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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Deus-Dará, Alexandra Lucas Coelho

Charneca em flor, 01.12.21

"Deus-Dará" foi o livro que escolhi para o mês de Novembro no Desafio Uma Dúzia de Livros. O tema proposto foi "Um livro que te foi oferecido". Não costumo receber muitos livro de presente porque já compro muitos livros ao longo do ano e ninguém se arrisca a oferecer-me mais nenhum. Só que, escavando nas minhas prateleiras, descobri este livro que me foi oferecido pela editora, a Tinta da China, quando eu assinava a Granta. Vou ser franca, possivelmente nunca teria comprado este livro se não me tivesse sido oferecido o que teria sido uma grande pena.. Este desafio tem sido refrescante para mim porque me tem levado a pegar em livros diferentes daqueles que costumava ler.

Nunca tinha lido nada de Alexandra Lucas Coelho embora já tivesse ouvido falar nesta autora. Um dos meus objectivos pessoais deste ano de 2021 era, precisamente, ler mais livros escritos por mulheres por isso este livro também contribuiu para esse objectivo. Alexandra Lucas Coelho começou por ser jornalista tendo estado em zonas de conflito no Médio Oriente e Ásia Central. Já viveu em vários locais do mundo tendo sido correspondente no Brasil onde morou durante cerca de 4 anos. Presumo que essa vivência tenha sido preponderante para a realização deste livro.

Esta obra é muito difícil de catalogar. Durante a sua leitura fiquei na dúvida se era um livro de História ou se contava as histórias particulares de cada personagem. O livro está organizado em 3 grandes capítulos e 7 subcapítulos em que cada um representa um dia da semana começando à 4a. feira. As personagens principais são também 7, Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel e Noé. O narrador acaba por ser uma espécie de personagem que, de quando em vez, nos vai interpelando directamente tornando o relato mais dinâmico. Através destas personagens, Alexandra Lucas Coelho mostra-nos a diversidade do povo brasileiro e a História da construção deste povo. A acção desenrola-se no Rio de Janeiro, ou melhor, em São Sebastião do Rio de Janeiro no tempo que antecedeu a preparação do Campeonato Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos. Alexandra Lucas Coelho leva-nos numa vertiginosa pelo Rio de Janeiro passando pelas favelas, pelo Corcovado ou pelo elegante bairro Cosme Velho. Mas, também, nos conduz numa fantástica viagem no tempo ao longo dos 500 anos de História, partilhados por Portugal e Brasil.

A estrutura do livro pode-se tornar algo confusa uma vez que intercala a acção propriamente dita com a abordagem histórica. Esta obra exige alguma concentração para podermos apreender tudo aquilo que a autora nos pretendeu transmitir. "Deus- dará" encaixa na categoria de livros que nos fazem pensar uma vez que desconstrói muitas das ideias feitas que temos sobre o papel dos portugueses nos Descobrimentos, na colonização e no processo da escravatura. A autora mostra-nos um retrato do Brasil numa época em que o país vivia um período de maior prosperidade na era pré-Bolsonaro e pré-pandemia. Apesar de a acção se situar há menos de 10 anos, retrata uma realidade que já se pode considerar histórica.

 

"- Mas continua a ser o presente, é o que estás a sentir, o que sente quem cá vive. Entre o seculo XVI e o fim da escravatura, Portugal tirou quase seis milhões de pessoas de Africa...

- Caramba. É o numero de mortos no Holocausto.

- E o número de habitantes do Rio, hoje. E uns quatro milhões foram trazidos para aqui, para extrair açúcar, garimpar ou ouro, diamantes. Tudo isto já em cima do extermínio dos indios. Como é possível que não haja um museu ou um memorial da escravatura em Portugal, quando nenhum pais europeu foi responsável por escravizar tantos africanos? Ou dos povos indígenas, quando demos cabo de tantos?

- Sim, nunca vejo isso nos discursos políticos.

- Se não nos virmos nesse espelho nunca seremos capazes de mudar, ir além. Acho cada vez mais que o grande problema portugues é a incapacidade de transformação . Fomos para o mundo a querer mudar os outros, e incapazes de ser mudados por eles. Ajeitamo-nos, mas nao mudamos. Enfim, longa conversa."

 

Margarida Espantada, Rodrigo Guedes de Carvalho

Versão Audiobook

Charneca em flor, 21.11.21

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"Margarida Espantada" foi a minha primeira experiência de ficção com audiobook. Já tinha recorrido a este meio mas para não-ficção já que ouvi um livro/documentário sobre várias gerações de emigrantes portugueses em França. Acresce a particularidade de "Margarida Espantada" ser lida pelo autor, Rodrigo Guedes de Carvalho. Provavelmente devido à sua longa experiência como pivô do Jornal da Noite da SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho tem um excelente dicção e lê com o dinamismo inerente à sua história.

O livro debruça-se pela história de uma família abastada portuguesa constituída pelos pais e 4 irmãos. Embora pudesse parecer que aquela família nunca teria problemas, a sua existência acaba por ser muitíssimo atribulada pontuado por acontecimentos trágicos. O autor aproveita esta história para abordar, de forma brilhante, temas de grande actualidade como a doença mental, a dependência e a violência doméstica. O enredo está bem concebido e as personagens foram muito bem construídas.

Um pormenor que me chamou a atenção foi o facto de cada personagem ser designada por 2 nomes próprios, Margarida Rosa, Joana Ofélia, António Carlos ou Aida Vanda são alguns dos exemplos. Para mim, este pormenor significa que cada personagem, tal como cada pessoa, têm 2 lados, o que mostram aos outros e o que guardam para si. Achei esta opção muito curiosa.

Há, no entanto, alguns aspectos de que não gostei tanto mas que, talvez, tenham a ver com o facto de ter ouvido o texto em vez de o ter lido. Por um lado, o facto de o autor/narrador repetir o título do livro sempre que iniciava um novo capítulo. Na verdade isso irritou-me um pouco e distraía-me no início do capítulo. Por outro lado, e embora algumas passagens sejam quase poéticas, acho que o autor utilizou, num ou noutro capítulo, vernáculo em exagero. Para mim não havia necessidade porque é perfeitamente possível descrever o horror e o drama sem recorrer a essa subterfúgio de linguagem. Até acredito que isso me incomodou mais por estar a ouvir em vez de ler como já disse.

Seja como fôr, este foi o meu primeiro contacto com a escrita deste autor e talvez experimente ler outros livros. Em relação aos audiobooks, a experiência também será para repetir embora não haja muitas opções em português. Uma das hipóteses seria "Cem Anos de Solidão" de Gabriel Garcia Márquez que é narrado, precisamente, por Rodrigo Guedes de Carvalho.

"Margarida Rosa decidiu logo em pequena que nada nesta vida lhe causaria dano.
Há crianças assim, muito do seu tempo é passado a desenhar planos para o que lá vem. Não é bom nem mau. Não adianta dizermos a estas crianças

- Não te rales agora com isso, tens muito tempo
porque elas não fazem caso e mesmo que fizessem não significa
que conseguissem parar.
E o que deve acontecer com os vícios, que muita gente liga às vidas adultas, gastas e desiludidas, quando na verdade talvez comecem muito cedo, essas aflições com certos pensamentos e exigências absurdas do corpo.

Margarida Rosa pôs-se a imaginar o mundo antes de realmente o conhecer. Ainda a vida se limitava a casa, escola, outra vez para casa, e em casa subia e descia escadas, sempre a cirandar desde que aprendeu a andar, sempre indecisa entre o quarto lá em cima e o jardim grande lá em baixo. A mãe percebeu cedo que a filha gostaria sempre mais de saborear trajectos do que chegar a um destino."

"Adeus, Futuro", Maria do Rosário Pedreira

Charneca em flor, 07.11.21

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Depois de uma leitura muito intensa nas primeiras semanas de Outubro, resolvi pegar neste "Adeus, Futuro" para terminar o mês. Este livro reúne as crónicas publicadas por Maria do Rosário Pedreira no jornal Diário de Notícias durante um ano e meio, entre o ano de 2018 e o ano de 2020. 

Para quem não conhece Maria do Rosário Pedreira, ela é uma das mais importantes figuras do meio literário português. Embora já tenha publicado livros infantis, um romance, contos e livros de poesia, Maria do Rosário Pedreira tem na carreira editorial a sua principal actividade. A ela se deve a descoberta de inúmeros escritores portugueses contemporâneos. O seu enorme talento para brincar com as palavras levou-a também a escrever letras para canções maioritariamente para fado tendo entrado nesse mundo pela mão de Carlos do Carmo.

A pequena frase que dá título ao livro era a frase que a autora utilizava para terminar as crónicas mas não se pense que se tratam textos saudosistas. Nada disso. No entanto, a autora parte de histórias do seu passado, ou de relatos que lhe chegaram de outras pessoas, para analisar a sociedade actual naquilo que tem de bom e de menos bom. Já conhecia algumas crónicas porque Pelas suas palavras, percebe-se que Maria do Rosário é uma pessoa atenta ao mundo que a rodeia. Não concordo com tudo aquilo que escreve embora reconheço que estas crónicas me levaram a reflectir sobre coisas nas quais não costumo reparar ou dar importância. No entanto, às vezes também me questiono sobre o rumo que a humanidade vai tomar nos anos vindouros.

"Eu sei que se desvalorizou o prestígio de falar bem em público (basta ouvir alguns dos nossos políticos...) e que os jogos, as séries em streaming, as redes sociais e o YouTube têm arrancado cada vez mais jovens à leitura: se, nos anos oitenta, estes usavam cerca de mil e quinhentas palavras no seu quotidiano, o número baixou actualmente para cerca de trezentas palavras (e algumas são 《fogo》, 《bué》, 《fixe》, ou simples muletas como 《meu》 ou 《tipo》). O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa que nem sequer é o mais completo de sempre, tem 228 mil entradas, e o mais modesto Priberam, que pode consultar-se gratuitamente online, tem, mesmo assim, 115 mil. Se os nossos adolescentes não usam mais de trezentos vocábulos e a leitura não parece atraí-los para corrigir a situação, que irá acontecer-lhes no dia em que começarem a faltar-lhes os nomes para as coisas? Adeus, futuro."

 

A Luz, Stephen King

Charneca em flor, 19.10.21

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Não escolho este género literário com frequência mas este mês propus-me a experimentar a ler um thriller. O tema proposto pelo clube de leitura #umadúziadelivros da Rita da Nova para o mês de Outubro foi, precisamente, "Um livro assustador"

Nem me lembrava que tinha esta edição na prateleira. A leitura não foi fácil e algumas passagens assustaram-me verdadeiramente. O que quer dizer que o objectivo deste livro foi atingido. A história está bem escrita, como é óbvio, embora se possa dizer que a época em que foi escrita está muito marcada no enredo. O autor recorreu a ideias muito diferentes para nos provocar muitos momentos assustadores. Não sei se se pode considerar uma obra intemporal mas não deixa de ser um clássico dos thrillers. O facto de este romance ter uma criança como personagem principal incomodou-me muito e quase que me levou a desistir da leitura. Isso levou a que, no início, avançasse com alguma dificuldade mas a partir de certa altura, o livro conseguiu prender-me até à última linha.

O protagonista da história é um menino de 5 anos muito especial. O pai, um homeme problemático, arranja um trabalho como zelador num hotel isolado nas montanhas que fica fechado durante o Inverno. Devido aos grandes nevões que caem naquela região, quem está no hotel pode ficar muitos meses sem falar com mais ninguém para além das pessoas que estão consigo no hotel, neste caso a família Torrance, Danny, o menino e os pais Jack e Wendy. Obviamente que este isolamento afecta qualquer pessoa sujeita a essa experiência como bem sabemos pelo último ano e meio de pandemia. No entanto, podemos dizer que o edifício antigo onde se situa o hotel Overlook também é personagem nesta história.

Apesar de ter gostado desta história, este género não é para mim. No entanto é importante sairmos da nossa zona de conforto. Afinal, não podemos ler sempre o mesmo.

"Por um momento foi incapaz de respirar, a vista tinha-a deixado sem fôlego. Estavam parados próximos do cume de um pico. Do outro lado - ninguém sabe a que distância - uma montanha ainda mais alta empinava-se no céu, com o cume recortado, apenas uma silhueta aureolada pelo sol que coneçava a pôr-se. 

(...)

Afastou o olhar do abismo quase à força e acompanhou o dedo de Jack. Podia ver a estrada agarrada à encosta daquele pináculo de catedral, com um traçado sinuoso mas sempre dirigindo-se para noroeste, ainda subindo, porém menos íngreme. Mais adiante, aparentemente cravado na própria encosta, viu os pinheiros rigidamente fixados darem lugar a um relvado muito verde tendo ao centro, contemplando tudo, o hotel. O Overlook. Ao vê-lo, tomou fôlego e recuperou a voz.

- Oh, Jack, é esplêndido!"

 

 

1984, George Orwell

Charneca em flor, 30.09.21

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Neste mês de Setembro, o tema proposto pelo clube #umadúziadelivros foi "um livro com apenas uma palavra no título". Inicialmente, pensei em ler o livro "Bela" de Ana Cristina Silva e, talvez, ainda consiga lê-lo mas acabei por pegar neste "1984" para que fosse o livro mais importante deste mês.

Esta obra, de 1949, do britânico Orson Orwell é considerado um clássico da literatura europeia. A minha edição é a que está na imagem com uma belíssima capa de autoria do artista português Vhils.

"1984" é uma obra de ficção política mas também pode ser considerada uma distopia. Nesta história o mundo está dividido em 3 grandes potências, Oceânia, a Eurásia e a Estásia. Na Oceânia, a sociedade é dominada pelo Grande Irmão e pelo Partido e organizada em 3 estratos, o Partido Interno, o Partido Externo e os "proles". Estes pertencem ao nível mais baixo da sociedade e estão fora da influência do Partido. Os membros do Partido são constantemente vigiadas através de um telecrã que, não só vigia, mas também difunde as mensagens que o Partido emite. O Partido determina todos os aspectos da vida dos seus membros, seja o trabalho, a habitação, as relações amorosas e até os pensamentos. O Partido domina tudo desde a informação, a arte, a literatura até ao próprio passado chegando a reescrevê-lo várias vezes.

Presumo que o autor tenha criado esta "sociedade" a partir daquilo que se conhecia sobre os regimes totalitários que emergiam na Europa naquela época, principalmente o regime comunista, o fascismo espanhol, italiano ou português ou mesmo o Nazismo que já tinha terminado aquando da publicação do livro. No entanto, a distopia imaginada pela mente brilhante de Orwell tem um certo paralelismo com aquilo que vivemos hoje com a utilização massiva da Internet e das redes sociais. Aderimos, voluntariamente, a uma espécie de "Grande Irmão" que parece vigiarmos até os pensamentos no sentido em que uma determinada pesquisa faz com que sejamos bombardeados com outras publicações subordinadas ao mesmo tema, por exemplo. Ou a criarmos a nossa bolha nas redes sociais que nos faz acreditar que todas as pessoas pensam da mesma maneira e que concordam connosco.

"1984" é um livro importante para compreendermos a sociedade em que vivemos mas também para termos um vislumbre do que é viver sob o jugo de um regime totalitário baseado na existência de uma única pessoa/Partido. No entanto, não é um livro para qualquer pessoa. Não quero com isto dizer que é um livro para um certo tipo de intelectuais mas que o leitor que pega neste livro deve ter algum interesse e conhecimento em Política e em História mas tem que ter uma visão abrangente e clara da sociedade em que quer viver. Para mim "1984" pode ser uma perigosa arma na mão de alguns negacionistas e chalupas que pululam por aí.

"Lá fora, mesmo através da janela fechada, o mundo parecia frio. Em baixo, na ruam pequenos remoinhos de vento lançavam poeira e papéis rasgados em espirais e, ainda que o sol brilhasse e o céu se mostrasse de um azul severo, parecia não haver cor em nada, exceto nos cartazes afixados por toda a parte. O rosto de bigode negro mirava, sobranceiro, de cada canto e esquina. Havia um na fachada da casa mesmo em frente. O GRANDE IRMÃO ESTÁ A VIGIAR-TE,  dizia a legenda, enquanto os olhos escuros fixava  profundamente os de Winston."

 

 

"Debaixo de Algum Céu", Nuno Camarneiro

Charneca em flor, 19.09.21

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No passado mês de Agosto bati o meu recorde de livros lidos num mês. No total, foram 6 livros embora, para ser mais exacta, a leitura de "Debaixo de Algum Céu" começou em Julho mas foi terminada nos  primeiros dias das minhas férias. Ao que parece, ontem assinalava-se o Dia Internacional de ler um ebook e lembrei de que ainda não tinha partilhado a minha opinião sobre esta obra, que li na versão ebook.

Nunca tinha lido nada de Nuno Camarneiro embora tivesse ouvido falar nele na altura em que lhe foi atribuído o Prémio Leya 2012 por este livro.

A história passa-se nos dias que vão desde o Natal até ao Ano Novo e, maioritariamente, circunscritos a um prédio construído junto ao mar. Nesse prédio vivem as personagens, de várias idades e circunstâncias.Homens e mulheres, novos e velhos, crianças, idosos, jovens adultos e adolescentes.

Nuno Camarneiro leva-nos a espreitar pela janela e a descobrir a vida destas pessoas, os seus anseios, sonhos e problemas. Estas histórias podiam ser o relato da vida de qualquer um de nós ou de quem vive ao nosso lado. A maioria de nós vive em prédios, com toda a certeza. Às vezes nem conhecemos quem vive ali tão perto, não sabemos se sofrem ou precisam de ajuda. E foi nisso que as palavras de Nuno Camarneiro me fizeram pensar.

O autor  leva-nos a mergulhar, não na água do mar que se avista das janelas, mas nas vidas daquelas pessoas e a acompanha-las ao longo daqueles dias entre o ano que finda e o ano que começa. Sempre senti esses dias com alguma estranheza porque sempre me pareceu que já não pertencem ao ano que termina mas também ainda não pertencem ao novo ano. Também gostei muito de Nuno Camarneiro me levar a espreitar pela janela daquelas pessoas, eu que adoro espreitar, discretamente, pelas janelas sem cortinas. Não porque seja coscuvilheira mas por pura curiosidade pela maneira como as outras pessoas vivem.

Gostei muito deste livro. Nuno Camarneiro parece ser um grande observador de pessoas e um profundo conhecedor da natureza humana. O livro está muito bem escrito e é pontuado por frases sublimes. Só tive pena de não ter lido esta obra há mais tempo e fiquei interessada em ler mais obras dele. Infelizmente não são muitas.

"Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta da gente.

(...)

O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele."

 

 

 

 

A Pequena Farmácia Literária, Elena Molini

Charneca em flor, 28.08.21

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  • Este livro estava guardado, há uns meses, para ser lido neste mês de Agosto. O tema mensal do clube de leitura a que aderi #umadúziadelivros era "um livro veranil". Esta capa chamou-me a atenção na primeira vez que entrei na livraria que abriu, este ano, na rua onde trabalho. Achei que se adequava ao tema pelo que li na sinopse e por se passar em Itália, um dos meus países preferidos que rima com "férias" pelo menos para mim .

Realmente este livro cumpriu o seu objectivo, leve, divertido, adequado para ler na praia ou à beira da piscina entre um mergulho ou outro. Partindo de um facto verídico, a existência de uma farmácia literária propriedade da autora, é construída uma história engraçada, romântica e com muitos livros à mistura. Também chama a atenção para as dificuldades que enfrentam aqueles que ousam abrir uma livraria independente dos grandes grupos económicos e editoriais. 

O conceito de biblioterapia, ou seja, utilizar os livros como instrumento de prevenção ou cura em processos de doença psicológica ou alterações emocionais já existe há muitos anos aparecendo, pela primeira vez, num dicionário médico em 1941. A título preventivo pode ser aplicado por livreiros, como é o caso de Elena Molini, ou bibliotecários. Como tratamento é utilizado por alguns psicólogos.

Fiquei muito curiosa com o conceito ainda mais devido à minha profissão. Um dia destes, vou tentar convencer a proprietária da farmácia onde trabalho a organizarmos lá uma secção de biblioterapia .

Voltando ao livro, adequou-se ao tema mas não posso dizer que é um grande livro mas lê-se muito bem e distrai. E, às vezes, é só isso que é preciso.

"Sucede na vida sentirmo-nos perdidos, acabados. Sentirmos que nos estilhaçámos em mil pedaços, olharmos à volta sem saber por onde começar apanhá-los. Tentamos reconstruir o que se partiu para que tanto quanto possível volte a assemelhar-se a como era antes. Mas já não conseguimos juntar de novo esses pedaços. Não há maneira de encaixarem. E não encaixam porque na realidade não são os nossos.

Esses pedaços são todos os sábios conselhos que fomos seguindo ao longo dos anos, que pareciam tão sensatos, e que no entanto nos levavam para longe do nosso verdadeiro Eu. São todas essas decisões que tomámos por 《sim, vá, é melhor assim》, e contudo não era melhor assim, era só mais confortável."

 

Eliete - A vida normal, Dulce Maria Cardoso

Charneca em flor, 26.08.21

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Este mês de Agosto tem sido profícuo em leituras também devido ao facto de estar de férias desde dia 15. "Eliete" foi um dos primeiros livros que terminei. 

Um àparte que se impõe, as capas da Tinta da China são lindas, não são?!

Dulce Maria Cardoso não tem muitos livros publicados em comparação com outros escritores portugueses o que transforma cada obra sua numa preciosidade. Não que eu seja uma especialista já que este é, apenas, o segundo livro que leio dela para além das crónicas da Visão. No ano passado, li "O Retorno".

Outra curiosidade é o facto de ter escolhido este livro depois de ter lido este uma vez que, ambos os autores, utilizam a figura histórica de Oliveira Salazar como personagem de ficção.

"Eliete" é a história de uma mulher de 40/50 anos que se vê confrontada com o passar do tempo que lhe traz uma série de problemas como o envelhecimento e a deterioração da sua avó, uma das figuras mais importantes da sua vida. O livro começa num hospital, exactamente porque a sua avó sofre um acidente decorrente da deterioração da sua mente. Esse acontecimento vai despoletar em Eliete uma espécie de análise da sua vida, de quem ela se tornou e de quem ela queria ter sido. Regressamos com ela à sua infância, à adolescência e início da vida adulta. Todos esses pensamentos fazem com que Eliete comece a questionar tudo aquilo que se julgava garantido como o seu casamento, por exemplo.

Dulce Maria Cardoso aborda alguns assuntos muito interessantes como o envelhecimento e o apoio social aos idosos, a doença de Alzheimer ou a influência da internet e das redes sociais na nossa vida e na maneira como nos relacionamos com os outros mesmo com aqueles com quem vivemos. O subtítulo diz tudo, este é um livro sobre a vida normal porque a história de Eliete podia ser a história de qualquer mulher de meia-idade* mas contada de forma magistral como a autora tão bem sabe fazer.

A escrita de Dulce Maria Cardoso é tão cativante mas, ao mesmo tempo, sem grandes complicações o que faz com que a obra se leia com muita facilidade.

Este livro é a primeira parte mas a autora pretende que a história tenha continuação. Infelizmente, algumas circunstâncias da sua vida pessoal têm dificultado o desenvolvimento da história. Espero que  Dulce Maria Cardoso consiga desenvolver o que falta contar desta história porque eu já tenho saudades da Eliete.

"Assustava-me que três dias da minha vida tivessem desaparecido, que por mais que me esforçasse não conseguisse resgatar qualquer memória do que neles se tinha passado. Havia uma ameaça em tudo o que era incompreensível e o apagão, como passei a chamar-lhe, aterrorizava-me. Era natural que o choque da morte do papá tivesse provocado um curto-circuito na minha cabeça, se é que se podia assemelhar o cérebro a uma instalação eléctrica, mas era estranho que eu me lembrasse tão bem de tudo até ficar sozinha no quarto e que não tivesse uma imagem sequer do funeral e do velório do papá. Para onde tinham ido aqueles três dias que continham esses momentos tão importantes?"

 

*expressão horrível  .

"Deus Pátria Família", Hugo Gonçalves

Charneca em flor, 07.08.21

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O mais recente livro de Hugo Gonçalves é muito difícil de classificar. Será um romance histórico? Uma distopia, no sentido em que apresenta uma realidade histórica alternativa? Um policial? Não se consegue classificar porque é isso tudo e muito mais. Aquilo que se percebe é uma exaustiva pesquisa histórica de modo a que a ficção engendrada pelo escritor não seja desprovida de lógica. Aliás, nem sempre se consegue perceber onde acaba a verdade histórica e começa a genial criatividade da narrativa criada por Hugo Gonçalves.

O enredo centra-se, principalmente, no Portugal do início da década de 40 do século passado embora recue aos Estados Unidos dos anos 20, ao período que se seguiu à Primeira Grande Guerra.

A historia parte da premissa de que o afastamento de Salazar do poder conduz o país a uma certa radicalização de posições com o surgimento de uma nova personalidade ao comando dos destinos do país. Esta mudança leva Portugal a abandonar a sua neutralidade no conflito europeu*, unindo-se às Potências do Eixo com as consequências que daí advêm. Na mesma altura, a personagem central desta obra, o detective Luís Paixão Leal, vê-se a braços com a investigação acerca da morte de várias jovens mulheres cujos corpos são encontrados estranhamente amortalhados.

O livro está muito bem escrito provando que o acto de escrever um livro precisa tanto de inspiração como de transpiração. A história está muito bem trabalhada levando-nos a acreditar que esta realidade alternativa criada por Hugo Gonçalves podia muito bem acontecido. As personagens foram construídas com mestria e realismo. 

Só tenho uma coisa a apontar, achei as críticas à religiosidade exageradas, embora compreensíveis dado o enquadramento social e histórico bem como à história construída só que não era preciso ir tão longe. Mas talvez seja só a minha sensibilidade judaico-cristã a manifestar-se.

Este livro é mais um exemplo de que a literatura, mais do que distracção, deve levar-nos a questionar as nossas certezas bem como a sociedade que nos rodeia e o mundo em que vivemos. A acção de "Deus Pátria Família" decorre no século passado mas, infelizmente, muito daquilo que aqui se conta podia repetir-se nos dias de hoje.

"Este é o século em que as ideologias logram aquilo que só  a religião alcançou: convencer as massas da existência de um Paraíso. Os mecanismos são idênticos, substituindo-se Deus por um líder providencial. Mas, se a religião remete o bónus do Éden para depois da morte, o fascismo e o comunismo garantem a construção desse lugar perfeito ainda em vida. Cardoso já antecipa o descalabro de tanta ilusão e ortodoxia, a entrega com que muitos seguem um sistema de ideias como num culto suicida, sem um questionamento que seja. O detetive não embarca em cruzadas políticas ou espirituais."

*Segunda Guerra Mundial 

 

O Labirinto dos Espíritos, Carlos Ruiz Zafón

Charneca em flor, 22.07.21

IMG_20210630_184520.jpgPara o mês de Julho, no desafio Uma Dúzia de Livros, era proposta a leitura de um livro passado na nossa cidade favorita. A escolha não foi fácil uma vez que já passei por inúmeras cidades de que gostei muito. Optei pelo último livro da série "O Cemitério dos Livros Esquecidos" porque se passa numa das cidades mais interessantes que já visitei. "O Labirinto dos Espíritos" tem mais de 800 páginas mas lê-se com muita facilidade. De tal forma que, nas últimas páginas, fui tentando protelar o final porque não queria deixar as personagens que fazem parte da saga "O Cemitério dos Livros Esquecidos" como Daniel Sempere, Fermín, Bea, Juliáou mesmo as personagens novas como Alicia e o jovem Julian Sempere.

As histórias contadas por Carlos Ruiz Zafón são tão envolventes e cativantes que até o próprio leitor se sente uma das suas personagens. Neste livro, que fecha a saga, Zafón supera-se e fecha a história da família Sempere, e dos seus amigos, de forma magistral.
Para além da brilhante narrativa elaborada, o autor leva-nos pelas ruas de Barcelona de forma tão real que parece que nós também caminhamos por aquelas ruas acompanhando as maravilhosas personagens. Neste "Labirinto" descobrimos também o contexto histórico no qual se desenrola a acção, a Guerra Civil Espanhola e o pós-guerra. Conseguiu aguçar-me a curiosidade sobre esse período da História ibérica e europeia.
Não posso deixar de dizer que "O Labirinto dos Espíritos", bem como os restantes livros da saga, representa um verdadeiro hino de amor aos livros. Uma leitura, quase obrigatória, para todos aqueles que não prescindem dos livros na sua vida.

"Se os olhos não a enganavam, tinha caído no alto de uma enorme espiral, uma torre articulada em redor de um infinito labirinto de corredores, passadiços, arcos e galerias que parecia uma imensa catedral. Mas ao contrário das catedrais que conhecia, aquela não era feita de pedra.

Era feita de livros.

Os sopros de luz que caíam da cúpula revelaram aos seus olhos grupos de escadarias e pontes flanqueados por milhares e milhares de livros que entravam e saiam daquela estrutura."

 

"