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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Beloved, Toni Morrison

Charneca em flor, 27.06.22

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Junho já está quase a acabar e eu ainda não partilhei todos os livros que li em Maio. "Beloved" foi a escolha desse mês da Rita da Nova para o Clube do Livra-te. Esta obra desenrola-se à volta de uma história tão dura e pesada que me levou a não consegui a escrever sobre ele senão um mês depois de o ter lido.

A autora, Toni Morrison, foi distinguida com o Prémio Nobel da Literatura em 1993 e este livro ganhou o Prémio Pulitzer.  No entanto, um livro premiado, tal um vinho por exemplo, pode ou não ser adequado às nossas preferências. Tudo depende daquilo que nos faz sentir.

A trama principal de Beloved gira à volta de um facto verídico ocorrido em Kentucky em 1856. A autora parte desse acontecimento para nos mostrar o horror da escravatura a que tantos homens, mulheres e crianças foram sujeitos.

O processo de abolição da escravatura nos Estados Unidos da América foi gradual uma vez que, enquanto os estados no Norte optavam por acabar com essa prática desumana, os estados do Sul, onde existiam as grandes plantações, pretendiam perpetuá-lo. O papel deste diferente entendimento do trabalho escravo nos diferentes estados pode ter contribuído para a Guerra Civil Americana (Norte-Sul) mas esta influência é controversa historicamente.

Toni Morrison através deste romance e das suas personagens principais como a mulher negra Sethe faz-nos olhar para as sevícias a que os negros eram sujeitos nessa época e como isso pode ser determinante para "justificar" atitudes incompreensíveis das pessoas que vivenciaram algum tipo de tratamento desumano. A autora aborda, também, como certos actos irreflectidos podem gerar sentimentos de culpa que pesam na alma para o resto da vida. A culminar toda esta dureza e crueldade, no fim, o amor e a amizade acabam, de certa forma, por triunfar.

Não foi um livro fácil de ler o que prova que é aceitável não adorar tudo aquilo que é premiado. Não desisti de ler porque a vontade de perceber até onde esta história ia foi mais forte. No fim, acho que valeu a pena porque saí mais rica desta leitura. 

 

"Falava acerca do tempo. É-me difícil acreditar nele. Algumas coisas passam. Desaparecem. Outras limitam-se a ficar. Eu achava que era a minha memória. Tu sabes. Esquecemo-nos de algumas coisas. Outras nunca esquecemos. Mas não é  isso que acontece. Os lugares, os lugares permanecem. Se uma casa arde, desaparece, mas o lugar onde se encontrava, a sua imagem, fica, e não apenas na minha memória, mas também lá fora, no mundo. Aquilo que lembro e uma imagem que flutua fora da minha cabeça. Quero dizer, mesmo que não pense nela, mesmo que morra, a imagem do que fiz, ou conheci ou vi permanece lá. No mesmo sítio onde tudo aconteceu."

Spring, Ali Smith

Charneca em flor, 24.06.22

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Embora o Verão já tenha começado, o clima farrusco que se tem vivido nos últimos dias faz-nos pensar que a Primavera ainda não começou. Assim faz todo o sentido falar deste livro, "Spring". Este livro faz parte de uma tetralogia escrita pela britânica Ali Smith e que têm o nome das estações do ano. "Autumn" e "Winter" já li. Agora só fica a faltar o "Summer".

Embora se consiga estabelecer alguma ligação entre todas as obras, as histórias são independentes.

Em "Spring" encontramos 3 personagens centrais, um realizador de televisão em declínio, uma jovem que trabalha como segurança nas instalações de uma unidade de detenção de emigrantes e uma adolescente muito peculiar. Na parte inicial do livro, Ali Smith descreve alguns pormenores da vida do realizador e da jovem separadamente até que os seus destinos acabam por se cruzar.

Ali Smith volta a abordar alguns temas que já se encontravam nos outros dois volumes como sejam a velhice, a solidão, a política, a emigração ou os excluídos da sociedade, os invisíveis. Em "Spring", as condições de vida de um certo tipo de emigrantes é um dos temas que a autora mais desenvolve.

Pelo que me foi dado perceber, os nomes dos livros não tem, directamente, a ver com o espaço temporal em que as histórias decorrem mas sim com o ambiente que se vive. Neste caso considero que "Spring" tem a ver com a renovação e com a oportunidade de um certo recomeço que é dada às personagens. 

A escrita de Ali Smith continua a ser um dos pontos fortes e, provavelmente, é o mais cativante. A experiência de leitura em inglês continua a ser interessante e enriquecedora. 

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"There are much less bloody ways to hope for spring, the girl said. Better ways of working fruitfully with the climate and the seasons, than by sacrificing people to them. And anyway, you’re only doing it because some of you get off on the brutality. One or two people always do, always will. And the rest of you are worried that if you don’t do what everybody else is doing then the ones who get off on it might decide to choose you for the next sacrifice."

"April the anarchic, the final month, of spring the great connective. Pass any flowering bush or tree and you can’t not hear it, the buzz of the engine, the new life already at work in it, time’s factory."

 

P.S. - Obrigada, Rita da Nova, por me teres "apresentado" Ali Smith.

 

 

O Ano do Pensamento Mágico, Joan Didion

Tradução de Hugo Gonçalves

Charneca em flor, 14.06.22

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De vez em quando ouvia falar deste livro e fiquei curiosa porque as opiniões eram muito positivas. Por outro lado, não conhecia esta escritora uma vez que não sou muito entendida em literatura norte-americana. O formato que escolhi foi audiolivro para poder ouvir o livro enquanto fazia caminhadas.

"O Ano do Pensamento Mágico" é uma reflexão sobre a perda, o luto e sobre a maneira como lidamos com a circunstância de nos falecer uma pessoa muito próxima. O marido de Joan Didion, o argumentista John Gregory Dunne, sofre um enfarte quando o casal se prepara para jantar depois de visitarem a filha que está internada devido a uma infecção complicada. Muitos meses depois, Joan Didion debruça-se sobre a dor, relembra os pormenores que rodearam o episódio da morte bem como as recordações da vida que partilharam. Através da escrita, Joan abraça a sua dor, vive o luto e reaprende a viver ao mesmo tempo que acompanha a filha que, durante o ano que se seguiu à morte do pai, sofreu uma série de problemas de saúde muito graves.*

Este livro tocou muitos leitores. Por um lado, quem teve que lidar muito cedo com a partida de alguém, como eu, revê-se naquilo que Joan viveu e percebe aquilo que sentiu, ou que sente até hoje, no momento do luto. Mesmo quem nunca teve que lidar com a morte de alguém próximo, se sente tocado pela forma sincera como a autora se expõe e expõe a sua dor. "O Ano do Pensamento Mágico" é, sem dúvida, um livro muito especial.


"《Trazê-lo de volta》 tinha sido durante meses, a minha missão escondida, um truque de magia. No final do verão, comecei a ver isso mesmo com clareza. 《Ver isso com clareza 》 não me permitia ainda oferecer as roupas de que ele iria precisar.

Em tempos conturbados, e eu tinha sido treinada, desde criança, a ler, a aprender, a
trabalhar, a ir em busca da literatura. Informação era controlo. Tendo em conta que a dor da perda continua a ser a maleita mais comum, a literatura que lhe é dedicada pareceu-me notavelmente escassa."

*Quintana Dunne, filha adoptiva de Joan Didion e John Dunne, acabou por falecer enquanto o livro da mãe estava a ser lançado. Este novo incidente trágico levou Joan Didion a escrever o livro "Blue Nights"

"A Filha do Guardião do Fogo, Angeline Boulley

Charneca em flor, 03.06.22

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No âmbito do Clube do Livra-te, um dos livros que li no mês de Maio foi "A Filha do Guardião do Fogo" de Angeline Boulley, escolhido pela Joana da Silva.

Esta obra foi uma excelente surpresa. Inicialmente, pensei tratar-se de um livro muito conotado com o estilo "young adult" mas não tem nada a ver. Este livro saiu há pouco tempo em Portugal e foi traduzido por uma jovem muito activa no Bookstragram*, Elga Fontes. A autora aborda várias problemáticas que, a meu ver, se conjugam na perfeição.

A personagem principal é uma inteligente jovem de mãe branca, de uma das famílias mais abastadas da cidade, e de pai nativo-americano. Embora sinta algumas dificuldades em se integrar quer numa comunidade quer na outra, vai tentando chegar a um certo equilíbrio embora a sua vida recente tenha passado por alguns percalços. De repente, a cidade começa a ser abalada por acontecimentos trágicos onde Daunis se vê, inesperadamente envolvida. 

"A Filha do Guardião do Fogo" tem inúmeros ingredientes que tornam a leitura cativante como sejam mistério, crime, romance e cultura indígena americana. Apercebi-me de que pouco mais sei da realidade nativo-americana do que aquilo que Hollywood nos mostrava nos antigos westerns e os indígenas eram, quase, sempre os maus. Confesso que fiquei fascinada e com vontade de saber mais. Um dos pormenores desta cultura, ou pelo menos da tribo retratada no livro, é o respeito pelos mais velhos. A relação com os elementos mais idosos da comunidade é encantadora.

Em suma, gostei muito deste livro e recomendo-o a quem aprecie conhecer uma cultura diferente mas que também goste de mistério e romance.

"Repouso sobre uma grande rocha, numa ilha de pedra rodeada de bosques. A chuva acabou de parar; gotas pesadas escorrem dos ramos e pingam quando se encontram no chão da floresta. Uma brisa agita as árvores, transformando-as em sinos de vento. Os últimos vestígios de chuva escorrem agora em salpicos mais suaves. Os pedregulhos roncam, baixos e constantes. A luz do Sol penetra a cobertura da floresta lançando feixes que despertam os amores-perfeitos adormecidos.
À esquerda, há uma pequena fogueira rodeada pelas pedras do avô. A este. O seu fumo sobe, convocando orações nas cadências melódicas de Anishinaabemowin. À
minha frente, a sul, há outra fogueira com mais avôs e orações transportadas em fumo cinzento. A minha direita, a oeste, os avos aguardam. Ainda não há fogo. Atrás de mim, a norte, mais Avôs pacientes.
Os amores-perfeitos cantam para mim. Circundam a rocha, pontilhando a periferia com caras amarelas e roxas, balançando suavemente. Todas estas vozes que se misturam. Adiciono a minha, avançando através do refrão até encontrar um nicho que a minha voz preencha, para tornar a canção completa.

Este mundo existe para lá de qualquer contentamento e beleza que alguma vez conheci."

 

*páginas de Instagram onde se publicam, maioritariamente, conteúdos relacionados com livros e literatura.

"Vera Lagoa, Um Diabo de Saias", Maria João da Câmara

Charneca em flor, 20.05.22

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Inspirada pela estreia da 2a temporada das "3 Mulheres", resolvi pegar, finalmente, na biografia de Maria Armanda Falcão, mais conhecida por Vera Lagoa.

Esporadicamente, gosto de ler este género literário e aprecio biografias de mulheres fortes como é o caso de Maria Armanda Falcão. Há pessoas cujas vidas são mais surpreendentes que a própria ficção.

Ainda antes de se tornar Vera Lagoa, Maria Armanda Falcão esteve sempre do lado contrário a quem estava no poder. A sua consciência política foi despertada pelo pai, militar que caiu em desgraça depois de ter participado no Reviralho. Devido a essa circunstância, acabou por não ter uma educação escolar regular mas isso não a impediu de ser uma figura incontornável e incómoda do jornalismo português dos anos 70 e 80. Mulher de armas e trabalhadora, teve o privilégio de privar com grandes figuras do panorama cultural português como os seus grandes amigos Natália Correia ou Luís de Sttau Monteiro. A sua entrada no mundo do jornalismo aconteceu pela mão de Francisco Pinto Balsemão que a convidou para escrever uma crónica no jornal "Diário Popular". Assim nasceu a misteriosa figura, Vera Lagoa.

Antes da Revolução dos Cravos, participou activamente na campanha eleitoral de Humberto Delgado e ajudou presos políticos bem como as suas famílias. Embora tenha recebido o fim da ditadura com entusiasmo, cedo se desiludiu com os excessos cometidos pelos novos poderosos* nos primeiros anos da democracia. Como foi capaz de colocar o dedo nessas feridas, acabou por sofrer o afastamento de alguns dos seus amigos e conhecidos. Vera Lagoa foi sempre fiel às suas convicções nunca deixando de dizer aquilo que pensava sem se deixar intimidar seja por quem fosse. Essa postura valeu-lhe processos judiciais e ataques bombistas aos jornais onde trabalhou.

Este livro descreve-nos, profundamente, a riquíssima vida desta mulher destemida que encontrou nas palavras, a sua arma. Mas a autora não se limita ao trabalho biográfico à volta desta figura, Maria João da Câmara apresenta-nos, também, um detalhado retrato de Portugal nas últimas décadas do séc XX.

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"Há mulheres assim. Mulheres que, pela sua forma de ser e de estar, não passam despercebidas. Mulheres cuja voz se faz ouvir, ainda que muitos silêncios pretendam pesar sobre elas. Porque incomodam. Porque são diferentes. Porque vão contra as correntes - de ontem e de hoje. Porque são, afinal, mulheres fortes.

Conhecida como a primeira locutora da RTP, Maria Armanda FaFalcão oi despedida por se recusar a cumprir uma ordem com a qual não concordava. Foi sempre assim, de personalidade vincada, pelo que ser seu amigo nao era fácil nem cómodo.' Tendo começado, em 1966, a escrever no Diário Popular pequenas crónicas com o título sugestivo (e por ela odiado) de 《Bisbilhotices》, o sucesso de Maria Armanda Falcão adveio não apenas do que escrevia e de como escrevia, mas também de utilizar um pseudónimo - Vera Lagoa -, que adensou o mistério e aguçou a curiosidade sobre a sua identidade. O publico revia-se nos seus textos (e temia-os) e, se não comprava o Diario Popular por causa da coluna de Vera Lagoa, não deixava de a ler com grande curiosidade.

Tuteando tudo e todos, directa e vocative, usava uma linguagem coloquial, muito própria e muito nova: a sua coluna era viva, jocosa, imprevista, muito mordaz, que dissecava, descobria e revelava a sociedade portuguesa. Apesar das limitações da época, Vera Lagoa conseguiu simultaneamente gracejar com ministros, denunciar miserias e vicios de grandes e pequenos, de falsos ídolos, de pretensiosos, de arrivistas."

 

 

*Refiro-me ao tempo do PREC, do Verão Quente, das acções da Esquerda Radical do MFA e à  criação do Conselho da Revolução.

 

Mil Sóis Resplandecentes, Khaled Hosseini

Charneca em flor, 06.05.22

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Este livro foi mais uma sugestão para o mês de Abril do Clube do Livra-te. Desta feita, a escolha foi da Rita da Nova.

O pano de fundo deste romance é o Afeganistão desde os anos 60 (ainda no tempo da Monarquia) até ao início deste milénio passando pela Revolução Marxista, e consequente invasão soviética, pela guerra entre as forças governamentais (apoiadas pela URSS) e os Mujahidin, seguida pela guerra civil entre grupos rebeldes e que terminou com a vitória dos Talibã chegando à invasão norte-americana posterior aos atentados do 11 de Setembro.

As figuras centrais deste romance são 2 mulheres de gerações diferentes, Marian e Laila, que acabam por se casar com o mesmo homem em circunstâncias muito díspares. Através delas conseguimos perceber perfeitamente as condições de vida a que as mulheres afegãs estavam, e continuam a estar, sujeitas.

O contexto histórico e político está muito bem entrelaçado na narrativa de forma a que este não se torne aborrecida. A construção das personagens é excelente. Não são lineares, têm várias camadas e vão evoluindo ao longo dos anos, com tudo aquilo que lhes vai sucedendo. O autor consegue que o leitor estabeleça uma conexão empática com Laila e Marian embora de forma diferente e evolutiva.

Para além da condição feminina imposta pelo ambiente social que se vive, é abordada a violência doméstica de forma tão realista que quase conseguimos sentir as dores destas 2 mulheres.

"Mil Sóis Resplandecentes" é um livro perturbador, duro, que abala as nossas certezas e que nos confrontam com uma realidade muito diferente da nossa realidade ocidental. Este livro encaixa na categoria dos livros que, mais do que uma fonte de distracção, nos fazem reflectir sobre a natureza humana, sobre a maldade e sobre tudo aquilo que falta fazer para construirmos uma sociedade mais justa e um  futuro mais digno para todos. E ler esta obra fez-me sentir grata porque a lotaria da Vida me fez nascer num país onde ser mulher é diametralmente diferente daquilo que significa sê-lo no Afeganistão, principalmente neste tempo em que vimos regressar os Talibãs ao poder, ainda que em versão 2.0.

Em suma, ainda bem que a Rita da Nova sugeriu este livro porque de outro modo não teria pegado nele perdendo uma óptima oportunidade de enriquecimento pessoal.

"- Lamento - diz Laila, achando espantoso que as histórias de todos os afegãos sejam marcadas pela morte, pela perda e por inimagináveis desgostos. E no entanto, como ela testemunha, as pessoas acham maneira de sobreviver, de seguir em frente. Pensa na sua própria pria vida e em tudo o que lhe aconteceu, e admira-se por também ela ter sobrevivido, por estar viva e sentada naquele taxi a ouvir a história daquele homem."

 

Lizzie & Dante, Mary Bly

Charneca em flor, 26.04.22

IMG_20220425_215939.jpg"Lizzie & Dante" foi o livro escolhido pela Joana da Silva, do Clube do Livra-te, para o mês de Abril. 

Quando percebi que a história se desenrolava numa ilha italiana, fiquei logo interessada. Como não tenho viajado nestes 2 últimos anos, este livro foi uma excelente maneira de "viajar" até um cantinho da "minha" Itália.

A ilha é Elba onde eu nunca fui mas que é conhecida por ter sido a ilha onde Napoleão Bonaparte esteve exilado. 

Este livro aqueceu-me a alma e o coração. "Lizzie & Dante" sabe a Verão, a vinho italiano, a limoncello, a pasta e cheira a maresia. Embora me tenha sabido bem em Abril é, nitidamente, um livro de Verão, para ler à beira-mar ou à beira da piscina.

Lizzie é uma professora, especialista em Shakespeare, que enfrenta um grave problema de saúde. Elba é o seu destino de férias, talvez o último, na companhia do seu melhor amigo, Grey, e do companheiro deste, Rohan, um famoso actor de Hollywood. Um dia na praia "tropeça" num charmoso Chef italiano, Dante, que traz na bagagem uma filha e uma cadela. E o resto fica para descobrirem quando lerem o livro.

Uma história comovente onde o passado se cruza com o presente e se embrulha no futuro. Uma história de dor, amor, amizade e vontade de viver regada com o melhor vinho italiano e alimentada a antipasti, prosciutto e mozarella. Em suma, abre o apetite.

"Lizzie & Dante" tem a leveza das histórias românticas mas tem também algumas sombras para contrabalançar. Gostei muito deste livro mas fiquei com pena de não ter lido em inglês. Na minha opinião, a edição portuguesa deixou um pouco a desejar, pelo menos, na versão digital. Nalgumas passagens senti que faltavam frases, parecia não haver ligação de um parágrafo para outro. Não sei se estava assim, originalmente, ou se foi da tradução ou alguma falha da revisão do livro. Outro pormenor é que a acção parece ser muito rápida nalgumas passagens e excessivamente lenta noutras. O final não é tão previsível como se poderia pensar ao longo do livro.

Tendo em conta que me deu muito prazer lê-lo, a minha classificação é 

⭐⭐⭐⭐

"Afastou as cortinas de linho e empurrou para trás as pesadas persianas de madeira. O mar parecia verde-escuro perto da costa e amarelo nohorizonte, onde o Sol nascia. Guarda-sóis cor-de-rosa com franjas esvoacavam à direita, onde a areia fora varrida como um jardim de pedras japonês.

À esquerda, ficava a praia pública. Os guarda-sóis ainda estavam atados, as cadeiras dobradas. Uma fieira de algas de um cinzento-esverdeado tinha acostado a beira-mar e ali deixada pela maré. Na noite anterior, o ar era inebriante com um perfume a flores, mas agora apresentava-se fresco e limpo, com uma delicada coloração do mar.
Elba era sedutora de manha cedo. A água parecia renda num voltear de espuma, quando se juntava à areia e, sustivesse a respiração, conseguia ouvi-la embater na costa."

 

 

"Torto Arado", Itamar Vieira Junior

Charneca em flor, 24.04.22

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Ao ver o anúncio de que este fantástico livro será adaptado para uma série da HBO Max, reparei que ainda não tinha partilhado por aqui a minha experiência de leitura de "Torto Arado". 

O ponto de partida para esta história é um acontecimento dramático envolvendo as duas irmãs, ainda crianças, Belonísia e Bibiana, que influencia a relação que se estabelece entre elas ao longo da vida bem como a forma como as suas vidas se irão desenrolar. Paralelamente, tomamos contacto com a realidade em que a família vive. Belonísia e Bibiana nasceram numa família de quilombolas. Os quilombolas são homens e mulheres livres que descendem dos escravos e, para sobreviverem, aceitam trabalhar para os fazendeiros em troca da possibilidade de construir uma casa de barro, para não se tornar definitiva, bem como espaço para cultivarem os seus alimentos. No fundo, é uma forma de escravatura encapotada. Acompanhamos esta família na sua luta pelo direito à educação, ao direito à habitação e ao seu justo rendimento.

Com "Torto Arado", aprendemos a construir a empatia dentro de nós por aqueles com poucos, ou nenhuns direitos, e muito poucas oportunidades. Mais um livro para nos fazer pensar e olhar à nossa volta, para além do nosso umbigo.

Uma excelente leitura. Tenho a certeza que fará da parte da minha lista de preferidos do ano.

"Mesmo muito depois de o carro ter deixado a fazenda e a familia ter se recolhido aos seus afazeres, Belonisia permaneceu à porta mirando a estrada e tudo o mais que não podia ver de onde estava. Bibiana se levantou da mesa, onde iria iniciar a correção dos cadernos, e se dirigiu até à irmã. Envolveu-a por trás, enlaçando os braços em sua cintura, aninhando seu rosto entre o ombro e a orelha. Belonísia segurou suas mãos. Juntas fecharam os olhos compartilharam a dádiva daquele instante. Entregaram-se àquele gesto por inteiro e experimentaram algo que poderiam chamar de perdão."

 

 

 

"A Mais Breve História da Rússia", José Milhazes

Charneca em flor, 07.04.22

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A incredulidade perante o actual conflito em solo ucraniano levou-me a procurar alguma informação histórica porque acredito que para compreendermos o presente é necessário conhecer o passado. Perante este pressuposto foi com satisfação que ouvi falar da recente publicação desta "A Mais Breve História da Rússia" de José Milhazes. Este jornalista foi correspondente, de vários meios de comunicação social diferentes, em Moscovo durante muitos anos. José Milhazes tornou-se, nos últimos meses, uma presença assídua nos blocos noticiosos da SIC como comentador de política internacional especialmente no que à Rússia e à invasão da Ucrânia diz respeito. Tendo em conta a sua formação em História da Rússia, achei que era um bom livro para começar a tentar compreender aquela região.

Tal como o título anuncia, esta obra constitui uma abordagem muito breve à História da Rússia bem como a sua estreita ligação à Bielorrússia e à Ucrânia. Apesar da densidade do tema, a escrita de José Milhazes é muito acessível e permite perceber como aquela região foi, sempre, muito conflituosa o que levou a que, ao longo dos tempos, as fronteiras entre aqueles países nunca tenham sido muito claras e definidas. Não que isso justifique, seja de que forma fôr, a invasão perpetrada pela Rússia na Ucrânia.

No final do livro, o autor elenca uma lista bibliográfica exaustiva com livros de não-ficção e de ficção que possibilitam um conhecimento mais profundo sobre a História, a sociedade e a cultura russa e a sua influência sobre os países vizinhos.

A meu ver, recomenda-se a leitura deste livro para ter uma visão abrangente, ainda que limitada, deste país gigantesco governado por quem desencadeou este conflito que, mesmo longe, influencia as nossas vidas. A matrioska é uma boa metáfora para aquilo que é este país e o seu passado. Quando pensamos que chegamos ao âmago da questão, descobrimos sempre mais algum pormenor.

 

"Foi palco de inúmeros acontecimentos e conflitos, de expansões e invasões, de conquistas e derrotas, mas soube preservar o seu principal núcleo, uma civilização com um papel de charneira entre a Europa e a Asia, detentora de uma cultura rica e de uma massa humana que se distingue em muitos domínios do conhecimento e das artes. A extensão e diversidade deste enorme território, que alcança os limites geográficos da Eurásia, torna a Rússia, aos olhos de muitos, difícil de ser entendida como um pais, mas a uniformidade das suas características civilizacionais desaconselha a que se tenha dela visões redutoras. Foi difícil escrever este livro pois uma breve história implica uma selecção dos factos mais importantes, o que lhe dá um cunho muito pessoal e subjectivo. Mas o seu objectivo é meritório, pretende dar ao leitor uma ferramenta útil para a compreensão da vida passada e presente do maior país do mundo. Saber como surgiu e se desenvolveu um país que ao longo da sua história teve varios nomes - Rus, Moscóvia, Império Russo, União Soviética, Federação da Rússia"

"O momento em que nos perdemos" Maria José Núncio

Charneca em flor, 31.03.22

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No mês de Março li mais um livro sugerido pelo Clube do Livra-te, desta feita uma escolha de Rita da Nova. As premissas para as escolhas do podcast Livra-te para o mês que hoje termina foram duas efemérides que se assinalam no mês de Março, o Dia Internacional da Mulher e o Dia do Livro Português.

Maria José Núncio, doutorada em Sociologia, tem uma presença assídua na televisão portuguesa já que participa numa rubrica de crónica criminal. Neste livro acompanhamos as vidas, que se cruzam a dada altura, de Toni e Maria dos Remédios que tiveram uma vida glamorosa nos anos 80 mas que acabam por cair em desgraça. A autora conduz-nos através destas páginas para percebermos os caminhos que ambos escolheram e que os levaram ao que vivem na actualidade.

Toni é um homossexual que foi expulso de casa pelo pai, um burguês conservador, no dia do funeral da mãe, em 1974. Maria do Remédios foi a única sobrevivente da família nas cheias de 1967 e foi entregue à madrinha que a criou. As suas vidas cruzam-se na Lisboa dos anos 80, ela como modelo e ele como decorador, e entre os dois nasce uma amizade que se prolonga pela vida fora acompanhando as mudanças que a cidade atravessou até à actualidade. 

Gostei muito deste livro principalmente porque me fez viajar no tempo embora eu não tenha vivido as mesmas experiências que estas duas personagens. Só tenho pena que a autora não tenha desenvolvido mais a história. O tema era tão interessante que merecia muito mais.

"Mas éramos tão ingénuos... Tão ingénuos que acreditámos que tudo duraria para sempre, esquecendo-nos de que fomos nós, com as nossas tendências, quem  precisamente, inaugurou a efemeridade: das roupas e da fama. E pagámos o elevado preço do esquecimento e do anacronismo. A decadência dos lugares justapunha-se à nossa própria decadência."