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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Se isto é um homem, Primo Levi

Charneca em flor, 07.06.21

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O autor de “Se isto é um homem", Primo Levi, era um químico, italiano e judeu que sobreviveu à vida num campo de concentração nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial. Esta obra é um impressionante relato na primeira pessoa daquilo que se passou num dos mais negros períodos na História da Humanidade. Primo Levi viveu num dos campos de concentração de Auschwitz durante pouco mais de 1 ano. Essa experiência levou-o a escrever este livro em que a descreve de forma realista, objectiva e rigorosa sem cair na tentação do compreensível melodrama. Com ele sentimos humilhação, fome, frio, cansaço extremo, medo, resignação ou mesmo vergonha por aquilo em que se tornou para conseguir sobreviver ao campo. Porque para o regime nazi não foi suficiente exterminar seres indesejáveis – embora a maioria fossem judeus, também havia pessoas com outras origens – nas câmaras de gás. Aos presos que tinham condições para trabalhar, o regime “matava" de outra forma, através da humilhação destruía-se aquilo que torna um indivíduo num homem fazendo emergir os seus instintos mais primitivos.

Quem quiser, verdadeiramente, perceber o que foi o Holocausto tem aqui uma das melhores fontes de conhecimento. Esqueçam os livros que povoam os escaparates das nossas livrarias ostentando Auschwitz ou Birkenau no título. O Holocausto e o extermínio de judeus e outros seres humanos não foi uma fantasia de um qualquer escritor mais ou menos talentoso. Aconteceu e isso não se pode negar. Se o negarmos, abrimos a porta à sua repetição. Por melhor que um escritor investigue, aquilo que escrever nunca se conseguirá comparar aquilo que escreveu quem o sentiu na pele.

“Se isto é um homem" é um livro que fere a nossa sensibilidade e que nos faz pensar, “como é possível que um ser humano tenha feito isto a outro ser humano?”. No entanto, ainda bem que o li. A literatura deve servir para nos desassossegar e para alimentar em nós a empatia por quem nos rodeia, mesmo que seja alguém muito diferente de nós.

“Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esfa ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão tem o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós tal como éramos, ainda sobreviva.”

Novas Cartas Portuguesas

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

Charneca em flor, 25.05.21

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Embora o mês de Maio ainda não tenha acabado, eu já terminei a minha leitura deste mês do clube/desafio de leitura a que aderi este ano. O tema proposto era "Um livro que tenha sido proibido". Já há uns tempos que tinha optado pelo "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Este livro começou a ser escrito em 1971 e foi publicada em Abril de 1972. As autoras partiram do romance epistolar "Lettres Portugaises" do séc. XVII cuja autoria é polémica porque foi atribuída a Mariana Alcoforado, freira enclausurada em Beja, mas também a um autor francês. O livro "Cartas Portuguesas" é um conjunto de 5 cartas de amor supostamente enviadas pela freira Mariana Alcoforado a um oficial francês. Tendo este amor proibido como ponto de partida, as "Três Marias" elaboraram este livro a 6 mãos que albergou uma série de estilos literários como sejam o epistolar, o poético e o romance.

A meu ver, o livro pretendia chamar a atenção para a condição feminina na época da ditadura fascista que se vivia em Portugal. As autoras abordaram, em grande medida, a opressão da mulher à vontade do marido e da família mas também escreveram sobre a sexualidade, o prazer feminino e até afloraram, levemente, a orientação sexual. As "Três Marias" não deixaram de abordar outros problemas que afectavam tanto as mulheres como os homens nos anos 70 como, por exemplo, a guerra colonial e a emigração.

A direcção literária do obra foi de outra mulher corajosa, Natália Correia, que se recusou a fazer cortes naquilo que as autoras escreveram.  Como resultado, a primeira edição foi apreendida e destruída em 3 dias e as autoras foram acusadas de "pornografia e atentado ao pudor". Nos interrogatórios foram instadas no sentido de identificarem quem tinha escrito o quê. Nunca o revelaram até hoje, passados 50 anos e quando só resta uma das autoras viva. Embora tenham ido a tribunal acabaram por não ser julgadas graças à Revolução dos Cravos que acabou com a ditadura e interrompeu o processo. O processo judicial valeu-lhes a solidariedade de inúmeros intelectuais portugueses e estrangeiros bem como de inúmeras feministas. Aliás, "Novas Cartas Portuguesas" é considerado, actualmente, um dos primeiros manifestos feministas.

Na minha opinião, este não é um livro fácil de ler, antes pelo contrário. Esta edição é uma edição anotada o que ajuda imenso porque há certos pormenores que só se entendem se compreendermos as referências políticas e literárias bem como o contexto histórico em que a obra foi dada ao prelo. Nalgumas linhas encontramos, realmente, referências sexuais mas que fazem sentido no âmbito da "história" que as autoras queriam contar. Percebo que a publicação deste livro tenha sido um escândalo, não só pela abordagem sexual mas porque pretendia romper com a ordem estabelecida na sociedade portuguesa. Infelizmente, considero certas passagens muito actuais e acredito que se a obra fosse publicada hoje constituíria, novamente, um escândalo. Chegámos à 3a década do séc. XXI mas as mentalidades retrógradas subsistem. As circunstâncias mudaram mas ainda há muito por fazer para se atingir a igualdade entre homens e mulheres.

Este é um livro que faz pensar. E hoje em dia há tanta preguiça em pôr os neurónios a funcionar, não é verdade? Mas fazer pensar é um dos objectivos mais nobres da literatura.

"Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.

(...)

Só de nostalgia faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um  Outubro,  um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?"

 

Uma História da Leitura, Alberto Manguel

"A leitura é, desde o início, a apoteose da escrita"

Charneca em flor, 28.04.21

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Alberto Manguel é argentino mas já viveu em inúmeros países. Trabalhou como escritor, tradutor, editor e foi director da Biblioteca Nacional da Argentina. Desde criança que os livros ocupam um grande espaço na sua vida. Da sua biblioteca pessoal fazem parte mais de 40000 livros que foram oferecidos, recentemente, à cidade de Lisboa onde darão origem ao Centro de Estudos da História da Leitura do qual será director. Já ouvi falar dele há algum tempo e achei que este livro se enquadrava muito bem no tema do mês de Abril do clube de leitura a que aderi este ano, "Um livro que fala de livros".

Não é o livro mais fácil de ler já que não se trata de um romance. Não é um livro que se leia por distracção, embora ler seja uma excelente distracção. Também não é uma História exaustiva da leitura. A meu ver, é a História que resultou da investigação que o autor fez sobre a leitura ao longo dos tempos e dos diferentes caminhos a que essa investigação o foram conduzindo. Para além disso, o livro é enriquecido pela própria experiência, ao longo da vida, do autor enquanto leitor. 

Através desta obra confrontei, igualmente, a História da Leitura da Humanidade com o percurso que eu própria tenho feito enquanto leitora. Por exemplo, no capítulo "Ler imagens" regressei aos anos 70 quando ainda não sabia ler e inventava histórias enquanto olhava para os desenhos dos meus livros.

Esta obra está dividida em 4 partes mas há 2 partes principais. A primeira grande secção aborda vários aspectos da leitura, daquilo que pode dificultar ou facilitar este acto, de como a leitura começou por ser uma actividade de elites e de como evoluiu até ser acessível a todos. A outra grande parte baseia-se no leitor e na maneira como o leitor se relaciona com os livros, como escolhe o que lê e como interpreta aquilo que lê.

A maneira como este livro está construído faz-nos perceber porque é que Alberto Manguel escolheu chamar-lhe "Uma História da Leitura" e não "A História da Leitura". Esta a História de Manguel mas se fosse a minha História, ou de outro amante dos livros, seria muito diferente, com toda a certeza.

"No entanto, sob este acaso aparente, há um método: este livro que vejo diante mim é a história da leitura, mas também dos leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo das eras, preferiram certos livros a outros, aceitaram nalguns casos o veredicto dos mais velhos, mas noutras ocasiões resgataram do passado títulos esquecidos, ou arrumaram nas prateleiras das suas bibliotecas os eleitos dos seus contemporâneos. Esta é a história das suas pequenas vitórias e dos seus sofrimentos secretos, e da maneira como essas coisas se passaram. Este livro é a crónica minuciosa da maneira como tudo isso aconteceu, na vida quotidiana de algumas pessoas comuns, descoberta, aqui e ali, em memórias de família, anais municipais, descrições da vida em lugares distantes e em tempos recuados."

Normal People, Sally Rooney

Charneca em flor, 20.02.21

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No seguimento do desafio Uma dúzia de livros, em Fevereiro foi proposto o seguinte tema: um livro fora da tua zona de conforto. Como leio, habitualmente, em português, achei que se seria interessante ler um livro em inglês. Optei pelo "Nomal People" de Sally Rooney. Posso não ter comprrendido todas as palavras mas acho que consegui perceber, perfeitamente, o enredo.

Já há uns meses que tinha ouvido falar deste livro e da série que lhe deu origem. Pelo que vi, pareceu-me que a história, e o estilo, seriam adequados para eu fazer esta tentativa. E foi uma boa opção. A linguagem é acessível, as personagens são cativantes e a história, embora possa parecer banal, é muito boa. Pelo menos, eu gostei . Embora nunca me tenha acontecido nada parecido com as situações vividas por Marianne e Connell, senti-me identificada com um e com outro. Logo, no início, enquanto são adolescentes, a autora faz uma excelente análise de como se deseja a identificação com o grupo e como essa integração pode ser difícil e dolorosa. Ao longo do livro são abordados, de maneira mais ou menos clara, muitos problemas que afectam a sociedade actual. Outro ponto interessante, e real, é a constatação de que ninguém é totalmente bom ou totalmente mau. Podemos ser boas pessoas ou nem por isso, alternadamente e em alturas diferentes da vida. Nem sempre conseguimos perceber isso e a imagem que temos de nós próprios é muito diferente da imagem que os outros têm de nós.

"Normal People" pode parecer, "apenas", uma história de amor mas é muito mais abrangente do que isso. Até porque há muitas formas de amar. A maneira como nos sentimos amados, ou não, no início da nossa vida vai, definitivamente, influenciar a nossa  maneira de amar e de nos deixarmos amar.

"She closes her eyes. He probaly won't come back, she thinks. Or he will, differently. What they have now they can never have back again. But for her the pain of loneliness will be nothing to the pain that she used to feel, of being unworth. He brought her goodness like a gift and now it belongs to her. Meanwhile his life opens out before him in all directions at once. They've done a lot of good each other. Really, she thinks, really. People can really change one another."

 

O Rapaz Selvagem, Paolo Cognetti

Charneca em flor, 16.02.21

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O primeiro livro que li deste autor italiano foi "As Oito Montanhas" que muito apreciei. "O Rapaz Selvagem" foi publicado alguns anos antes daquele e também tem a montanha como pano de fundo. Desta feita trata-se um romance autobiográfico. A determinada altura da vida, por volta dos 30 anos, Paolo atravessa um Inverno difícil na cidade sentindo-se desmotivado e sem capacidade para escrever. Até aos 20 anos, o escritor passava todos os verões na montanha sentindo-se verdadeiramente livre. Durante os meses que vivia na cidade, obedecia às regras da cidade mas quando chegava à montanha tornava-se num rapaz selvagem.

"Eram todas liberdades que eu também apreciava, tanto explorá-las a fundo me parecia importante aos vinte anos, porém, com trinta anos já quase havia esquecido a sensação de estar sozinho num bosque, de me banhar nu num ribeiro ou de correr ao longo de um cume, acima do qual existe somente céu."

Depois daquele Inverno complicado, Paolo resolve voltar à montanha para "reencontrar uma antiga e profunda parte que sentia que tinha perdido"

Assim isola-se numa cabana nos Alpes, munido de livros e cadernos, para se reencontrar com o rapaz selvagem que fora e, quiça, voltar a escrever. Durante os primeiros tempos, a sua companhia limita-se às àrvores e aos animais da montanha, lebres, camurças, raposas ou cervos. e a própria montanha com as suas particularidades, mas, progressivamente, acaba por procurar companhia humana, "Não era grande coisa como eremita: tinha ido para a montanha para estar sozinho e, ao invés, não fazia outra coisa senão criar amizades."

Como eu não estou isolada do mundo, li este livro no contexto actual que vivemos. Devido à pandemia há quem esteja em isolamento por estar doente, ou por ter tido contacto com doentes, há idosos que não saem de casa há semanas ou meses e há quem cumpra, criteriosamente, o confinamento decretado pelo estado de emergência actual. Embora eu já tenha dito que não me custa estar em casa, consigo compreender que há pessoas, de todas as idades, que sofrem com a falta de interacção com os outros. Há quem tenha dificuldade em conviver consigo próprio. No entanto, é preciso vivermos bem connosco próprios para podermos viver bem com os outros.

Voltando ao livro "O Rapaz Selvagem", acho que a experiência de Paolo provou que o humano, por mais que seja capaz de viver isolado na natureza, é um ser iminantemente social. Só descobrimos o nosso eu verdadeiro nestas duas dimensões, sozinhos e em sociedade.

"O Rapaz Selvagem" é um livro pequeno, na versão ebook tem apenas 100 páginas, lê-se muito bem porque Paolo Cognetti escreve muito bem. Esta obra, para além de nos guiar na viagem ao interior do escritor, ainda tem a vantagem de nos  levar a descobrir os caminhos mais complexos dos Alpes.

"Continuei a subir: já ninguém me conseguia parar. Estava já na crist entre os dois vales da minha vida, caminhava sobre placas de pedras fendidas pelo gelo e sobre aquele musgo muito macio que cresce a três mil metros de altura. De um lado da vertente, o da idade adulta, o céu estava limpo e de um azul tão intenso que parecia ter massa e volume. Do lado da infância, elevavam-se salpicos de nuvens que se encaracolavam e dissolviam aos meus pés. Do lado de lá passara vinte anos da minha vida, do lado de cá, os últimos meses: estava feliz por serem lugares distintos, mas próximos."

 

 

 

A Cidade de Vapor, Carlos Ruiz Zafón

Charneca em flor, 31.01.21

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Este livro é uma pequena preciosidade. Carlos Ruiz Zafón faleceu em Junho de 2020. Esta obra estava a ser preparada quando o escritor ficou doente. Como acabou por falecer, esta reunião dos seus contos foi publicada postumamente. Zafón é um dos mais brilhantes escritores contemporâneos. Ninguém fica indifente às histórias que ele criou. A série "Cemitério dos Livros Esquecidos" é fenomenal. Ainda não me aventurei a ler o último, "Labirinto dos Espíritos", porque é uma empresa e tanto já que o livro tem mais de 800 páginas. Por isso foi com imenso prazer que li este pequeno tesouro. São, apenas, 11 contos, completamente, imersos no universo característico de Zafón. As ruas de Barcelona, as sombras, as névoas, as estranhas personagens são uma constante tal com a sua cativante maneira de contar histórias.. Até Gaudí, o brilhante arquitecto catalão, faz uma aparição num dos contos. Para quem ainda não leu nenhum dos livros de Carlos Ruiz Zafón, esta é uma obra para começar. Nestas páginas, Zafón parece "ensaiar" aquilo que, mais tarde, deu origem ao "Cemitério dos Livros Esquecidos". Para quem é fã, pode fazer a sua despedida do falecido escritor através destes pequenos contos.

"Sempre invejei essa capacidade que algumas pessoas têm de esquecer, pessoas para as quais o passado é uma mudança de estação ou uns sapatos velhos que basta condenar ao fundo de um armário para que fiquem incapazes de refazer os passos perdidos. Eu tive o infortúnio de recordar tudo e de tudo, por sua vez, se recordar de mim. Recordo uma primeira infância de frio e solidão,  de instantes mortos a contemplar o cinzento dos dias e aquele espelho negro que enfeitiçava o olhar do meu pai. Quase não tenho memória de nenhum amigo. Sou capaz de evocar rostos de miúdos do Barrio de la Ribera com que por vezes brincava ou lutava na rua, mas  nenhum que quisesse resgatar do país da indiferença. Nenhum exceto o de Blanca."

 

Onde Mora a Felicidade, Pearl S. Buck

Charneca em flor, 23.01.21

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Pearl S. Buck era uma escritora norte-americana que em 1938 se tornou a primeira mulher norte-americana a ser galardoada com o Prémio Nobel da Literatura. Esta autora nasceu no final do séc XIX e faleceu em 1973. Pearl S. Buck cresceu na China e viveu nesse país oriental até 1932, ano em que começou a Guerra Civil Chinesa. O tempo que viveu na China muito influenciou a sua obra. 

Eu nunca tinha ouvido falar nesta escritora mas esta bonita capa, bem como o título, foram muito apelativos. Comprei este livro há uns meses e peguei nele durante o meu isolamento.

A escrita é muito descritiva e muito bonita. Transporta-nos para o universo da casa de uma grande família chinesa e conseguimos visualisar cada recanto daqueles quartos, salas ou pátios. A história gira à volta de uma mulher, Madame Wu, que chega aos 40 anos e sente que a sua missão como esposa está terminada. Assim resolve separar-se, fisicamente, do marido e decide que ele deve receber uma concubina. Na altura em que a história se desenrola o sistema de concubinato começa a não ser muito bem visto pelas gerações mais novas. A intenção dessa decisão é a necessidade que Madame Wu sente de se desenvolver espiritualmente e de se instruir de uma maneira que não era habitual para uma mulher na sociedade chinesa. A sua mudança de vida vai influenciar todo o equilíbrio da casa Wu e modificar a vida da família.

O enredo é salpicado por imensas personagens deliciosas, umas mais densas do que outras,  que, juntas, contribuem para uma história cativante.

Gostei muito de ler este livro. A mestria de Pearl S. Buck consegue transmitir perfeitamente o lugar da mulher na sociedade chinesa da altura. A autora leva-nos a comparar esse papel com o papel da mulher nos dias de hoje e faz-nos pensar que, apesar do livro ter sido escrito há mais de 70 anos, ainda há muito por fazer. 

Na minha opinião, é um excelente livro. Intemporal.

"《A tua mente é excelente para uma mulher》, dissera ele por fim. 《Eu diria mesmo, minha filha, que se o teu cérebro estivesse dentro do crânio de um homem, poderias ter feito os Exames Imperiais e tê-los-ias passado com distinção e, dessa forma, ter-te-ias tornado um funcionário do Estado. Mas o teu cérebro não está dentro do crânio de um homem, está no de uma mulher. O sangue de uma mulber inspira-o, o coração de uma mulher pulsa nele e está circunscrito por aquilo que a vida de uma mulher deve ser. Numa mulher não está certo que o cérebro cresça para lá do corpo.》"

"Certo dia, lembrava-se muito bem, tinham estado sentados ali mesmo, na biblioteca, ele de um lado da grande mesa esculpida e ela do outro, não frente a frente, de tal modo que tivessem de olhar para o rosto um do outro, mas com a mesa entre os dois e ambos virados para as portas que davam para o pátio. Estava um belo dia, o ar extremamente límpido e o sol tão forte que as cores das pedras que pavimentavam o pátio, geralmente cinzentas, tinham matizes de azul e rosa, e veios de prata. As suas orquídeas estavam a florir, púrpuras. No lago, os peixes lançavam-se como setas e precipitavam-se sobre os raios de sol que entravam, oblíquos, dentro de água."

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

Charneca em flor, 22.01.21

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Este ano decidi participar no desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova. Já tinha reparado, noutros anos, neste clube de leitura mas nunca tinha participado. E, se há pessoa que pode estimular a leitura, é Rita da Nova . Normalmente, num clube de leitura, todos os participantes lêem o mesmo livro, mais ou menos ao mesmo tempo. A Rita organiza isto de outra forma, a meu ver mais interessante. Em cada mês é proposto um tema diferente e cada participante escolhe aquilo que quer ler. Sendo assim, em Janeiro foi proposto este tema:

Um livro que já toda a gente leu menos tu

E o que é que eu, no pior mês da pandemia, decidi ler? Pois, "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago. Provavelmente já todos sabem o tema desta obra. A história gira à volta de uma estranha doença contagiosa designada por Mal Branco. Esta patologia consiste numa repentina cegueira branca, ou seja, as pessoas passam a ver tudo branco. A pouco e pouco, todas as pessoas vão cegando menos uma. A mulher que nunca chega a cegar é a esposa do médico oftalmologista que atende o primeiro cego. Numa tentativa de conter a progressão da doença, o governo isola os primeiros afectados num antigo manicómio e a mulher do médico, apesar de conseguir ver, faz-se passar por cega para poder acompanhá-lo. A situação vai evoluindo e os cegos são cada vez mais. As condições em que as pessoas vivem vão-se degradando dia após dia. 

Mais do que uma história sobre uma epidemia, esta história é sobre a condição humana e sobre como é fácil perdermos aquilo que consideramos como garantido; a saúde, a liberdade, a alimentação, a habitação ou mesmo a vida. Saramago mostra-nos, com a sua mestria, como é tão fácil deixarmos de ser humanos para nos passarmos a comportar como animais que lutam pela sobrevivência. Mas, como uma luz, a mulher do médico prova-nos que, apesar de tudo, é possível haver bondade, amor, doação, amizade e solidariedade. Mesmo quando o panorama é negro, há sempre uma solução.

Saramago cumpre, mais uma vez, uma das mais importantes funções da literatura, fazer-nos pensar. Porque, no fundo, esta cegueira física pretende fazer-nos ver mais longe para percebermos que, como diz o povo, pior cego é aquele que não quer ver.

"Diz-se a um cego, Estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão,  no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar."

P.S. 1 - A caligrafia da capa é do músico Chico Buarque 

P.S. 2 - Também li, há pouco tempo, o "Ensaio sobre a Lucidez" que tem alguma relação com este livro. Não façam como eu. Leiam primeiro o "Ensaio sobre a Cegueira" e só depois este.

 

 

 

Felicidade, João Tordo

Charneca em flor, 14.01.21

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Li os primeiros livros de João Tordo na altura em que o autor foi premiado com o Prémio Saramago em 2008 com o romance "As três vidas". Nessa altura o livro premiado do qual gostei muito, li "O Bom Inverno" e o mais antigo "O Livro dos Homens sem Luz". Depois foram-se infiltrando outras leituras e fui-lhe perdendo o rasto embora fosse acompanhado a sua evolução como escritor. Há muito que não lia nada dele até João Tordo publicar este "Manual de sobrevivência de um escritor". Gostei tanto que resolvi dar uma nova oportunidade a este escritor e tive muita pena de não ter lido aquilo que foi publicando ao longo dos anos. 

"Felicidade" foi um dos últimos livros que li em 2020 e posso dizer que foi um dos melhores. A história começa em 1973 quando a personagem principal tem 17 anos e se apaixona por Felicidade, uma das trigémeas que fascinavam todos os colegas do Liceu Passos Manuel. Esse primeiro amor termina de forma extremamente trágica influenciando a maneira como o jovem vai crescer e determinando o adulto que será. As trigémeas têm um tal magnetismo que o jovem nunca mais se conseguirá afastar delas e a sua vida vai-se enredar, de forma indelével, na vida das trigémeas. Ao mesmo tempo, e como pano de fundo, vemos como o país foi evoluindo ao longo das últimas décadas.

João Tordo construiu, com muito talento, uma história surpreendente e inesperada repleta de personagens fascinantes, cada uma com a sua particularidade. O enredo é tão intenso e tão bem escrito que me senti imersa nas situações que as personagens atravessam. É muito difícil largar o livro porque queria saber o que mais ia acontecer àquelas personagens mas, ao mesmo tempo, a intensidade deste romance deixava-me emocionalmente esgotada levando-me a pousar o livro para descansar. Uma obra verdadeiramente brilhante.

"A vida começou com Felicidade. Embora as três frequentassem a mesma turma e fossem em tudo idênticas (as mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo, a mesma distância que mantinham dos outros), eu sentia-me atraído pela irmã que andava sempre no meio, encaixada entre as outras duas, uma espécie de líder daquela pequena seita. Felicidade caminhava com a leveza de uma nuvem e a segurança de um pêndulo. Havia um sorriso quase permanentemente nos seus lábios - não de troça, mas de bonomia - , nos seus olhos castanhos-mel (grandes, redondos) reflectia-se um universo a que eu aspirava. Cheirava a limão; sempre que passava por mim, eu inspirava com mais força, para reter o seu perfume."

Por Ladrar Noutra Coisa, Zaya e Guilherme Duarte

Charneca em flor, 25.12.20

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"Por Ladrar Noutra Coisa" é o diário da cadela Zaya escrita em parceria com o seu dono, o humorista Guilherme Duarte. Não deixa de ser um relato divertido do dia-a-dia visto pelos olhos da sorridente Zaya mas também nos faz pensar em como há humanos que não merecem o amor incondicional que os cães lhe devotam. Revisitamos aquilo que Zaya viveu na sua vida passada, antes de entrar na vida de Guilherme Duarte e da namorada, e acompanhamos a felicidade que ela conheceu quando saiu do canil.

Este livro pretende, em primeiro lugar, divertir mas também emociona e faz pensar. A Zaya mostra-nos como os humanos podem ser complicados e como a vida ser muito mais fácil se não nos levássemos tão a sério.

Já sigo o Guilherme Duarte há muito tempo. Preparem-se para o seu sarcasmo e a sua ironia apurada. E também algumas asneiras .

Aconselho vivamente este diário, especialmente se quisermos passar umas horas repletas de gargalhadas. Bem que precisamos.

"25 de Dezembro Quarta-feira 

Este diário foi uma prenda dos humanos mal cheguei cá a casa. Não quero parecer pobre e mal-agradecida, mas foi um bocado desilusão quando abri o presente. Quando o vi, pensei que fosse uma dessas coisas de que eu gosto e que eles me têm dado: biscoitos diversos, comida duas vezes por dia, brinquedos variados, uma cama... Ainda pensei que fosse uma bola, que eu ADORO, mas pareceu-me logo estranho o formato do embrulho - dificilmente seria uma bola, que as bolas são redondas e eu não sou burra, mas nunca perdi a esperança até o abrir, e só aí é que percebi que era um livro. Pior, um livro com páginas em branco! Os humanos disseram que era um diário para eu escrever. Não percebo a necessidade humana de registarem as coisas que fazem no dia a dia. Escrevem o que fizeram como se tivessem uma vida muito interessante, tiram fotografias por tudo e por nada que nunca mais vão voltar a ver, em vez de aproveitarem o momento."