E eu, que nunca fui à Terceira (conheço São Miguel, Flores e Corvo), sinto que já a conheço. Obrigada, Joel Neto, por me ter apresentado a Ilha Terceira, uma autêntica ilha de bruma, e por ter levado a sonhar com lendas e mistérios

Aguardo ansiosamente o seu novo romance, prometido para 2018

 

"O táxi seccionou a ilha pelo coração, escalando as montanhas e percorrendo a extensa recta que cruzava o planalto central. Passou entre pastos rodeados de muros de pedra-sobre-pedra e vacas pensativas, com os dorsos, as cabeças e os rabos malhados de branco e de negro, como num postal ilustrado.

Depois desceu novamente em direcção ao oceano. Chovia de forma copiosa, e isso ofereceu-lhe uma inesperada sensação de bem-estar.

Olhou as montanhas à direita e à esquerda, cada uma delas tentando perfurar a neblina à sua própria maneira, e depois virou-se na direcção do mar, encapelado e metálico. Sentiu que dialogavam uns com os outros, como em conversações de paz que estivessem a correr mal, e também isso o animou. Cheirava a enxofre e a poejo, se bem conseguia identificá-lo - e cheirava também  a eucaliptos, e a gasolina, e a marisco, e a solidão."