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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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TAG | 10 factos literários sobre mim

Charneca em flor, 13.06.21

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Esta publicação do blogue Por Detrás das Palavras inspirou-me a também partilhar alguns factos sobre mim que sou uma eterna viciada em livros. Então aqui vai

1 - O meu pai inscreveu-me numa das mais antigas bibliotecas fixas da Gulbenkian quando eu tinha 9 anos. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Abriu-me os horizontes da leitura.

2 - Quando comecei a trabalhar, comprar livros foi uma das primeiras despesas que comecei a fazer. Já passaram mais de 20 anos.

3 - Não faço ideia de quantos livros possuo. Nunca tive coragem de os contar.

4 - Quando era criança, passava os Verões na casa da minha avó. Um dos meus tios também gosta muito de ler. Os seus livros eram uma tentação mesmo que não fossem adequados à minha idade. No início da adolescência, descobri um livro cuidadosamente escondido atrás dos outros. Era um livro erótico que eu li sem perceber grande coisa .

5 - Já tive a minha fase "Paulo Coelho". Li os livros quase todos. Felizmente já passou .

6 - Nunca li "As 50 Sombras de Grey" por mais que as minhas colegas, que adoraram, insistissem. Com tanto que há para ler, não vale a pena perder tempo.

7 - Nos últimos tempos, tornei-me uma leitora um bocadinho snob. Olho de lado para quem lê xaropadas românticas.

8 - Já sonhei escrever um livro, ou dois ou três. Acordei a tempo desse devaneio. 

9 - Tenho-me apercebido de que leio mais livros escritos por homens do que por mulheres. Assim tento intercalar a leitura de livros escritos por mulheres com livros escritos por homens.

10 - Quase a chegar aos 47 anos, sinto que o mundo tem tantos livros para ler e que o tempo começa a ser escasso para ler todos aqueles que eu gostaria.

Ainda fica muito por dizer mas já dá para ter uma ideia sobre o meu "Eu" literário.

Adorava que também partilhassem alguns factos sobre a vossa relação com livros. Fico à espera.

 

Desculpem pela extensão do post mas entusiasmei-me .

Se isto é um homem, Primo Levi

Charneca em flor, 07.06.21

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O autor de “Se isto é um homem", Primo Levi, era um químico, italiano e judeu que sobreviveu à vida num campo de concentração nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial. Esta obra é um impressionante relato na primeira pessoa daquilo que se passou num dos mais negros períodos na História da Humanidade. Primo Levi viveu num dos campos de concentração de Auschwitz durante pouco mais de 1 ano. Essa experiência levou-o a escrever este livro em que a descreve de forma realista, objectiva e rigorosa sem cair na tentação do compreensível melodrama. Com ele sentimos humilhação, fome, frio, cansaço extremo, medo, resignação ou mesmo vergonha por aquilo em que se tornou para conseguir sobreviver ao campo. Porque para o regime nazi não foi suficiente exterminar seres indesejáveis – embora a maioria fossem judeus, também havia pessoas com outras origens – nas câmaras de gás. Aos presos que tinham condições para trabalhar, o regime “matava" de outra forma, através da humilhação destruía-se aquilo que torna um indivíduo num homem fazendo emergir os seus instintos mais primitivos.

Quem quiser, verdadeiramente, perceber o que foi o Holocausto tem aqui uma das melhores fontes de conhecimento. Esqueçam os livros que povoam os escaparates das nossas livrarias ostentando Auschwitz ou Birkenau no título. O Holocausto e o extermínio de judeus e outros seres humanos não foi uma fantasia de um qualquer escritor mais ou menos talentoso. Aconteceu e isso não se pode negar. Se o negarmos, abrimos a porta à sua repetição. Por melhor que um escritor investigue, aquilo que escrever nunca se conseguirá comparar aquilo que escreveu quem o sentiu na pele.

“Se isto é um homem" é um livro que fere a nossa sensibilidade e que nos faz pensar, “como é possível que um ser humano tenha feito isto a outro ser humano?”. No entanto, ainda bem que o li. A literatura deve servir para nos desassossegar e para alimentar em nós a empatia por quem nos rodeia, mesmo que seja alguém muito diferente de nós.

“Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esfa ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão tem o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós tal como éramos, ainda sobreviva.”

Novas Cartas Portuguesas

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

Charneca em flor, 25.05.21

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Embora o mês de Maio ainda não tenha acabado, eu já terminei a minha leitura deste mês do clube/desafio de leitura a que aderi este ano. O tema proposto era "Um livro que tenha sido proibido". Já há uns tempos que tinha optado pelo "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Este livro começou a ser escrito em 1971 e foi publicada em Abril de 1972. As autoras partiram do romance epistolar "Lettres Portugaises" do séc. XVII cuja autoria é polémica porque foi atribuída a Mariana Alcoforado, freira enclausurada em Beja, mas também a um autor francês. O livro "Cartas Portuguesas" é um conjunto de 5 cartas de amor supostamente enviadas pela freira Mariana Alcoforado a um oficial francês. Tendo este amor proibido como ponto de partida, as "Três Marias" elaboraram este livro a 6 mãos que albergou uma série de estilos literários como sejam o epistolar, o poético e o romance.

A meu ver, o livro pretendia chamar a atenção para a condição feminina na época da ditadura fascista que se vivia em Portugal. As autoras abordaram, em grande medida, a opressão da mulher à vontade do marido e da família mas também escreveram sobre a sexualidade, o prazer feminino e até afloraram, levemente, a orientação sexual. As "Três Marias" não deixaram de abordar outros problemas que afectavam tanto as mulheres como os homens nos anos 70 como, por exemplo, a guerra colonial e a emigração.

A direcção literária do obra foi de outra mulher corajosa, Natália Correia, que se recusou a fazer cortes naquilo que as autoras escreveram.  Como resultado, a primeira edição foi apreendida e destruída em 3 dias e as autoras foram acusadas de "pornografia e atentado ao pudor". Nos interrogatórios foram instadas no sentido de identificarem quem tinha escrito o quê. Nunca o revelaram até hoje, passados 50 anos e quando só resta uma das autoras viva. Embora tenham ido a tribunal acabaram por não ser julgadas graças à Revolução dos Cravos que acabou com a ditadura e interrompeu o processo. O processo judicial valeu-lhes a solidariedade de inúmeros intelectuais portugueses e estrangeiros bem como de inúmeras feministas. Aliás, "Novas Cartas Portuguesas" é considerado, actualmente, um dos primeiros manifestos feministas.

Na minha opinião, este não é um livro fácil de ler, antes pelo contrário. Esta edição é uma edição anotada o que ajuda imenso porque há certos pormenores que só se entendem se compreendermos as referências políticas e literárias bem como o contexto histórico em que a obra foi dada ao prelo. Nalgumas linhas encontramos, realmente, referências sexuais mas que fazem sentido no âmbito da "história" que as autoras queriam contar. Percebo que a publicação deste livro tenha sido um escândalo, não só pela abordagem sexual mas porque pretendia romper com a ordem estabelecida na sociedade portuguesa. Infelizmente, considero certas passagens muito actuais e acredito que se a obra fosse publicada hoje constituíria, novamente, um escândalo. Chegámos à 3a década do séc. XXI mas as mentalidades retrógradas subsistem. As circunstâncias mudaram mas ainda há muito por fazer para se atingir a igualdade entre homens e mulheres.

Este é um livro que faz pensar. E hoje em dia há tanta preguiça em pôr os neurónios a funcionar, não é verdade? Mas fazer pensar é um dos objectivos mais nobres da literatura.

"Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.

(...)

Só de nostalgia faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um  Outubro,  um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?"

 

Uma História da Leitura, Alberto Manguel

"A leitura é, desde o início, a apoteose da escrita"

Charneca em flor, 28.04.21

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Alberto Manguel é argentino mas já viveu em inúmeros países. Trabalhou como escritor, tradutor, editor e foi director da Biblioteca Nacional da Argentina. Desde criança que os livros ocupam um grande espaço na sua vida. Da sua biblioteca pessoal fazem parte mais de 40000 livros que foram oferecidos, recentemente, à cidade de Lisboa onde darão origem ao Centro de Estudos da História da Leitura do qual será director. Já ouvi falar dele há algum tempo e achei que este livro se enquadrava muito bem no tema do mês de Abril do clube de leitura a que aderi este ano, "Um livro que fala de livros".

Não é o livro mais fácil de ler já que não se trata de um romance. Não é um livro que se leia por distracção, embora ler seja uma excelente distracção. Também não é uma História exaustiva da leitura. A meu ver, é a História que resultou da investigação que o autor fez sobre a leitura ao longo dos tempos e dos diferentes caminhos a que essa investigação o foram conduzindo. Para além disso, o livro é enriquecido pela própria experiência, ao longo da vida, do autor enquanto leitor. 

Através desta obra confrontei, igualmente, a História da Leitura da Humanidade com o percurso que eu própria tenho feito enquanto leitora. Por exemplo, no capítulo "Ler imagens" regressei aos anos 70 quando ainda não sabia ler e inventava histórias enquanto olhava para os desenhos dos meus livros.

Esta obra está dividida em 4 partes mas há 2 partes principais. A primeira grande secção aborda vários aspectos da leitura, daquilo que pode dificultar ou facilitar este acto, de como a leitura começou por ser uma actividade de elites e de como evoluiu até ser acessível a todos. A outra grande parte baseia-se no leitor e na maneira como o leitor se relaciona com os livros, como escolhe o que lê e como interpreta aquilo que lê.

A maneira como este livro está construído faz-nos perceber porque é que Alberto Manguel escolheu chamar-lhe "Uma História da Leitura" e não "A História da Leitura". Esta a História de Manguel mas se fosse a minha História, ou de outro amante dos livros, seria muito diferente, com toda a certeza.

"No entanto, sob este acaso aparente, há um método: este livro que vejo diante mim é a história da leitura, mas também dos leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo das eras, preferiram certos livros a outros, aceitaram nalguns casos o veredicto dos mais velhos, mas noutras ocasiões resgataram do passado títulos esquecidos, ou arrumaram nas prateleiras das suas bibliotecas os eleitos dos seus contemporâneos. Esta é a história das suas pequenas vitórias e dos seus sofrimentos secretos, e da maneira como essas coisas se passaram. Este livro é a crónica minuciosa da maneira como tudo isso aconteceu, na vida quotidiana de algumas pessoas comuns, descoberta, aqui e ali, em memórias de família, anais municipais, descrições da vida em lugares distantes e em tempos recuados."

O meu ano de 2020 em livros

Charneca em flor, 31.12.20

Graças à  minha conta do Goodreads, descobri uma série de pormenores sobre as minhas leituras.

Por exemplo:

  1. Li 19 livros, num total de 5609 páginas 
  2. O maior livro que li foi "Os Irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski 
  3. O livro mais curto foi "O Manual do Bom Fascista" de Rui Zink
  4. O livro mais popular que li foi de Isabel Allende, "Longa Pétala de Mar" e o menos popular foi "Almanaque da Língua Portuguesa" de Marco Neves 
  5. Classifiquei os livros que li com uma média de 4,2 

 

Um bom ano de 2021, com muitas leituras 

Manual para mulheres de limpeza, Lucia Berlin

Charneca em flor, 30.08.20

manual-para-mulheres-de-limpeza.jpgHá uns anos, num dia de aniversário, senti-me atraída pelo magnetismo deste olhar de Lucia Berlin e foi inevitável comprar este "Manual para mulheres de limpeza". Depois deixei-o na prateleira até agora. Até porque o livro tem mais de 500 páginas por isso quando ia pegar nele, assustava-me e desistia.

No entanto, ouvi, num podcast, alguém a falar desta obra e resolvi dar-lhe uma oportunidade. Afinal tinha uma pérola, ou melhor, um colar de pequenas pérolas na prateleira e não sabia. Como se trata de um livro de contos lê-se muito bem e nem se repara no tamanho. 

Lucia Berlin era uma escritora norte-americana que nasceu no Alasca em 1936 e faleceu em 2004. Embora tenha publicado inúmeros contos ao longo da vida, só recentemente é que teve o devido reconhecimento dos leitores e da crítica.

A autora teve uma vida cheia e tumultuosa. E foi precisamente na sua vida que se inspirou para escrever os seus contos que abordam alguns dos aspectos mais duros da natureza humana. Embora Lucia também escreva sobre o amor e sobre as emoções, debruça-se sobre o alcoolismo, a toxicodependência ou a violência. Mesmo quando as situações são dramáticas, Lucia consegue introduzir uma nota de humor ainda que subtil mas utiliza uma linguagem muito acessível. As histórias de Lucia são tão bem escritas que se tornam tão vívidas, mas tão terra-a-terra ao mesmo tempo, que nos sentimos envolvidos nas situações quase como se também fôssemos uma das personagens. 

Resumindo, "Manual para mulheres de limpeza" é uma colectânea de contos de qualidade literária notável e que vale muito a pena ler.

"Nunca vi os corvos a deixarem a árvore de manhã, mas todas as noites, cerca de meia hora antes de anoitecer, começam a acorrer vindos de todos os pontos da cidade. Pode ser que haja alguns pastores que paira  às voltas no céu, a chamarem outros ao longo de quarteirões, para que venham para casa, ou talvez cada um deles reúna elementos atrasados antes de se esconderem na árvore. Tenho-os observado bastante, seria de pensar que, nesta altura, já soubesse dizer. Mas só vejo corvos, dezenas de corvos, a voarem vindos de longe e de todas as direcções e cinco ou seis a sobrevoar em círculos como no aeroporto O'Hare, a crocitar e crocitar, e, depois, numa fracção de segundo, tudo fica silencioso e não se vê corvo algum. A árvore parece um acér comum. Ninguém diria que há tantos pássaros lá dentro."

A filha devolvida, Donatella di Pietrantonio

Charneca em flor, 29.09.19

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Li este livro em pouco mais de uma semana. Comprei-o por impulso. Não sei o que me chamou mais a atenção. Se foi o facto de se tratar de uma autora italiana (um dos meus países preferidos), se foi o título ou a foto escolhida para a capa. Os olhares destas duas jovens são verdadeiramente magnéticos. Seja qual tenha sido o motivo para ter pegado nele, valeu muito a pena. A história tem tanto de candura como de dureza. A articulação da história é cativante. Na primeira "cena" deste romance, escrito na primeira pessoa, encontramos uma adolescente de 13 anos que acabara de descobrir foi  criada por um casal que, afinal, não eram a sua verdadeira família. Em simultâneo, a jovem é devolvida à família biológica, alegamente, por solicitação desta. Logo nos primeiros momentos, a jovem percebe que isso não deve ser a verdadeira razão da sua devolução. Depois de 13 anos de uma vida confortável e privilegiada, vê-se no meio de uma família numerosa, pobre e que não parece desejá-la. A relação com Adriana, a irmã mais nova que a recebe com alegria, e com o irmão mais velho, Vincenzo, vão-lhe dar forças para aguentar aquele novo ambiente e para continuar a tentar descobrir qual é o seu lugar no mundo e a perceber a verdadeira história da sua vida.

Este romance só tem um defeito. Quando acabou, fiquei com vontade para continuar a acompanhar a vida da jovem narradora e da sua pequena, e voluntariosa, irmã Adriana.

"Imobilizámo-nos diante uma da outra, tão sós e próximas, eu mergulhada até ao peito, ela até ao pescoço. A minha irmã. Como uma flor improvável, que despontara num pequeno grumo de terra preso a uma rocha. Com ela, aprendi a resistência. Hoje, somos menos parecidas fisicamente, mas a nossa noção de termos sido atiradas para o mundo permanece igual. A cumplicidade salvou-nos."

 

P.S - Ao ler esta autora italiana, fiquei cheia de saudades das personagens da Elena Ferrante. Está a chegar a altura de ler o último volume da tetralogia d' "A amiga genial".

Paolo Cognetti, "As oito montanhas"

Charneca em flor, 16.09.19

As-Oito-Montanhas.jpgNão me lembro quando é que comprei este livro. Possivelmente foi depois de alguma das minhas viagens à Itália, para matar saudades da cultura italiana. Neste romance há 3 personagens principais, no meu entender, Pietro, Bruno e a montanha. A acção desenrola-se desde a infância dos 2 homens, passando pela adolescência e até à vida adulta. Conhecem-se numa aldeia, no sopé do Monte Rosa, nos Alpes. Pietro vive com os pais em Milão. Os pais têm, ambos, paixão pela montanha que foi onde se conheceram e alugam uma casa na aldeia de Grana para passarem o Verão. E é assim que Pietro e Bruno se conhecem. Juntos exploram a montanha, ao longo dos vários verões que Pietro passa na aldeia e constroem uma relação fraternal, entre eles e com a montanha, que se estenderá pela vida fora, apesar de alguns anos de afastamento.

O próprio autor tem uma relação privilegiada com a montanha já se divide entre a cidade e uma casa a 2000 metros de altitude.

O livro "As oito montanhas" é uma obra bela e encantadora que não se consegue parar de ler. A linguagem, apesar de ser em prosa, é poética, de uma certa forma. As descrições de Paolo Cognetti transportam-nos para a montanha e sentimo-nos  também nós, a subir à montanha. Se te sentes fascinado pela imensidão, pela dureza, pela resistência da montanha e acreditas no poder da amizade, este é o livro indicado para ti.

"Talvez fosse verdade, como afirmava a minha mãe, que cada um de nós tem uma cota predileta na montanha, uma paisagem que lhe agrada mais e onde se sente bem. A sua era o bosque dos 1500 metros, de abetos e larícios, à sombra dos quais crescem o mirtilo, o zimbro e o rododendro e se escondem os cabritos-monteses. Eu era mais atraído pela montanha que vem a seguir: pradaria alpina, torrentes, turfeiras, ervas de altitude, animais no pasto. Mais acima a vegetação desaparece, a neve cobre tudo até ao começo do verão e a cor prevalecente é o cinzento da rocha, com veios de quartzo e tendo incrustado o amarelo dos líquenes. Ali começava o mundo do meu pai."

Eu comprava...

Charneca em flor, 12.06.19

Aqui há dias, enquanto atendia uma das minhas utentes, falávamos de coisas que nada tinham a ver com medicamentos. Veio à baila uma biografia de uma pessoa conhecida da terra bem como o falecimento de Agustina Bessa-Luís. Comentei que gosto muito de biografias e que estava a ler a biografia de Sophia de Mello Breyner Andersen. A dada altura digo eu: "Porque é que a senhora não escreve uma auto-biografia?! A senhora deve ter tido uma vida bem interessante (e teve, de facto, porque, através da profissão do seu falecido marido, viveu em vários países e deve ter conhecido pessoas  muito interessantes.)."

Ao que ela responde: "ah, não, nem pensar. Não se esqueça que eu fui casada com um escritor durante 35 anos. Escritora é que nunca seria."

"Que pena. Eu comprava a sua biografia" - disse eu.

"Eu escrevo mas só para mim. De resto já há muita gente a escrever livros. Não é preciso mais uma"

Olhando para as prateleiras dos bestsellers, tenho que concordar com esta sábia senhora. Há demasiadas pessoas a publicar livros. 

Hotel das Letras

Charneca em flor, 12.02.14

Ontem fui a uma formação num hotel da nossa capital. Achei logo curioso que o nome fosse Hotel das Letras. Situa-se no ínicio da Rua Castilho e é muito agradável. A decoração, como o nome indica, é dedicada ao mundo das letras. Logo na recepção descobre-se uma estante muito bem recheada. Tirei uma foto, só se vê as traseiras da estante mas já dá para ter uma ideia. 

No entanto o que me chamou a atenção foi um painel de vidro com os nomes de inúmeros escritores.

A sala de formação era decorada com poemas e, pelo que vi no folheto do hotel, os quartos também são decorados com textos literários. Uma decoração muito curiosa. Será que serve para chamar a atenção para a riqueza da literatura?!