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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

Paolo Cognetti, "As oito montanhas"

Charneca em flor, 16.09.19

As-Oito-Montanhas.jpgNão me lembro quando é que comprei este livro. Possivelmente foi depois de alguma das minhas viagens à Itália, para matar saudades da cultura italiana. Neste romance há 3 personagens principais, no meu entender, Pietro, Bruno e a montanha. A acção desenrola-se desde a infância dos 2 homens, passando pela adolescência e até à vida adulta. Conhecem-se numa aldeia, no sopé do Monte Rosa, nos Alpes. Pietro vive com os pais em Milão. Os pais têm, ambos, paixão pela montanha que foi onde se conheceram e alugam uma casa na aldeia de Grana para passarem o Verão. E é assim que Pietro e Bruno se conhecem. Juntos exploram a montanha, ao longo dos vários verões que Pietro passa na aldeia e constroem uma relação fraternal, entre eles e com a montanha, que se estenderá pela vida fora, apesar de alguns anos de afastamento.

O próprio autor tem uma relação privilegiada com a montanha já se divide entre a cidade e uma casa a 2000 metros de altitude.

O livro "As oito montanhas" é uma obra bela e encantadora que não se consegue parar de ler. A linguagem, apesar de ser em prosa, é poética, de uma certa forma. As descrições de Paolo Cognetti transportam-nos para a montanha e sentimo-nos  também nós, a subir à montanha. Se te sentes fascinado pela imensidão, pela dureza, pela resistência da montanha e acreditas no poder da amizade, este é o livro indicado para ti.

"Talvez fosse verdade, como afirmava a minha mãe, que cada um de nós tem uma cota predileta na montanha, uma paisagem que lhe agrada mais e onde se sente bem. A sua era o bosque dos 1500 metros, de abetos e larícios, à sombra dos quais crescem o mirtilo, o zimbro e o rododendro e se escondem os cabritos-monteses. Eu era mais atraído pela montanha que vem a seguir: pradaria alpina, torrentes, turfeiras, ervas de altitude, animais no pasto. Mais acima a vegetação desaparece, a neve cobre tudo até ao começo do verão e a cor prevalecente é o cinzento da rocha, com veios de quartzo e tendo incrustado o amarelo dos líquenes. Ali começava o mundo do meu pai."

A vida no campo vol II - Os anos da maturidade, Joel Neto

Charneca em flor, 01.09.19

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Antes de começar este post, fui consultar o arquivo do blogue para ver se tinha escrito sobre o 1o volume de "A vida no campo". Descobri 2 coisas. Primeiro descobri que não partilhei convosco as minhas impressões sobre esse livro mas descobri que as histórias de Joel Neto têm acompanhado as minhas férias desde 2017. Em Agosto de 2017 li "Arquipélago" e em Agosto de 2018 terminei de ler "Meridiano 28". Nestas férias que agora ter terminam li as maravilhosas crónicas de "A vida no campo". Curioso, não é? Joel Neto transporta-me para o encantador universo das ilhas açorianas. A minha primeira viagem de avião foi até aos Açores e foi uma viagem inesquecível.

"A vida no campo" reúne crónicas, originalmente publicadas no Diário de Notícias, sobre a vida de Joel Neto depois de voltar às origens, ou seja, depois de regressar à sua ilha natal. Em 2012, Joel Neto deixou a sua vida em Lisboa e foi viver, com a mulher, a tradutora Catarina Ferreira de Almeida, para a Ilha Terceira. As pessoas que vivem na sua aldeia, e que fazem parte das suas recordações, são a principal fonte de inspiração para as suas fantásticas crónicas. Mas também as suas conquistas no jardim que vai construindo com a ajuda dos amigos. E as pequenas coisas do dia-a-dia, uma fatia de pão de milho, as árvores, as flores, os passeios com os cães, todos são personagens dos pequenos episódios d' "A vida no campo". 

As histórias de Joel Neto são tão mais ricas quanto mais singelas. Transparecem uma felicidade que só é possível a quem ousa viver num contacto íntimo com a natureza mas também com os outros. As crónicas d' "A vida no campo" são pequeninas jóias da literatura.

"Lugar de Dois Caminhos

Sábado, 1 de Setembro

(...)

Uma figueira. Enorme e tentacular - suportada por estacas, já, nos seus ramos mais gordos e trémulos. Em quantas mesas de jantar terão estado os seus frutos, os dela e os das suas crias? A quantos aniversários terão assistido? E nascimentos? E casamentos? E divórcios? De quantos momentos de alegria esfuziante terão partilhado? De quantas tragédias? De quantos silêncios lentos e irreparáveis? Poderiam  as amoras das minhas amoreiras partilhar desses momentos? Poderia eu plantar uma figueira igual e ainda ir a tempo de subsistir dela?

Sempre deram boas parábolas, as figueiras - nem Jesus Cristo resistiu.

(...)"

 

"Quem assim falou", José Jorge Letria

Charneca em flor, 28.07.19

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Este livro andava cá por casa há uns anos. Comprei numa promoção e depois nunca mais lhe peguei. Dei com ele, inesperadamente, e resolvi lê-lo. O autor, José Jorge Letria, reuniu um conjunto de "Grandes frases de todos os tempos", ou seja, frases marcantes que entraram no nosso discurso mas que, muitas vezes, nem fazemos ideia de quem as pronunciou pela primeira vez. Neste livro, cada entrada corresponde a uma frase com um pequena biografia do autor e do contexto em que a frase foi pronunciada pela primeira vez. No caso das frases mais antigas não há certezas absolutas do autor por isso a mesma frase pode ter sido atribuída a pessoas diferentes. Achei o livro muito interessante até porque gosto de usar estas frases clássicas e considero uma lacuna grave no meu conhecimento usar frases sem saber de onde vieram. Não sei se o livro ainda é vendido mas é  muito interessante. Talvez se encontre em bibliotecas públicas, por exemplo.

É muito difícil escolher uma destas frases para ilustrar este post. Vou optar por uma que não conhecia mas que me parece um exemplo de humildade e sentido autocrítico:

"Ninguém é herói para o seu criado de quarto

Em relação à literatura e às artes em geral, é frequente dizer-se, para se salvaguardar o talento ou mesmo a genialidade dos criadores, que o importante é conhecer a obra e não o autor e a sua vida. Deste modoevidencia-se a noção de que os hábitos quotidianos das grandes figuras, desde que observadas de perto, retiram inevitavelmente brilho ao que elas fazem e representam.

Talvez por isso a famoxa cortesã francesa Madame de Sévigné tenha escrito numa das cartas da sua profusa correspondência: 《Não existe um grande homem para o seu criado de quarto.》Com efeito, quem conhece de muito perto o adormecer e o despertar do seu amo, as suas baixezas e contradições morais, as traições e os ódios que lhe pontuam a vida, dificilmente pode admirar sem limites aquele que serve.

A frase, pela sua carga crítica e pela profundidade psicológica, foi entretanto utilizada por estadistas e escritores. Luís II de França, ao ser bajulado pelos seus cortesãos, terá respondido algo do género: 《Se assim achais, ide perguntar ao meu criado de quarto.》"

A Imortal da Graça, Filipe Homem Fonseca

Charneca em flor, 17.07.19

Filipe Homem Fonseca é escritor, dramaturgo, realizador, músico, ou seja, é o homem dos 7 instrumentos mas é mais conhecido pelo seu talento para escrever humor já que foi argumentista de Herman Enciclopédia, Contra-Informação ou Conversa da Treta. Para além disso, Filipe Homem Fonseca já publicou poesia e romances. Este "A Imortal da Graça" não é um livro de humor mas está carregado de ironia. A acção passa-se no bairro, lisboeta, da Graça o qual está, tal como toda a cidade, em obras e invadido por turistas. Os seus habitantes sentem-se entrincheirados com a sensação de que não conseguem sair do bairro. Entre as pessoas que têm, ainda, o privilégio de viver num bairro típico encontramos várias senhoras idosas que "lutam" pelo apetecível título de "a mais velha" do bairro. Nem que tenham que acelerar a viagem final das que são mais velhas. A relação entre estas idosas obedece à velha máxima "a idade é um posto". 

"A Imortal da Graça" conta uma história actual que aborda a pressão turística e imobiliária que Lisboa tem sofrido nos últimos anos, as obras constantes, as dificuldades que enfrentam aqueles que não desistem de viver na cidade mas também o abandono a que os idosos estão sujeitos. Não é uma obra intemporal mas é um livro que guarda, nas suas páginas, este momento particular da história da cidade de Lisboa. Um livro indicado para todos aqueles que amam a cidade de Lisboa e que apreciam uma certa ironia subtil na qual Filipe Homem Fonseca é mestre.

Sinopse:

"A idade é um posto e as mulheres do bairro lutam entre si pelo título da mais velha. Graça, jovem com o mesmo nome do bairro onde habita, é dama de companhia da número um, senhora centenária; só assim pode morar na Lisboa das rendas ridiculamente altas. Actores famosos de Holywood aguardam o despejo ou a morre de mais um residente para poderem ocupar-lhe a casa. Gabriel ganhou o Euromilhões mas as obras de renovação do bairro formam um muro que o impede de sair e reclamar o prémio. Embeiçou-se por Graça e quer levá-la a jantar. Graça não quer sair; Gabriel não quer ficar. Do choque entre estas vontades nascerá a tragédia. A execução em câmara lenta prepara-se no palco feito de escombros. Uma cidade eternamente a arranjar-se para sair daqui, de si própria."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Isabel Nery

Charneca em flor, 21.06.19

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Como já tenho escrito por aqui, gosto muito de biografias. Assim que descobri que este livro ia sair, resolvi logo que ele viria morar cá para casa. E não me arrependi. Este livro é um excelente trabalho da jornalista Isabel Nery. Percebe-se que fez uma extraordinária investigação para percebermos quem foi esta figura maior da cultura portuguesa do século XX. Para fazer este livro, Isabel Nery procurou as origens de Sophia chegando ao ponto de ir à ilha onde o seu bisavô Jan Andresen nasceu e de onde saiu na viagem que terminou, inesperadamente, no Porto. Nesta obra, descobrimos que Sophia foi, ao mesmo tempo, humana e divina. O livro aborda as origens, como já disse, a ligação com o mar, com a Grécia, a relação com a família incluindo a relação com Francisco Sousa Tavares e com os filhos, com os amigos, com outros escritores e a sua intervenção cívica e política. 

Este livro reforçou a minha convicção de que Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma pessoa especial. Para além do seu talento, amplamente conhecido, encontrei uma personalidade peculiar, uma mulher, ao mesmo tempo forte e frágil, e que dominou a língua portuguesa como ninguém. 

Esta obra devia ser de leitura obrigatória para todos os portugueses, especialmente neste ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.

"Mais do que um lugar, a Grécia passou a ser um estado de espírito. Uma explicação. Ao ponto de amigos e confidentes como frei Bento Domingues afirmarem que Sophia era composta por mar e cultura grega.

De facto, dificilmente se compreenderá a relação simbiótica entre ética, estética, poder e a poesia de Sophia sem rumar à Grécia. Agora não tanto ao território geográfico da luz pura, que idealiza, mas ao legado helénico da cultura que Homero, considerado o educador de todos os poetas, deixou ao Ocidente."

"E 《O Poeta》:

O poeta é igual ao jardim das estátuas 

Ao perfume do Verão que se perde no vento.

Veio sem que os outros nunca o vissem

E as suas palavras devoravam o tempo."

               Os Poetas, Sophia de Mello Breyner Andresen 

 

Salvação, Ana Cristina Silva

Charneca em flor, 10.05.19

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Já diz o povo "Santos da casa não fazem milagres" ou "Ninguém é profeta na sua própria terra". Esta escritora é minha conhecida. Já nos temos cruzado na cidade onde trabalho. Ana Cristina Silva já publicou várias obras tendo, inclusivé, ganho 2 prémios literários. Eu nunca tinha lido nada dela até agora. O tema central de "Salvação" é o luto, a maneira como um escritor, que perde a mulher, lida com o processo de luto. A mulher, no leito de morte, pede-lhe escreva um romance para lidar com a partida dela. Então o homem transfere a sua dor para um personagem que passa pela mesma perda. Assim há uma história dentro da história, muito bem encadeadas. A autora aborda, também, os extremismos religiosos fazendo um paraleslismo entre a actualidade e o tempo da Inquisição.

O processo do luto é diferente para todas as pessoas. E há vários tipos de luto seja  pela perda de alguém fisicamente, seja pelo fim de uma relação amorosa ou de amizade, seja porque nos perdemos a nós mesmos. O luto é necessário para conseguirmos seguir em frente, sem esquecer o passado mas vivendo o presente e não o que já não volta. A meu ver, é isso que Ana Cristina Silva consegue demonstrar com o seu romance. Afinal, seja qual for a dor há sempre "Salvação".

"No preciso momento em que formulo estas perguntas, elas deixam de me importar, ainda que suspeite que poderão voltar a interessar-me. O sofrimento do luto é assim: um longo corredor que não é possível passar a correr. Esta foi a única coisa que aprendi nos últimos dois meses."

A morte do comendador, Haruki Murakami (vol I)

Charneca em flor, 02.04.19

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Começo já por dizer que sou fã incondicional de Murakami. Já li vários livros deles embora só hoje tenha reparado que só fiz, aqui, 2 posts sobre livros dele. Imagino que tenha sido porque as histórias de Murakami são tão apaixonantes e envolventes que me deixam sem palavras. Aliás, este deixou-me literalmente de boca aberta sem conseguir dizer nada porque acabou de uma forma abrupta. Tudo para abrir o apetite para ir à procura do II volume. 

A figura central deste romance é um pintor de retratos encomendados é surpreendido pela decisão da mulher se separar dele. O seu mundo fica virado do avesso. Depois de fazer uma longa viagem pelo norte do Japão, vai viver para a casa do pai de um amigo que ficara vazia quando o proprietário vai para um lar. A casa fica numa montanha, num lugar isolado. Parece o lugar ideal para voltar a pintar como na juventude mas a inspiração não aparece até que o personagem principal/narrador conhece um homem estranho mas fascinante que lhe encomenda o seu próprio retrato. E esse encontro vai ser primordial para que o pintor reencontre a sua arte. O génio e o estilo peculiar do escritor japonês prenderam-me até à surpresa da última página. Os acontecimentos estranhos, fantasiosos e inverossímeis voltam a ter presença ao longo da história.

Tal como noutras obras, Murakami entrelaça outras formas de arte na literatura como sejam a pintura e a música. Dei por mim a procurar óperas no Youtube e quadros no Google. Ler Murakami é sempre sinónimo de momentos muito bem passados.

"Só se avistava uma fiada de luzinhas de presença. Como pouco antes, não se ouvia um pio. O que teria acontecido aos insectos?

Passada um bocado, captei um barulho insólito. Ou seria imaginação minha? Um som praticamente inaudível. Se os insetos estridulassem, como era seu apanágio, provavelmente não teria dado por ele, mas o excessivo silêncio permitiu-me ouvi-lo. Retive a respiração e pus-me à coca. Os insectos não eram para ali chamados. Aquele som nada tinha de natural. Era o som produzido por um utensílio ou um instrumento. Uma espécie de tinido. Se não era de um sino, andava lá perto."

Becoming por Michele Obama

Charneca em flor, 15.03.19

Quando tenho oportunidade gosto de ir à biblioteca da cidade onde trabalho. O edifício é muito bonito e fica junto ao rio o que torna o passeio muito agradável. Numa dessas vezes qual não é o meu espanto quando dei com Michele Obama a sorrir-me.

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Como sou grande admiradora do casal Obama, trouxe o sorriso comigo. “Becoming" correspondeu às minhas expectativas e foi para além delas. A história de vida de Michele Obama prende-nos desde a primeira à última página . A ex-primeira dama conta-nos a sua infância num bairro de Chicago e partilha connosco a sua imensa família. Fala da importância da educação e de como os seus pais sempre a estimularam assim como ao irmão a estudarem e a prepararem-se para terem um bom futuro. Conta-nos como se teve que esforçar muito mais por ser negra e por ser mulher. Percebemos como é que conheceu Barack Obama, como é que se foi apaixonando e até espreitamos o primeiro beijo.

Michele faz-nos uma visita guiada ao percurso político do marido, às campanhas e à chegada à Casa Branca com tudo o que isso teve de bom e de mau. 

A ex-primeira dama mostra-nos que, apesar do sítio onde nascemos e crescemos, é possível ver adiante e aspirar a uma vida diferente. Michele Obama é um exemplo a seguir por qualquer pessoa, independentemente do sexo, cor ou religião.

O livro lê-se com muita facilidade. Há imensas passagens que me tocaram mas escolhi uma que me fez sentir muito próxima de Michele Obama. Quando chego a uma terra que não conheço, sinto-me tal e qual como ela o descreve mas nunca o tinha conseguido explicar por palavras. 

"Senti a estranheza de Nairobi – ou, na verdade, a minha estranheza em relação à cidade – logo à chegada, ao despontar do dia. É uma sensação que aprendi a apreciar quando comecei a viajar mais, a forma como um lugar novo se revela instantaneamente e de modo flagrante. O ar tem uma densidade diferente daquela a que estamos habituados; está impregnado de odores que não conseguimos identificar ao certo, um farrapo de fumo de lenha ou gasóleo, talvez, ou o cheiro adocicado de árvores em flor. O Sol nasce, mas parece um pouco diferente do habitual."

"António Variações, Entre Braga e Nova Iorque", Manuela Gonzaga

Charneca em flor, 20.02.19

Gosto de ler biografias. Há pessoas que viveram a sua vida de forma tão intensa que a sua história quase que parece ficção. Este é já a segunda obra de Manuela Gonzaga que leio. Este livro reflecte um intenso trabalho de pesquisa da autora para nos dar a conhecer um pouco daquilo que foi a vida deste ímpar artista português. A sua passagem pelo panorama musical português foi efémera. O seu primeiro single saiu em 1982 e ele faleceu em 1984 mas marcou de forma indelével a música portuguesa sendo cantado até aos dias de hoje. Com Manuela Gonzaga descobrimos a infância numa aldeia minhota, a sua relação com a família, o seu gosto pela música que começou desde cedo, a sua vinda ainda adolescente para Lisboa, a passagem pela tropa, as suas viagens, as suas amizades, o desenvolvimento do seu trabalho como barbeiro e o seu caminho até ao estrelato como cantor abordando, obviamente, a estranheza que a figura de António Variações provocou na sociedade portuguesa.

Entre os vários factos que descobri sobre o artista, o que achei mais curioso foi o facto de António Variações não saber absolutamente nada de música, nem uma nota. Mesmo assim deixou um espólio musical fantástico. O método de composição utilizado para que os músicos o pudessem acompanhar é inacreditável. Claro que não posso contar senão mais ninguém lia o livro.

Para além da vida de António Variações, Manuela Gonzaga faz um excelente retrato social do país desde a década de 40 até à década de 80. Só por isso já valia a pena ler o livro.

Eu tinha apenas 8 anos quando ele desapareceu mas tenho uma vaga memória de o ver na televisão. No entanto, sou fã incondicional da sua obra.

"Quando, em Junho de 1982, surge no mercado o maxi single Estou Além, cujo lado B contém uma versão difícil de qualificar de 《Povo que lavas no rio, dedicada a Amália 《minha fonte de inspiração》, o mote estava dado. Um barbeiro que recusava o título de cabeleireirom servido por uma voz de sonoridade inqualificável, caíra na alçada da música pop, irrompendo no mundo da música ligeira portuguesa através daquilo que  alguns, muitos, consideraram uma heresia"

 

 

 

 

"O Coro dos Defuntos", António Tavares

Charneca em flor, 01.02.19

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Afinal, o  meu desafio literário está a correr muito bem. Já consegui ler 2 livros este ano . Ontem de manhã terminei "O coro dos defuntos", Prémio Leya de 2015. O relato situa-se, em termos de espaço físico, numa aldeia das Beiras com algumas passagens pela emigração portuguesa pelos Estados Unidos  e pela Europa. Em termos temporais decorre de 1968 até 1974. O autor criou uma série de personagens fantásticas que habitam na aldeia que serve de pano de fundo às várias histórias, o taberneiro, a vidente que tanto ajuda a nascer como parteira como a seguir arranja os mortos para a sepultura, a prostituta, o padre, uma viúva negra que enterra uns quantos maridos. Enfim, um livro muito sui generis, irónico, um excelente retrato de portugalidade, um instântaneo de uma certa época. O que eu achei mais curioso foi o vocabulário de que até já falei no post anterior. Andei eu intrigada com as estranhas palavras que fui encontrando ao longo do texto e no fim do livro até havia um glossário. Se calhar tenho que ler o livro todo outra vez mas indo consultar o significado das palavras. Recomendo a leitura deste "O coro dos defuntos" especialmente a quem tiver curiosidade sobre o país pré-revolução de Abril.

"Diz ela que numa manhã dos primeiros dias de Agosto a avó voltou a ter achaques inusitados. Insistia em que sonhava com um velho a dar uma queda. O homem ia para se sentar numa cadeira e esta não estava no seu sítio. Diz que em todo o sonho se ouvia o som cavo do mar, como já é raro nos meses de estio. Mas ouvia- se."

"A dona Rainha pouco se importou. No fundo, toda a aldeia lhe era indiferente. Assumia um ar de superioridade  como se reinasse de forma efectiva. Era das poucas mulheres que não descia a uma leiva ou a um tremendal nem na altura das natalícias avencas, do tremoço ou das favas. Quando passava defronte da taberna do Tritão, os homens, como lagartos ao sol atascados no mais vil dos carrascões, chamavam-lhe regalona, forma tentadora e sensual que era quase um convite a fazerem notar a sua disponível virilidade; ela, inquieta como a mulher com andar de cabra de Cesário que passa rápida junto aos calceteiros, nem os via. Era certo que os escutava naquele regalona, arrastado pelas línguas encortiçadas do álcool, e que um frémito lhe percorria o espinhaço e a fazia revessar das entranhas mais íntimas, mas nunca os deixava  notar."

P.S. - leiva - terreno de agricultar; tremedal - terreno alagadiço; regalona ou regalório - grande prazer.