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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

O Labirinto dos Espíritos, Carlos Ruiz Zafón

Charneca em flor, 22.07.21

IMG_20210630_184520.jpgPara o mês de Julho, no desafio Uma Dúzia de Livros, era proposta a leitura de um livro passado na nossa cidade favorita. A escolha não foi fácil uma vez que já passei por inúmeras cidades de que gostei muito. Optei pelo último livro da série "O Cemitério dos Livros Esquecidos" porque se passa numa das cidades mais interessantes que já visitei. "O Labirinto dos Espíritos" tem mais de 800 páginas mas lê-se com muita facilidade. De tal forma que, nas últimas páginas, fui tentando protelar o final porque não queria deixar as personagens que fazem parte da saga "O Cemitério dos Livros Esquecidos" como Daniel Sempere, Fermín, Bea, Juliáou mesmo as personagens novas como Alicia e o jovem Julian Sempere.

As histórias contadas por Carlos Ruiz Zafón são tão envolventes e cativantes que até o próprio leitor se sente uma das suas personagens. Neste livro, que fecha a saga, Zafón supera-se e fecha a história da família Sempere, e dos seus amigos, de forma magistral.
Para além da brilhante narrativa elaborada, o autor leva-nos pelas ruas de Barcelona de forma tão real que parece que nós também caminhamos por aquelas ruas acompanhando as maravilhosas personagens. Neste "Labirinto" descobrimos também o contexto histórico no qual se desenrola a acção, a Guerra Civil Espanhola e o pós-guerra. Conseguiu aguçar-me a curiosidade sobre esse período da História ibérica e europeia.
Não posso deixar de dizer que "O Labirinto dos Espíritos", bem como os restantes livros da saga, representa um verdadeiro hino de amor aos livros. Uma leitura, quase obrigatória, para todos aqueles que não prescindem dos livros na sua vida.

"Se os olhos não a enganavam, tinha caído no alto de uma enorme espiral, uma torre articulada em redor de um infinito labirinto de corredores, passadiços, arcos e galerias que parecia uma imensa catedral. Mas ao contrário das catedrais que conhecia, aquela não era feita de pedra.

Era feita de livros.

Os sopros de luz que caíam da cúpula revelaram aos seus olhos grupos de escadarias e pontes flanqueados por milhares e milhares de livros que entravam e saiam daquela estrutura."

 

"

Almoço de Domingo, José Luís Peixoto

Charneca em flor, 02.07.21

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Já quando li o "Autobiografia" de José Luís Peixoto, achei que tinha lido o melhor livro do autor. Só que José Luís Peixoto superou-se e conseguiu escrever um livro ainda melhor. "Almoço de Domingo" é um romance biográfico sobre a vida do alentejano de Campo Maior e fundador da Delta Cafés, Comendador Rui Nabeiro. Foi o próprio retratado que despoletou o processo que conduziu a esta obra convidando o escritor a escrever a sua biografia. No entanto, José Luís Peixoto, com o acordo do Sr. Rui, partiu da vida contada pelo Comendador e construíu um maravilhoso romance. A história de vida de Rui Nabeiro já é fascinante mas, através das palavras do autor, tornou-se num excelente romance. Nestas páginas sentimos o aroma do café, o cheiro e o calor das terras alentejanas e sente-se o carinho que o Sr. Rui Nabeiro inspira no povo de Campo Maior. A acção decorre durante 3 dias, de 26 a 28 de Março de 2021, dia em que Rui Nabeiro completou 90 anos. JLP imaginou o quotidiano do retratado a partir das conversas que teve com ele bem como os próprios pensamentos em que a personagem Rui Nabeiro vai recordando a sua vida ao longo dos seus 90 anos. Simplesmente brilhante e muito bem escrito como é hábito.

"O passado tem de provar constantemente que existiu. Aquilo que foi esquecido e o que não existiu ocupam o mesmo lugar. Há muita realidade a passear-se por aí, frágil, transportada apenas por uma única pessoa. Se esse indivíduo desaparecer, toda essa realidade desaparece sem apelo, não existe meio de recuperá-la, é como se não tivesse existido."

"Que rosto tem uma pessoa? No fim da vida, entre todos os rostos que teve, qual é o rosto que realmente a representa? Será que o último rosto, por ter sobrevivido a todos os outros, é o mais válido? Não lhe custava encontrar argumentos contra essa ideia."

 

"As mulheres da minha alma", Isabel Allende

Charneca em flor, 20.06.21

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Isabel Allende é uma das minhas autoras preferidas. Por isso o seu nome numa capa é sinónimo de qualidade e bons momentos. Este pequeno livro lê-se rapidamente uma vez que se tratam de curtas crónicas onde a autora fala de si, da sua vida, das mulheres e homens que fizeram parte da sua vida, escreve sobre o feminismo e que importância o feminismo teve na sua vida. Aborda também a condição feminina e as diferenças culturais que podem ser determinantes nas oportunidades que cada mulher tem na vida.

Isabel Allende "convoca" algumas mulheres que fazem ou fizeram parte da sua vida e que a continuam a acompanhar como espíritos como sejam a sua filha Paula, a mãe Panchita ou a agente literária Carmen Balcells. Todas essas mulheres ajudaram a construir o feminismo de Isabel Allende. Os homens mais importantes da vida da autora também tiveram um papel na maneira como foi construíndo a sua vida.

O livro tem cerca de 200 páginas e lê-se muito facilmente.

Não se trata de um dos brilhantes romances de Isabel Allende mas uma pequena e breve reflexão sobre a condição feminina, o amor e a vida. Admirável como uma mulher quase com 80 anos continua a escrever de forma tão apaixonada e refrescante.

"o patriarcado continua a ser o sistema dominante de opressão política, económica, cultural e religiosa que confere domínio e privilégios ao sexo masculino.

(...)

E em que consiste o meu feminismo? Não é o que temos no meio das pernas, mas entre as duas orelhas. É uma postura filosófica e uma sublevação contra a autoridade do homem. É uma forma de entender as relações humanas e de ver o mundo, uma aposta na justiça, uma luta pela emancipação  de mulheres, gays, lésbicas, queer (LGBTIQ+), todos os oprimidos pelo sistema e os demais que se nos queiram juntar.

(...)

O patriarcado é pétreo. O feminismo, como o oceano, é fluido, poderoso, profundo e tem a infinita complexidade da vida, move-se em ondas, correntes, marés e, às vezes, tempestades profundas. Como o oceano, o feminismo não se cala."

 

O ano sabático, João Tordo

Charneca em flor, 15.06.21

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Este mês de Junho, o clube de leitura a que pertenço propôs a leitura de um livro subordinado ao tema "Um livro sobre irmãos"

Eu escolhi uma das obras de João Tordo, "O ano sabático". A história de vida de João Tordo foi o ponto de partida para o enredo que construiu nesta obra. Quer João Tordo quer um dos personagens principais nasceram de uma gravidez de trigémeos  em que um dos bebés acabou por morrer. 

O livro começa com um contrabaixista com uma vida problemática que regressa a Portugal depois de ter vivido alguns anos no Canadá. Há anos que vem trabalhando numa composição musical que não consegue terminar. Numa noite em que assiste a um concerto descobre um pianista de sucesso, estranhamente parecido consigo, que toca a "sua" composição. Começa a questionar-se como é possível que tal tenha acontecido. Quem será aquele homem? Será uma terrível coincidência? Plágio? Quem será aquele homem? Será que o seu gémeo não morreu?

A história criada por João Tordo coloca uma série de perguntas que também podem questionar os leitores. Seremos mesmo seres únicos e originais ou haverá alguém igual a nós por aí?

Li este livro em menos de 10 dias logo lê-se facilmente. O estilo de escrita e o desenvolvimento da narrativa são característicos do autor. Nos livros que já li de João Tordo, é habitual encontrar personagens masculinas atormentadas tal como acontece com este "O ano sabático". 

Não posso dizer que não gostei do livro mas acho que ficou àquem daquilo que podia ter sido. Com a história que o autor tinha entre mãos, podia ter desenvolvido melhor a narrativa. Obviamente que o livro já tem alguns anos e que João Tordo já será um escritor diferente, actualmente. Por exemplo, o último livro que publicou, "Felicidade", é muito mais interessante de onde se concluí que é sempre possível evoluir.

"Foi nessa altura, enquanto estes pensamentos lhe surgiam e sentia, cada vez mais próximo, o calor do braço de Elsa, docemente afagando o seu ao ritmo sincopado da bateria, que escutou o acorde tão familiar. Dó sustenido. E, em seguida, a sequência que, na sua cabeça, se desmultiplicara inúmeras vezes numa melodia de grande beleza, embora rasgada por acordes menores, a extravagante sequência que tantas vezes ensaiara no Nutella.

(...)

Primeiro, incrédulo, compreendeu que, enquanto adivinhava a progressão dos acordes, a melodia, tocada por cima destes com a destreza da mão direita do músico, era exactamente igual à que havia inventado e trabalhado durante tanto tempo;"

 

TAG | 10 factos literários sobre mim

Charneca em flor, 13.06.21

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Esta publicação do blogue Por Detrás das Palavras inspirou-me a também partilhar alguns factos sobre mim que sou uma eterna viciada em livros. Então aqui vai

1 - O meu pai inscreveu-me numa das mais antigas bibliotecas fixas da Gulbenkian quando eu tinha 9 anos. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Abriu-me os horizontes da leitura.

2 - Quando comecei a trabalhar, comprar livros foi uma das primeiras despesas que comecei a fazer. Já passaram mais de 20 anos.

3 - Não faço ideia de quantos livros possuo. Nunca tive coragem de os contar.

4 - Quando era criança, passava os Verões na casa da minha avó. Um dos meus tios também gosta muito de ler. Os seus livros eram uma tentação mesmo que não fossem adequados à minha idade. No início da adolescência, descobri um livro cuidadosamente escondido atrás dos outros. Era um livro erótico que eu li sem perceber grande coisa .

5 - Já tive a minha fase "Paulo Coelho". Li os livros quase todos. Felizmente já passou .

6 - Nunca li "As 50 Sombras de Grey" por mais que as minhas colegas, que adoraram, insistissem. Com tanto que há para ler, não vale a pena perder tempo.

7 - Nos últimos tempos, tornei-me uma leitora um bocadinho snob. Olho de lado para quem lê xaropadas românticas.

8 - Já sonhei escrever um livro, ou dois ou três. Acordei a tempo desse devaneio. 

9 - Tenho-me apercebido de que leio mais livros escritos por homens do que por mulheres. Assim tento intercalar a leitura de livros escritos por mulheres com livros escritos por homens.

10 - Quase a chegar aos 47 anos, sinto que o mundo tem tantos livros para ler e que o tempo começa a ser escasso para ler todos aqueles que eu gostaria.

Ainda fica muito por dizer mas já dá para ter uma ideia sobre o meu "Eu" literário.

Adorava que também partilhassem alguns factos sobre a vossa relação com livros. Fico à espera.

 

Desculpem pela extensão do post mas entusiasmei-me .

Se isto é um homem, Primo Levi

Charneca em flor, 07.06.21

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O autor de “Se isto é um homem", Primo Levi, era um químico, italiano e judeu que sobreviveu à vida num campo de concentração nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial. Esta obra é um impressionante relato na primeira pessoa daquilo que se passou num dos mais negros períodos na História da Humanidade. Primo Levi viveu num dos campos de concentração de Auschwitz durante pouco mais de 1 ano. Essa experiência levou-o a escrever este livro em que a descreve de forma realista, objectiva e rigorosa sem cair na tentação do compreensível melodrama. Com ele sentimos humilhação, fome, frio, cansaço extremo, medo, resignação ou mesmo vergonha por aquilo em que se tornou para conseguir sobreviver ao campo. Porque para o regime nazi não foi suficiente exterminar seres indesejáveis – embora a maioria fossem judeus, também havia pessoas com outras origens – nas câmaras de gás. Aos presos que tinham condições para trabalhar, o regime “matava" de outra forma, através da humilhação destruía-se aquilo que torna um indivíduo num homem fazendo emergir os seus instintos mais primitivos.

Quem quiser, verdadeiramente, perceber o que foi o Holocausto tem aqui uma das melhores fontes de conhecimento. Esqueçam os livros que povoam os escaparates das nossas livrarias ostentando Auschwitz ou Birkenau no título. O Holocausto e o extermínio de judeus e outros seres humanos não foi uma fantasia de um qualquer escritor mais ou menos talentoso. Aconteceu e isso não se pode negar. Se o negarmos, abrimos a porta à sua repetição. Por melhor que um escritor investigue, aquilo que escrever nunca se conseguirá comparar aquilo que escreveu quem o sentiu na pele.

“Se isto é um homem" é um livro que fere a nossa sensibilidade e que nos faz pensar, “como é possível que um ser humano tenha feito isto a outro ser humano?”. No entanto, ainda bem que o li. A literatura deve servir para nos desassossegar e para alimentar em nós a empatia por quem nos rodeia, mesmo que seja alguém muito diferente de nós.

“Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esfa ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão tem o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós tal como éramos, ainda sobreviva.”

Novas Cartas Portuguesas

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

Charneca em flor, 25.05.21

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Embora o mês de Maio ainda não tenha acabado, eu já terminei a minha leitura deste mês do clube/desafio de leitura a que aderi este ano. O tema proposto era "Um livro que tenha sido proibido". Já há uns tempos que tinha optado pelo "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Este livro começou a ser escrito em 1971 e foi publicada em Abril de 1972. As autoras partiram do romance epistolar "Lettres Portugaises" do séc. XVII cuja autoria é polémica porque foi atribuída a Mariana Alcoforado, freira enclausurada em Beja, mas também a um autor francês. O livro "Cartas Portuguesas" é um conjunto de 5 cartas de amor supostamente enviadas pela freira Mariana Alcoforado a um oficial francês. Tendo este amor proibido como ponto de partida, as "Três Marias" elaboraram este livro a 6 mãos que albergou uma série de estilos literários como sejam o epistolar, o poético e o romance.

A meu ver, o livro pretendia chamar a atenção para a condição feminina na época da ditadura fascista que se vivia em Portugal. As autoras abordaram, em grande medida, a opressão da mulher à vontade do marido e da família mas também escreveram sobre a sexualidade, o prazer feminino e até afloraram, levemente, a orientação sexual. As "Três Marias" não deixaram de abordar outros problemas que afectavam tanto as mulheres como os homens nos anos 70 como, por exemplo, a guerra colonial e a emigração.

A direcção literária do obra foi de outra mulher corajosa, Natália Correia, que se recusou a fazer cortes naquilo que as autoras escreveram.  Como resultado, a primeira edição foi apreendida e destruída em 3 dias e as autoras foram acusadas de "pornografia e atentado ao pudor". Nos interrogatórios foram instadas no sentido de identificarem quem tinha escrito o quê. Nunca o revelaram até hoje, passados 50 anos e quando só resta uma das autoras viva. Embora tenham ido a tribunal acabaram por não ser julgadas graças à Revolução dos Cravos que acabou com a ditadura e interrompeu o processo. O processo judicial valeu-lhes a solidariedade de inúmeros intelectuais portugueses e estrangeiros bem como de inúmeras feministas. Aliás, "Novas Cartas Portuguesas" é considerado, actualmente, um dos primeiros manifestos feministas.

Na minha opinião, este não é um livro fácil de ler, antes pelo contrário. Esta edição é uma edição anotada o que ajuda imenso porque há certos pormenores que só se entendem se compreendermos as referências políticas e literárias bem como o contexto histórico em que a obra foi dada ao prelo. Nalgumas linhas encontramos, realmente, referências sexuais mas que fazem sentido no âmbito da "história" que as autoras queriam contar. Percebo que a publicação deste livro tenha sido um escândalo, não só pela abordagem sexual mas porque pretendia romper com a ordem estabelecida na sociedade portuguesa. Infelizmente, considero certas passagens muito actuais e acredito que se a obra fosse publicada hoje constituíria, novamente, um escândalo. Chegámos à 3a década do séc. XXI mas as mentalidades retrógradas subsistem. As circunstâncias mudaram mas ainda há muito por fazer para se atingir a igualdade entre homens e mulheres.

Este é um livro que faz pensar. E hoje em dia há tanta preguiça em pôr os neurónios a funcionar, não é verdade? Mas fazer pensar é um dos objectivos mais nobres da literatura.

"Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.

(...)

Só de nostalgia faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um  Outubro,  um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?"

 

Uma História da Leitura, Alberto Manguel

"A leitura é, desde o início, a apoteose da escrita"

Charneca em flor, 28.04.21

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Alberto Manguel é argentino mas já viveu em inúmeros países. Trabalhou como escritor, tradutor, editor e foi director da Biblioteca Nacional da Argentina. Desde criança que os livros ocupam um grande espaço na sua vida. Da sua biblioteca pessoal fazem parte mais de 40000 livros que foram oferecidos, recentemente, à cidade de Lisboa onde darão origem ao Centro de Estudos da História da Leitura do qual será director. Já ouvi falar dele há algum tempo e achei que este livro se enquadrava muito bem no tema do mês de Abril do clube de leitura a que aderi este ano, "Um livro que fala de livros".

Não é o livro mais fácil de ler já que não se trata de um romance. Não é um livro que se leia por distracção, embora ler seja uma excelente distracção. Também não é uma História exaustiva da leitura. A meu ver, é a História que resultou da investigação que o autor fez sobre a leitura ao longo dos tempos e dos diferentes caminhos a que essa investigação o foram conduzindo. Para além disso, o livro é enriquecido pela própria experiência, ao longo da vida, do autor enquanto leitor. 

Através desta obra confrontei, igualmente, a História da Leitura da Humanidade com o percurso que eu própria tenho feito enquanto leitora. Por exemplo, no capítulo "Ler imagens" regressei aos anos 70 quando ainda não sabia ler e inventava histórias enquanto olhava para os desenhos dos meus livros.

Esta obra está dividida em 4 partes mas há 2 partes principais. A primeira grande secção aborda vários aspectos da leitura, daquilo que pode dificultar ou facilitar este acto, de como a leitura começou por ser uma actividade de elites e de como evoluiu até ser acessível a todos. A outra grande parte baseia-se no leitor e na maneira como o leitor se relaciona com os livros, como escolhe o que lê e como interpreta aquilo que lê.

A maneira como este livro está construído faz-nos perceber porque é que Alberto Manguel escolheu chamar-lhe "Uma História da Leitura" e não "A História da Leitura". Esta a História de Manguel mas se fosse a minha História, ou de outro amante dos livros, seria muito diferente, com toda a certeza.

"No entanto, sob este acaso aparente, há um método: este livro que vejo diante mim é a história da leitura, mas também dos leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo das eras, preferiram certos livros a outros, aceitaram nalguns casos o veredicto dos mais velhos, mas noutras ocasiões resgataram do passado títulos esquecidos, ou arrumaram nas prateleiras das suas bibliotecas os eleitos dos seus contemporâneos. Esta é a história das suas pequenas vitórias e dos seus sofrimentos secretos, e da maneira como essas coisas se passaram. Este livro é a crónica minuciosa da maneira como tudo isso aconteceu, na vida quotidiana de algumas pessoas comuns, descoberta, aqui e ali, em memórias de família, anais municipais, descrições da vida em lugares distantes e em tempos recuados."

"rapariga, mulher, outra", Bernardine Evaristo

Charneca em flor, 06.04.21

Há algum tempo que eu me apercebi que leio, maioritariamente, livros escritos por homens. Daí ter feito algumas tentativas de privilegiar obras escritas por mulheres. Nos últimos meses tenho ouvido, recorrentemente, que se lêem muitos livros escritos pelo típico homem branco, heterossexual e ocidental. Assim quando peguei neste livro percebi que era uma excelente oportunidade para uma leitura que rompia com este estereótipo. Teria sido uma excelente opção para o clube de leitura, no passado mês de Fevereiro, cujo propósito era ler um livro fora da minha zona de conforto.

A autora, Bernardine Evaristo, é anglo-nigeriana e já tem obra extensa e abrangente em termos de género literário. Este romance, “rapariga, mulher, outra" foi galardoado com o Man Booker Prize de 2019, foi considerado livro de ficção do ano do British Book Awards 2020 (e a sua autora foi considerada autora do ano), foi, ainda, finalista do Women's Prize de Ficção de 2020 e do Orwell Prize de Ficção Política de 2020. Com todo este reconhecimento, comecei a ler este livro com muita expectativa.

Tal como o título indica, esta é um livro sobre mulheres, maioritariamente negras, com vivências diferentes mas que têm em comum a multiculturalidade resultante da diáspora e do colonialismo britânico. As personagens centrais são doze e a autora conseguiu construir estas personagens com bastante densidade. É-nos dado a conhecer as suas histórias de vida, as suas relações amorosas e de amizade bem como a batalha que cada uma empreende para encontrar o seu lugar na sociedade. No entanto, mais do que um romance ou um conjunto de histórias, este livro é um manifesto político que aborda temas intemporais como a orientação sexual, a identidade de género, a violência doméstica, o racismo estrutural ou quotidiano, a falta de oportunidades ou a pobreza, física e de espírito. Nem o Brexit foi esquecido.

O livro lê-se muito bem até porque a escrita de Bernardine é muito cativante e divertida e é fácil identificarmo-nos com as situações vividas pelas personagens mesmo para quem tem uma realidade muito diferente daquelas que são retratadas nesta obra. Até o grafismo do livro saí fora daquilo que são os parâmetros normais de um romance havendo, nalgumas partes, uma interessante distribuição das palavras nas páginas.

Para mim, foi também uma lição de tolerância e empatia e essa é uma das funções da literatura que faz cada vez mais falta neste mundo confuso em que vivemos.

 

"esta criatura indómita que habita este lugar selvagem, com cabelos cor de metal e uns olhos ferozes que se cravam em nós

é mãe dela

são o mesmo

são feitas do mesmo

que interessa a cor da pele? porque chegou a achar que isso interessa?

neste momento o que ela sente é tão puro e primevo que quase a esmaga

são mãe e filha e uma e outra estão a reajustar toda a ideia que faziam do seu eu

a sua mãe está tão perto que pode tocar-lhe

chegou a temer não sentir nada, ou que a mãe não demonstrasse ter-lhe amor ou afeto e fosse fria

mas como se enganou, estão as duas com os olhos rasos de lágrimas e é como se os anos estivessem a andar muito depressa para trás até que deixa de existir tudo o que uma e outra viveram

não importa o que sentem ou dizer seja o que for

só importa que estão ali

juntas."

 

Uma Casa na Escuridão, José Luís Peixoto

Charneca em flor, 23.03.21

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José Luís Peixoto é um dos meus escritores contemporâneos preferidos. Tenho, praticamente, todos os seus livros. No entanto, sentia uma mágoa na minha relação com as suas obras. Não tinha conseguido terminar este "Uma Casa na Escuridão". Agora, graças à minha participação  no clube de leitura Uma Dúzia de Livros, voltei a ele e percebi porque é que não o tinha conseguido ler. Este livro não é de leitura fácil. Sei que desisti de ler numa passagem,  particularmente, violenta. Na verdade, acho que me faltava uma certa maturidade como pessoa e como leitora para conseguir levar até ao fim esta tarefa de terminar o livro.

"Uma Casa na Escuridão" foi editado, pela primeira vez, em 2002. No ano anterior, José Luís Peixoto tinha ganhado a 2a edição do Prémio Saramago. Na minha opinião, foi necessária alguma coragem, da parte do escritor e do editor, para publicar este livro. A história é estranha, algumas situações são descritas de forma violenta e crua de tal maneira que tive vontade de fechar os olhos para não ler, como fazemos com os filmes, e tentei não imaginar as cenas criadas por José Luís Peixoto. Não consegui lidar com aquele horror. 

Há livros que valem pelo conteúdo e outros valem pela forma. "Uma Casa na Escuridão" vale, sobretudo, pela forma embora eu tenha conseguido começar a perceber aonde o autor queria chegar. Se calhar, ainda terei que ler o livro mais vezes para conseguir compreender esta obra na sua plenitude. Ou talvez a compreensão esteja fora do meu alcance.

Esta obra vale a pena, sobretudo, pela linguagem. José Luís Peixoto brinca com as palavras e escreve frases  maravilhosas e encantadoras mesmo quando conta uma história tão particular como esta. Seja como fôr, não sei se considere esta obra como uma prosa poética ou uma gigante metáfora de mais de 250 páginas. O que sei é que será difícil esquecer aquilo que li nestas folhas.

"era costume ela vir cá e ficar a sussurrar um bule de chá com a minha mãe"

"O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis."

"As estrelas espalhadas, as nuvens a passarem como pessoas tristes, o céu da noite sem lua, o céu da noite escuro e sem lua. Eu acreditava que o amor é a inocência sufocada mil vezes na vontade ridícula de desejar que o céu compreenda."