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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Mil Sóis Resplandecentes, Khaled Hosseini

Charneca em flor, 06.05.22

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Este livro foi mais uma sugestão para o mês de Abril do Clube do Livra-te. Desta feita, a escolha foi da Rita da Nova.

O pano de fundo deste romance é o Afeganistão desde os anos 60 (ainda no tempo da Monarquia) até ao início deste milénio passando pela Revolução Marxista, e consequente invasão soviética, pela guerra entre as forças governamentais (apoiadas pela URSS) e os Mujahidin, seguida pela guerra civil entre grupos rebeldes e que terminou com a vitória dos Talibã chegando à invasão norte-americana posterior aos atentados do 11 de Setembro.

As figuras centrais deste romance são 2 mulheres de gerações diferentes, Marian e Laila, que acabam por se casar com o mesmo homem em circunstâncias muito díspares. Através delas conseguimos perceber perfeitamente as condições de vida a que as mulheres afegãs estavam, e continuam a estar, sujeitas.

O contexto histórico e político está muito bem entrelaçado na narrativa de forma a que este não se torne aborrecida. A construção das personagens é excelente. Não são lineares, têm várias camadas e vão evoluindo ao longo dos anos, com tudo aquilo que lhes vai sucedendo. O autor consegue que o leitor estabeleça uma conexão empática com Laila e Marian embora de forma diferente e evolutiva.

Para além da condição feminina imposta pelo ambiente social que se vive, é abordada a violência doméstica de forma tão realista que quase conseguimos sentir as dores destas 2 mulheres.

"Mil Sóis Resplandecentes" é um livro perturbador, duro, que abala as nossas certezas e que nos confrontam com uma realidade muito diferente da nossa realidade ocidental. Este livro encaixa na categoria dos livros que, mais do que uma fonte de distracção, nos fazem reflectir sobre a natureza humana, sobre a maldade e sobre tudo aquilo que falta fazer para construirmos uma sociedade mais justa e um  futuro mais digno para todos. E ler esta obra fez-me sentir grata porque a lotaria da Vida me fez nascer num país onde ser mulher é diametralmente diferente daquilo que significa sê-lo no Afeganistão, principalmente neste tempo em que vimos regressar os Talibãs ao poder, ainda que em versão 2.0.

Em suma, ainda bem que a Rita da Nova sugeriu este livro porque de outro modo não teria pegado nele perdendo uma óptima oportunidade de enriquecimento pessoal.

"- Lamento - diz Laila, achando espantoso que as histórias de todos os afegãos sejam marcadas pela morte, pela perda e por inimagináveis desgostos. E no entanto, como ela testemunha, as pessoas acham maneira de sobreviver, de seguir em frente. Pensa na sua própria pria vida e em tudo o que lhe aconteceu, e admira-se por também ela ter sobrevivido, por estar viva e sentada naquele taxi a ouvir a história daquele homem."

 

"Torto Arado", Itamar Vieira Junior

Charneca em flor, 24.04.22

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Ao ver o anúncio de que este fantástico livro será adaptado para uma série da HBO Max, reparei que ainda não tinha partilhado por aqui a minha experiência de leitura de "Torto Arado". 

O ponto de partida para esta história é um acontecimento dramático envolvendo as duas irmãs, ainda crianças, Belonísia e Bibiana, que influencia a relação que se estabelece entre elas ao longo da vida bem como a forma como as suas vidas se irão desenrolar. Paralelamente, tomamos contacto com a realidade em que a família vive. Belonísia e Bibiana nasceram numa família de quilombolas. Os quilombolas são homens e mulheres livres que descendem dos escravos e, para sobreviverem, aceitam trabalhar para os fazendeiros em troca da possibilidade de construir uma casa de barro, para não se tornar definitiva, bem como espaço para cultivarem os seus alimentos. No fundo, é uma forma de escravatura encapotada. Acompanhamos esta família na sua luta pelo direito à educação, ao direito à habitação e ao seu justo rendimento.

Com "Torto Arado", aprendemos a construir a empatia dentro de nós por aqueles com poucos, ou nenhuns direitos, e muito poucas oportunidades. Mais um livro para nos fazer pensar e olhar à nossa volta, para além do nosso umbigo.

Uma excelente leitura. Tenho a certeza que fará da parte da minha lista de preferidos do ano.

"Mesmo muito depois de o carro ter deixado a fazenda e a familia ter se recolhido aos seus afazeres, Belonisia permaneceu à porta mirando a estrada e tudo o mais que não podia ver de onde estava. Bibiana se levantou da mesa, onde iria iniciar a correção dos cadernos, e se dirigiu até à irmã. Envolveu-a por trás, enlaçando os braços em sua cintura, aninhando seu rosto entre o ombro e a orelha. Belonísia segurou suas mãos. Juntas fecharam os olhos compartilharam a dádiva daquele instante. Entregaram-se àquele gesto por inteiro e experimentaram algo que poderiam chamar de perdão."

 

 

 

"O Lugar das Árvores Tristes", Lénia Rufino

Charneca em flor, 20.03.22

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No passado mês de Fevereiro consegui terminar de ler os livros dos 2 clubes de leitura a que aderi* antes do mês terminar por isso aproveitei para ler este "O Lugar das Árvores Tristes" de Lénia Rufino que já tinha em espera há uns meses. Este livro foi o primeiro que a autora publicou e espero que seja o primeiro de muitos.

O livro está muito bem escrito e conta uma história que me tocou de sobremaneira. O enredo situa-se em 2 aldeias do Alentejo profundo. No início do livro encontramos Isabel, uma jovem com uma estranha predileção por passear por entre as campas do cemitério que fica junto da sua casa. Isabel aprecia o silêncio desse lugar que lhe aguça a curiosidade. Nesses passeios depara-se com um nome de uma falecida da qual nunca soube a razão da morte e esse pormenor é o gatilho para ela desencadear uma "investigação" de modo a perceber porque é que, em toda a aldeia, ninguém quer falar sobre o assunto. A descoberta dos diários de Lurdes, a sua mãe, conduz-nos numa viagem no tempo até ao fim dos anos 60 e início dos anos 70.

Lénia Rufino construíu uma trama muito interessante, com a dose certa de mistério e suspense ao mesmo tempo que nos leva a reflectir sobre a condição feminina nessa altura, ainda em ditadura, em que a mulher não era dona da sua vontade nem podia tomar decisões sobre a sua vida.

Eu mergulhei de tal forma nesta história que me senti quase uma personagem de Lénia Rufino. Afinal, eu também descobri os segredos da minha família lendo as cartas que os meus pais tinham bem escondidas. Eu podia ser a Isabel . Uma das conclusões que retirei das páginas deste livro foi que, só conhecendo o passado das pessoas que se cruzam connosco no dia-a-dia, é que podemos perceber as atitudes que têm hoje. As dores do passado reflectem-se nas atitudes do presente.

Aguardo ansiosamente o próximo livro da Lénia. Ela também nos ensina que nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos. Afinal, ela levou muitos anos a conseguir publicar o seu livro.

"Nas aldeias pequenas, nada é mais difícil do que guardar segredos. O ditado antigo que assegura que até as paredes têm ouvidos não é tão verdadeiro em lugar nenhum como nas aldeias."

"as intermitências da morte", José Saramago

Charneca em flor, 31.01.22

IMG_20220129_154226.jpgUm dos livros que me acompanhou neste mês de Janeiro foi "as intermitências da morte" de José Saramago. Tratou-se de uma releitura por causa da minha participação num "clube de leitura " dedicado aos livros de José Saramago uma vez que, este ano, se comemora o centenário do nascimento do Prémio Nobel da Literatura português.

Um facto interessante de reler um livro, quase 12 anos depois do primeiro contacto  com esta história, é reparar em pormenores que me escaparam nessa altura. Como é óbvio, já não sou a pessoa que era em 2010 uma vez que amadureci como pessoa e como leitora. José Saramago construíu uma história muito interessante e divertida apesar da morbidez do tema. Como é expectável, o autor, através desta história, passa importantes mensagens políticas e sociais bem como a crítica à Igreja como era seu apanágio. Será que gostaríamos de viver nesta realidade em que não se morria mas que se continuava a envelhecer e a adoecer? Seria agradável ficar num limbo entre a vida e a morte? Que implicações sociais e económicas teria esta situação? Mais um livro que me fez pensar apesar de também me proporcionar momentos agradáveis.

Para quem nunca leu Saramago, este é um bom livro para começar.

"É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo  não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja."

 

 

"Bela", Ana Cristina Silva

Charneca em flor, 07.01.22

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A figura de Florbela Espanca sempre me fascinou. Como já partilhei aqui, um dos seus poemas serviu de inspiração para o nome blogosférico, Charneca em Flor.

Através dos seus poemas, tive o primeiro contacto com a poesia. Florbela Espanca escreveu sobre o amor, a dor, o sofrimento e, com este romance, consegui compreender a razão para que Florbela tivesse escrito da maneira como escreveu.

Já li outros livros de Ana Cristina Silva mas, para mim, este é o meu preferido. A autora conseguiu transmitir a existência perturbada de Florbela Espanca de forma magistral. Gostei muito da maneira como o romance foi estruturado e da relação estabelecida entre as várias personagens. Ao longo da história, senti uma imensa empatia por "Bela" e sofri com ela. Comparando a condição feminina de hoje em dia com a época em que "Bela" viveu, percebe-se que, apesar de tudo, já foi percorrido um longo caminho. Muito do que "Bela" vivenciou foi influenciado pelo facto de ser mulher. A sociedade não foi capaz de a compreender.

Recomendo vivamente a leitura deste livro.

"Aquele instante marca uma fronteira, um sinal que levou à criação de uma nova história para a minha vida. Tinha descoberto que as palavras poéticas podiam sarar feridas. No dia seguinte,  o meu pai voltou a partir e eu passei a sonhar com os lugares imaginários onde ele me poderia levar quando fosse mais crescida. Para sobreviver à madrinha, nas minhas fantasias, renascia poeta e o meu destino  cruzava-se com versos incendiários lançados à multidão."

 

"Deus Pátria Família", Hugo Gonçalves

Charneca em flor, 07.08.21

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O mais recente livro de Hugo Gonçalves é muito difícil de classificar. Será um romance histórico? Uma distopia, no sentido em que apresenta uma realidade histórica alternativa? Um policial? Não se consegue classificar porque é isso tudo e muito mais. Aquilo que se percebe é uma exaustiva pesquisa histórica de modo a que a ficção engendrada pelo escritor não seja desprovida de lógica. Aliás, nem sempre se consegue perceber onde acaba a verdade histórica e começa a genial criatividade da narrativa criada por Hugo Gonçalves.

O enredo centra-se, principalmente, no Portugal do início da década de 40 do século passado embora recue aos Estados Unidos dos anos 20, ao período que se seguiu à Primeira Grande Guerra.

A historia parte da premissa de que o afastamento de Salazar do poder conduz o país a uma certa radicalização de posições com o surgimento de uma nova personalidade ao comando dos destinos do país. Esta mudança leva Portugal a abandonar a sua neutralidade no conflito europeu*, unindo-se às Potências do Eixo com as consequências que daí advêm. Na mesma altura, a personagem central desta obra, o detective Luís Paixão Leal, vê-se a braços com a investigação acerca da morte de várias jovens mulheres cujos corpos são encontrados estranhamente amortalhados.

O livro está muito bem escrito provando que o acto de escrever um livro precisa tanto de inspiração como de transpiração. A história está muito bem trabalhada levando-nos a acreditar que esta realidade alternativa criada por Hugo Gonçalves podia muito bem acontecido. As personagens foram construídas com mestria e realismo. 

Só tenho uma coisa a apontar, achei as críticas à religiosidade exageradas, embora compreensíveis dado o enquadramento social e histórico bem como à história construída só que não era preciso ir tão longe. Mas talvez seja só a minha sensibilidade judaico-cristã a manifestar-se.

Este livro é mais um exemplo de que a literatura, mais do que distracção, deve levar-nos a questionar as nossas certezas bem como a sociedade que nos rodeia e o mundo em que vivemos. A acção de "Deus Pátria Família" decorre no século passado mas, infelizmente, muito daquilo que aqui se conta podia repetir-se nos dias de hoje.

"Este é o século em que as ideologias logram aquilo que só  a religião alcançou: convencer as massas da existência de um Paraíso. Os mecanismos são idênticos, substituindo-se Deus por um líder providencial. Mas, se a religião remete o bónus do Éden para depois da morte, o fascismo e o comunismo garantem a construção desse lugar perfeito ainda em vida. Cardoso já antecipa o descalabro de tanta ilusão e ortodoxia, a entrega com que muitos seguem um sistema de ideias como num culto suicida, sem um questionamento que seja. O detetive não embarca em cruzadas políticas ou espirituais."

*Segunda Guerra Mundial 

 

O Labirinto dos Espíritos, Carlos Ruiz Zafón

Charneca em flor, 22.07.21

IMG_20210630_184520.jpgPara o mês de Julho, no desafio Uma Dúzia de Livros, era proposta a leitura de um livro passado na nossa cidade favorita. A escolha não foi fácil uma vez que já passei por inúmeras cidades de que gostei muito. Optei pelo último livro da série "O Cemitério dos Livros Esquecidos" porque se passa numa das cidades mais interessantes que já visitei. "O Labirinto dos Espíritos" tem mais de 800 páginas mas lê-se com muita facilidade. De tal forma que, nas últimas páginas, fui tentando protelar o final porque não queria deixar as personagens que fazem parte da saga "O Cemitério dos Livros Esquecidos" como Daniel Sempere, Fermín, Bea, Juliáou mesmo as personagens novas como Alicia e o jovem Julian Sempere.

As histórias contadas por Carlos Ruiz Zafón são tão envolventes e cativantes que até o próprio leitor se sente uma das suas personagens. Neste livro, que fecha a saga, Zafón supera-se e fecha a história da família Sempere, e dos seus amigos, de forma magistral.
Para além da brilhante narrativa elaborada, o autor leva-nos pelas ruas de Barcelona de forma tão real que parece que nós também caminhamos por aquelas ruas acompanhando as maravilhosas personagens. Neste "Labirinto" descobrimos também o contexto histórico no qual se desenrola a acção, a Guerra Civil Espanhola e o pós-guerra. Conseguiu aguçar-me a curiosidade sobre esse período da História ibérica e europeia.
Não posso deixar de dizer que "O Labirinto dos Espíritos", bem como os restantes livros da saga, representa um verdadeiro hino de amor aos livros. Uma leitura, quase obrigatória, para todos aqueles que não prescindem dos livros na sua vida.

"Se os olhos não a enganavam, tinha caído no alto de uma enorme espiral, uma torre articulada em redor de um infinito labirinto de corredores, passadiços, arcos e galerias que parecia uma imensa catedral. Mas ao contrário das catedrais que conhecia, aquela não era feita de pedra.

Era feita de livros.

Os sopros de luz que caíam da cúpula revelaram aos seus olhos grupos de escadarias e pontes flanqueados por milhares e milhares de livros que entravam e saiam daquela estrutura."

 

"

Almoço de Domingo, José Luís Peixoto

Charneca em flor, 02.07.21

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Já quando li o "Autobiografia" de José Luís Peixoto, achei que tinha lido o melhor livro do autor. Só que José Luís Peixoto superou-se e conseguiu escrever um livro ainda melhor. "Almoço de Domingo" é um romance biográfico sobre a vida do alentejano de Campo Maior e fundador da Delta Cafés, Comendador Rui Nabeiro. Foi o próprio retratado que despoletou o processo que conduziu a esta obra convidando o escritor a escrever a sua biografia. No entanto, José Luís Peixoto, com o acordo do Sr. Rui, partiu da vida contada pelo Comendador e construíu um maravilhoso romance. A história de vida de Rui Nabeiro já é fascinante mas, através das palavras do autor, tornou-se num excelente romance. Nestas páginas sentimos o aroma do café, o cheiro e o calor das terras alentejanas e sente-se o carinho que o Sr. Rui Nabeiro inspira no povo de Campo Maior. A acção decorre durante 3 dias, de 26 a 28 de Março de 2021, dia em que Rui Nabeiro completou 90 anos. JLP imaginou o quotidiano do retratado a partir das conversas que teve com ele bem como os próprios pensamentos em que a personagem Rui Nabeiro vai recordando a sua vida ao longo dos seus 90 anos. Simplesmente brilhante e muito bem escrito como é hábito.

"O passado tem de provar constantemente que existiu. Aquilo que foi esquecido e o que não existiu ocupam o mesmo lugar. Há muita realidade a passear-se por aí, frágil, transportada apenas por uma única pessoa. Se esse indivíduo desaparecer, toda essa realidade desaparece sem apelo, não existe meio de recuperá-la, é como se não tivesse existido."

"Que rosto tem uma pessoa? No fim da vida, entre todos os rostos que teve, qual é o rosto que realmente a representa? Será que o último rosto, por ter sobrevivido a todos os outros, é o mais válido? Não lhe custava encontrar argumentos contra essa ideia."

 

Se isto é um homem, Primo Levi

Charneca em flor, 07.06.21

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O autor de “Se isto é um homem", Primo Levi, era um químico, italiano e judeu que sobreviveu à vida num campo de concentração nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial. Esta obra é um impressionante relato na primeira pessoa daquilo que se passou num dos mais negros períodos na História da Humanidade. Primo Levi viveu num dos campos de concentração de Auschwitz durante pouco mais de 1 ano. Essa experiência levou-o a escrever este livro em que a descreve de forma realista, objectiva e rigorosa sem cair na tentação do compreensível melodrama. Com ele sentimos humilhação, fome, frio, cansaço extremo, medo, resignação ou mesmo vergonha por aquilo em que se tornou para conseguir sobreviver ao campo. Porque para o regime nazi não foi suficiente exterminar seres indesejáveis – embora a maioria fossem judeus, também havia pessoas com outras origens – nas câmaras de gás. Aos presos que tinham condições para trabalhar, o regime “matava" de outra forma, através da humilhação destruía-se aquilo que torna um indivíduo num homem fazendo emergir os seus instintos mais primitivos.

Quem quiser, verdadeiramente, perceber o que foi o Holocausto tem aqui uma das melhores fontes de conhecimento. Esqueçam os livros que povoam os escaparates das nossas livrarias ostentando Auschwitz ou Birkenau no título. O Holocausto e o extermínio de judeus e outros seres humanos não foi uma fantasia de um qualquer escritor mais ou menos talentoso. Aconteceu e isso não se pode negar. Se o negarmos, abrimos a porta à sua repetição. Por melhor que um escritor investigue, aquilo que escrever nunca se conseguirá comparar aquilo que escreveu quem o sentiu na pele.

“Se isto é um homem" é um livro que fere a nossa sensibilidade e que nos faz pensar, “como é possível que um ser humano tenha feito isto a outro ser humano?”. No entanto, ainda bem que o li. A literatura deve servir para nos desassossegar e para alimentar em nós a empatia por quem nos rodeia, mesmo que seja alguém muito diferente de nós.

“Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esfa ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão tem o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós tal como éramos, ainda sobreviva.”

Novas Cartas Portuguesas

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

Charneca em flor, 25.05.21

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Embora o mês de Maio ainda não tenha acabado, eu já terminei a minha leitura deste mês do clube/desafio de leitura a que aderi este ano. O tema proposto era "Um livro que tenha sido proibido". Já há uns tempos que tinha optado pelo "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Este livro começou a ser escrito em 1971 e foi publicada em Abril de 1972. As autoras partiram do romance epistolar "Lettres Portugaises" do séc. XVII cuja autoria é polémica porque foi atribuída a Mariana Alcoforado, freira enclausurada em Beja, mas também a um autor francês. O livro "Cartas Portuguesas" é um conjunto de 5 cartas de amor supostamente enviadas pela freira Mariana Alcoforado a um oficial francês. Tendo este amor proibido como ponto de partida, as "Três Marias" elaboraram este livro a 6 mãos que albergou uma série de estilos literários como sejam o epistolar, o poético e o romance.

A meu ver, o livro pretendia chamar a atenção para a condição feminina na época da ditadura fascista que se vivia em Portugal. As autoras abordaram, em grande medida, a opressão da mulher à vontade do marido e da família mas também escreveram sobre a sexualidade, o prazer feminino e até afloraram, levemente, a orientação sexual. As "Três Marias" não deixaram de abordar outros problemas que afectavam tanto as mulheres como os homens nos anos 70 como, por exemplo, a guerra colonial e a emigração.

A direcção literária do obra foi de outra mulher corajosa, Natália Correia, que se recusou a fazer cortes naquilo que as autoras escreveram.  Como resultado, a primeira edição foi apreendida e destruída em 3 dias e as autoras foram acusadas de "pornografia e atentado ao pudor". Nos interrogatórios foram instadas no sentido de identificarem quem tinha escrito o quê. Nunca o revelaram até hoje, passados 50 anos e quando só resta uma das autoras viva. Embora tenham ido a tribunal acabaram por não ser julgadas graças à Revolução dos Cravos que acabou com a ditadura e interrompeu o processo. O processo judicial valeu-lhes a solidariedade de inúmeros intelectuais portugueses e estrangeiros bem como de inúmeras feministas. Aliás, "Novas Cartas Portuguesas" é considerado, actualmente, um dos primeiros manifestos feministas.

Na minha opinião, este não é um livro fácil de ler, antes pelo contrário. Esta edição é uma edição anotada o que ajuda imenso porque há certos pormenores que só se entendem se compreendermos as referências políticas e literárias bem como o contexto histórico em que a obra foi dada ao prelo. Nalgumas linhas encontramos, realmente, referências sexuais mas que fazem sentido no âmbito da "história" que as autoras queriam contar. Percebo que a publicação deste livro tenha sido um escândalo, não só pela abordagem sexual mas porque pretendia romper com a ordem estabelecida na sociedade portuguesa. Infelizmente, considero certas passagens muito actuais e acredito que se a obra fosse publicada hoje constituíria, novamente, um escândalo. Chegámos à 3a década do séc. XXI mas as mentalidades retrógradas subsistem. As circunstâncias mudaram mas ainda há muito por fazer para se atingir a igualdade entre homens e mulheres.

Este é um livro que faz pensar. E hoje em dia há tanta preguiça em pôr os neurónios a funcionar, não é verdade? Mas fazer pensar é um dos objectivos mais nobres da literatura.

"Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.

(...)

Só de nostalgia faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um  Outubro,  um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?"