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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

"A Filha do Guardião do Fogo, Angeline Boulley

Charneca em flor, 03.06.22

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No âmbito do Clube do Livra-te, um dos livros que li no mês de Maio foi "A Filha do Guardião do Fogo" de Angeline Boulley, escolhido pela Joana da Silva.

Esta obra foi uma excelente surpresa. Inicialmente, pensei tratar-se de um livro muito conotado com o estilo "young adult" mas não tem nada a ver. Este livro saiu há pouco tempo em Portugal e foi traduzido por uma jovem muito activa no Bookstragram*, Elga Fontes. A autora aborda várias problemáticas que, a meu ver, se conjugam na perfeição.

A personagem principal é uma inteligente jovem de mãe branca, de uma das famílias mais abastadas da cidade, e de pai nativo-americano. Embora sinta algumas dificuldades em se integrar quer numa comunidade quer na outra, vai tentando chegar a um certo equilíbrio embora a sua vida recente tenha passado por alguns percalços. De repente, a cidade começa a ser abalada por acontecimentos trágicos onde Daunis se vê, inesperadamente envolvida. 

"A Filha do Guardião do Fogo" tem inúmeros ingredientes que tornam a leitura cativante como sejam mistério, crime, romance e cultura indígena americana. Apercebi-me de que pouco mais sei da realidade nativo-americana do que aquilo que Hollywood nos mostrava nos antigos westerns e os indígenas eram, quase, sempre os maus. Confesso que fiquei fascinada e com vontade de saber mais. Um dos pormenores desta cultura, ou pelo menos da tribo retratada no livro, é o respeito pelos mais velhos. A relação com os elementos mais idosos da comunidade é encantadora.

Em suma, gostei muito deste livro e recomendo-o a quem aprecie conhecer uma cultura diferente mas que também goste de mistério e romance.

"Repouso sobre uma grande rocha, numa ilha de pedra rodeada de bosques. A chuva acabou de parar; gotas pesadas escorrem dos ramos e pingam quando se encontram no chão da floresta. Uma brisa agita as árvores, transformando-as em sinos de vento. Os últimos vestígios de chuva escorrem agora em salpicos mais suaves. Os pedregulhos roncam, baixos e constantes. A luz do Sol penetra a cobertura da floresta lançando feixes que despertam os amores-perfeitos adormecidos.
À esquerda, há uma pequena fogueira rodeada pelas pedras do avô. A este. O seu fumo sobe, convocando orações nas cadências melódicas de Anishinaabemowin. À
minha frente, a sul, há outra fogueira com mais avôs e orações transportadas em fumo cinzento. A minha direita, a oeste, os avos aguardam. Ainda não há fogo. Atrás de mim, a norte, mais Avôs pacientes.
Os amores-perfeitos cantam para mim. Circundam a rocha, pontilhando a periferia com caras amarelas e roxas, balançando suavemente. Todas estas vozes que se misturam. Adiciono a minha, avançando através do refrão até encontrar um nicho que a minha voz preencha, para tornar a canção completa.

Este mundo existe para lá de qualquer contentamento e beleza que alguma vez conheci."

 

*páginas de Instagram onde se publicam, maioritariamente, conteúdos relacionados com livros e literatura.

"O Lugar das Árvores Tristes", Lénia Rufino

Charneca em flor, 20.03.22

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No passado mês de Fevereiro consegui terminar de ler os livros dos 2 clubes de leitura a que aderi* antes do mês terminar por isso aproveitei para ler este "O Lugar das Árvores Tristes" de Lénia Rufino que já tinha em espera há uns meses. Este livro foi o primeiro que a autora publicou e espero que seja o primeiro de muitos.

O livro está muito bem escrito e conta uma história que me tocou de sobremaneira. O enredo situa-se em 2 aldeias do Alentejo profundo. No início do livro encontramos Isabel, uma jovem com uma estranha predileção por passear por entre as campas do cemitério que fica junto da sua casa. Isabel aprecia o silêncio desse lugar que lhe aguça a curiosidade. Nesses passeios depara-se com um nome de uma falecida da qual nunca soube a razão da morte e esse pormenor é o gatilho para ela desencadear uma "investigação" de modo a perceber porque é que, em toda a aldeia, ninguém quer falar sobre o assunto. A descoberta dos diários de Lurdes, a sua mãe, conduz-nos numa viagem no tempo até ao fim dos anos 60 e início dos anos 70.

Lénia Rufino construíu uma trama muito interessante, com a dose certa de mistério e suspense ao mesmo tempo que nos leva a reflectir sobre a condição feminina nessa altura, ainda em ditadura, em que a mulher não era dona da sua vontade nem podia tomar decisões sobre a sua vida.

Eu mergulhei de tal forma nesta história que me senti quase uma personagem de Lénia Rufino. Afinal, eu também descobri os segredos da minha família lendo as cartas que os meus pais tinham bem escondidas. Eu podia ser a Isabel . Uma das conclusões que retirei das páginas deste livro foi que, só conhecendo o passado das pessoas que se cruzam connosco no dia-a-dia, é que podemos perceber as atitudes que têm hoje. As dores do passado reflectem-se nas atitudes do presente.

Aguardo ansiosamente o próximo livro da Lénia. Ela também nos ensina que nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos. Afinal, ela levou muitos anos a conseguir publicar o seu livro.

"Nas aldeias pequenas, nada é mais difícil do que guardar segredos. O ditado antigo que assegura que até as paredes têm ouvidos não é tão verdadeiro em lugar nenhum como nas aldeias."