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Livros de Cabeceira e outras histórias

Todas as formas de cultura são fontes de felicidade!

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O Homem do Leme perdeu a luta

Charneca em flor, 01.12.17

 

A memória mais antiga que tenho dos Xutos é uma cassete que o meu primo, 4 anos mais velho, me gravou. Não sei que idade tinha mas foi naquele tempo longínquo em que a música se ouvia em gira-discos e nas velhinhas cassetes. Devemos ao Zé Pedro e aos Xutos algumas das melhores músicas do música portuguesa. Zé Pedro é um figura incontornável do Rock Português e de quem toda a gente gostava. A vida de excessos que levou até 2001 conduziu a este desfecho, esta morte prematura apesar dos 61 anos. Porque parecia eternamente jovem. Há uns anos tive o prazer de ver um concerto dos Xutos e Pontapés na baía do Seixal integrado nas comemorações do 25 de Abril. Foi épico. Lembro-me de ficar espantada com a energia inesgotável de todos eles. Tocaram muito mais tempo do que estava previsto sempre com uma entrega total. Inesquecível. 

Zé Pedro continuará vivo nas suas músicas porque uma estrela, mesmo quando morre, continua a brilhar por muito, muito tempo.

 

Sozinho na noite

Um barco ruma para onde vai.

Uma luz no escuro brilha a direito
Ofusca as demais

 

E mais que uma onda, mais que uma maré
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade
Vai quem já nada teme, vai o homem do leme

 

E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir
A vida é sempre a perder

 

No fundo do mar
Jazem os outros, os que lá ficaram
Em dias cinzentos
Descanso eterno lá encontraram

 

E mais que uma onda, mais que uma maré
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade
Vai quem já nada teme, vai o homem do leme

 

E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir
A vida é sempre a perder

 

No fundo horizonte
Sopra o murmúrio para onde vai
No fundo do tempo
Foge o futuro, é tarde demais

 

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir
A vida é sempre a perder

Romaria das Festas de Santa Eulália

Charneca em flor, 25.06.14

Aqui há dias assisti a um concerto ao vivo de António Zambujo no qual ele tinha alguns convidados. Um dos convidados era o Miguel Araújo. Uma das músicas que eles tocaram foi esta "Romaria das Festas de Santa Eulália". A letra é do Miguel Araújo e ele revelou que a inspiração desta letra veio de um conto de Miguel Torga, "A Festa", integrante da sua obra "Novos Contos da Montanha". Para mim, que gosto muito de todas as formas de utilização da palavra, acho importante esta ligação entre a literatura e a música. Quantos poemas portugueses só são conhecidos do grande público porque alguém, algum dia, se lembrou de os musicar? Não me lembro de conhecer outra música baseada numa obra literária em prosa. 

Aqui fica a música e a letra. Espero que gostem.

 

 

 

 

Em dia de romaria
Desfila o meu vilarejo
Ainda o galo canta o dia 
Já vai na rua o cortejo

O meu pai já está de saída
Vai juntar-se aquele povo 
Tem velhas contas com a vida
A saldar com vinho novo

Por mais duro o serviço
Que a terra peça da gente
Eu não sei por que feitiço
Temos sempre novo alento

A minha mãe, acompanhada
De promessas por pagar
Vai voltar de alma lavada 
E joelhos a sangrar

A minha irmã quis ir sozinha
Saiu mais cedo de casa
Vai voltar de manhãzinha
Com o coração em brasa

Por mais duro o serviço
Que a terra peça da gente
Eu não sei por que feitiço
Temos sempre novo alento

A noite desce o seu pano
No alto deste valado
O sagrado e o profano
Vão dançando lado a lado

Não sou de grandes folias
Não encontrei alma gémea
Há-de haver mais romarias
Das festas de Santa de Eufémia