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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

10
Mai19

Salvação, Ana Cristina Silva

Charneca em flor

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Já diz o povo "Santos da casa não fazem milagres" ou "Ninguém é profeta na sua própria terra". Esta escritora é minha conhecida. Já nos temos cruzado na cidade onde trabalho. Ana Cristina Silva já publicou várias obras tendo, inclusivé, ganho 2 prémios literários. Eu nunca tinha lido nada dela até agora. O tema central de "Salvação" é o luto, a maneira como um escritor, que perde a mulher, lida com o processo de luto. A mulher, no leito de morte, pede-lhe escreva um romance para lidar com a partida dela. Então o homem transfere a sua dor para um personagem que passa pela mesma perda. Assim há uma história dentro da história, muito bem encadeadas. A autora aborda, também, os extremismos religiosos fazendo um paraleslismo entre a actualidade e o tempo da Inquisição.

O processo do luto é diferente para todas as pessoas. E há vários tipos de luto seja  pela perda de alguém fisicamente, seja pelo fim de uma relação amorosa ou de amizade, seja porque nos perdemos a nós mesmos. O luto é necessário para conseguirmos seguir em frente, sem esquecer o passado mas vivendo o presente e não o que já não volta. A meu ver, é isso que Ana Cristina Silva consegue demonstrar com o seu romance. Afinal, seja qual for a dor há sempre "Salvação".

"No preciso momento em que formulo estas perguntas, elas deixam de me importar, ainda que suspeite que poderão voltar a interessar-me. O sofrimento do luto é assim: um longo corredor que não é possível passar a correr. Esta foi a única coisa que aprendi nos últimos dois meses."

02
Abr19

A morte do comendador, Haruki Murakami (vol I)

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Começo já por dizer que sou fã incondicional de Murakami. Já li vários livros deles embora só hoje tenha reparado que só fiz, aqui, 2 posts sobre livros dele. Imagino que tenha sido porque as histórias de Murakami são tão apaixonantes e envolventes que me deixam sem palavras. Aliás, este deixou-me literalmente de boca aberta sem conseguir dizer nada porque acabou de uma forma abrupta. Tudo para abrir o apetite para ir à procura do II volume. 

A figura central deste romance é um pintor de retratos encomendados é surpreendido pela decisão da mulher se separar dele. O seu mundo fica virado do avesso. Depois de fazer uma longa viagem pelo norte do Japão, vai viver para a casa do pai de um amigo que ficara vazia quando o proprietário vai para um lar. A casa fica numa montanha, num lugar isolado. Parece o lugar ideal para voltar a pintar como na juventude mas a inspiração não aparece até que o personagem principal/narrador conhece um homem estranho mas fascinante que lhe encomenda o seu próprio retrato. E esse encontro vai ser primordial para que o pintor reencontre a sua arte. O génio e o estilo peculiar do escritor japonês prenderam-me até à surpresa da última página. Os acontecimentos estranhos, fantasiosos e inverossímeis voltam a ter presença ao longo da história.

Tal como noutras obras, Murakami entrelaça outras formas de arte na literatura como sejam a pintura e a música. Dei por mim a procurar óperas no Youtube e quadros no Google. Ler Murakami é sempre sinónimo de momentos muito bem passados.

"Só se avistava uma fiada de luzinhas de presença. Como pouco antes, não se ouvia um pio. O que teria acontecido aos insectos?

Passada um bocado, captei um barulho insólito. Ou seria imaginação minha? Um som praticamente inaudível. Se os insetos estridulassem, como era seu apanágio, provavelmente não teria dado por ele, mas o excessivo silêncio permitiu-me ouvi-lo. Retive a respiração e pus-me à coca. Os insectos não eram para ali chamados. Aquele som nada tinha de natural. Era o som produzido por um utensílio ou um instrumento. Uma espécie de tinido. Se não era de um sino, andava lá perto."

15
Mar19

Becoming por Michele Obama

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Quando tenho oportunidade gosto de ir à biblioteca da cidade onde trabalho. O edifício é muito bonito e fica junto ao rio o que torna o passeio muito agradável. Numa dessas vezes qual não é o meu espanto quando dei com Michele Obama a sorrir-me.

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Como sou grande admiradora do casal Obama, trouxe o sorriso comigo. “Becoming" correspondeu às minhas expectativas e foi para além delas. A história de vida de Michele Obama prende-nos desde a primeira à última página . A ex-primeira dama conta-nos a sua infância num bairro de Chicago e partilha connosco a sua imensa família. Fala da importância da educação e de como os seus pais sempre a estimularam assim como ao irmão a estudarem e a prepararem-se para terem um bom futuro. Conta-nos como se teve que esforçar muito mais por ser negra e por ser mulher. Percebemos como é que conheceu Barack Obama, como é que se foi apaixonando e até espreitamos o primeiro beijo.

Michele faz-nos uma visita guiada ao percurso político do marido, às campanhas e à chegada à Casa Branca com tudo o que isso teve de bom e de mau. 

A ex-primeira dama mostra-nos que, apesar do sítio onde nascemos e crescemos, é possível ver adiante e aspirar a uma vida diferente. Michele Obama é um exemplo a seguir por qualquer pessoa, independentemente do sexo, cor ou religião.

O livro lê-se com muita facilidade. Há imensas passagens que me tocaram mas escolhi uma que me fez sentir muito próxima de Michele Obama. Quando chego a uma terra que não conheço, sinto-me tal e qual como ela o descreve mas nunca o tinha conseguido explicar por palavras. 

"Senti a estranheza de Nairobi – ou, na verdade, a minha estranheza em relação à cidade – logo à chegada, ao despontar do dia. É uma sensação que aprendi a apreciar quando comecei a viajar mais, a forma como um lugar novo se revela instantaneamente e de modo flagrante. O ar tem uma densidade diferente daquela a que estamos habituados; está impregnado de odores que não conseguimos identificar ao certo, um farrapo de fumo de lenha ou gasóleo, talvez, ou o cheiro adocicado de árvores em flor. O Sol nasce, mas parece um pouco diferente do habitual."

20
Fev19

"António Variações, Entre Braga e Nova Iorque", Manuela Gonzaga

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Gosto de ler biografias. Há pessoas que viveram a sua vida de forma tão intensa que a sua história quase que parece ficção. Este é já a segunda obra de Manuela Gonzaga que leio. Este livro reflecte um intenso trabalho de pesquisa da autora para nos dar a conhecer um pouco daquilo que foi a vida deste ímpar artista português. A sua passagem pelo panorama musical português foi efémera. O seu primeiro single saiu em 1982 e ele faleceu em 1984 mas marcou de forma indelével a música portuguesa sendo cantado até aos dias de hoje. Com Manuela Gonzaga descobrimos a infância numa aldeia minhota, a sua relação com a família, o seu gosto pela música que começou desde cedo, a sua vinda ainda adolescente para Lisboa, a passagem pela tropa, as suas viagens, as suas amizades, o desenvolvimento do seu trabalho como barbeiro e o seu caminho até ao estrelato como cantor abordando, obviamente, a estranheza que a figura de António Variações provocou na sociedade portuguesa.

Entre os vários factos que descobri sobre o artista, o que achei mais curioso foi o facto de António Variações não saber absolutamente nada de música, nem uma nota. Mesmo assim deixou um espólio musical fantástico. O método de composição utilizado para que os músicos o pudessem acompanhar é inacreditável. Claro que não posso contar senão mais ninguém lia o livro.

Para além da vida de António Variações, Manuela Gonzaga faz um excelente retrato social do país desde a década de 40 até à década de 80. Só por isso já valia a pena ler o livro.

Eu tinha apenas 8 anos quando ele desapareceu mas tenho uma vaga memória de o ver na televisão. No entanto, sou fã incondicional da sua obra.

"Quando, em Junho de 1982, surge no mercado o maxi single Estou Além, cujo lado B contém uma versão difícil de qualificar de 《Povo que lavas no rio, dedicada a Amália 《minha fonte de inspiração》, o mote estava dado. Um barbeiro que recusava o título de cabeleireirom servido por uma voz de sonoridade inqualificável, caíra na alçada da música pop, irrompendo no mundo da música ligeira portuguesa através daquilo que  alguns, muitos, consideraram uma heresia"

 

 

 

 

01
Fev19

"O Coro dos Defuntos", António Tavares

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Afinal, o  meu desafio literário está a correr muito bem. Já consegui ler 2 livros este ano . Ontem de manhã terminei "O coro dos defuntos", Prémio Leya de 2015. O relato situa-se, em termos de espaço físico, numa aldeia das Beiras com algumas passagens pela emigração portuguesa pelos Estados Unidos  e pela Europa. Em termos temporais decorre de 1968 até 1974. O autor criou uma série de personagens fantásticas que habitam na aldeia que serve de pano de fundo às várias histórias, o taberneiro, a vidente que tanto ajuda a nascer como parteira como a seguir arranja os mortos para a sepultura, a prostituta, o padre, uma viúva negra que enterra uns quantos maridos. Enfim, um livro muito sui generis, irónico, um excelente retrato de portugalidade, um instântaneo de uma certa época. O que eu achei mais curioso foi o vocabulário de que até já falei no post anterior. Andei eu intrigada com as estranhas palavras que fui encontrando ao longo do texto e no fim do livro até havia um glossário. Se calhar tenho que ler o livro todo outra vez mas indo consultar o significado das palavras. Recomendo a leitura deste "O coro dos defuntos" especialmente a quem tiver curiosidade sobre o país pré-revolução de Abril.

"Diz ela que numa manhã dos primeiros dias de Agosto a avó voltou a ter achaques inusitados. Insistia em que sonhava com um velho a dar uma queda. O homem ia para se sentar numa cadeira e esta não estava no seu sítio. Diz que em todo o sonho se ouvia o som cavo do mar, como já é raro nos meses de estio. Mas ouvia- se."

"A dona Rainha pouco se importou. No fundo, toda a aldeia lhe era indiferente. Assumia um ar de superioridade  como se reinasse de forma efectiva. Era das poucas mulheres que não descia a uma leiva ou a um tremendal nem na altura das natalícias avencas, do tremoço ou das favas. Quando passava defronte da taberna do Tritão, os homens, como lagartos ao sol atascados no mais vil dos carrascões, chamavam-lhe regalona, forma tentadora e sensual que era quase um convite a fazerem notar a sua disponível virilidade; ela, inquieta como a mulher com andar de cabra de Cesário que passa rápida junto aos calceteiros, nem os via. Era certo que os escutava naquele regalona, arrastado pelas línguas encortiçadas do álcool, e que um frémito lhe percorria o espinhaço e a fazia revessar das entranhas mais íntimas, mas nunca os deixava  notar."

P.S. - leiva - terreno de agricultar; tremedal - terreno alagadiço; regalona ou regalório - grande prazer.

27
Jan19

E como vão as leituras?!

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Tenho falado por aqui da minha vontade de ler mais. Assim sem dar por isso já li um livro este mês e o outro já vai a mais de meio. Em termos de ebooks, até fui mais acelerada. Tenho estado a ler a série "A pousada de Sunset Harbour" de Sophie Love na app Livros da Google. Só tem o defeito de ser em português do Brasil. Não é uma obra-prima da literatura mas é uma história de superação dos obstáculos e das dores do passado e uma linda história de amor. Quem não gosta?! Já li 5 livros da série mas agora tenho que esperar que apareçam os restantes traduzidos em português.

O livro que estou a ler agora foi Prémio Leya em 2015. Passa-se durante os últimos anos da nossa ditadura, numa aldeia beirã. O autor utiliza inúmeras palavras que desconheço. Vou partilhar algumas por aqui.

Começando:

Lapúrdio - Na frase "Diz ela que havia três cavadores na aldeia, qual deles mais lapúrdio."

Procurando pelo significado não encontrei grande informação a não ser que lapúrdio quer dizer o mesmo que lapuz. Sendo que lapuz quer dizer " homem grosseiro, rude, labrego"

15
Jan19

Laços de Família, Clarice Lispector

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Só conhecia Clarice Lispector das citações que aparecem um pouco por todo o lado. Nunca tinha lido nada dela. Já tinha pesquisado sobre ela e já sabia que ela não tinha nascido no Brasil mas sim na Ucrânia e que tinha tido uma vida muito complicada. Não sei se comecei pela obra mais indicada. O livro lê-se muito bem até porque são pequenos contos. Todos eles têm como protagonista, uma mulher e a sua relação com a família. Todas essas mulheres vivem situações limite a nível psicológico. Através destas histórias confrontamo-nos com os nossos próprios fantasmas anteriores. Assim que possível vou tentar ler outro livro dela.

"É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade. Vaidade que diminuíria quando ela acrescentasse que também amava muito o anel do explorador e que amava muito a bota do explorador. E quando este desinchasse desapontado, Pequena Flor não compreenderia por quê. Pois, nem de longe, seu amor pelo explorador - pode-se mesmo dizer seu "profundo amor", porque, não tendo outros recursos, ela estava reduzida à profundeza - pois nem de longe seu profundo amor pelo explorador ficaria desvalorizado pelo fato de ela também amar a sua bota."

04
Jan19

Guerra e Paz, Lev Tolstoi

Charneca em flor

Quando se viaja para um país estrangeiro, há várias maneiras de o conhecer. Pelas paisagens, pelos monumentos, pela música, pela gastronomia, pelos mercados e supermercados para nos misturarmos com os locais ou pela literatura. Já por várias vezes que continuo a viajar através dos livros que leio. Quando voltei da Hungria, li "As velas ardem até ao fim" de Sandór Márai e quando voltei dos Balcãs li "A ponte sobre o Drina" do Prémio Nobel Ivo Andrić. No último Verão estive em São Petersburgo na Rússia. Quando voltei não descansei enquanto não comprei o clássico da literatura "Guerra e Paz". Meti-me numa grande empreitada que durou de Setembro até Dezembro. E ainda só li o primeiro volume. 

Para quem gosta de literatura era uma grande lacuna nunca ter lido nenhum clássico russo. 

Apesar de não ser uma obra fácil, gostei muito da experiência. O enquadramento histórico que serve de fundo às várias histórias está muito, muito bem feito. Acompanhamos as desventuras das tropas russas contra as investidas de Napoleão Bonaparte. O que é interessante é como a guerra fica distante da alta sociedade que continua a participar nos serões, nos bailes ou a assistir à ópera. Tolstoi faz um retrato impressionante da sociedade russa fazendo uma certa crítica social através de uma ironia refinada. Embora não se possam comparar génios, quase que me faz lembrar o nosso Eça de Queiroz embora Lev Tolstoi faça uma crítica mais "disfarçada", quase imperceptível mas acutilante. 

Como qualquer clássico, pode-se considerar uma história intemporal. Aliás, essa é a definição de clássico, não é verdade? Muitas das manias da sociedade russa da altura, são também as manias da sociedade actual principalmente no que diz respeito às desigualdades sociais. 

Uma obra que deve fazer parte da prateleira de qualquer amante da literatura.

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