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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Lotaria Literária #12

Charneca em flor, 12.01.20

"Na papelaria, à tarde, morto de sono, Josué anunciara definitiva volta à poesia, agora sensual, a cantar os prazeres da carne."

Gabriela Cravo e Canela

Jorge Amado

Dom Quixote

ISBN 978-972-20-5036-4

Este romance deu lugar a uma telenovela de culto, a primeira novela brasileira a ser exibida em Portugal. Gabriela Cravo e Canela é um clássico da lusofonia que vale a pena ler.

Filho da Mãe, Hugo Gonçalves

Charneca em flor, 07.01.20

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"Filho da Mãe” de Hugo Gonçalves é um dos livros que mais me tocou nos últimos tempos. Já acompanho o percurso do autor há alguns anos. Lia as suas crónicas quando ele viveu no Brasil e li os seus romances “Enquanto Lisboa arde o Rio de Janeiro pega fogo" e “O Caçador do Verão”.


Olhando, agora, para aqueles 2 romances chego à conclusão que, embora sejam ficção, têm qualquer coisa de autobiográfico. É natural que a vida de um autor “contamine" a sua obra. Nunca são totalmente indissociáveis. No entanto este “Filho da Mãe” é mesmo o autor, Hugo Gonçalves. O livro mostra-nos a busca pela memória da mãe que ele perdeu quando tinha 9 anos. Tudo começa quando o autor recebe o testamento do avô materno que lhe é entregue, num saco de plástico, pela avó. Este evento é o ponto de partida para a uma viagem à infância, aos lugares, às memórias difusas que lhe permita descobrir a sua falecida mãe e, nesse percurso, encontrar-se a si mesmo.


Obviamente que o livro me tocou, em primeiro lugar, porque a minha história de vida é similar à do autor. Afinal, eu perdi o meu pai na adolescência. Mas esta obra também me toca porque vai ao encontro daquilo que eu já penso há muito. Há acontecimentos que mudam a nossa vida para sempre e, ao mudarem a nossa vida, influenciam a maneira como crescemos enquanto pessoas e determinam as escolhas que vamos fazendo ao longo da nossa construção. Perder o pai ou a mãe quando a nossa personalidade ainda está em formação deve ser das coisas mais violentas que podem acontecer a alguém.


Poder-se-á pensar que ė um livro destinado apenas, a todos aqueles que já perderam alguém mas isso seria redutor e injusto. Cada um de nós encontrará ali um pedacinho da sua própria história, seja ela qual fôr. Todos nós já passámos por um processo de luto seja por morte de pessoas queridas, de sonhos ou de relações. Mais do que um livro sobre a morte de alguém que se ama, é a história da vida que se viveu depois desse acontecimento
Há quem diga que as pessoas só morrem quando nos esquecemos delas. Hugo Gonçalves, menino da sua mãe, trouxe-a de volta à vida através das páginas deste livro. E assim ela tornou-se eterna.


“A história do luto é tão rica em aparições de fantasmas como a poesia ultrarromântica. Nunca julguei ver o espírito da minha mãe, tão-pouco senti a sua presença na casa. O que eu sentia era a brutalidade da sua ausência – inarredável, sem solução, o silêncio soprando nas veias como no interior das paredes de uma casa devoluta. Porém, muitas vezes falei com ela, fazendo uma espécie de telefonema intergaláctico, em que primeiro era preciso marcar o indicativo de um pai-nosso, e então, estabelecida a linha entre os mortos e os vivos, pedia-lhe que voltasse ou, pelo menos, e como rogava a avó Margarida durante as orações, que a sua alma estivesse na paz do Senhor. Tantas outras vezes acreditei que, ao abrir uma porta, a minha mãe estaria do outro lado. Não um fantasma, não de visita, mas para me dizer que apanhasse os carrinhos do chão, vestisse o pijama e me fosse deitar porque no dia seguinte havia escola.”

Companhia  das Letras

ISBN 978-989-665-772-7

Lotaria Literária #5

Charneca em flor, 05.01.20

"Que tu não devias nascer. Mas, olha, tu nasceste e tens saúde. Ela é que não."

Filho da Mãe

Hugo Gonçalves

Companhia  das Letras

ISBN 978-989-665-772-7

Hoje fiz batota e escrevi mais do que 1 frase. A primeira frase é muito curta por isso achei que fazia sentido acrescentar o resto. Este livro foi o último que li e ainda estou a ultimar o meu comentário. Será publicado brevemente.

Leituras de 2019 - Top 3

Charneca em flor, 30.12.19

Nesta época propícia a balanços, resolvi fazer um top 3 dos livros que mais gostei de ler em 2019

  1. "As oito montanhas" de Paolo Cognetti. Este livro foi o que mais me marcou no ano que acaba. É uma história de uma amizade entre 2 rapazes que se prolonga até à vida adulta. Para além do relacionamento entre os 2 também se percebe a relação especial que estabelecem com a montanha. Foi um livro muito especial para mim. 

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  2. "Becoming" de Michele Obama. Gosto muito de ler biografias principalmente se forem de mulheres fortes e determinadas. E é assim que eu via Michele Obama. Nesta autobiografia ainda fiquei a gostar mais dela porque ela e o marido Barack Obama são a prova de que não há impossíveis seja qual fôr o sítio de onde viemos.

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  3. "Sophia de Mello Breyner Andresen" de Isabel Nery. 2019 foi o ano das biografias. Esta também foi marcante embora me tenha sentido um pouco constrangida porque Sophia não gostava de falar da sua vida íntima porque acreditava que a obra era mais importante que a vida. No entanto, adorei este livro ainda para mais porque em 2019 se comemorou o centenário do nascimento da poeta.

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    Bom ano e Boas leituras

     

     

Mau tempo no Canal, Vitorino Nemésio

Charneca em flor, 02.12.19

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Já há muito tempo que queria ler este livro, um clássico da nossa literatura. Este exemplar já estava pousado nas minhas prateleiras há uns anos aguardando a altura certa para o ler. A leitura levou-me algum tempo porque há outras actividades que se vão sobrepondo. Ou é a vida do dia-a-dia que se impõe ou mesmo a actividade de escrever os textos para o Desafio dos Pássaros, para já não falar do Curso de Escrita Criativa que vou fazendo a um ritmo muito lento. Obviamente que "Mau tempo no Canal" também é uma obra de alguma densidade que deve ser saboreada no seu devido tempo. 

O livro foi publicado nos anos 40 do século passado mas a trama diz respeito à segunda década do mesmo século e decorre nos Açores. O canal a que se refere o título é o canal que separa a ilha do Faial e a ilha do Pico. É, principalmente, nestas 2 ilhas que acontece a história narrada embora a acção também se estenda à ilha de São Jorge e à Terceira. Na primeira cena descobrimos um namoro entre 2 jovens, Margarida Clark Dulmo e João Garcia. Esta relação encontra alguns obstáculos já que há conflitos antigos entre as famílias dos jovens. Ou seja, é uma espécie de história de Romeu e Julieta que se passa na Horta e não em Verona. Este conflito vai ser preponderante no enredo deste romance.

Na história também se aborda os muitos casos da peste que afectou o arquipélago e a pesca, ou caça para ser mais exacta, da baleia. Aliás os pescadores são das personagens mais pitorescas que Vitorino Nemésio descreve.

O romance encantou-me, não só pela história mas, sobretudo, pelo talento literário do autor. As suas descrições fabulosas das paisagens insulares fizeram-me viajar pelas ilhas da bruma. Aliás, ao ler este romance consegui abstrair-me da realidade e penetrar na história como se estivesse lá. Outro pormenor que eu adorei foi os recursos fonéticos que Vitorino Nemésio encontrou para percebermos a particularidade do sotaque açoriano e o linguajar das pessoas mais simples.

Quanto a mim, ler este romance aumentou o meu conhecimento da literatura portuguesa bem como da nossa cultura. Também foi uma oportunidade de recordar os dias que passei nos Açores. Não conheci nenhuma das ilhas mencionadas, ou melhor, conheci o Aeroporto da Horta onde fiz escala na viagem de regresso ao continente. Vi a ilha do Pico a partir do avião (cortesia do piloto para deliciar os passageiros). Achei mesmo que tinha um aspecto mágico com as nuvens à volta do pico. Os Açores ocupam um lugar especial no meu baú das memórias.

Partilho aqui um excerto em que Margarida descreve a experiência de subir ao pico do Pico e o que sentiu ao ter oportunidade de ver o nascer do sol naquele cenário.

"Passara o fim de Agosto até às vindimas no Pico, nas vinhas que o avô conservara entre a Candelária e São Mateus, em Campo Raso. Satisfizera em setembro a grande ambição da sua vida: subir ao pico do Pico, embora não fosse a melhor época. Passava-se uma noite a meio da encosta, numa furna. De madrugada - leite quente de vaca, que o pai (e nisso era bem amigo!) fazia ordenhar por Manuel Bana, tendo-a mandado de véspera, para chegar descansada o mais perto possível da étape. Não estava um dia muito claro; mas vir aparecer o Sol dos lados da Terceira, todo sangrento num mar de chumbo, um mar como nunca tinha visto, fresco e sem nada que lhe cortasse a limitação parada, a não ser as ilhas negras e acobardadas numa neblina. Para a banda das Flores, uma Lua de bordos tristes que ia morrer. Mas ela sentia-se contente a ver o Sol crescer devagar para ela, que o esperava à beira da cratera apagada do Pico, com um pau ferrado. O vulto de São Jorge, da Ponta dos Rosais ao Topo, parecia um navio azulado pelo próprio fumo da marcha, de proa à "suposta ilha" de Fernão Dulmo, que via a nudez do Sol primeiro que outra alguma."

A filha devolvida, Donatella di Pietrantonio

Charneca em flor, 29.09.19

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Li este livro em pouco mais de uma semana. Comprei-o por impulso. Não sei o que me chamou mais a atenção. Se foi o facto de se tratar de uma autora italiana (um dos meus países preferidos), se foi o título ou a foto escolhida para a capa. Os olhares destas duas jovens são verdadeiramente magnéticos. Seja qual tenha sido o motivo para ter pegado nele, valeu muito a pena. A história tem tanto de candura como de dureza. A articulação da história é cativante. Na primeira "cena" deste romance, escrito na primeira pessoa, encontramos uma adolescente de 13 anos que acabara de descobrir foi  criada por um casal que, afinal, não eram a sua verdadeira família. Em simultâneo, a jovem é devolvida à família biológica, alegamente, por solicitação desta. Logo nos primeiros momentos, a jovem percebe que isso não deve ser a verdadeira razão da sua devolução. Depois de 13 anos de uma vida confortável e privilegiada, vê-se no meio de uma família numerosa, pobre e que não parece desejá-la. A relação com Adriana, a irmã mais nova que a recebe com alegria, e com o irmão mais velho, Vincenzo, vão-lhe dar forças para aguentar aquele novo ambiente e para continuar a tentar descobrir qual é o seu lugar no mundo e a perceber a verdadeira história da sua vida.

Este romance só tem um defeito. Quando acabou, fiquei com vontade para continuar a acompanhar a vida da jovem narradora e da sua pequena, e voluntariosa, irmã Adriana.

"Imobilizámo-nos diante uma da outra, tão sós e próximas, eu mergulhada até ao peito, ela até ao pescoço. A minha irmã. Como uma flor improvável, que despontara num pequeno grumo de terra preso a uma rocha. Com ela, aprendi a resistência. Hoje, somos menos parecidas fisicamente, mas a nossa noção de termos sido atiradas para o mundo permanece igual. A cumplicidade salvou-nos."

 

P.S - Ao ler esta autora italiana, fiquei cheia de saudades das personagens da Elena Ferrante. Está a chegar a altura de ler o último volume da tetralogia d' "A amiga genial".

Paolo Cognetti, "As oito montanhas"

Charneca em flor, 16.09.19

As-Oito-Montanhas.jpgNão me lembro quando é que comprei este livro. Possivelmente foi depois de alguma das minhas viagens à Itália, para matar saudades da cultura italiana. Neste romance há 3 personagens principais, no meu entender, Pietro, Bruno e a montanha. A acção desenrola-se desde a infância dos 2 homens, passando pela adolescência e até à vida adulta. Conhecem-se numa aldeia, no sopé do Monte Rosa, nos Alpes. Pietro vive com os pais em Milão. Os pais têm, ambos, paixão pela montanha que foi onde se conheceram e alugam uma casa na aldeia de Grana para passarem o Verão. E é assim que Pietro e Bruno se conhecem. Juntos exploram a montanha, ao longo dos vários verões que Pietro passa na aldeia e constroem uma relação fraternal, entre eles e com a montanha, que se estenderá pela vida fora, apesar de alguns anos de afastamento.

O próprio autor tem uma relação privilegiada com a montanha já se divide entre a cidade e uma casa a 2000 metros de altitude.

O livro "As oito montanhas" é uma obra bela e encantadora que não se consegue parar de ler. A linguagem, apesar de ser em prosa, é poética, de uma certa forma. As descrições de Paolo Cognetti transportam-nos para a montanha e sentimo-nos  também nós, a subir à montanha. Se te sentes fascinado pela imensidão, pela dureza, pela resistência da montanha e acreditas no poder da amizade, este é o livro indicado para ti.

"Talvez fosse verdade, como afirmava a minha mãe, que cada um de nós tem uma cota predileta na montanha, uma paisagem que lhe agrada mais e onde se sente bem. A sua era o bosque dos 1500 metros, de abetos e larícios, à sombra dos quais crescem o mirtilo, o zimbro e o rododendro e se escondem os cabritos-monteses. Eu era mais atraído pela montanha que vem a seguir: pradaria alpina, torrentes, turfeiras, ervas de altitude, animais no pasto. Mais acima a vegetação desaparece, a neve cobre tudo até ao começo do verão e a cor prevalecente é o cinzento da rocha, com veios de quartzo e tendo incrustado o amarelo dos líquenes. Ali começava o mundo do meu pai."