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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

La Cucina, Lily Prior

Charneca em flor, 20.11.20

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Este livro também foi escolhido por causa do desafio lançado pela Rita da Nova para o mês de Novembro tal como o anterior. Também se passa na Itália o que é logo um excelente atractivo para mim que adoro esse país. Como o próprio nome do romance indicia, a comida é preponderante no desenvolvimento da história. La Cucina começa numa quinta na zona leste da Sicília perto da encosta do vulcão Etna. A personagem principal é Rosa Fiore que tem uma intensa, quase visceral, relação com a comida. É nela que se refugia para afogar desgostos e mágoas ao longo da vida. Mas é também através da comida que descobre a sua natureza feminina e a sua sensualidade. É um livro quente, denso e saboroso com personagens estranhas e peculiares. A história é, muitas vezes, inesperada e surpreendente. Na contracapa, Joanne Harris, autora do livro Chocolate, compara La Cucina ao livro Como água para chocolate de Laura Esquível. E isso faz imenso sentido já que são dois livros com contextos muito semelhantes. Em suma, gostei muito e recomendo.

"A comida é uma coisa tão sensual, comer é um prazer tão sensual. Comer boa comida, signorina, está próximo de fazer amor. Deve ser desfrutado, não apressado. Devemos abandonar-nos à sua sensualidade, signorina. Agora vou tirar mais um pedaço do seu maravilhoso timballo. Sinto o seu calor entre os meus dedos; sinto a suculência do recheio, o glorioso tostado da massa. Coloco-o lentamente, amorosamente na língua. Introduzo-o na boca e sinto frisson quando as minhas papilas gustativas começam a funcionar. Lambo os dedos para desfrutar cada bocadinho. Os meus dedos roçam a minha língua, carne contra carne. Agora, signorina, quero que experimente."

O Livro dos Sabores Perdidos, Nicky Pellegrino

Charneca em flor, 10.11.20

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Gosto muito de acompanhar a Rita da Nova. Adorava conseguir tantos livros como ela mas não tenho a capacidade de concentração dela. No seu blogue, os livros constituem um dos temas recorrentes. A esse nível, a Rita tem sugerido um tema de leitura mensal mas eu nunca tinha aderido. O ano está quase a acabar mas consegui, no mês de Novembro, escolher livros para ler dentro do tema actual, comida. Quando vi o tema, lembrei-me de que tinha 2 livros sobre esse tema, em espera, na prateleira. E foi assim que cheguei a este livro.

Li-o tão depressa que nem houve tempo para o pôr ali na lateral, na secção "Livros do Momento". A história é mais ou menos banal e não é uma obra-prima mas cumpre um dos propósitos da leitura, diverte. Mas também abre o apetite, quer de comida quer de voltar a viajar. A acção passa-se, maioritariamente, numa vila siciliana. Luca Amore gere uma escola de culinária na velha casa da sua Nonna. Ali recebe pessoas de todo o mundo que querem degustar e aprender a confecionar os verdadeiros sabores sicilianos. Desta feita, Luca acolhe um grupo de 4 mulheres muito diferentes que não se conhecem.

"Eis o que Luca não sabe sobre elas: uma esconde um segredo, outra espera voltar a encontrar o amor, outra ainda tenta desesperadamente fugir à sua própria vida e outra já o conseguiu."

Ao longo da leitura deste romance, quase que senti os sabores dos cannollis, dos cornettis, do chocolate, das pastas, dos legumes e de todos os pratos que são descritos ao longo do livro. E são esses pormenores que tornam a leitura agradável e, lá está, saborosa. Para além, de descobrirmos alguns segredos sobre as personagens. Afinal, as pessoas não são lineares, nem sequer na ficção, há sempre uma nova camada para descobrir.

Este livro é uma leitura leve e prazenrosa. "O livro dos Sabores Perdidos" faz-nos passar um bom bocado sendo uma óptima companhia.

"Valerie permaneceu à sombra, com um copo de vinho junto ao cotovelo, vendo Luca fazer massa misturando trigo duro com azeite. Parecia estar nas suas sete quintas sempre que cozinhava, movendo-se com graciosidade e economia de movimentos. Foi um prazer vê-lo amassar a massa até a transformar em placas finas, dobrando-as em seguida e espalhando ricota e molho de tomate sobre cada camada. Depois, espalhou azeitonas negras, grandes, e folhas de espinafres jovens, polvilhadas de sal, por cima. Por fim, com grande destreza, colocou a pesada travessa no forno com uma só mão."

 

 

Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago

Charneca em flor, 01.11.20

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Aqui há meses comprei 2 livros do nosso Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, o “Ensaio sobre a cegueira” e o “Ensaio sobre a lucidez".
Não tive coragem de pegar no “Ensaio sobre a cegueira” e achei por bem começar pelo “Ensaio sobre a lucidez”. Má opção porque neste são feitas referências ao “Ensaio sobre a cegueira”. Fica a dica. Por acaso não me fez muita diferença porque vi o filme baseado neste livro de Saramago. Mesmo assim acho que não me tirou a vontade de ler o "Ensaio sobre a cegueira"

 

Posto isto, vou avançar para a minha opinião sobre esta leitura.

A narrativa parte de um acto eleitoral para eleger os órgãos autárquicos. No dia marcado, o país imaginado por Saramago é acometido por chuva torrencial o que dificulta a ida às urnas por parte dos leitores. Quando se pensava enfrentar uma elevadíssima abstenção, eis que pára de chover e as pessoas acabam por se dirigir às mesas de voto. Só que os resultados obtidos são surpreendentes. Enquanto no resto do país se obtêm resultados equiparados aos de eleições anteriores, na capital do país observa-se uma percentagem extremamente elevada de votos em branco. Os governantes do país não percebem a mensagem que os eleitores quiseram transmitir e suspeitam tratar-se de uma conspiração. A investigação desta suposta conspiração vai conduzir a tempos muito difíceis para a cidade, capital do tal país imaginado por Saramago. A situação imaginada pelo autor não é muito diferente daquilo que se vive pela Europa fora embora por  motivos de saúde.

Tal como a maioria dos livros deste autor, a utilização da pontuação é muito peculiar por isso é preciso estar muito concentrada na leitura senão não se consegue entender. O caminho que o autor seguiu é muito interessante mas, como é habitual, faz-nos pensar e tirar as nossas próprias conclusões. O final é surpreendente. Eu nunca imaginei que terminaria assim.

Para mim, os votos em branco são uma maneira de a classe política perceber que deve repensar a forma de exercer o poder. Isso era verdade em 2004, quando  o livro foi editado pela 1a vez, mas continua a ser verdade hoje. Saramago conseguia, sempre, escrever obras intemporais pois fazia uma excelente análise da sociedade. Um livro que vale a pena ler e que nos faz pensar. E precisamos mesmo de exercitar o raciocínio e não aceitar, cegamente, tudo aquilo que nos querem fazer acreditar.

"Ao ministro da defesa, um civil que não havia ido à tropa, tinha sabido a pouco a declaração do estado de exceção, o que ele tinha querido era um estado de sítio a sério, dos autênticos, um estado de exceção na mais exata aceção da palavra, duro, sem falhas de nenhum tipo, como uma muralha em movimento capaz de isolar a sedição para logo a esmagar num fulminante contra-ataque, Antes que a pestilência e a gangrena alastrem à parte ainda sã do país, preveniu."

 

 

História da Menina Perdida, Elena Ferrante

Charneca em flor, 23.10.20

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Já foi em 2016 que encontrei esta brilhante saga escrita pela misteriosa Elena Ferrante. Depois de me ter apaixonado pela história de Lina e Lenú, apressei-me a encomendar os restantes livros da tetralogia. Li os primeiros 3 livros de forma quase sequencial mas este "História da Menina Perdida" estava guardado como uma preciosidade em que não se quer tocar. Calhou pegar nele, agora. 

Através dos 4 volumes acompanhamos o crescimento e o desenrolar da amizade entre Lina e Lenú. A maneira como estão escritos faz com que pareça que estamos dentro desta história em vez de sermos meros espectadores. A escrita de Elena Ferrante é tão envolvente e cativante que dei por mim a ler até altas horas da madrugada o que já não me acontecia há muito tempo. 

Neste livro acompanhamos, em grande parte, a vida adulta das 2 mulheres e o seu caminho em direcção ao fim da vida. A amizade entre Lenú e Lina continua a ser determinante nas suas vidas embora haja sempre um conflito entre aquilo que Lenú conseguiu, enquanto escritora com algum sucesso, e aquilo que Lina poderia ter sido se tivesse aproveitado a sua inteligência inata. Percebemos como a vida pode ser surpreendente por bons e maus motivos e como um momento dramático modifica a vida das pessoas para sempre. 

Como pano de fundo ainda podemos observar ambiente político e social italiano e um pequeno vislumbre do crime organizado napolitano.

Elena Ferrante, em cada livro, transporta-nos para a Itália de uma maneira tão real que nos sentimos a calcorrear as ruas empedradas das cidades onde a história se vai desenrolando com principal relevo para a cidade de Nápoles. 

Elena Ferrante nunca se quis dar a conhecer porque diz que os livros falam por ela. Acredito que isso seja real e imagino, sempre, que Elena Greco é um pouco daquilo que Elena Ferrante será. Presumo que seja napolitana porque só isso explica que fale da sua cidade com tamanha paixão.

"Eu própria não consigo acreditar. Terminei esta história que me parecia que nunca mais terminava. Terminei-a e reli-a pacientemente, não tanto para melhorar a qualidade da escrita, como para verificar se pelo menos numa ou noutra linha era possível encontrar a prova de que Lila entrara no meu texto e resolvera dar o seu contributo para a sua redação. Mas tive de concluir que todas estas páginas são só minhas. Aquilo que Lila tantas vezes ameaçou que faria - entrar no meu computador -, não o fez, talvez nem fosse capaz de o fazer, foi uma longa fantasia minha de senhora idosa que nada percebo de redes, cabos, ligações, trasgos eletrónicos. Lila não faz parte destas palavras. Só aqui está aquilo que eu fui capaz de fixar. A não ser que, de tanto imaginar as coisas que ela teria escrito, e como, eu já não seja capaz de distinguir o que é meu e o que é dela."

Pão de Açúcar por Afonso Reis Cabral

Charneca em flor, 28.09.20

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Afonso Reis Cabral é um jovem escritor de 30 anos mas já conseguiu ganhar 2 dos mais importantes prémios literários portugueses. Com "O meu irmão" foi o vencedor do Prémio Leya em 2014. No ano passado, com este "Pão de Açúcar", juntou-se ao grupo dos mais brilhantes escritores contemporâneos de língua portugues vencendo o Prémio Saramago. Nem sempre escrever um livro premiado significa que o leitor comum o aprecie. Não faço ideia se estes livros foram muito vendidos mas eu, uma leitora comum, gostei muito de os ler. Tal como escrevi na minha análise d' "O meu irmão ", é difícil de acreditar que estas histórias, tão duras e dramáticas, existam dentro deste jovem sorridente e simpático. Na altura do Prémio Leya, tive oportunidade de trocar meia dúzia de palavras com ele e o Afonso Reis Cabral é muito afável. 

Neste "Pão de Açúcar" o autor revisitou um caso verídico que chocou o Porto bem como todo o país em 2006. Num poço da cave de um prédio abandonado foi encontrado um corpo, nu da cintura para baixo, e com marcas de agressões. Era a transsexual brasileira Gisberta e as agressões tinham sido cometidas por um grupo de jovens, alguns muito novos, que viviam na instituição Oficina de São José.

Este romance, em que se confunde a ficção com a realidade, fornece-nos o relato do ponto de vista de um dos jovens, Rafa, aquele que primeiro descobre Gi na cave do prédio que devia ter sido o supermercado "Pão de Açúcar". Como o próprio autor escreve na sua nota de agradecimento, usando as palavras da jornalista Catarina Marques Rodrigues, "Nesta história conhece-se o princípio e conhece-se o fim. Não se conhece o meio." Afonso Reis Cabral criou esse "meio" cerzindo um enredo perfeitamente plausível. Uma história dura e chocante, mas realista. Podia muito bem ter acontecido assim. Ao longo do livro conhecemos a vida da Gisberta mas também as histórias de vida dramáticas de alguns dos jovens envolvidos. Espreitamos para as péssimas condições em que os menores viviam naquela instituição de acolhimento, entretanto encerrada. Confrontamo-nos com o ponto a que pode chegar a degradação humana e percebemos que cada pessoa pode ter em si um lado mau e um lado bom. Ninguém é totalmente bom nem totalmente mau. As atitudes que tomamos individualmente podem ser totalmente diferentes daquelas que tomamos em grupo e ser determinantes para o resto da nossa vida. Apesar deste caso já se ter passado há 14 anos, continua a ser actual e faz-nos falta pensar sobre ele. Estamos ainda mais perto de que estes casos de violência contra aqueles que são diferentes se repitam. E não é por virarmos a cara que eles deixam de acontecer.

Afonso Reis Cabral teceu este enredo de maneira brilhante confirmando o talento que já se antevira n' "O meu irmão". Nem quero imaginar a pressão que ele deve sentir em frente à folha branca depois desta projecção conseguida com 2 prémios importantes no espaço de, apenas, 5 anos. Espero que tenha uma carreira repleta de sucessos. 

"Avancei às apalpadelas a tocar no frio das colunas, indiferente à herança do Pão de Açúcar e certo de que seria bom rever a Gi, reconciliarmo-nos. Voltar a cozinhar para ela, ouvir-lhe os gemidos de bicho enquanto comia o meu pão, a minha massa. De novo a ajudá-la, por fim compreendendo que os lugares certos na vida são os lugares errados. Como na cave, ao lado da Gi."

Almanaque da Língua Portuguesa, Marco Neves

Charneca em flor, 21.09.20

Não sei como é que "tropecei" no Marco Neves. O que é certo é que me interessei por aquilo que ele escreve no seu site Certas Palavras. Marco Neves é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Para além disso, e de ser leitor e escritor, é tradutor e revisor. Pelo que já conheço do seu trabalho, julgo perceber que é um apaixonado pelas Línguas e pelas suas particularidades.

Este "Almanaque da Língua Portuguesa" já não é o primeiro livro que leio dele. A obra em questão tem uma organização muito sui generis. Tal como o próprio nome indica é um almanaque, ou seja, um calendário com indicações úteis. Cada capítulo é representado por um mês. Em cada capítulo encontra-se a origem do nome do mês, um excerto de uma obra literária portuguesa, efemérides ligadas à Língua Portuguesa, perguntas, dúvidas, sugestões e histórias divertidas sobre a utilização da Língua. Em cada estação do ano há ainda listas de palavras como "as palavras mais feias", "os erros mais irritantes" ou "as palavras mais belas".

Foi uma leitura muito divertida e instrutiva. A maneira de escrever de Marco Neves é acessível, clara e inspiradora. Os momentos que passei com este livro contribuíram largamente para a minha paixão pela Língua Portuguesa. 

O "Almanaque da Língua Portuguesa" tanto poderá ser lido de ponta a ponta co o se pode ler o capítulo no mês correspondente ou ir ler um pedacinho aqui e ali. Provavelmente, para mim, passará a ser um livro de consulta pontual. 

Graças a este livro já vêm a caminho mais 2 livros do Marco Neves. Será uma oportunidade para desenvolver a minha maneira de escrever. Estamos sempre a tempo de aprender mais.

"As palavras conseguem ser deliciosas como um bom prato - quando, por vezes, vou a uma livraria comprar o novo livro de um dos meus autores portugueses preferidos, sinto fisicamente água na boca. Quando oiço algumas palavras nas minhas línguas preferidas, sinto qualquer coisa na barriga, uma satisfação física difícil de explicar. As palavras são qualquer coisa de físico, que saboreamos com a língua,  mordemos com os doentes, apreciamos com o olhar e deixamos a soar no nosso cérebro, imaginando-lhez cores, ligações, secretas, formas concretas."

 

Longa Pétala de Mar, Isabel Allende

Charneca em flor, 11.09.20

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Isabel Allende conseguiu a proeza de me fazer ficar acordada até tarde a ler. Já não me acontecia há muito tempo. Há imenso tempo que não li um livro desta escritora latino-americana. A "Longa Pétala de Mar" é o seu amado  Chile. Isabel Allende nasceu no Perú embora a sua família fosse chilena. A escritora viveu no Chile entre 1945 e 1975, o seu pai, diplomata, era primo do Presidente Salvador Allende deposto por um golpe de estado em 1973. Como era filha de um diplomata e também enteada de outro diplomata contribuíu para a fuga segura de indivíduos perseguidos pelo regime de Pinochet a ponto de ela própria ser ameaçada. Tal como tantos chilenos partiu para o exílio na Venezuela indo, mais tarde, para os Estados Unidos. Neste livro nota-se bem a influência desta experiência na escrita deste livro.

"Longa Pétala de Mar" atravessa um largo período do século XX começando em 1938 durante a Guerra Civil Espanhola e segue até 1994. Ao longo do livro acompanhamos a história de 2 espanhóis, Roser e Victor Dalmau, cujo fim da Guerra Civil empurra para o exílio para o Chile fazendo parte dos refugiados que embarcaram no Winnipeg. Este navio foi fretado pelo poeta Pablo Neruda para os levar para "a longa pétala de mar, de vinho e de neve"  como ele chamava, poeticamente, ao seu país. Ao longo deste romance acompanhamos a relação destes 2 amigos (Roser é viúva do irmão de Victor, morto em combate na Guerra Civil Espanhola), as vidas que cabem dentro de uma só existência bem como as pessoas que vão fazendo parte da sua história. 

Isabel Allende continua a possuir um enorme talento para construir personagens fantásticas e uma história arrebatadora ao mesmo tempo que nos ensina muito sobre a História do século XX. Com a leitura desta obra temos oportunidade de enfrentar muitos fantasms da Humanidade que, infelizmente, voltam a aparecer nalguns pontos do mundo como sejam as condições em que vivem os refugiados, a violência de uma guerra fraticida como é uma guerra civil ou a injustiça da perseguição por motivos políticos.

Embora a história seja verdadeiramente cativante só tenho a apontar algo de que não gostei tanto. A autora pretendeu abranger um grande período de tempo o que provocou grandes saltos temporais na narrativa. Ou seja, senti que o livro perdeu com essas lacunas. Mas isso resultaria num livro maior. Será que nos dias de hoje ainda há muitas pessoas que apreciem livros com 500 ou 600 páginas?!

 

"Aquele dia 4 de Agosto de 1939 ficaria para sempre gravado na memória de Víctor Dalmau, de Roser Bruguera e de mais dois mil e tantos espanhóis que partiam para esse país longo e afilado da América do Sul, que se aferrava às montanhas para não se precipitar no mar, e sobre o qual pouco ou nada sabiam. Neruda havia de defini-lo como uma 《longa pétala de mar, de vinho e de neve》, com uma 《cintura de espuma negra e branca》, mas isso não teria sido suficiente para dar a conhecer àqueles desterrados o destino que os esperava. No mapa, o Chile afigurava-se-lhes sinuoso e remoto."

 

 

 

Manual para mulheres de limpeza, Lucia Berlin

Charneca em flor, 30.08.20

manual-para-mulheres-de-limpeza.jpgHá uns anos, num dia de aniversário, senti-me atraída pelo magnetismo deste olhar de Lucia Berlin e foi inevitável comprar este "Manual para mulheres de limpeza". Depois deixei-o na prateleira até agora. Até porque o livro tem mais de 500 páginas por isso quando ia pegar nele, assustava-me e desistia.

No entanto, ouvi, num podcast, alguém a falar desta obra e resolvi dar-lhe uma oportunidade. Afinal tinha uma pérola, ou melhor, um colar de pequenas pérolas na prateleira e não sabia. Como se trata de um livro de contos lê-se muito bem e nem se repara no tamanho. 

Lucia Berlin era uma escritora norte-americana que nasceu no Alasca em 1936 e faleceu em 2004. Embora tenha publicado inúmeros contos ao longo da vida, só recentemente é que teve o devido reconhecimento dos leitores e da crítica.

A autora teve uma vida cheia e tumultuosa. E foi precisamente na sua vida que se inspirou para escrever os seus contos que abordam alguns dos aspectos mais duros da natureza humana. Embora Lucia também escreva sobre o amor e sobre as emoções, debruça-se sobre o alcoolismo, a toxicodependência ou a violência. Mesmo quando as situações são dramáticas, Lucia consegue introduzir uma nota de humor ainda que subtil mas utiliza uma linguagem muito acessível. As histórias de Lucia são tão bem escritas que se tornam tão vívidas, mas tão terra-a-terra ao mesmo tempo, que nos sentimos envolvidos nas situações quase como se também fôssemos uma das personagens. 

Resumindo, "Manual para mulheres de limpeza" é uma colectânea de contos de qualidade literária notável e que vale muito a pena ler.

"Nunca vi os corvos a deixarem a árvore de manhã, mas todas as noites, cerca de meia hora antes de anoitecer, começam a acorrer vindos de todos os pontos da cidade. Pode ser que haja alguns pastores que paira  às voltas no céu, a chamarem outros ao longo de quarteirões, para que venham para casa, ou talvez cada um deles reúna elementos atrasados antes de se esconderem na árvore. Tenho-os observado bastante, seria de pensar que, nesta altura, já soubesse dizer. Mas só vejo corvos, dezenas de corvos, a voarem vindos de longe e de todas as direcções e cinco ou seis a sobrevoar em círculos como no aeroporto O'Hare, a crocitar e crocitar, e, depois, numa fracção de segundo, tudo fica silencioso e não se vê corvo algum. A árvore parece um acér comum. Ninguém diria que há tantos pássaros lá dentro."

Manual de sobrevivência de um escritor, João Tordo

Charneca em flor, 28.08.20

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O subtítulo deste livro, o pouco que sei sobre aquilo que faço, diz muito sobre aquilo que eu acho que norteou o autor durante a escrita desta obra. Poderia pensar-se que escrever uma espécie de manual para aspirantes a escritores seria uma sobranceria do João Tordo mas eu senti mais como um exercício de humildade do que como a exaltação do seu talento. 

João Tordo parte da sua vida e das suas características pessoais para explicar a dedicação, o esforço e a entrega que são necessários para se chegar a ser escritor. Para além disso, o autor fala da importância de ler muito e refere alguns dos livros que o influenciaram e que foram preponderantes para que ele enveredasse pelo caminho da escrita. Na sua descrição do ofício da escrita também utiliza palavras de outros escritores tornando este livro, igualmente, num manual de leitura.

No que me diz respeito, este livro fez-me perceber que nunca escreverei um livro. Sim, em tempos sonhei com isso mas já desconfiava que não tinha aquilo que é preciso para tal empreitada. Com esta leitura, tive a certeza daquilo que já tinha intuído. No entanto, sei que este livro fará de mim melhor leitora. Não é por perceber aquilo que está por trás de um livro que ele perde a  magia. Saber como é difícil e duro ser escritor faz-me valorizar ainda mais aquilo que tenho nas mãos quando pego num livro.

Esta obra trouxe-me um novo problema, fiquei com vontade de ler mais obras de João Tordo. Só li os 3 primeiros livros que publicou, "O livro dos homens sem luz", "As três vidas" e "O bom Inverno". Já tenho pouco espaço para acomodar mais livros. 

Quanto ao "Manual de sobrevivência de um escritor", acho que vou voltar a ele, de vez em quando. Talvez um dia volte a ter vontade de ser escritora*.

"Portanto, tu queres ser escritor.

Dentro de ti habitam as vozes. É questão de lhes dares ouvidos. Por vezes, elas surgem de maneira fortíssima e eficaz, tão poderosas que não tens outro remédio senão encher a página em branco."

"Neste sentido, os bons romances aliam a arte à técnica. Vão abaixo da superfície das coisas, mergulham mais fundo do que os princípios, conceitos ou estruturas em que estão assentes. Porém, tal como na música jazz, convém saber os acordes antes de improvisar. Daí que ler como escritor, tendo uma noção mínima da construção narrativa, seja tão importante. Retira algum prazer inocente à leitura, é certo, mas ensina-nos muitíssimo sobre a forma. Sem forma (que a técnica ajuda a construir), a prosa permanece, de facto, privada: pode estar repleta de boas ideias e de excelentes palavras, mas não comunica com eficiência."

 

*"Faz a ti próprio esta pergunta à maneira de Rilke: Preciso de escrever? E, caso a resposta seja positiva e sincera, então podes chamar a ti próprio 《escritor》, mesmo que nada tenhas publicado."

 

 

"O Retorno" Dulce Maria Cardoso

Charneca em flor, 03.08.20

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Já tenho mencionado que leio poucos livros de autoras portuguesas. Tinha alguma curiosidade em ler Dulce Maria Cardoso porque gosto muito das crónicas que ela escreve para a revista Visão. Este livro foi, realmente, uma boa aposta para me iniciar na obra desta escritora e para despertar em mim a vontade de ler mais livros dela. "O Retorno" transporta-nos para 1975, para um momento da nossa História com o qual a maioria dos portugueses ainda não se reconciliou, na minha opinião. Refiro-me ao regresso daqueles a quem se convencionou chamar "retornados".

A própria autora passou por essa experiência uma vez que, embora tenha nascido em Trás-os-Montes, foi para Angola com 6 meses de vida e também voltou em 1975.

Imagino que Dulce Maria Cardoso tenha partido das suas memórias, e também de alguma investigação presumo, para construir esta narrativa. A figura central da história é Rui, um adolescente de 15 anos que se vê na contingência de vir para a "metrópole" com a família. Tal como milhares de portugueses, Rui e a família não têm para onde ir e acabam por ficar a viver num hotel de 5 estrelas no Estoril. Acompanhamos os últimos momentos de Rui em Angola, o aeroporto antes de embarcarem para Lisboa, a chegada ao hotel e toda a experiência da vida nesse ambiente repleto de pessoas na mesma situação. A autora consegue fazer-nos sentir, através das suas palavras, todas as dificuldades que estas pessoas sentiram. Eram olhadas como estrangeiras no seu próprio país. É uma história dura e difícil de lidar. No entanto acho que, devido a tudo o que temos vivido nos últimos tempos, escolhi o momento ideal para ler este romance. Fez-me olhar de outra forma para o racismo latente na nossa sociedade. O que se vive hoje tem, provavelmente, raízes neste passado recente.

Para além do interesse no tema central d' "O Retorno", a escrita de Dulce Maria Cardoso é brilhante. A maneira como ela escreve um diálogo é muito curiosa. Não utiliza uma única vez os sinais de pontuação típicos dos diálogos mas conseguimos perceber, sempre, que se trata de uma conversa. Também gostei muito da utilização de alguns termos angolanos que eu desconhecia.  Estas palavras tornam o texto ainda mais rico. Aliás sempre achei que as particularidades de cada povo falante de Língua Portuguesa é que a tornam interessante. Muito mais do que a implementação de um qualquer acordo ortográfico.

"E eu tenho tanto medo. Não quero ter medo mas tenho. Se o pai não chega até ao dia da independência é porque não chega mais, é porque não chega mais, é porque está, porque está morto. Ouviste. Sejas tu quem fores desta vez é a sério, não é como os jogos que fazia antes. Se o pai não chega até ao dia da independência mataste o pai, se o pai não chega até ao dia da independência é porque quiseste mandar os cabrões dos pretos matar o pai. Sejas tu quem fores, tens de me ouvir, não estou a brincar. Não me vais deixar à espera para sempre."