Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

O Palácio de Papel, Miranda Cowley Heller

Charneca em flor, 29.11.22

IMG_20221128_204354.jpg

 

Quase que me esquecia de falar do último livro que li em Outubro. "O Palácio de Papel" foi uma das escolhas do passado mês do Clube do Livra-te da Rita da Nova e Joana da Silva. Este livro é o primeiro romance da autora. Miranda Cowley trabalhou na imprensa mas também foi produtora de séries televisivas de sucesso.

A acção d' "O Palácio de Papel" decorre durante as vinte e quatro horas mais decisivas da protagonista Elle. Tudo começa numa manhã de Agosto enquanto Elle está de férias com a família no local de sempre, "O Palácio de Papel". Entrelaçadas, com as decisões que Elle sente que tem que tomar, estão as suas recordações mais felizes mas também as mais dolorosas e dramáticas. Através desses recuos vamos percebendo com é que a vida da protagonista chegou ali, ao momento em que terá de decidir a segurança de um amor adulto ou a quimera do primeiro amor.

Gostei muito deste livro, a história é fantástica, e surpreendente nalguns pontos  e as personagens foram muito bem construídas, embora umas mais realistas do que outras. A personagem que mais me encantou foi Wallace, a mãe de Elle. E adorei a relação entre ela e o genro, Peter. Que diálogos deliciosos. Só achei que a organização dos capítulos e nomes atribuídos a cada capítulo não tinham muita lógica induzindo alguma confusão no leitor. 

A escrita de Miranda Cowley Heller é muito cinematográfica e gostaria de ler mais romances escritos por ela. Não vai para a lista dos livros com 5  mas fica perto.

 

"Largo o robe para o chão e fico nua a beira da água. No outro lado da lagoa, além dos pinheiros e dos arbustos, o oceano ruge, furioso.Deve trazer uma tempestade no seu âmago, chegada de algures no mar alto. Mas aqui, a beira da lagoa, o ar continua calmo e sereno. Espero, observo, escuto... os piados, o zumbir dos pequenos insetos, um vento que agita suavemente as folhas das arvores. Depois entro até aos joelhos e mergulho de cabeca na água gelida. Nado até fora de pé, além dos nenúfares, levada pelo entusiasmo, pela liberdade, pela adrenalina advinda de um pânico inexprimível. Tenho medo que uma tartaruga-mordedora chegue das profundezas e me trinque os seios pesados. Ou talvez seja atraída pelo cheiro a sexo que se liberta quando abro e fecho as pernas. De repente, sinto-me assoberbada pela necessidade de voltar a seguranca dos baixios, onde consigo ver o fundo arenoso. Quem me dera ser mais corajosa. Mas também adoro o medo, o fôlego que me fica preso na garganta, o coração aos saltos quando saio da água."

Carrie Soto está de volta, Taylor Jenkins Reid

Charneca em flor, 23.11.22

IMG_20221120_114018.jpg

Das leituras do mês de Outubro, fez parte este "Carrie Soto está de volta" escolhido pelo Clube do Livra-te. Taylor Jenkins Reid (TJR) é uma conhecida escritora norte-americana, com milhares de fãs em todo o mundo mas eu nunca tinha lido nada dela. Este livro faz parte de um conjunto de 4 romances* que podem ser lidos em separado mas que têm pontos de ligação entre eles.

Carrie Soto é uma tenista de alta competição, detentora de vários recordes internacionais que se retirou cedo devido a uma lesão. No início da história, acompanhamo-la enquanto assiste a uma partida da jovem tenista com maior capacidade para bater os seus recordes. Carrie Soto não consegue lidar com esse facto e resolve regressar à competição disposta a tudo fazer para não ser ultrapassada pelas tenistas mais jovens. 

Confesso que o início do livro não me estava a agarrar porque não me estava a conseguir identificar com a personagem. Carrie Soto é muito competitiva e ambiciosa  e eu não tenho essas características. Para além disso, achei um pouco entediante toda a explicação das regras deste desporto embora fosse necessário fazer esse enquadramento para um melhor entendimento da situação.

No entanto, a autora e as suas personagens acabaram por me conquistar. TJR é uma brilhante contadora de histórias e também constrói personagens com mestria. A relação com o pai, com altos e baixos, é enternecedora. Adorei a maneira como a autora finalizou toda a história. O livro tem uma organização muito dinâmica e a divisão dos capítulos, pelos torneios em que a personagem participa, faz-nos mergulhar facilmente no mundo do ténis.

Carrie Soto fez-me pensar que os desportistas de alta competição não têm vida fácil mesmo que venham a ter uma vida privilegiada e uma conta bancária recheada. E ser mulher desportista é ainda mais complexo porque não se respeitam as atletas de alta competição como se respeitam os homens na mesma situação. Para jogarem ao mais alto nível, seja em que desporto fôr, é necessário que os atletas prescindam de muitas coisas que nós, comuns mortais, damos como garantido. Regra geral, é preciso começar a trabalhar desde a infância e o ténis é uma das modalidades em que isso é muito frequente. Os tenistas com mais sucesso começam a praticar este desporto desde idades muito precoces. Enquanto estão no auge da carreira, têm o mundo e os fãs aos seus pés. E quando a carreira chega ao fim?! Deve ser muito difícil lidar com a ausência das ovações e das palmas. Por mais rodeados de amigos e família que estejam, é natural que experimentem uma sensação de solidão difícil de suportar.

Em resumo, "Carrie Soto está de volta" foi uma boa experiência. Valeu a pena o esforço de ultrapassar a overdose de ténis.

"Uma das grandes injustiças deste mundo virado do avesso em que vivemos é que se considera que as mulheres se vão desgastando com a idade e os homens vão ganhando algum tipo de profundidade." 

"Sinto-me tão grata neste momento por todos os jogos, todas as vitórias, todas as derrotas e todos os ensinamentos que trago na bagagem. Sabe-me tão bem ter 37 anos neste momento. Ter percebido pelos menos algumas coisas.
Conhecer a terra que piso." 

 

*Os sete maridos de Evelyn Hugo, Malibu renasce, Carrie Soto está de volta e Daisy Jones & The Six.

Caim, José Saramago

Charneca em flor, 15.11.22

No dia 16 de Novembro, se fosse vivo, José Saramago faria 100 anos. Nesse dia assinala-se o fim das comemorações do Centenário do único Prémio Nobel da Literatura português. Estas festividades foram o mote para a Leitura Conjunta de Saramago a que eu aderi desde a primeira hora. O Centenário já passou mas vamos continuar a ler os seus livros até ao fim do ano, pelo menos.

Em Outubro, o livro escolhido foi "Caim".

IMG_20221111_083313.jpg

O posicionamento de José Saramago perante a religião, nomeadamente a Igreja Católica, é conhecido. Na altura do seu lançamento, o livro e o seu autor foram alvos de inúmeras críticas do sector religioso, não só pelo conteúdo do livro, como também pelos comentários que José Saramago foi fazendo durante a divulgação deste romance.

Neste livro José Saramago parte da história de Caim, assassino do seu irmão Abel. O autor começa por redimir Caim ao apontar um autor moral do crime hediondo e continua analisando alguns dos acontecimentos mais violentos e sangrentos da Bíblia.

Uma das críticas que foram feitas a este livro foi a leitura literal da Bíblia utilizada por José Saramago no desenvolvimento da sua história. Confesso que isso também foi algo que me incomodou pela minha vivência religiosa e pela minha antiga ligação a grupos bíblicos. Não é a mesma coisa olhar para o Antigo Testamento com o intelecto ou com a fé. No entanto,  e tendo em conta que "Caim" é um romance de ficção, a criatividade do autor partiu da Bíblia mas ele era livre para seguir o caminho que bem entendesse.

Por outro lado, há algo de muito importante que retirei desta leitura e nem sei se era essa a intenção do autor. Refiro-me ao facto da maldade dos homens se justificar como sendo vontade de Deus. Ao longo da História, há inúmeros exemplos de atitudes humanas fundamentadas, erradamente do meu ponto de vista, na hipotética vontade de Deus. Quantos dos acontecimentos retratados no Antigo Testamento, sejam verídicos ou não, terão sido responsabilidade humana e não divina?

No encontro virtual para discussão do livro, uma das participantes perguntou se tínhamos gostado do livro. E eu não fui capaz de responder. Já terminei a leitura há 3 semanas e continuo sem ter uma opinião concreta. Não detestei mas também não adorei. "Caim" tem o dom de nos provocar questões nas quais não pensamos com frequência. A fina ironia tão característica de José Saramago está presente e ainda me fez rir algumas vezes. No entanto, não gostei da misturada de eventos bíblicos que o autor construiu neste pequeno livro. Parece que "abanou" a Bíblia e as histórias ficaram todas misturadas. Não sei como é que alguém que não conheça nada sobre a Bíblia compreenderá este livro.

"A eva e adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há-de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filhos sem saber porquê nem para quê. Para continuar a espécie, dizem aqueles que crêem num objectivo final, numa razão última, embora não tenham nenhuma ideia sobre quais sejam e que nunca se perguntaram em nome de quê terá a espécie de continuar como se fosse ela a única e derradeira esperança do universo. Ao matar abel por não poder matar o senhor, caim deu já a sua resposta. Não se augure nada bom da vida futura deste homem."

 

levantado do chão, José Saramago

Charneca em flor, 25.10.22

IMG_20220925_171943.jpg

Em Setembro li mais um livro de José Saramago para a Leitura Conjunta de Saramago. O livro escolhido pelo grupo foi "levantado do chão". Esta obra foi publicada em 1980 e é considerada uma das obras fundamentais do autor. Durante a escrita do livro, José Saramago viveu algum tempo em Lavre no concelho de Montemor-o-Novo. As conversas com os habitantes da vila bem como as histórias que lhe contaram foram, de certeza, fonte de inspiração.

A acção de "levantado do chão" decorre desde o final do séc. XIX até aos primeiros dias após a Revolução dos Cravos. Os grandes protagonistas são os trabalhadores do campo, com especial relevo para as três gerações da família Mau-Tempo. Saramago construíu uma história em torno da vida numa estrutura latifundiária, sistema de propriedade muito comum  no Alentejo. José Saramago retrata de forma brilhante a miséria, o sofrimento, as humilhações e a repressão a que os camponeses estavam sujeitos nesse sistema, não só perante o poder económico dos grandes proprietários mas também perante a Igreja e as autoridades policiais. Neste livro percebemos também os movimentos de revolta e de luta por melhores condições de trabalho e de vida que, de forma mais ou menos organizada, foram surgindo mesmo durante o tempo da ditadura. A Reforma Agrária que ocorreu após o 25 de Abril de 1974 tem as suas raízes, precisamente, nesses movimentos pelo direito ao trabalho condigno e ao justo pagamento.

No início, não foi muito fácil para mim entrar no livro porque José Saramago utiliza muitas personagens dificultando o acompanhamento do curso da narrativa. A partir de metade do livro, sensivelmente, já li com muito mais velocidade e interesse. Acredito que foi com "levantado do chão" que o autor descobriu a sua maneira de escrever tão característica.

Esta leitura foi muito significativa para mim porque as minhas origens são alentejanas e a minha mãe cresceu num latifúndio, não muito longe de Lavre. Embora a família da minha mãe não tenha passado por este tipo de problemas - o meu avô tinha trabalho fixo e não trabalhava à jorna como os camponeses do livro - revi, nesta obra, as histórias que ouvi desde pequena sobre a vida no campo. Aliás, sempre gostei de saber como era a vida nesse tempo.

Eis o que José Saramago disse sobre o livro:

"O livro chama-se Levantado do Chão porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro."

Para mim, a experiência acabou por ser muito positiva mas reconheço que não será um livro adequado a todos aqueles que gostam de ler.

"O mundo, com todo este seu peso, esta bola sem começo nem fim, coberta de mares e de terras, toda esfaqueada de rios, ribeiras e regatos, a escorrer a aguazinha clara que vai e volta e é sempre a mesma, suspense nas nuvens ou escondido nas nascentes por baixo das grandes lajes subterrâneas, o mundo que parece uma brutidão aos tombos no céu, ou silencioso pião como um dia o hão-de ver os astronautas e já podemos ir antecipando, o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, "

Como se fôssemos vilões, M. L. Rio

Charneca em flor, 18.10.22

IMG_20221016_162615.jpg

"Como se fôssemos vilões" foi o livro escolhido pela Rita da Nova para o Clube do Livra-te no mês de Setembro. Neste livro encontramos sete jovens estudantes de uma escola de arte muito especial onde estudam a dramaturgia de Shakespeare. Os jovens frequentam o último ano do curso. Oliver, James, Filipa, Richard, Alexander, Meredith e Wren apresentam personalidades muito similares às personagens que encarnam nas peças de Shakespeare que são encenadas na escola a ponto de os conflitos das obras se prolongarem para a vida real estabelecendo-se entre eles uma rivalidade saudável. A dada altura a amizade entre eles enfrenta uma prova inesperada após um acontecimento trágico.

O livro está organizado como uma peça de teatro, em actos e cenas, o que faz com que o leitor se sinta espectador de uma verdadeira peça de teatro. Esta história conquistou-me quase desde o início e adorei o ambiente outonal que se sente. "Como se fôssemos vilões" fez-me recordar os meus tempos de jovem universitária e tive muitas saudades dessa época. Gostei muito da forma como a autora construiu a história e do tom de mistério que envolve o acontecimento determinante para toda a história. 

A overdose de Shakespeare era dispensável. Obviamente que era essencial que houvessem passagens da obra quando estavam a encenar as peças mas utilizarem frases de Shakespeare numa conversa "normal" já me pareceu exagero. Outro ponto negativo é que se percebe, desde uma fase mais precoce da narrativa, quem foi o maior responsável pela tragédia que lhes mudou a vida. No entanto, acredito que a autora pretendeu dar mais ênfase à dinâmica que se estabelece entre os jovens quando estão perante uma situação limite. A resolução do mistério era secundária para a história que a autora pretendia contar.

Esta leitura foi uma óptima experiência mas dificilmente teria lido este livro se não tivesse sido escolhido para o Clube do Livra-te. Como estava com outras leituras, demorei algum tempo a terminá-lo mas é um livro que se lê com vontade em pouco tempo.

 

"Entram em cena os atores. Éramos sete nessa altura, sete almas fulgurantes com futuros prodigiosos a nossa frente, embora não víssemos mais longe do que os livros diante dos nossos rostos. Estávamos sempre rodeados por livros e palavras e poesia, todas as paixões ferozes do mundo em papel fino entre capas de carneira. (Atribuo em parte a culpa do que aconteceu a esse facto.) A biblioteca do Castelo era uma sala octogonal arejada, forrada a estantes, atravancada com peças de mobiliário antigas e sumptuosas, e mantida a uma temperatura que provocava sonolência, por um monumental fogão de sala quase constantemente aceso, independentemente da temperatura no exterior. O relógio na prateleira por cima da lareira deu as doze badaladas, e nós mexemo-nos, um a um, como sete estátuas a
ganharem vida."

Sem amor, Alice Oseman

Charneca em flor, 07.10.22

IMG_20221006_232405.jpg

Alice Oseman é uma jovem escritora e ilustradora inglesa que já tem vários livros publicados mas tornou-se mais conhecida pela saga bestseller Heartstopper a qual já foi, também, adaptada a uma série para a Netflix. Esta autora dedica-se, principalmente, à temática LGBTQ+ direccionada para os leitores mais jovens. "Sem amor" foi a escolha de Setembro da Joana da Silva para o Clube do Livra-te. Apesar deste livro ser marcadamente jovem, achei que valia a pena lê-lo mesmo sendo uma quarentona. 

A história gira à volta de Georgia, uma jovem que adora romances cor-de-rosa, sonha com um grande amor e com um final feliz mas nunca se apaixonou. No início do livro, acompanhamos Georgia, e os seus melhores amigos, durante a festa que se seguiu ao baile de finalistas. Os jovens preparam-se para irem, juntos, para a Universidade e é nesse ambiente que Georgia procura perceber a sua sexualidade e a sua verdadeira natureza.

"Sem amor" tem alguns pormenores que me encantaram mas também tem alguns pontos menos positivos. A temática é muito importante mas também gostei muito da interacção entre Georgia e os amigos, Jason e Pip, bem como das amizades que Georgia vai construído na Universidade. Aliás "Sem amor" é uma bonita história de amizade. No que diz respeito àquilo que menos apreciei, quero referir o facto de autora repetir várias vezes a mesma ideia para descrever Georgia e também acho que não havia necessidade de a autora criar várias personagens com a vivência da sexualidade idêntica à de Georgia. Acho que tal não era necessário para percebermos aquilo que Alice Oseman nos pretende transmitir. Esta repetição torna o livro muito maior do que o necessário.

A meu ver, este livro é uma excelente leitura para jovens, pais e educadores. Aquilo que o livro nos pode trazer vai muito além da questão da vivência da sexualidade. Por exemplo, os jovens são, muitas vezes, levados a comportamentos que não desejam para se sentirem integrados no grupo ou tomam decisões erradas por algo que confundem com amor. Aquilo que a autora coloca na vida destas personagens pode ser extrapolado para todas as situações que acontecem na vida dos adolescentes.

De qualquer forma, Alice Oseman tem muito valor pela coragem e abertura em construir boa ficção sobre estas temáticas. Talvez precise de melhor orientação editorial na escrita de romance.

"Foi um pouco foleiro, talvez. Mas também for um dos discursos mais adoráveis que ouvi em toda a minha vida.

Todos ergueram as suas bebidas e, em seguida, aclamaram o Sunil
quando ele desceu e a Jess o soterrou num abraço.

Era aquilo. Era daquilo que se tratava.

O amor naquele abraço. O olhar cúmplice entre eles.

Eles tinham a sua história de amor.

Era isso que eu queria. Era o que eu tinha tido, em tempos, talvez.

Costumava sonhar com um romance enfeitiçante, interminável, para sempre. Com uma bela história de conhecer uma pessoa capaz de mudar todo o nosso mundo.

Mas agora, percebi, a amizade também podia ser isso."

 

 

Um ponto de interrogação é um coração partido, Sofia Lundberg

Charneca em flor, 01.10.22

IMG_20221001_083527.jpg

 

Embora já tenha começado o Outono, ainda me falta partilhar o último livro das minhas férias. Este "Um ponto de interrogação é um coração partido" chegou cá a casa depois de o ter ganho, há mais de um ano, num sorteio de uma página portuguesa de Bookstragrammers*. Quando estava a organizar a bagagem para as férias, achei que era uma boa opção para essa ocasião. Sofia Lundberg é uma escritora sueca de quem nunca tinha ouvido falar. Tenho que confessar que, no que diz respeito à literatura nórdica, só conheço os policiais. Durante muito tempo foram o meu guilty pleasure literário. Curiosamente, este ano ainda não tenha lido nenhum livro deste género mas a obra de que falo hoje foi o 2° romance nórdico que li nestas férias. O outro foi este.

Esta autora é jornalista, foi editora de revistas e este é o seu segundo romance publicado. A personagem central é Elin, uma fotógrafa de sucesso que vive e trabalha em Nova Iorque mas que escondeu todo o seu passado das pessoas que lhe são mais próximas.

O livro divide-se em 2 partes. No início a acção vai-se alternando entre a actualidade, situada em Nova Iorque, e a infância de Elin, numa aldeia situada numa ilha sueca.  As recordações são despoletadas por uma mensagem que lhe foi enviada pelo seu amigo de infância. Ao deixar que as memórias, escondidas durante tanto tempo, venham ao de cima, Elin começa a prejudicar o seu trabalho e a sua vida familiar sofre uma reviravolta. Na segunda parte, Elin regressa ao seu país natal para se reconciliar com o seu passado.

Sofia Lundberg escreve de uma forma cativante, consegue manter o mistério durante uma grande parte do romance estimulando o interesse do leitor em perceber o que levou Elin a esconder o seu passado. Em certas passagens, as atitudes de Elin irritaram-me um pouco. Dava vontade de entrar no livro e mostrar-lhe que as atitudes eram injustificadas e incompreensíveis. Claro que, no fim, entende-se que toda a história de vida de Elin contribuíram para a sua maneira de ser. Gostei muito da personagem Alice, a filha de Elin. O final não foi bem aquilo que eu imaginava. 

"Um ponto de interrogação é um coração partido", apesar do mistério também estar presente, é uma história sobre a família, o amor, a importância da comunicação entre as pessoas que se amam e do valor do perdão. Este livro foi uma agradável experiência de leitura e um excelente livro para os últimos dias de férias.


"Manuseia as cartas, amontoando os envelopes sem os abrir, até que encontra um que lhe chama a atenção. O carimbo postal é de Visby, o selo sueco. O seu nome fora manuscrito em letras maiúsculas, cuidadosamente desenhado em tinta azul. Abre-o e desdobra a folha de papel que contém. É uma espécie de mapa celeste, na qual se encontra impresso o seu nome, numa letra grande e enfeitada.
Sustém a respira6cao, lendo as palavras por cima, em sueco.

Neste dia, uma estrela foi chamada Elin.

Lê uma e outra vez a frase numa língua desconhecida. Um longo fio de coordenadas indica a sua localização precisa nos céus.

Uma estrela que alguém comprou para ela. A sua própria estrela, que agora ostenta o seu nome. Tem de ser de... será que terá sido... ele quem a mandou? Põe um travão aos seus próprios pensamentos, não quer sequer murmurar aquele nome no silêncio da sua mente. Mas consegue imaginar-lhe sem qualquer dificuldade o rosto, o sorriso também.

Sente o coração descompassado no peito. Afasta o mapa celeste. Fixa-o. De seguida, levanta-se e corre para a rua para contempla o céu, mas só consegue ver uma massa incaracterística azul-escura acima dos edifícios. Nunca está mesmo escuro em Nova lorque, nunca o suficiente para se observar a labiríntica confusão de estrelas. Os enormes edifícios de Manhattan quase tocam o céu, mas nas ruas ele parece distante. Portanto, entra de novo."

 

*páginas de Instagram que se dedicam, quase exclusivamente, a conteúdos sobre livros. Também existe o Book Tok que acontece no Tik Tok. O trabalho de divulgação de livros destas páginas tem adquirido enorme importância nos últimos anos levando a parcerias entre os autores e as editoras ou as grandes empresas de comercialização de livros. A ponto de já ter visto livros onde as recomendações de Bookstragrammers ou Booktokers já serem mencionadas nas capas dos livros.

Um Homem chamado Ove, Fredrik Backman

Charneca em flor, 24.09.22

IMG_20220921_231034.jpg

 

Já há algum tempo que eu tinha ouvido falar deste livro mas aconteceu lê-lo durante o mês de Agosto, na recta final das minhas férias.

A primeira pergunta que esta leitura me colocou foi: "Mas porque é que não o li mais cedo?"

"Um Homem chamado Ove" é uma história divertida, irónica, encantadora e muito comovente. A figura central é Ove, um idoso rabujento, que só quer que o deixem em paz enquanto realiza uma tarefa muito específica e preponderante para a sua vida. Só que os problemas da vizinhança vão-lhe entrando pela porta atrapalhando os seus planos.

A qualidade da escrita bem como a história em si encantaram-me. E só isto já era suficiente para este livro ficar bem colocado como uma das minhas melhores leituras de 2022 mas o autor consegue ir para além disso. Fredrik Backman conduz o nosso pensamento para a importância do envelhecimento activo, para a solidao dos idosos e para a injustiça que as empresas cometem quando colocam de parte trabalhadores válidos só porque são mais velhos. A sua maravilhosa personagem central, o Ove, mostra-nos que, muitas vezes, debaixo de uma aparência mal disposta e rabujenta se pode esconder um passado sofrido que conduziu a um presente amargo mas também um grande coração.

Já há muito que não acabava de ler um livro com lágrimas nos olhos. Só alguém com uma pedra em vez de um coração é que não se comoverá com Ove e a sua maravilhosa história.

"Faltavam cinco para as seis da manhã quando Ove e o gato se encontraram pela primeira vez. O gato de imediato sentiu uma antipatia imensa por Ove. E o sentimento não poderia ser mais recíproco.

Ove tinha-se levantado dez minutos antes, como era seu costume . Não percebia como é que havia pessoas que dormiam de mais e depois deitavam as culpas ao 《o despertador que não tocou》. Ove nunca tinha tido um despertador em toda a sua vida. Acordava às quinze para as seis e levantava-se prontamente.

Todas as manhãs, durante as quase quatro décadas que viviam nesta casa, Ove tinha ligado a cafeteira eléctrica, usando a mesmíssima quantidade de café  de todas as outras manhãs, e de seguida bebia uma caneca na companhia da mulher. Uma dose para cada caneca , e uma dose extra para a jarra da cafeteira - nem mais nem menos. As pessoas já nem isso sabiam fazer, preparar um cafe decente. Da mesma forma que hoje em dia já ninguém sabia escrever à mão. Porque agora tudo se resumia a computadores e máquinas de café expresso. E o que iria ser do mundo se as pessoas já nem sequer sabiam escrever à mão ou preparar uma chávena de café?"

 

Cadernos da Água, João Reis

Charneca em flor, 12.09.22

IMG_20220912_010054.jpg

De vez em quando, ouvia falar de João Reis e dos seus livros. Até ouvi o próprio autor num podcast sobre livros e escritores. Como gostei tanto de o ouvir, comecei a segui-lo no Instagram e foi aí que vi a divulgação da publicação do seu livro mais recente, "Cadernos da Água". Como achei que a premissa era interessante, acabei por comprá-lo.

"Cadernos da Água" é uma história contada a várias vozes embora predomine a voz de uma mulher portuguesa, Sara, que se encontra refugiada, com a filha, num país nórdico. Sara escreve num caderno sobre o seu dia-a-dia tendo como destinatário o marido. Portugal já não existe uma vez que o Estado Português se dissolveu. A Península Ibérica bem como o resto da Europa e o Médio passaram por uma série de situações que conduziram a uma sequência de conflitos. O cenário é de seca extrema, a falta de água está na origem da maioria dos conflitos e provocou uma onda de refugiados do Sul da Europa em direcção aos países nórdicos onde a situação não é tão insustentável.

Tendo em conta o tema, foi irónico ter escolhido ler este livro no mês de Agosto quando estava de férias no Algarve rodeada de sinais da seca em que o país se encontra. 

A experiência de leitura deste livro inspirou-me sentimentos contraditórios. Por um lado, gostei muito da escrita do João Reis o que me fez ler o livro avidamente para perceber para onde a história ia. Por outro lado, ficava angustiada com aquilo que as personagens tinham que passar pela falta de água. Enquanto lia, e uns dias depois de acabar, sentia-me "culpada" por usufruir de água em quantidade mais do que suficiente. 

Não sei se hei-de considerar  "Cadernos da Água" como distopia ou como uma profecia. Temo que o mundo imaginado por João Reis não esteja assim tão distante.

"OS ÚLTIMOS DIAS FORAM ESTRANHOS. Não aconteceu nada de muito novo, por um lado. Por outro, não posso dizer que tenham sido agradáveis. E como se me fosse habituando a uma realidade má com receio de que ela ainda possa piorar. Poderá sempre piorar, é um facto, mas a rotina e o acumular dos dias não tornam esta realidade melhor do que ela é. A sua sordidez não esmorece."

 

Claraboia, José Saramago

Charneca em flor, 07.09.22

IMG_20220906_031103.jpg

"Claraboia", livro do mês de Agosto da Leitura Conjunta de Saramago

 

"Claraboia" foi o segundo livro que José Saramago escreveu já que o terminou em 1953, seis anos após "Terra do Pecado". No entanto, o livro só foi publicado em 2011 já depois de o autor ter falecido. O original foi enviado, por um amigo, a uma editora a qual nunca respondeu. Mais tarde quando o autor já era conhecido, a mesma editora contactou José Saramago para mas ele optou por não publicar o livro deixando essa decisão a cargo da sua família quando já não estivesse entre nós.

Clarabóia é uma abertura que pode existir, por exemplo, no alto dos edifícios com o objectivo de fornecer luz aos espaços.  Nos prédios mais antigos era muito comum utilizar-se uma clarabóia para iluminar a escada. Eu fui criada num prédio com uma clarabóia.

Este romance passa-se, efectivamente, num prédio e, ao lê-lo, é como se estivéssemos debruçados a espreitar pela clarabóia observando a vida dos vários personagens que habitam o edifício. Em cada patamar, vivem famílias diferentes, pobres, com vivências próprias dos habitantes de uma cidade nos anos 50. As histórias de cada personagem vão-se interligando e tocando nalguns pontos. As figuras mais marcantes desta história são o sapateiro Silvestre que mora no rês-do-chão e o seu hóspede, o misterioso Abel. 

Embora este livro esteja escrito de uma forma muito diferente do estilo pelo qual José Saramago se tornou conhecido mais tarde, em "Claraboia" nota-se já a crítica social tão característica do escritor. Nos livros mais recentes Saramago teve o cuidado de embrulhar a sua análise social na história, e embora também aqui se possa encontrar a sua acutilância de observação do quotidiano entrelaçada nas vidas das personagens, a verdadeira análise é-nos servida através das conversas entre Silvestre e Abel.

Apesar de José Saramago ter já 30 anos quando escreveu o livro achei que ""Claraboia" revela um homem muito idealista para além de um escritor que ainda não tinha encontrado a sua voz. Mesmo antes de escrever este texto encontrei este comentário de José Saramago no site da Fundação que leva o seu nome:Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.» Eu não podia concordar mais, "Claraboia" ainda não é um livro do escritor nobilizado mas ali já estava um embrião do escritor que José Saramago viria a ser.

Dito isto, tenho que dizer que gostei muito de ler este livro e que foi surpreendente ver que José Saramago também sabia usar travessões nos diálogos .  As personagens são todas muito interessantes, cada uma com a sua particularidade e circunstância, mas adorei o sapateiro Silvestre bem como a D. Lídia, a quem um senhor rico pôs casa ali mesmo no prédio entre gente séria, ou não mas para descobrirem isso têm que ler.

"- Não , não fujo. Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nos deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é  porque morreu antes de nascer. - Sorriu e acrescentou:
- Esta frase não é minha. Ouvi-a há muitos anos..."