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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

"O Lugar das Árvores Tristes", Lénia Rufino

Charneca em flor, 20.03.22

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No passado mês de Fevereiro consegui terminar de ler os livros dos 2 clubes de leitura a que aderi* antes do mês terminar por isso aproveitei para ler este "O Lugar das Árvores Tristes" de Lénia Rufino que já tinha em espera há uns meses. Este livro foi o primeiro que a autora publicou e espero que seja o primeiro de muitos.

O livro está muito bem escrito e conta uma história que me tocou de sobremaneira. O enredo situa-se em 2 aldeias do Alentejo profundo. No início do livro encontramos Isabel, uma jovem com uma estranha predileção por passear por entre as campas do cemitério que fica junto da sua casa. Isabel aprecia o silêncio desse lugar que lhe aguça a curiosidade. Nesses passeios depara-se com um nome de uma falecida da qual nunca soube a razão da morte e esse pormenor é o gatilho para ela desencadear uma "investigação" de modo a perceber porque é que, em toda a aldeia, ninguém quer falar sobre o assunto. A descoberta dos diários de Lurdes, a sua mãe, conduz-nos numa viagem no tempo até ao fim dos anos 60 e início dos anos 70.

Lénia Rufino construíu uma trama muito interessante, com a dose certa de mistério e suspense ao mesmo tempo que nos leva a reflectir sobre a condição feminina nessa altura, ainda em ditadura, em que a mulher não era dona da sua vontade nem podia tomar decisões sobre a sua vida.

Eu mergulhei de tal forma nesta história que me senti quase uma personagem de Lénia Rufino. Afinal, eu também descobri os segredos da minha família lendo as cartas que os meus pais tinham bem escondidas. Eu podia ser a Isabel . Uma das conclusões que retirei das páginas deste livro foi que, só conhecendo o passado das pessoas que se cruzam connosco no dia-a-dia, é que podemos perceber as atitudes que têm hoje. As dores do passado reflectem-se nas atitudes do presente.

Aguardo ansiosamente o próximo livro da Lénia. Ela também nos ensina que nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos. Afinal, ela levou muitos anos a conseguir publicar o seu livro.

"Nas aldeias pequenas, nada é mais difícil do que guardar segredos. O ditado antigo que assegura que até as paredes têm ouvidos não é tão verdadeiro em lugar nenhum como nas aldeias."

Sem Fôlego, Jennifer Niven

Charneca em flor, 03.03.22

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No Clube do Livra-te, no mês de Fevereiro, também foi proposto, pela Joana da Silva, a leitura deste livro. "Sem Fôlego" insere-se no estilo "young adult". E o que leva uma quarentona a ler um livro deste estilo? Para além de querer cumprir o desafio do Clube do Livra-te, a minha intenção foi divertir-me. E pode-se dizer que, nesse ponto, este livro cumpriu o objectivo.

A personagem Claude é uma jovem de 18 anos que, a poucos dias de terminar o secundário, descobre que os seus pais se vão separar e que ela, contrariando os seus planos para o Verão, teria que ir passar as férias numa pequena ilha com a mãe. Nesse momento, Claude percebe que a sua vida nunca mais será igual. Na ilha, Claude conhece um jovem com um passado problemático, Jeremiah, que se tornará muito importante na sua vida. Ao longo do livro, acompanhámos a luta interna de Claude para encontrar o seu caminho depois da reviravolta da sua vida. 

Nos últimos anos, não tenho lido muitos "livros lamechas" ou "romances cor de rosa" mas, de vez em quando, é bom ler um livro cuja única função seja divertir-nos. E é neste caso que se enquadra o "Sem Fôlego". Não se trata de uma obra-prima mas é um livro leve, divertido e excelente para ler no Verão. 

Nos agradecimentos finais do livro, percebe-se que a história é muito especial para a autora porque a sua vida pessoal tem muitos paralelismos com a vida de Claude.

Jennifer Niven deixou algumas pontas soltas na história que contou que a podiam ter enriquecido mas não deixou de me proporcionar momentos agradáveis.

"E naquele momento encho-me de uma coisa que parece amor por este rapaz que conhece tantos dos meus segredos. Que está a ensinar-me a encontrar dentes de tubarão. Que me trouxe galochas. Que esta a mostrar-me a sua ilha. Este rapaz descalço, feito de sol e luz, que parece fazer parte da lama e da areia e do pântano. A colecionar tesouros. A encontrar beleza nas pequenas coisas. Ferido como eu, mas sem olhar para trás. No momento. A olhar para a frente. A maravilhar-se com o que esta a sua frente. Bem na sua pele. Bem onde quer que esteja.

Penso: Podia viver aqui. Podia ser feliz aqui. Aqui com ele. Podia ficar aqui para sempre."

Açúcar Queimado, Avni Doshi

Charneca em flor, 01.03.22

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Este livro foi uma das sugestões do Clube do Livra-te para o mês de Fevereiro. "Açúcar Queimado" de Avni Doshi foi finalista do Prémio Booker no ano 2020. A história centra-se na estranha relação entre mãe, Tara, e a filha, Antara. A mãe começa a apresentar sinais de demência e a filha, apesar da relação conflituosa e tóxica entre ambas, sente-se na obrigação de a apoiar e de a acompanhar às consultas. Na tentativa de recuperar a memória da mãe, Antara revisita o passado de ambas e revive todo o sofrimento que as decisões da mãe lhe causaram.

Apesar dos constantes "saltos" na história, o relato é fácil de seguir uma vez que a escrita de Avni Doshi é fluída e acessível. Há um ou outro momento mais parado mas a história desenrola-se a um bom ritmo, maioritariamente.

"Açúcar Queimado" é um bom livro, gostei mas não adorei. Não sei dizer porquê mas faltou qualquer coisa que me impediu de mergulhar na história. Talvez tenha sido porque não me sinto muito atraída pela cultura indiana que serve de enquadramento à história ou porque as patologias ligadas à demência me assustam de tal maneira que não gosto muito de pensar sobre elas. A verdade é que "Açúcar Queimado" faz-nos olhar, de frente, para esta problemática e esse olhar assustou porque tenho muito medo de que eu, ou algum familiar, venha a sofrer destas doenças. Por outro lado, há livros que surgem na nossa vida numa altura em que não estamos preparados para os lermos. Provavelmente foi isso que aconteceu comigo e com esta obra.

A história de Tara e Antara fez pensar num pormenor interessante. Muitas vezes, no meu quotidiano como farmacêutica, e quando acompanho algumas situações familiares dos meus utentes, tiro algumas conclusões precipitadas sobre o acompanhamento que os filhos prestam ou não aos pais idosos. Na verdade não sei nada sobre o passado daquelas pessoas. Será que, às vezes, os filhos não terão alguma razão para não acompanhar os pais como nos parece lógico quando olhamos de fora? Será que os pais não cometeram erros suficientemente graves que afectaram o crescimento dos filhos a ponto de isso os acompanharem pela vida fora?

Mais um livro que me pôs  a pensar. E, no fundo, só por isso valeu a pena aceitar esta sugestão da Rita da Nova.


"- A realidade é algo de que somos coautores - responde a mulher. - É natural que comece a achar tudo isto perturbador. Quando alguém nos diz que uma coisa não é como pensamos, pode provocar-nos leves vacilações no cérebro, alterações na atividade cerebral, e trazer a tona dúvidas que estavam no sub-consciente. Por que razão crê que as pessoas têm despertares espirituals? É porque quem nos rodeia está empenhado em acreditar. O delirio é uma descarga contagiosa."

"Olhava em redor e ouvia as muitas vozes e via os muitos corpos que pareciam compor uma forma gigante, um gigante maior do que o Baba, mas um espelho do que ele era, um conjunto de tantos desejos. Eu sabia que esses desejos existiam, que eram suficientemente poderosos para controlar padrões climáticos e causar inundações todos os anos, mas não conseguia perceber como funcionavam, como eram distribuídos e guardados diante de mim. O desejo dos adultos era uma coisa que eu ainda não compreendia. Não havia lugar para mim junto dele e nenhum sítio para onde ir. Por isso, deixava o prato à minha frente, de vez em quando observava os sentimentos que nele pusera, vendo-os crescer. Um dia, misturei-os com a comida e engoli-os inteiros."

Mais leituras de Janeiro

Clube do Livra-te

Charneca em flor, 15.02.22

Este ano aderi a duas iniciativas literárias:

  • Leitura Conjunta de Saramago dinamizada por Magda Cruz, autora do podcast Ponto Final. Parágrafo. 
  • Clube do Livra-te dinamizado por Rita da Nova e Joana da Silva, autoras do podcast Livra-te.

Sobre o livro de José Saramago para o mês de Janeiro já escrevi aqui. Hoje vou partilhar algumas ideias sobre os livros do mês de Janeiro sugeridos pela Rita e pela Joana, "Winter" de Ali Smith e "A troca" de Beth O' Leary, respectivamente.

Os 2 livros acabam por ter uma ténue ligação já que ambos nos fazem olhar para o envelhecimento e para a vida das pessoas mais idosas.

20220211_133526.jpgWinter, Ali Smith

Este livro pertence a uma série de 4 cujos títulos revertem para as estações do ano. Quando o primeiro livro, "Autumn" foi mencionado no podcast Livra-te, por impulso, comprei os quatro títulos em inglês e em ebook.

"Winter" é de leitura mais difícil do que o primeiro. Afinal, o Inverno é mais difícil de suportar do que o Outono, não é verdade?

A acção principal ocorre no Natal mas a escrita da Ali Smith baseia-se muito naquilo que habita na memória das personagens por isso a história vai saltitando entre vários espaços temporais. Como ela própria diz, o único sítio onde podem coexistir vários espaços temporais é num livro. Voltamos a sentir o ambiente pós-brexit mas a autora vai para além disso abordando, igualmente, as preocupações ambientais, o activismo, a emigração e a doença mental. "Winter" aborda, também, o envelhecimento, as várias maneiras de envelhecer e as diferenças geracionais.

Os livros podem-se ler, independentemente, uns dos outros embora haja uma breve ligação, quase imperceptível. 

Em suma, valeu a pena insistir na leitura porque, no final, acabou por ser uma boa experiência.

"Well, this story is from the past, Art says, so the today it’s about is in the past now. And obviously, it’s about Christmas, this is a story set at Christmas time, and it’s June right now, so this also means it’s not the same as today. That’s one of the things stories and books can do, they can make more than one time possible at once."

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A troca, Beth O' Leary

"A troca" conta uma história muito ternurenta. Eileen e Leena são a avó e a neta que resolvem trocar de vida. A avó Eileen vai viver para Londres, interagindo com os amigos da neta, em busca de um novo amor depois da separação e Leena vai viver para uma pequena aldeia do Yorkshire assumindo todas as funções da avó na comunidade. Esta combinação entre as duas gera inúmeras e divertidas peripécias.

Este livro entra na categoria dos livros leves mas não encaremos isso como uma crítica. É bom ir intercalando livros mais densos com livros mais leves para contrabalançar as leituras.

Neste livro, o envelhecimento activo acaba por ser um dos pontos fulcrais da história. O desenrolar do livro acaba por ser previsível mas não deixou de ser uma experiência agradável. 

"Não é que me sinta envergonhada por estar à procura de um novo amor. Mas os jovens têm tendência para achar engraçadas as pessoas mais velhas que ainda pensam no amor. Não é por maldade  fazem-no sem pensar."

 

"as intermitências da morte", José Saramago

Charneca em flor, 31.01.22

IMG_20220129_154226.jpgUm dos livros que me acompanhou neste mês de Janeiro foi "as intermitências da morte" de José Saramago. Tratou-se de uma releitura por causa da minha participação num "clube de leitura " dedicado aos livros de José Saramago uma vez que, este ano, se comemora o centenário do nascimento do Prémio Nobel da Literatura português.

Um facto interessante de reler um livro, quase 12 anos depois do primeiro contacto  com esta história, é reparar em pormenores que me escaparam nessa altura. Como é óbvio, já não sou a pessoa que era em 2010 uma vez que amadureci como pessoa e como leitora. José Saramago construíu uma história muito interessante e divertida apesar da morbidez do tema. Como é expectável, o autor, através desta história, passa importantes mensagens políticas e sociais bem como a crítica à Igreja como era seu apanágio. Será que gostaríamos de viver nesta realidade em que não se morria mas que se continuava a envelhecer e a adoecer? Seria agradável ficar num limbo entre a vida e a morte? Que implicações sociais e económicas teria esta situação? Mais um livro que me fez pensar apesar de também me proporcionar momentos agradáveis.

Para quem nunca leu Saramago, este é um bom livro para começar.

"É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo  não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja."

 

 

Desumanização de Valter Hugo Mãe

Interpretado por Márcia, Camané e Dead Combo

Charneca em flor, 31.01.22

Na semana passada ouvi este tema na TSF depois de uma reportagem que divulgava uma exposição das ilustrações de Juan Domingues alusivas ao livro de Valter Hugo Mãe "A Máquina de Matar Espanhóis".

Esta música relaciona-se com único livro que li deste autor, "A desumanização". O vídeo mostra uma das cenas mais marcantes do livro.

Boa semana.

 

Autumn, Ali Smith

Charneca em flor, 25.12.21

IMG_20211221_152649.jpgEste ano, em termos literários, fiz um esforço para sair da minha zona de conforto e tentei ler livros diferentes do que me era habitual. Uma das experiências foi ler em inglês. Já o tinha feito no início do ano com "Normal People" e agora, por sugestão do podcast Livra-te  da Rita da Nova e da Joana da Silva, resolvi assinalar as últimas semanas de Outono com a leitura de "Autumn" de Ali Smith.

Para ler em inglês, prefiro a versão ebook porque, nalgumas aplicações, é possível procurar o significado de alguma palavra que eu não compreenda.

Esta obra conta a história da amizade, desde a infância, de Elisabeth, e o seu idoso vizinho, Daniel Gluck mostrando como é que essa relação influencia o crescimento e o desenvolvimento intelectual de Elisabeth. No início do livro, o idoso tem mais de 100 anos e encontra-se num lar onde passa grande parte do dia a dormir. Elisabeth visita-o e senta-se a seu lado a ler. Ao longo do livro, a autora conta-nos o "caminho" que aquela amizade trilhou até chegar aquele ponto mas também nos faz mergulhar naquilo que o idoso sonha nas suas longas horas adormecido e na vida intelectual de Elisabeth. Paralelamente às visitas de Elisabeth ao seu amigo, Ali Smith faz-nos olhar para inúmeros problemas que afectavam a sociedade britânica na época em que o livro foi escrito como, por exemplo, a burocracia (problema universal), a xenofobia, a integração dos emigrantes e o eminente Brexit. Podemos dizer que "Autumn" é sobre todos estes temas, sempre actuais, mas, para mim, é, apenas e só, a história sobre a beleza da verdadeira amizade que não escolhe diferenças culturais ou etárias. A amizade é possível em todas as circunstâncias, só é preciso acreditar no seu poder.

Ali Smith tem uma escrita deliciosa com capítulos que são exemplos de autêntica prosa poética. Um livro que vale muito a pena ler. Também está traduzido para português. Provavelmente, não consegui compreender tudo aquilo que Ali Smith escreveu mas gostei muito da experiência. Gostei tanto que já tenho os outros 3 ebooks - "Winter", "Spring" e "Summer" - em espera.

"Well, who? Where do I start? I’m the butterfly antenna. I’m the chemicals that paint’s made of. I’m the person dead at the water’s edge. I’m the water. I’m the edge. I’m skin cells. I’m the smell of disinfectant. I’m that thing they rub against your mouth to moisten it, can you feel it? I’m soft. I’m hard. I’m glass. I’m sand. I’m a yellow plastic bottle. I’m all the plastics in the seas and in the guts of all the fishes. I’m the fishes. I’m the seas. I’m the molluscs in the seas. I’m the flattened-out old beer can. I’m the shopping trolley in the canal. I’m the note on the stave, the bird on the line. I’m the stave. I’m the line. I’m spiders. I’m seeds. I’m water. I’m heat. I’m the cotton of the sheet. I’m the tube that’s in your side. I’m your urine in the tube. I’m your side. I’m your other side. I’m your other. I’m the coughing through the wall. I’m the cough. I’m the wall. I’m mucus. I’m the bronchial tubes. I’m inside. I’m outside. I’m traffic. I’m pollution. I’m a fall of horseshit on a country road a hundred years ago. I’m the surface of that road. I’m what’s below. I’m what’s above. I’m the fly. I’m the descendant of the fly. I’m the descendant of the descendant of the descendant of the descendant of the descendant of the descendant of the fly. I’m the circle. I’m the square. I’m all the shapes. I’m geometry. I haven’t even started with the telling you what I am. I’m everything that makes everything. I’m everything that unmakes everything. I’m fire. I’m flood. I’m pestilence. I’m the ink, the paper, the grass, the tree, the leaves, the leaf, the greenness in the leaf. I’m the vein in the leaf. I’m the voice that tells no story."

Margarida Espantada, Rodrigo Guedes de Carvalho

Versão Audiobook

Charneca em flor, 21.11.21

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"Margarida Espantada" foi a minha primeira experiência de ficção com audiobook. Já tinha recorrido a este meio mas para não-ficção já que ouvi um livro/documentário sobre várias gerações de emigrantes portugueses em França. Acresce a particularidade de "Margarida Espantada" ser lida pelo autor, Rodrigo Guedes de Carvalho. Provavelmente devido à sua longa experiência como pivô do Jornal da Noite da SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho tem um excelente dicção e lê com o dinamismo inerente à sua história.

O livro debruça-se pela história de uma família abastada portuguesa constituída pelos pais e 4 irmãos. Embora pudesse parecer que aquela família nunca teria problemas, a sua existência acaba por ser muitíssimo atribulada pontuado por acontecimentos trágicos. O autor aproveita esta história para abordar, de forma brilhante, temas de grande actualidade como a doença mental, a dependência e a violência doméstica. O enredo está bem concebido e as personagens foram muito bem construídas.

Um pormenor que me chamou a atenção foi o facto de cada personagem ser designada por 2 nomes próprios, Margarida Rosa, Joana Ofélia, António Carlos ou Aida Vanda são alguns dos exemplos. Para mim, este pormenor significa que cada personagem, tal como cada pessoa, têm 2 lados, o que mostram aos outros e o que guardam para si. Achei esta opção muito curiosa.

Há, no entanto, alguns aspectos de que não gostei tanto mas que, talvez, tenham a ver com o facto de ter ouvido o texto em vez de o ter lido. Por um lado, o facto de o autor/narrador repetir o título do livro sempre que iniciava um novo capítulo. Na verdade isso irritou-me um pouco e distraía-me no início do capítulo. Por outro lado, e embora algumas passagens sejam quase poéticas, acho que o autor utilizou, num ou noutro capítulo, vernáculo em exagero. Para mim não havia necessidade porque é perfeitamente possível descrever o horror e o drama sem recorrer a essa subterfúgio de linguagem. Até acredito que isso me incomodou mais por estar a ouvir em vez de ler como já disse.

Seja como fôr, este foi o meu primeiro contacto com a escrita deste autor e talvez experimente ler outros livros. Em relação aos audiobooks, a experiência também será para repetir embora não haja muitas opções em português. Uma das hipóteses seria "Cem Anos de Solidão" de Gabriel Garcia Márquez que é narrado, precisamente, por Rodrigo Guedes de Carvalho.

"Margarida Rosa decidiu logo em pequena que nada nesta vida lhe causaria dano.
Há crianças assim, muito do seu tempo é passado a desenhar planos para o que lá vem. Não é bom nem mau. Não adianta dizermos a estas crianças

- Não te rales agora com isso, tens muito tempo
porque elas não fazem caso e mesmo que fizessem não significa
que conseguissem parar.
E o que deve acontecer com os vícios, que muita gente liga às vidas adultas, gastas e desiludidas, quando na verdade talvez comecem muito cedo, essas aflições com certos pensamentos e exigências absurdas do corpo.

Margarida Rosa pôs-se a imaginar o mundo antes de realmente o conhecer. Ainda a vida se limitava a casa, escola, outra vez para casa, e em casa subia e descia escadas, sempre a cirandar desde que aprendeu a andar, sempre indecisa entre o quarto lá em cima e o jardim grande lá em baixo. A mãe percebeu cedo que a filha gostaria sempre mais de saborear trajectos do que chegar a um destino."

Centenário de José Saramago

Charneca em flor, 16.11.21

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Estátua de José Saramago na sua terra natal

Azinhaga (Golegã)

2017

 

Daqui a um ano assinala-se o centenário do nascimento de José Saramago. Hoje iniciam-se as comemorações com esta Sessão de Abertura no Teatro de São Luiz:

"A escritora Irene Vallejo lerá um Manifesto pela Leitura, seguindo-se um concerto pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Pedro Neves. O programa é composto por As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de Joseph Haydn, com leitura de textos de José Saramago pela atriz Suzana Borges."

Ao longo deste ano, as iniciativas serão inúmeras seja através da Fundação José Saramago mas também através de outras instituições. Nos próximos meses, serão reeditadas algumas obras, a leitura dos livros nas escolas será estimulada e também haverá reuniões académicas sobre o tema quer em Portugal quer no estrangeiro. No site da Fundação poder-se-á encontrar mais pormenores sobre as comemorações.

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Eu descobri José Saramago já tarde uma vez que li o meu primeiro livro de Saramago há cerca de 10 anos. Nessa altura, uma pessoa que já tinha lido os livros quase todos emprestou-me "A Jangada de Pedra" e "As intermitências da morte". Fiquei fascinada e muito arrependida por não ter lido mais cedo. Desde essa época para cá já li mais alguns como podem ver aqui.

Sendo assim resolvi encetar a minha própria comemoração e estas são as iniciativas que pretendo realizar:

- Ler mais livros de José Saramago

- Ler os autores, e respectivos livros, que já venceram  o Prémio de Literatura José Saramago*, excepto aqueles que já conheço. Tinha esse projecto quando vi a série "Herdeiros de Saramago" mas como aderi a um clube de leitura acabei por não o realizar.

E, desse lado, há fãs ou curiosos com a obra de José Saramago? Como pretendem assinalar esta efeméride?

P.S. - Pelo que estou a ouvir na reportagem na TSF, a estátua já não está no mesmo local onde estava quando eu estive na Azinhaga. 

 

*Este ano, os responsáveis optaram por não atribuir o prémio uma vez a edição de livros foi reduzida devido à pandemia.

 

A Luz, Stephen King

Charneca em flor, 19.10.21

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Não escolho este género literário com frequência mas este mês propus-me a experimentar a ler um thriller. O tema proposto pelo clube de leitura #umadúziadelivros da Rita da Nova para o mês de Outubro foi, precisamente, "Um livro assustador"

Nem me lembrava que tinha esta edição na prateleira. A leitura não foi fácil e algumas passagens assustaram-me verdadeiramente. O que quer dizer que o objectivo deste livro foi atingido. A história está bem escrita, como é óbvio, embora se possa dizer que a época em que foi escrita está muito marcada no enredo. O autor recorreu a ideias muito diferentes para nos provocar muitos momentos assustadores. Não sei se se pode considerar uma obra intemporal mas não deixa de ser um clássico dos thrillers. O facto de este romance ter uma criança como personagem principal incomodou-me muito e quase que me levou a desistir da leitura. Isso levou a que, no início, avançasse com alguma dificuldade mas a partir de certa altura, o livro conseguiu prender-me até à última linha.

O protagonista da história é um menino de 5 anos muito especial. O pai, um homeme problemático, arranja um trabalho como zelador num hotel isolado nas montanhas que fica fechado durante o Inverno. Devido aos grandes nevões que caem naquela região, quem está no hotel pode ficar muitos meses sem falar com mais ninguém para além das pessoas que estão consigo no hotel, neste caso a família Torrance, Danny, o menino e os pais Jack e Wendy. Obviamente que este isolamento afecta qualquer pessoa sujeita a essa experiência como bem sabemos pelo último ano e meio de pandemia. No entanto, podemos dizer que o edifício antigo onde se situa o hotel Overlook também é personagem nesta história.

Apesar de ter gostado desta história, este género não é para mim. No entanto é importante sairmos da nossa zona de conforto. Afinal, não podemos ler sempre o mesmo.

"Por um momento foi incapaz de respirar, a vista tinha-a deixado sem fôlego. Estavam parados próximos do cume de um pico. Do outro lado - ninguém sabe a que distância - uma montanha ainda mais alta empinava-se no céu, com o cume recortado, apenas uma silhueta aureolada pelo sol que coneçava a pôr-se. 

(...)

Afastou o olhar do abismo quase à força e acompanhou o dedo de Jack. Podia ver a estrada agarrada à encosta daquele pináculo de catedral, com um traçado sinuoso mas sempre dirigindo-se para noroeste, ainda subindo, porém menos íngreme. Mais adiante, aparentemente cravado na própria encosta, viu os pinheiros rigidamente fixados darem lugar a um relvado muito verde tendo ao centro, contemplando tudo, o hotel. O Overlook. Ao vê-lo, tomou fôlego e recuperou a voz.

- Oh, Jack, é esplêndido!"