Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Um ponto de interrogação é um coração partido, Sofia Lundberg

Charneca em flor, 01.10.22

IMG_20221001_083527.jpg

 

Embora já tenha começado o Outono, ainda me falta partilhar o último livro das minhas férias. Este "Um ponto de interrogação é um coração partido" chegou cá a casa depois de o ter ganho, há mais de um ano, num sorteio de uma página portuguesa de Bookstragrammers*. Quando estava a organizar a bagagem para as férias, achei que era uma boa opção para essa ocasião. Sofia Lundberg é uma escritora sueca de quem nunca tinha ouvido falar. Tenho que confessar que, no que diz respeito à literatura nórdica, só conheço os policiais. Durante muito tempo foram o meu guilty pleasure literário. Curiosamente, este ano ainda não tenha lido nenhum livro deste género mas a obra de que falo hoje foi o 2° romance nórdico que li nestas férias. O outro foi este.

Esta autora é jornalista, foi editora de revistas e este é o seu segundo romance publicado. A personagem central é Elin, uma fotógrafa de sucesso que vive e trabalha em Nova Iorque mas que escondeu todo o seu passado das pessoas que lhe são mais próximas.

O livro divide-se em 2 partes. No início a acção vai-se alternando entre a actualidade, situada em Nova Iorque, e a infância de Elin, numa aldeia situada numa ilha sueca.  As recordações são despoletadas por uma mensagem que lhe foi enviada pelo seu amigo de infância. Ao deixar que as memórias, escondidas durante tanto tempo, venham ao de cima, Elin começa a prejudicar o seu trabalho e a sua vida familiar sofre uma reviravolta. Na segunda parte, Elin regressa ao seu país natal para se reconciliar com o seu passado.

Sofia Lundberg escreve de uma forma cativante, consegue manter o mistério durante uma grande parte do romance estimulando o interesse do leitor em perceber o que levou Elin a esconder o seu passado. Em certas passagens, as atitudes de Elin irritaram-me um pouco. Dava vontade de entrar no livro e mostrar-lhe que as atitudes eram injustificadas e incompreensíveis. Claro que, no fim, entende-se que toda a história de vida de Elin contribuíram para a sua maneira de ser. Gostei muito da personagem Alice, a filha de Elin. O final não foi bem aquilo que eu imaginava. 

"Um ponto de interrogação é um coração partido", apesar do mistério também estar presente, é uma história sobre a família, o amor, a importância da comunicação entre as pessoas que se amam e do valor do perdão. Este livro foi uma agradável experiência de leitura e um excelente livro para os últimos dias de férias.


"Manuseia as cartas, amontoando os envelopes sem os abrir, até que encontra um que lhe chama a atenção. O carimbo postal é de Visby, o selo sueco. O seu nome fora manuscrito em letras maiúsculas, cuidadosamente desenhado em tinta azul. Abre-o e desdobra a folha de papel que contém. É uma espécie de mapa celeste, na qual se encontra impresso o seu nome, numa letra grande e enfeitada.
Sustém a respira6cao, lendo as palavras por cima, em sueco.

Neste dia, uma estrela foi chamada Elin.

Lê uma e outra vez a frase numa língua desconhecida. Um longo fio de coordenadas indica a sua localização precisa nos céus.

Uma estrela que alguém comprou para ela. A sua própria estrela, que agora ostenta o seu nome. Tem de ser de... será que terá sido... ele quem a mandou? Põe um travão aos seus próprios pensamentos, não quer sequer murmurar aquele nome no silêncio da sua mente. Mas consegue imaginar-lhe sem qualquer dificuldade o rosto, o sorriso também.

Sente o coração descompassado no peito. Afasta o mapa celeste. Fixa-o. De seguida, levanta-se e corre para a rua para contempla o céu, mas só consegue ver uma massa incaracterística azul-escura acima dos edifícios. Nunca está mesmo escuro em Nova lorque, nunca o suficiente para se observar a labiríntica confusão de estrelas. Os enormes edifícios de Manhattan quase tocam o céu, mas nas ruas ele parece distante. Portanto, entra de novo."

 

*páginas de Instagram que se dedicam, quase exclusivamente, a conteúdos sobre livros. Também existe o Book Tok que acontece no Tik Tok. O trabalho de divulgação de livros destas páginas tem adquirido enorme importância nos últimos anos levando a parcerias entre os autores e as editoras ou as grandes empresas de comercialização de livros. A ponto de já ter visto livros onde as recomendações de Bookstragrammers ou Booktokers já serem mencionadas nas capas dos livros.

Cuidado com o Cão, Rodrigo Guedes de Carvalho

Audiolivro

Charneca em flor, 21.07.22

Screenshot_20220626_111917_com.kobobooks.android_e

Depois de "Margarida Espantada", voltei a ouvir um livro do Rodrigo Guedes de Carvalho. Desta feita foi "Cuidado com o Cão" e a experiência foi, ainda, mais positiva do que da primeira vez. Para já, gostei mais desta história do que da "Margarida Espantada". Ou melhor, gostei muito das várias histórias que Rodrigo conta e que parecem não se relacionar umas com as outras. A dada altura, as personagens cruzam-se e tudo faz sentido.

No início do livro, os capítulos vão-se alternando entre a história do médico Pedro Gouveia, e da sua família, e a história das gémeas Adriana e Luciana, trapezistas de circo desde a infância. O título do livro reporta-nos aos cães que vão surgindo ao longo do relato e cuja presença nos ajuda a perceber a importância que estes maravilhosos animais têm na vida das pessoas.

Rodrigo Guedes de Carvalho é um excelente contador de histórias mas se fica por aí já que neste romance aproveita para abordar temas actuais como a solidão dos idosos, exacerbada pela pandemia, a violência contra os animais, a violência doméstica ou a doença mental. Para além disso, e se conhecermos minimamente o percurso de vida pública do escritor, percebemos a influência que a música exerce sobre ele uma vez que a música é omnipresente ao longo de toda a obra. De vez em quando, parei de ouvir o livro para ir descobrir as músicas que eram mencionadas.

No desenrolar da narrativa fiquei surpreendida com os caminhos escolhidos pelo autor e o final foi mesmo surpreendente. Não posso deixar de referir que gosto muito da maneira como o autor escreve. Este livro reforçou a minha vontade de continuar a descobrir os seus livros.

Em suma, ouvir "Cuidado com o cão" foi uma excelente  experiência de leitura auditiva.

"O que mais lhe chamou a atenção ao chegar ao céu foi a árvore.
O tronco gordo rugoso, os ramos longos, pesados, uns torcidos, outros numa curva larga ascendente. Um carvalho vermelho. Quercus rubra. Está no esplendor da folhagem inimitável. Seria uma coincidencia ou a prova maior de que o esperava?Tão concentrado ficou no carvalho, tão à medida de como sempre o quis, que nem tinha ainda reparado que caminha descalço, talvez porque os pés vão sem dor ou desconforto sobre uma relva de veludo."

 

"Uma oportunidade, mesmo que pequena, talvez só isso, a chance pequenina de conhecermos a maravilha de sermos de alguém e sentirmos que alguém quer ser nosso.
E por momentos, nem que seja por um momento, um só, sabermos o que é partilhar um momento, saborear o espanto de nos esquecermos de nós por um momento, um
pequeno momento, imaginarmos que ao nosso lado um outro coração corre à mesma velocidade serena, ansioso por chegar ao mesmo lugar, onde nos espera o mesmo destino
Por um momento, um pequeno momento, um momento simples, mínimo, um grãozinho, que nos garante estarmos vivos porque alguém deseja que estejamos vivos, ao nosso lado, a tocar-nos apenas o suficiente para sabermos que não estamos sós."

 

 

 

O Ano do Pensamento Mágico, Joan Didion

Tradução de Hugo Gonçalves

Charneca em flor, 14.06.22

20220613_224216.jpg

 

De vez em quando ouvia falar deste livro e fiquei curiosa porque as opiniões eram muito positivas. Por outro lado, não conhecia esta escritora uma vez que não sou muito entendida em literatura norte-americana. O formato que escolhi foi audiolivro para poder ouvir o livro enquanto fazia caminhadas.

"O Ano do Pensamento Mágico" é uma reflexão sobre a perda, o luto e sobre a maneira como lidamos com a circunstância de nos falecer uma pessoa muito próxima. O marido de Joan Didion, o argumentista John Gregory Dunne, sofre um enfarte quando o casal se prepara para jantar depois de visitarem a filha que está internada devido a uma infecção complicada. Muitos meses depois, Joan Didion debruça-se sobre a dor, relembra os pormenores que rodearam o episódio da morte bem como as recordações da vida que partilharam. Através da escrita, Joan abraça a sua dor, vive o luto e reaprende a viver ao mesmo tempo que acompanha a filha que, durante o ano que se seguiu à morte do pai, sofreu uma série de problemas de saúde muito graves.*

Este livro tocou muitos leitores. Por um lado, quem teve que lidar muito cedo com a partida de alguém, como eu, revê-se naquilo que Joan viveu e percebe aquilo que sentiu, ou que sente até hoje, no momento do luto. Mesmo quem nunca teve que lidar com a morte de alguém próximo, se sente tocado pela forma sincera como a autora se expõe e expõe a sua dor. "O Ano do Pensamento Mágico" é, sem dúvida, um livro muito especial.


"《Trazê-lo de volta》 tinha sido durante meses, a minha missão escondida, um truque de magia. No final do verão, comecei a ver isso mesmo com clareza. 《Ver isso com clareza 》 não me permitia ainda oferecer as roupas de que ele iria precisar.

Em tempos conturbados, e eu tinha sido treinada, desde criança, a ler, a aprender, a
trabalhar, a ir em busca da literatura. Informação era controlo. Tendo em conta que a dor da perda continua a ser a maleita mais comum, a literatura que lhe é dedicada pareceu-me notavelmente escassa."

*Quintana Dunne, filha adoptiva de Joan Didion e John Dunne, acabou por falecer enquanto o livro da mãe estava a ser lançado. Este novo incidente trágico levou Joan Didion a escrever o livro "Blue Nights"

"A Filha do Guardião do Fogo, Angeline Boulley

Charneca em flor, 03.06.22

IMG_20220530_154639_edit_36738894415226.jpg

No âmbito do Clube do Livra-te, um dos livros que li no mês de Maio foi "A Filha do Guardião do Fogo" de Angeline Boulley, escolhido pela Joana da Silva.

Esta obra foi uma excelente surpresa. Inicialmente, pensei tratar-se de um livro muito conotado com o estilo "young adult" mas não tem nada a ver. Este livro saiu há pouco tempo em Portugal e foi traduzido por uma jovem muito activa no Bookstragram*, Elga Fontes. A autora aborda várias problemáticas que, a meu ver, se conjugam na perfeição.

A personagem principal é uma inteligente jovem de mãe branca, de uma das famílias mais abastadas da cidade, e de pai nativo-americano. Embora sinta algumas dificuldades em se integrar quer numa comunidade quer na outra, vai tentando chegar a um certo equilíbrio embora a sua vida recente tenha passado por alguns percalços. De repente, a cidade começa a ser abalada por acontecimentos trágicos onde Daunis se vê, inesperadamente envolvida. 

"A Filha do Guardião do Fogo" tem inúmeros ingredientes que tornam a leitura cativante como sejam mistério, crime, romance e cultura indígena americana. Apercebi-me de que pouco mais sei da realidade nativo-americana do que aquilo que Hollywood nos mostrava nos antigos westerns e os indígenas eram, quase, sempre os maus. Confesso que fiquei fascinada e com vontade de saber mais. Um dos pormenores desta cultura, ou pelo menos da tribo retratada no livro, é o respeito pelos mais velhos. A relação com os elementos mais idosos da comunidade é encantadora.

Em suma, gostei muito deste livro e recomendo-o a quem aprecie conhecer uma cultura diferente mas que também goste de mistério e romance.

"Repouso sobre uma grande rocha, numa ilha de pedra rodeada de bosques. A chuva acabou de parar; gotas pesadas escorrem dos ramos e pingam quando se encontram no chão da floresta. Uma brisa agita as árvores, transformando-as em sinos de vento. Os últimos vestígios de chuva escorrem agora em salpicos mais suaves. Os pedregulhos roncam, baixos e constantes. A luz do Sol penetra a cobertura da floresta lançando feixes que despertam os amores-perfeitos adormecidos.
À esquerda, há uma pequena fogueira rodeada pelas pedras do avô. A este. O seu fumo sobe, convocando orações nas cadências melódicas de Anishinaabemowin. À
minha frente, a sul, há outra fogueira com mais avôs e orações transportadas em fumo cinzento. A minha direita, a oeste, os avos aguardam. Ainda não há fogo. Atrás de mim, a norte, mais Avôs pacientes.
Os amores-perfeitos cantam para mim. Circundam a rocha, pontilhando a periferia com caras amarelas e roxas, balançando suavemente. Todas estas vozes que se misturam. Adiciono a minha, avançando através do refrão até encontrar um nicho que a minha voz preencha, para tornar a canção completa.

Este mundo existe para lá de qualquer contentamento e beleza que alguma vez conheci."

 

*páginas de Instagram onde se publicam, maioritariamente, conteúdos relacionados com livros e literatura.

"O Lugar das Árvores Tristes", Lénia Rufino

Charneca em flor, 20.03.22

20220226_143110.jpg

No passado mês de Fevereiro consegui terminar de ler os livros dos 2 clubes de leitura a que aderi* antes do mês terminar por isso aproveitei para ler este "O Lugar das Árvores Tristes" de Lénia Rufino que já tinha em espera há uns meses. Este livro foi o primeiro que a autora publicou e espero que seja o primeiro de muitos.

O livro está muito bem escrito e conta uma história que me tocou de sobremaneira. O enredo situa-se em 2 aldeias do Alentejo profundo. No início do livro encontramos Isabel, uma jovem com uma estranha predileção por passear por entre as campas do cemitério que fica junto da sua casa. Isabel aprecia o silêncio desse lugar que lhe aguça a curiosidade. Nesses passeios depara-se com um nome de uma falecida da qual nunca soube a razão da morte e esse pormenor é o gatilho para ela desencadear uma "investigação" de modo a perceber porque é que, em toda a aldeia, ninguém quer falar sobre o assunto. A descoberta dos diários de Lurdes, a sua mãe, conduz-nos numa viagem no tempo até ao fim dos anos 60 e início dos anos 70.

Lénia Rufino construíu uma trama muito interessante, com a dose certa de mistério e suspense ao mesmo tempo que nos leva a reflectir sobre a condição feminina nessa altura, ainda em ditadura, em que a mulher não era dona da sua vontade nem podia tomar decisões sobre a sua vida.

Eu mergulhei de tal forma nesta história que me senti quase uma personagem de Lénia Rufino. Afinal, eu também descobri os segredos da minha família lendo as cartas que os meus pais tinham bem escondidas. Eu podia ser a Isabel . Uma das conclusões que retirei das páginas deste livro foi que, só conhecendo o passado das pessoas que se cruzam connosco no dia-a-dia, é que podemos perceber as atitudes que têm hoje. As dores do passado reflectem-se nas atitudes do presente.

Aguardo ansiosamente o próximo livro da Lénia. Ela também nos ensina que nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos. Afinal, ela levou muitos anos a conseguir publicar o seu livro.

"Nas aldeias pequenas, nada é mais difícil do que guardar segredos. O ditado antigo que assegura que até as paredes têm ouvidos não é tão verdadeiro em lugar nenhum como nas aldeias."

Sem Fôlego, Jennifer Niven

Charneca em flor, 03.03.22

IMG_20220302_150005.jpg

No Clube do Livra-te, no mês de Fevereiro, também foi proposto, pela Joana da Silva, a leitura deste livro. "Sem Fôlego" insere-se no estilo "young adult". E o que leva uma quarentona a ler um livro deste estilo? Para além de querer cumprir o desafio do Clube do Livra-te, a minha intenção foi divertir-me. E pode-se dizer que, nesse ponto, este livro cumpriu o objectivo.

A personagem Claude é uma jovem de 18 anos que, a poucos dias de terminar o secundário, descobre que os seus pais se vão separar e que ela, contrariando os seus planos para o Verão, teria que ir passar as férias numa pequena ilha com a mãe. Nesse momento, Claude percebe que a sua vida nunca mais será igual. Na ilha, Claude conhece um jovem com um passado problemático, Jeremiah, que se tornará muito importante na sua vida. Ao longo do livro, acompanhámos a luta interna de Claude para encontrar o seu caminho depois da reviravolta da sua vida. 

Nos últimos anos, não tenho lido muitos "livros lamechas" ou "romances cor de rosa" mas, de vez em quando, é bom ler um livro cuja única função seja divertir-nos. E é neste caso que se enquadra o "Sem Fôlego". Não se trata de uma obra-prima mas é um livro leve, divertido e excelente para ler no Verão. 

Nos agradecimentos finais do livro, percebe-se que a história é muito especial para a autora porque a sua vida pessoal tem muitos paralelismos com a vida de Claude.

Jennifer Niven deixou algumas pontas soltas na história que contou que a podiam ter enriquecido mas não deixou de me proporcionar momentos agradáveis.

"E naquele momento encho-me de uma coisa que parece amor por este rapaz que conhece tantos dos meus segredos. Que está a ensinar-me a encontrar dentes de tubarão. Que me trouxe galochas. Que esta a mostrar-me a sua ilha. Este rapaz descalço, feito de sol e luz, que parece fazer parte da lama e da areia e do pântano. A colecionar tesouros. A encontrar beleza nas pequenas coisas. Ferido como eu, mas sem olhar para trás. No momento. A olhar para a frente. A maravilhar-se com o que esta a sua frente. Bem na sua pele. Bem onde quer que esteja.

Penso: Podia viver aqui. Podia ser feliz aqui. Aqui com ele. Podia ficar aqui para sempre."

Açúcar Queimado, Avni Doshi

Charneca em flor, 01.03.22

IMG_20220226_143507.jpg

Este livro foi uma das sugestões do Clube do Livra-te para o mês de Fevereiro. "Açúcar Queimado" de Avni Doshi foi finalista do Prémio Booker no ano 2020. A história centra-se na estranha relação entre mãe, Tara, e a filha, Antara. A mãe começa a apresentar sinais de demência e a filha, apesar da relação conflituosa e tóxica entre ambas, sente-se na obrigação de a apoiar e de a acompanhar às consultas. Na tentativa de recuperar a memória da mãe, Antara revisita o passado de ambas e revive todo o sofrimento que as decisões da mãe lhe causaram.

Apesar dos constantes "saltos" na história, o relato é fácil de seguir uma vez que a escrita de Avni Doshi é fluída e acessível. Há um ou outro momento mais parado mas a história desenrola-se a um bom ritmo, maioritariamente.

"Açúcar Queimado" é um bom livro, gostei mas não adorei. Não sei dizer porquê mas faltou qualquer coisa que me impediu de mergulhar na história. Talvez tenha sido porque não me sinto muito atraída pela cultura indiana que serve de enquadramento à história ou porque as patologias ligadas à demência me assustam de tal maneira que não gosto muito de pensar sobre elas. A verdade é que "Açúcar Queimado" faz-nos olhar, de frente, para esta problemática e esse olhar assustou porque tenho muito medo de que eu, ou algum familiar, venha a sofrer destas doenças. Por outro lado, há livros que surgem na nossa vida numa altura em que não estamos preparados para os lermos. Provavelmente foi isso que aconteceu comigo e com esta obra.

A história de Tara e Antara fez pensar num pormenor interessante. Muitas vezes, no meu quotidiano como farmacêutica, e quando acompanho algumas situações familiares dos meus utentes, tiro algumas conclusões precipitadas sobre o acompanhamento que os filhos prestam ou não aos pais idosos. Na verdade não sei nada sobre o passado daquelas pessoas. Será que, às vezes, os filhos não terão alguma razão para não acompanhar os pais como nos parece lógico quando olhamos de fora? Será que os pais não cometeram erros suficientemente graves que afectaram o crescimento dos filhos a ponto de isso os acompanharem pela vida fora?

Mais um livro que me pôs  a pensar. E, no fundo, só por isso valeu a pena aceitar esta sugestão da Rita da Nova.


"- A realidade é algo de que somos coautores - responde a mulher. - É natural que comece a achar tudo isto perturbador. Quando alguém nos diz que uma coisa não é como pensamos, pode provocar-nos leves vacilações no cérebro, alterações na atividade cerebral, e trazer a tona dúvidas que estavam no sub-consciente. Por que razão crê que as pessoas têm despertares espirituals? É porque quem nos rodeia está empenhado em acreditar. O delirio é uma descarga contagiosa."

"Olhava em redor e ouvia as muitas vozes e via os muitos corpos que pareciam compor uma forma gigante, um gigante maior do que o Baba, mas um espelho do que ele era, um conjunto de tantos desejos. Eu sabia que esses desejos existiam, que eram suficientemente poderosos para controlar padrões climáticos e causar inundações todos os anos, mas não conseguia perceber como funcionavam, como eram distribuídos e guardados diante de mim. O desejo dos adultos era uma coisa que eu ainda não compreendia. Não havia lugar para mim junto dele e nenhum sítio para onde ir. Por isso, deixava o prato à minha frente, de vez em quando observava os sentimentos que nele pusera, vendo-os crescer. Um dia, misturei-os com a comida e engoli-os inteiros."

Mais leituras de Janeiro

Clube do Livra-te

Charneca em flor, 15.02.22

Este ano aderi a duas iniciativas literárias:

  • Leitura Conjunta de Saramago dinamizada por Magda Cruz, autora do podcast Ponto Final. Parágrafo. 
  • Clube do Livra-te dinamizado por Rita da Nova e Joana da Silva, autoras do podcast Livra-te.

Sobre o livro de José Saramago para o mês de Janeiro já escrevi aqui. Hoje vou partilhar algumas ideias sobre os livros do mês de Janeiro sugeridos pela Rita e pela Joana, "Winter" de Ali Smith e "A troca" de Beth O' Leary, respectivamente.

Os 2 livros acabam por ter uma ténue ligação já que ambos nos fazem olhar para o envelhecimento e para a vida das pessoas mais idosas.

20220211_133526.jpgWinter, Ali Smith

Este livro pertence a uma série de 4 cujos títulos revertem para as estações do ano. Quando o primeiro livro, "Autumn" foi mencionado no podcast Livra-te, por impulso, comprei os quatro títulos em inglês e em ebook.

"Winter" é de leitura mais difícil do que o primeiro. Afinal, o Inverno é mais difícil de suportar do que o Outono, não é verdade?

A acção principal ocorre no Natal mas a escrita da Ali Smith baseia-se muito naquilo que habita na memória das personagens por isso a história vai saltitando entre vários espaços temporais. Como ela própria diz, o único sítio onde podem coexistir vários espaços temporais é num livro. Voltamos a sentir o ambiente pós-brexit mas a autora vai para além disso abordando, igualmente, as preocupações ambientais, o activismo, a emigração e a doença mental. "Winter" aborda, também, o envelhecimento, as várias maneiras de envelhecer e as diferenças geracionais.

Os livros podem-se ler, independentemente, uns dos outros embora haja uma breve ligação, quase imperceptível. 

Em suma, valeu a pena insistir na leitura porque, no final, acabou por ser uma boa experiência.

"Well, this story is from the past, Art says, so the today it’s about is in the past now. And obviously, it’s about Christmas, this is a story set at Christmas time, and it’s June right now, so this also means it’s not the same as today. That’s one of the things stories and books can do, they can make more than one time possible at once."

IMG_20220213_095217.jpg

A troca, Beth O' Leary

"A troca" conta uma história muito ternurenta. Eileen e Leena são a avó e a neta que resolvem trocar de vida. A avó Eileen vai viver para Londres, interagindo com os amigos da neta, em busca de um novo amor depois da separação e Leena vai viver para uma pequena aldeia do Yorkshire assumindo todas as funções da avó na comunidade. Esta combinação entre as duas gera inúmeras e divertidas peripécias.

Este livro entra na categoria dos livros leves mas não encaremos isso como uma crítica. É bom ir intercalando livros mais densos com livros mais leves para contrabalançar as leituras.

Neste livro, o envelhecimento activo acaba por ser um dos pontos fulcrais da história. O desenrolar do livro acaba por ser previsível mas não deixou de ser uma experiência agradável. 

"Não é que me sinta envergonhada por estar à procura de um novo amor. Mas os jovens têm tendência para achar engraçadas as pessoas mais velhas que ainda pensam no amor. Não é por maldade  fazem-no sem pensar."

 

"as intermitências da morte", José Saramago

Charneca em flor, 31.01.22

IMG_20220129_154226.jpgUm dos livros que me acompanhou neste mês de Janeiro foi "as intermitências da morte" de José Saramago. Tratou-se de uma releitura por causa da minha participação num "clube de leitura " dedicado aos livros de José Saramago uma vez que, este ano, se comemora o centenário do nascimento do Prémio Nobel da Literatura português.

Um facto interessante de reler um livro, quase 12 anos depois do primeiro contacto  com esta história, é reparar em pormenores que me escaparam nessa altura. Como é óbvio, já não sou a pessoa que era em 2010 uma vez que amadureci como pessoa e como leitora. José Saramago construíu uma história muito interessante e divertida apesar da morbidez do tema. Como é expectável, o autor, através desta história, passa importantes mensagens políticas e sociais bem como a crítica à Igreja como era seu apanágio. Será que gostaríamos de viver nesta realidade em que não se morria mas que se continuava a envelhecer e a adoecer? Seria agradável ficar num limbo entre a vida e a morte? Que implicações sociais e económicas teria esta situação? Mais um livro que me fez pensar apesar de também me proporcionar momentos agradáveis.

Para quem nunca leu Saramago, este é um bom livro para começar.

"É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo  não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja."

 

 

Desumanização de Valter Hugo Mãe

Interpretado por Márcia, Camané e Dead Combo

Charneca em flor, 31.01.22

Na semana passada ouvi este tema na TSF depois de uma reportagem que divulgava uma exposição das ilustrações de Juan Domingues alusivas ao livro de Valter Hugo Mãe "A Máquina de Matar Espanhóis".

Esta música relaciona-se com único livro que li deste autor, "A desumanização". O vídeo mostra uma das cenas mais marcantes do livro.

Boa semana.